NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Cidade sem memória

            Aparentemente em busca de algum objeto tangível escapando dos olhos e da imaginação de adultos que as acompanhavam, crianças correndo à procura de coisas pequenas na imensidão do logradouro. Momentos vividos na calma quase monástica da tarde, embelezados pelo esplendor do mosaico multicolorido de flores aninhadas em canteiros geometricamente compatíveis. Passarelas desenhadas no traçado da bandeira do Reino Unido, convergindo para o obelisco do primeiro centenário da luta pela Independência do Brasil. Restaurada e reinaugurada, a praça devolvida à vocação original idealizada pelo filantropismo visionário de Walfredo Guedes Pereira, eternizado pelo traço mágico do arquiteto Hermenegildo di Lascio. Divisor de águas entre séculos de história e a crescente muralha de concreto beirando o oceano.

            Casarão em ruinas na parte posterior da Praça da Independência, contrastando a beleza e o futurismo do retorno ao passado do logradouro, nos remetia para a absoluta e maléfica negligência com o nosso patrimônio cultural. Péssimas condições físicas e aparente abandono do imóvel designado e anunciado por três governadores como o futuro Museu da Cidade – Império e República. Casarões, igrejas, logradouros e bens materiais adquiridos e mantidos por gerações, todos condenados ao esquecimento e eventual extinção. Somos a terceira cidade mais antiga do Brasil, museu ao céu aberto da materialidade da demagogia de uma classe política mais preocupada com as artimanhas partidárias e a expansão do seu patrimônio político.

            Acessibilidade a cultura e a alfabetização cultural são os neurônios complementares da nossa memória coletiva. Agregando ao dano patrimonial causado pela ausência de um Museu da Cidade, temos também que considerar a falta de compromisso da Prefeitura Municipal com programas de educação patrimonial nas escolas e a relutância do poder público em realizar um inventário dos bens móveis e monumentos públicos sob a responsabilidade do Estado e do Município.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Desafios não são deficiências...

 Velocistas cegos em competição acirrada por uma medalha de ouro nos Jogos Paraolímpicos de 2016, milhares de pessoas seguindo o progresso dos atletas entre as duas linhas paralelas visíveis ao público. Expressando admiração exagerada pelos obstáculos superados e histórias de triunfo pessoal abundam, muitas delas confeitadas com pieguice e condescendência. Pessoas cegas antes tratadas com desprezo ou impaciência, agora transformadas em gladiadores nas arenas do espetáculo paraolímpico. Esqueceríamos por instantes dos “ceguinhos” que encontramos nas nossas ruas, sobrevivendo à falta de mobilidade e à inércia do poder público. 

        Quatro décadas se hão passado, desde que o músico e folclorista Tenente Lucena constatou que três músicos surdos-mudos da “tribo carnavalesca” Índios Papa Amarelo, se destacavam pela rigorosa obediência ao ritmo. Surgiu então a ideia de ensinar música e formar uma banda usando uma metodologia que valorizasse a habilidade que tinham de sentir a música e o ritmo no coração. Podiam ser bons músicos ou bailarinos. Villa-Lobos havia identificado o coração humano como o metrônomo da alma durante sua visita a João Pessoa, nos anos de 1950. Os surdos-mudos, o grande maestro e o músico paraibano, entendiam a fortaleza criativa de um ser humano: seu coração. 


       Restaurante no México, homem com câmera na mão, convidando visitantes a participar de um evento chamado “Ceia na escuridão”, jantar organizado por fotógrafos cegos. Seguiu-se uma mostra e um leilão do trabalho fotográfico dos participantes, imagens formadas por processos mentais através dos outros sentidos. Videntes contemplando criações de olhos que sentiam o mundo na escuridão, pessoas com desafios visuais fazendo o mundo enxergar suas próprias limitações ou pelo menos, compreender a cegueira humana. É difícil para os videntes enxergar ou entender a essência de cada um deles, a força interior que supera obstáculos, enfrenta desafios e abre olhos... 


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


terça-feira, 6 de setembro de 2016

À procura de um herói

            Pessoas caminhando rapidamente, passando sem sequer procurar ou notar os Pokémons humanos embrulhados em trapos e pedaços de papelão, dormindo à sombra de áárvores. Zumbis atordoados pela luz do sol, protegidos da sociedade ao seu redor pelo nojo e rejeição causada por sua aparência bizarra e evidente falta de cuidados pessoais. Carente de peças raras ou originais, a praça transformando-se em um museu aberto da miséria humana. Notamos um belo gato acariciando inutilmente um corpo inerte, estupor dissociativo e ternura animal se desencontrando. Casal de namorados, presença perdida na indiferença dos caminhantes e a alienação dos residentes, vivendo sentimentos assimétricos à realidade das almas penadas na periferia dos seus sonhos.

            Perambulamos distraidamente pela Praça da Sé em busca de um momento ou uma distração que nos removesse, mesmo por um instante, da encruzilhada cruel e dos desenganos impostos ao povo brasileiro pelos residentes do hospício amoral, liderado por uma caricatura política do Doutor Simão Bacamarte, o alienista da Casa Verde de Machado de Assis. O mais louco de todos, sempre trocando civismo por cinismo.

            Descobrimos a Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, no Largo da Liberdade, o antigo Largo da Forca de São Paulo. Parte de um cemitério destinado a enterrar escravos, indígenas e infratores pobres ali executados. Preocupação da Igreja com a necessidade de proteção divina para pessoas que, em vida e por ocasião de suas mortes, enfrentaram sofrimentos e aflições próprias de sua exclusão social. Encontramos lá um herói: um soldado chamado Chaguinhas. Líder de uma insurreição contra o comando português por atrasar por cinco anos os soldos dos militares. Derrotado e submetido a julgamento, assumiu responsabilidade pelo incidente, sendo condenado à forca. Durante a execução, a corda partiu-se três vezes, fato interpretado como um ordálio divino, eventualmente foi assassinado à coronhadas. O evento nos remete a perguntar: quem são os heróis de hoje? Como vamos julga-los no futuro?


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A festa terminou ...

             Transformamos o Estádio do Maracanã em cenário de um megaespectáculo de Bubsby Berklay, criador do mundo colorido de balés aquáticos cheio de luzes, lantejoulas, figuras simétricas e muitas louras. Oásis de ladrilhos dourados no deserto da Grande Depressão salvando da falência a Warner Brothers, catapultando a grande nadadora Esther Williams como a estrela do cinema tecnicolor. Outro nadador, Johnny Weissmuller com cinco medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, consagrado pelo cinema como Tarzan, o Rei da Selva. Legado da mestria esportiva, de interesses econômicos e da narrativa da máquina de sonhos hollywoodiana fazendo o mundo esquecer das vicissitudes do momento e das tragédias de uma humanidade carente de fair-play e respeito ao próximo. Como diria a MGM, that’s entertainment!

            Rio 2016 não foi diferente. Começando com uma loura teutônica desfilando em passos precisos homenageando outra loura, a eterna e menos glamorosa garota de Ipanema. Tivemos momentos de sanidade também mostrando as tristezas e alegrias da nossa história. Esquecendo, no entretanto, que somos a pátria de Zumbi dos Palmares, Castro Alves, Machado de Assis, Villa-Lobos, Cartola, Jorge Amado, Bidú Sayão e do poeta que escreveu os lindos versos para a musa dos frequentadores do Bar Veloso. 
 
            Exageramos no padrão Brasil for export: estereótipos do hedonismo brasileiro sensualizando a negritude da mulher brasileira, clones de Carmen Miranda e Zé Carioca, araras azuis completando o espetáculo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Passamos tres semanas desfrutando momentos de glória temporária, aninhados em uma capsula cheia de ilusões. Como ressaltou um cronista: viramos uma pedra, o resto do mundo transformou-se em vidro. Tudo acabou na segunda-feira...

            Em poucos dias saberemos quem será o capitão da nossa nave, quiçá mudaremos a vidraça frágil de um país triste, um povo alegre liderado por políticos e partidos corruptos, que temem a voz do povo. Diagnóstico preciso das cerimônias dos Jogos Olímpicos: sobrevivemos mesmo sendo vitimas de graves sequelas de acefalia política.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores