NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A festa terminou ...

             Transformamos o Estádio do Maracanã em cenário de um megaespectáculo de Bubsby Berklay, criador do mundo colorido de balés aquáticos cheio de luzes, lantejoulas, figuras simétricas e muitas louras. Oásis de ladrilhos dourados no deserto da Grande Depressão salvando da falência a Warner Brothers, catapultando a grande nadadora Esther Williams como a estrela do cinema tecnicolor. Outro nadador, Johnny Weissmuller com cinco medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, consagrado pelo cinema como Tarzan, o Rei da Selva. Legado da mestria esportiva, de interesses econômicos e da narrativa da máquina de sonhos hollywoodiana fazendo o mundo esquecer das vicissitudes do momento e das tragédias de uma humanidade carente de fair-play e respeito ao próximo. Como diria a MGM, that’s entertainment!

            Rio 2016 não foi diferente. Começando com uma loura teutônica desfilando em passos precisos homenageando outra loura, a eterna e menos glamorosa garota de Ipanema. Tivemos momentos de sanidade também mostrando as tristezas e alegrias da nossa história. Esquecendo, no entretanto, que somos a pátria de Zumbi dos Palmares, Castro Alves, Machado de Assis, Villa-Lobos, Cartola, Jorge Amado, Bidú Sayão e do poeta que escreveu os lindos versos para a musa dos frequentadores do Bar Veloso. 
 
            Exageramos no padrão Brasil for export: estereótipos do hedonismo brasileiro sensualizando a negritude da mulher brasileira, clones de Carmen Miranda e Zé Carioca, araras azuis completando o espetáculo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Passamos tres semanas desfrutando momentos de glória temporária, aninhados em uma capsula cheia de ilusões. Como ressaltou um cronista: viramos uma pedra, o resto do mundo transformou-se em vidro. Tudo acabou na segunda-feira...

            Em poucos dias saberemos quem será o capitão da nossa nave, quiçá mudaremos a vidraça frágil de um país triste, um povo alegre liderado por políticos e partidos corruptos, que temem a voz do povo. Diagnóstico preciso das cerimônias dos Jogos Olímpicos: sobrevivemos mesmo sendo vitimas de graves sequelas de acefalia política.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


terça-feira, 16 de agosto de 2016

FORA TODOS!!!

            Estamos chegando rapidamente à data da decisão sobre o processo de impeachment de Dilma Rouseff, as luzes do picadeiro da política brasileira estão prestes a expor os contornos tenebrosos da crise mais devastadora da nossa história. Crise é uma mercadoria fartamente disponível nas prateleiras da desilusão brasileira. Somos um país com carência de heróis e abundância de vilões.

            Os nomes Cunha, Renan, Temer e Dilma estão praticamente empatados em buscas no Google. É só colocar a palavra “fora” seguida do nome de um deles para chegar a resultados que demonstram a insatisfação do povo com a inércia ou ineficácia de mecanismos criados para assegurar a aquiescência de políticos a princípios éticos, como também o exercício de diligência prévia nas suas associações e compromissos.

O código de Ética e Decoro Parlamentar explicita claramente ‘[...] para que o Parlamento funcione como um verdadeiro canal de participação popular no processo democrático, é necessário, sobretudo, que ele goze de credibilidade enquanto instituição representativa do cidadão. Se não há democracia sem representação, tampouco há representação sem credibilidade [...]” O caso de Eduardo Cunha demonstra claramente a desonestidade e corporativismo dos seus pares. Imunidade como um instrumento de impunidade subestimando e fomentando descrença nas nossas instituições.

O analfabetismo político do povo brasileiro é reforçado pela falta de imersão de valores democráticos no nosso sistema educativo. Enquanto jovens pelo mundo afora aprendem as Regras de Ordem de Robert e formam equipes e sociedades de debate, o currículo escolar brasileiro não reconhece a importância da formação parlamentar e da prática democrática. Falta de coerência e razoabilidade imperam em discussões entre colegas, familiares e cidadãos comuns. Abafamos debates com gritos, posições inflexíveis e até impropérios, enquanto políticos corruptos subestimam nossas instituições democráticas. Chegou a hora de dizermos: FORA TODOS!!!


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Desenvolvimento insustentável

  Espelho d’água da rua alagada, mistura de água de chuva e esgoto, refletindo as silhuetas de edifícios novos e as poucas arvores que ainda restam. Infraestrutura urbana antiquada sobrecarregada pela expansão demográfica e carência de serviços básicos. Desenvolvimento urbano predatório destruindo paulatinamente as poucas coisas que salvamos do passado, pausando raramente para conservar o pouco que ainda restara. Oceano poluído, a vida que nele habita sobrevivendo precariamente às temperaturas crescentes do deserto líquido em formação. Insegurança nos impedindo de passear na calçadinha, socializar com amigos ou sentarmos à sombra de um coqueiro degustando a sensação adstringente de um caju maduro. O mar é a nossa testemunha...

Pequena rua onde vivíamos, porto seguro para reflexões e vôos livres a procura de lugares e pessoas escondidas na topografia complexa da nossa memória. Convivíamos com pessoas de todas idades, compartilhávamos o espaço urbano sem atritos ou receios. Pontilhando nosso trajeto diário, pontos de congregação social, marcos humanos. Aposentados discutindo os problemas da previdência social, adultos e crianças compartilhando momentos de alegria e aprendizado mútuo, caminhantes e corredores desafiando obstáculos humanos, namorados ensaiando os primeiros beijos. Sabíamos de tudo, conhecíamos todos. Mas tudo mudou...

A calçadinha da orla transformada em um cenário para os magos do marketing e da propaganda. Enquanto isso, ruas transversais e paralelas são alagadas frequentemente expondo as pessoas a vetores de doenças. Centenas de ônibus de turismo destruindo a superfície das ruas, entorpecendo o fluxo de veículos e ameaçando a qualidade de vida dos residentes. Comedores informais sem cumprir os conceitos básicos de higiene. Juntando-se as intempéries do cotidiano, veículos e sistemas de som poluindo nosso meio ambiente. E ainda chamamos a tudo isso desenvolvimento sustentável!

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores