NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Invasão das farmácias

            Caminhando pelas ruas de Bogotá notamos que algo familiar estava faltando na bela paisagem urbana. Depois de um momento de reflexão, reconhecemos que estávamos numa cidade sem avenidas e bairros nobres decoradas por argonautas de redes de farmácias a serviço de fundos de investimentos. Pokémon devorando pequenos competidores, acirrando desigualdades entre classes sociais e aumentando a elasticidade dos privilégios desfrutados pela elite. Exuberância da expansão comercial dando vazão a teorias sobre práticas predatórias ou ocultamento de patrimônio de partes interessadas.

Liminares baseadas subjetivamente em argumentos comerciais autorizando o estabelecimento de farmácias, mesmo quando subestimando o propósito da legislação estabelecendo distâncias mínimas de 500 metros entre si. Alegando que a lei compromete o instituto de livre concorrência, defensores da expansão comercial logrando requalificar as artérias principais da cidade em corredores farmacêuticos, interesses nutridos pelo apetite incontrolável de grupos econômicos.

Confirmando a disponibilidade do medicamento, o atendente explicou a redução de preço autorizada pelo fabricante e pela farmácia, chamava-se João, nosso primeiro encontro dez anos atrás. Surpreendeu-nos um mês depois com uma chamada lembrando que era tempo de comprar o remédio, lembretes repetidos ao longo dos anos abruptamente interrompidos devido a sua transferência para outro endereço. Perdemos contato, João desaparecera no dédalo de farmácias mudando a fisionomia da cidade.

Reencontramos João trabalhando em uma nova farmácia. Nos recebeu como se fôssemos velhos amigos, feliz e entusiasmado com seus estudos de enfermagem. Em visita subsequente, soubemos estava internado em um hospital batalhando os efeitos de AIDS. A gravidade da situação evidente na tristeza profunda no ambiente de trabalho. João faleceu semanas depois. Continuamos comprando medicamentos no lugar que ora chamamos de “farmácia do João”, o nome da rede nunca foi importante.  


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 14 de maio de 2017

Sob a sombra da indiferença

Destruição paulatina de imóveis tombados, muitas vezes acelerada por ocupações ilegais e abandono, mostrando claramente o desnível entre promessas eleitorais e a realidade enfrentada por aqueles tentando viabilizar a revitalização do Centro Histórico. Anúncios de verbas e ordens de serviços, cerimônias de lançamento de projetos aparentam ser as únicas ações concretas da Edilidade. Anunciada há mais de dois anos, a reabilitação de oito imóveis na Rua João Suassuna como o ponto de partida da transformação da área em um polo econômico, turístico e cultural, continua no rol de projetos inacabados, expostos aos caprichos da natureza e o niilismo dos vândalos. 

Práticas ilegais desvalorizadoras do patrimônio e da qualidade de vida, pichações e poluição visual adicionam insulto ao agravo a uma população exposta ao descaso de uma gestão municipal incapaz de fazer cumprir normas estabelecidas no Código de Posturas. Enquanto o poder público mostra pouco apetite em executar um projeto mais robusto no Centro Histórico, interesses escusos parecem livres para ditar o estilo, o uso do espaço público e a paisagem da terceira cidade mais antiga do Brasil.

Desfiguração de fachadas de imóveis tombados com anúncios de espetáculos, venda de objetos e outdoors, presença constante na incontrolável espiral de poluição visual limitando a possibilidade de registros fotográficos turísticos ou revitalização do Centro da cidade. Segundo o Código de Posturas do Município, “[...] são passíveis de punição qualquer publicidade instalada ao ar livre sem a licença ou autorização do órgão municipal responsável [...]”. Poluição visual é tratada pelos gestores municipais com o mesmo laissez-faire do combate às pichações e outras pestes urbanas.

O busto restaurado de Augusto do Anjos, depois de uma espera de quase três anos, foi instalado em um lugarzinho acanhado na passagem com o nome do Paraibano do Século XX. A placa de uma banca de revistas, servindo como pano de fundo para a homenagem ao representante do nosso EU. E assim tratamos nossa história!


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Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


domingo, 7 de maio de 2017

Jornalismo e democracia

O jornalismo é uma peça fundamental do arcabouço democrático da república, uma lanterna a serviço da cidadania na busca da verdade. Juntos o jornalismo cidadão e as redes sociais se complementam no processo comunicativo, oferecendo novas oportunidades de participação, de construção de esfera pública e da mobilização da sociedade civil. O combate à corrupção e o enquadramento judicial de políticos e seus patrocinadores no setor empresarial se tornaram possíveis graças à força do binômio que sustenta a democracia brasileira: imprensa livre e opinião pública informada.

Rejeição genérica de fatos expostos pela imprensa escrita, substanciados pelas narrativas ricas em detalhes das delações premiadas e os autos dos processos da Lava Jato. Ladainha cotidiana de políticos e seus advogados questionando fatos e evidências convincentes sem nunca apresentar provas criveis ou fatos contraditórios. Dando vazão a questionamentos motivados pelo cinismo inerente a classe política na forma de ataques virulentos contra diarios e jornalistas denunciando corrupção e abuso de poder.

 Acusações sobre vazamentos e cerceamento do direito de ampla defesa repetidas ad nauseam. Grupo de pessoas econômica e socialmente influentes, protegidos por foro privilegiado, com fácil acesso a tudo que o dinheiro possa comprar, incluindo a contratação de juristas influentes muitos juízes e procuradores aposentados.

Os jornalistas norte-americanos Carl Bernstein e Bob Woodward estabeleceram que, para eles, em uma investigação jornalística todo detalhe é importante, em casos de corrupção é fundamental seguir a trilha do dinheiro, procurando a verdade mesmo quando camuflada por mentiras e manobras espúrias de políticos ou de juízes com viés politico. O principio fundamental do papel do jornalista é, e sempre será, o de apurar os fatos com rigor para apresentar ao público “a melhor versão possível da verdade”...

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores