NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O triunfo da incompetência



Entre os conselhos dos nossos país, o proverbio português “quem não tem competência, não se estabelece”, junto com o imperativo de sermos honestos, transformaram-se em um mantra na nossa formação. Trazíamos estes princípios bem guardados na memória, como se fossem o abracadabra para abrir a porta mágica das oportunidades e encarar desafios de um mundo cada dia mais complexo. Conhecimento e competência nos levariam a alcançar alturas que jamais havíamos imaginado...

Existe, porém, um fenômeno que aparenta contradizer ou pelo menos mitigar as verdades imbuídas nos ensinamentos dos nossos país. Certamente você já participou de uma conversa com amigos ou familiares onde alguém com pouco conhecimento sobre um assunto, professa ter um conhecimento profundo. Algo similar acontece nas narrativas de demagogos com notória falta de experiência política e questionável protagonismo, nos temas relevantes ao bem-estar do povo. Conhecido como o Efeito Dunning-Kruger, o fenômeno não é uma doença, síndrome ou problema mental.  
A ignorância gera mais frequentemente confiança do que o conhecimento, uma reflexão de Charles Darwin confirmada em um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, por David Dunning e Justin Kruger em 1999. Pessoas incompetentes pensam que sabem muito mais do que sabem e tendem a expressar seus “conhecimentos” com arrogância. Chegando a conclusões erradas, elas optam por escolham infelizes, faltando competência para reconhecer seus equívocos.    

A eleição de Donald Trump, um noviço político propenso a erros, falsidades e inverdades, é um exemplo crível da capacidade de pessoas incompetentes de alcançar seus objetivos, sem demonstrar competência ou a retitude dos seus princípios. Elegemos políticos obscuros, notáveis pelo vitríolo retórico e esoterismo político-religioso, nunca considerando se são capazes de assumir posições de liderança e de exercer diligência e cautela nas suas propostas de políticas públicas, reformas ou modalidades de gestão.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 23 de dezembro de 2018

O dilema dos direitos humanos


Refletindo a grande esperança da ordem mundial pós-guerra, a Assembleia Geral da ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em dezembro de 1948. Trinta diretos fundamentais: civil e político, social, econômico e cultural, a serem estendidos a todo ser humano. Extensiva lista de direitos desde o mais sublime até o mais mundano, tem o direito de liberdade de consciência, mas também o direito á receber compensação de férias ou de “desfrutar as artes”. Eleanor Roosevelt declarou que o documento poderia transformar-se na “Carta Magna” da humanidade.

A diversidade desejada por seus formuladores, tornou difícil a tarefa de obter um consenso sobre a substância e o alcance da Declaração. Os soviéticos se opunham a cláusulas sobre sindicatos ou propriedade privada; os Latino Americanos queriam menções a Deus e contra o aborto; os Sauditas se opunham a liberdade religiosa; os Americanos se preocupavam com críticas a segregação racial e os Ingleses e Franceses não queriam nenhuma linguagem que subestimasse seus impérios coloniais.

Surgiu deste debate uma modesta visão de direitos humanos, de um pacto legal através do qual nações-estados assumiriam um compromisso a observar valores básicos de liberdade e bem-estar para seus cidadãos. A versão final, contudo, é neutra no que diz respeito a temas importantes da política moderna. Sendo uma declaração de princípios não-vinculativos, ela não demanda democracia ou proscreve autocracia.

Enumerar direitos sem obrigar países a reconhece-los ou respeita-los, motivou defensores dos direitos humanos a expressar demandas através de uma narrativa moral, fragilizada pela ausência de uma robusta autoridade legal. Deixando muitos países livre para expressar apoio seletivo a normas, sem contar com um Judiciário independente para verificar denúncias ou um mecanismo para ouvir pessoas cujo direitos foram violados. Paralelamente, existe uma crescente preocupação sobre a evolução do uso do ativismo em direitos humanos, como uma espécie de acerto de contas ideológico.

Palmarí H. de Lucena, membro da Uniao Brasileira de Escritores

domingo, 16 de dezembro de 2018

Feliz Natal Papai Noel


            Ao chegarmos a uma certa idade, as comemorações de Natal transformam-se em uma imprevisível mixórdia de luzes, cores e sombras. Nos adestramos a conviver com novas temáticas natalinas, aceitando briosamente a diminuída possibilidade de rebobinagem dos rituais que seguíramos por muitos anos de vida. Fantasmas testemunhando a festa, pessoas queridas sentados a mesa em cadeiras vazias. Saudades dos nossos pais, de todos que haviam partido. Relembrando episódios familiares, expressando preocupações sobre o rumo da humanidade, descansando da retórica tóxica que quase nos fez esquecer daquelas noites de paz cheirando à família.  

Pensaremos nas coisas boas dos tempos em que crescermos juntos, embutidas na memória os preparativos para a grande ceia de Natal. A alegre e barulhenta linha de produção na cozinha, arriscando desastres culinários devido a alta densidade de cozinheiros. A invariável disputa pelas frituras de pedaços de massa, estimulando o vai-e-vem das crianças, aceita com um quase impercebível dar de ombros, o Natal era deles.

            Natal em família é uma peça em três atos: o jantar, a barulhenta as vezes hilária abertura de presentes, seguida por episódios de curta atenção infantil sobre tudo, doces ou brinquedos, pequeno show de talento infantil, espécie de acomodação de diversas tendências e estilos artísticos animava o ambiente. Os adultos narram estórias e anedotário da prole em dialeto. Crianças formam novas alianças, inventando jogos e brincadeiras, criando a narrativa de uma eventual convivência como adultos.  

            Salvo uma pequena diferença, nosso Natal não era diferente. Tínhamos nosso próprio Papai Noel, um personagem do repertório temático do Tenente Lucena, nosso pai. As crianças mais velhas tinham uma certa desconfiança, sobre quem era o homem gordo, de barba branca, carregando um enorme saco de presentes. Algo no velhinho lembrava um pouco de Vovô, preferiam acreditar na existência de Papai Noel. Para as crianças e adultos, os dois eram irmãos siameses. E assim foram nossas noites de Natal.

Palmarí H. de Lucena, membro da Uniao Brasileira de Escritores