NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 26 de março de 2017

Enfrentando o jeitinho chinês

Empresários chineses interessados em adquirir conhecimento e informações sobre os procedimentos licitatórios usados por organismos multilaterais haviam solicitado nossa participação em seminários sobre oportunidades para aquisição de bens e serviços para programas das Nações Unidas e suas instituições financeiras. Informamos sobre critérios de transparência, neutralidade, imparcialidade e isonomia.

Para os chineses o contrato é um documento que confirma a existência de relações harmoniosas entre as partes. Empresários estrangeiros consideram um contrato com parceiros chineses como uma carta de intenção, sempre atentos às possíveis mudanças de condições. Quando um problema ocorre, as partes sentam-se cara a cara e tentam reconciliar suas diferenças através de intermediários, os “guanxi”. Ninguém disseca o texto ou convoca advogados.

Guanxi, ou contatos, é um sistema informal, político e organizacional, que incorpora uma complexa rede de relações sociais. Quando um empresário estrangeiro apresenta uma solicitação ou oferta, a primeira coisa considerada é se existe um guanxi entre as partes. Caso não exista, pode solicitar a participação de um intermediário, de preferência uma pessoa de posição e bem conectada. Prática evidenciada no aumento deliberado de interações sociais, troca de presentes e favores pessoais entre as partes interessadas.

Iniciado o guanxi, os empresários devem continuar o relacionamento com uma ou mais pessoas em comum, formando uma rede interpessoal indispensável aos negócios. Reciprocidade e confiança são duas normas fundamentais na cultura chinesa. Empresários devem aprender a ter paciência, compreender as diferenças e, naturalmente, estabelecer um guanxi. O jeitinho chinês e seu homólogo brasileiro, duas caras da mesma moeda...


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 19 de março de 2017

Degradação do espaço público

            Disputas entre a prefeitura e ambulantes no centro da cidade são tão comuns como Fla-Flus, tão difusas como a incompetência e corrupção transformando o espaço público em uma espécie de terra de ninguém, controlada pela informalidade da atividade comercial. Decadência e violência urbana, irmãs siameses alimentadas pela negligência benéfica de gestores municipais mais preocupados com obras de infraestrutura, cartões postais de suas administrações, e a acumulação de capital político. Enquanto crescem no imaginário popular, a degradação e vandalismo se alastram pela cidade ameaçando a longevidade das obras públicas por eles realizadas.

Bricabraque eletrônico, CDs, frutas e verduras, cardápio variado para uma clientela de baixa renda. Calçadas e ruas praticamente intransitáveis ocupadas por ambulantes operando à revelia da prefeitura, em detrimento da viabilidade econômica do centro da cidade. Obstrução de trechos de ruas no Parque da Lagoa motivando o lançamento prematuro de um plano para a remoção dos ambulantes, atenção aos aspectos sociais da categoria e devolução do espaço público à população. Detalhes da intervenção ainda incompletos. Infelizmente, o diabo mora nos detalhes…

Presença difusa de ambulantes e a visão anárquica da atividade servindo como imã para parceiros de questionável legitimidade, vetores de comportamentos antissociais e a perpetração de pequenos delitos. Cruzamentos ocupados por limpadores de para-brisas assediando motoristas com ofertas de serviços ou demandando pedágio social.  Pessoas de maior vulnerabilidade, principalmente mulheres desacompanhadas e idosos, vítimas de chantagem e comportamentos agressivos forçados a exercer um julgamento rápido sobre a periculosidade ou grau de necessidade dos protagonistas destas ações. Gestão municipal carente de soluções sustentáveis para a preservação do espaço público, transformando-se em parceira passiva na lumpenização do Centro Histórico e na concomitante degradação do patrimônio público.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 12 de março de 2017

Valorizando a arte das ruas

 Grandes e pequenos centros urbanos enfrentando uma crescente maré de pichações e grafite em logradouros públicos, propriedades privadas e monumentos históricos. A maioria das cidades classificam o fenômeno como vandalismo, atribuindo severas penas aos seus perpetradores. A dicotomia entre o “feio” e o “belo” motivou o poder público brasileiro a diferenciar o vândalo do artista, definindo assim o tratamento que deveria ser conferido ao grafite e à pichação. Lamentavelmente as prefeituras se demonstram incapazes de implantar projetos de combate ao vandalismo e ao mesmo tempo, valorizar o grafite como uma fonte de renda para artistas das ruas e para promover a ressocialização de jovens expostos ao crime e às drogas.

Bogotá é considerada hoje como a cidade que descobriu como conviver criativamente com artistas dasruas.  Normas claras para entidades públicas, grafiteiros e cidadãos interessados em definir qual seria a sanção para grafitar indevidamente e a responsabilidade de promover as características artísticas das obras foram criadas em 2011. Consultas entre a municipalidade, a sociedade civil e representantes dos artistas, aperfeiçoaram a lei que regulamentava e controlava a prática do grafite estabelecendo o Conselho Municipal do Grafite, para coordenar aspectos relevantes à modalidade. 

Atração turística de Bogotá, os murais no Parque dos Periodistas e na Candelária, um logradouro histórico previamente ocupado por mais de 600 ambulantes e elementos antissociais, restaurado e transformado no epicentro de um museu de arte das ruas a céu aberto. A Bogotá Grafite Tour leva turistas para visitar os principais murais e explicar a trajetória dos seus criadores, participantes contribuindo em média com vinte reais como apoio ao projeto. O Trip Advisor classifica a excursão como a favoritas entre as 155 oferecidas aos visitantes. Boa prática, que poderia ser replicada no Centro Histórico se gestores municipais dessem a devida alacridade às ações restaurativas e sustentáveis para a viabilização econômica e turística do logradouro.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

sábado, 4 de março de 2017

Fazendo canja com ovos de ouro

            Previsível como a chegada das águas de março, autoridades municipais e organizações do trade turístico mobilizando-se para promover turismo sustentável e a limpeza da orla no começo do período chuvoso que dura de março até agosto. Atividade realizada na contramão de recomendações de operadoras de turismo aconselhando viajantes a não programar suas visitas durante a citada época para evitar que o mal tempo comprometa suas viagens. Lançadas para coincidir com o Ano Internacional do Turismo Sustentável da ONU, atividades visando sensibilizar, educar e promover a limpeza simbólica da orla, trata-se de uma campanha midiática puramente paliativa e de questionável impacto a longo prazo. 

            Invasão de áreas públicas destinadas a áreas verdes, equipamentos comunitários e logradouros, todos problemas relacionados ao urbanismo na capital. Temas recorrentes na mídia e nas ações do ministério público no que diz respeito à necessidade de gestores municipais cumprirem na integra o Código de Postura do Município, incluindo a aplicação de diretrizes e políticas para o uso adequado e legal do solo. Ausência de um estacionamento designado para ônibus de turismo intermunicipal e interestadual agravando problemas no fluxo do trânsito, desgastes nas ruas secundárias da orla e o influxo de turistas do circuito rodoviário, sem infraestrutura receptiva.

Várias ações propostas pela Promotoria do Meio Ambiente e Patrimônio Social continuam sem receber a devida atenção da prefeitura, uma demonstração clara da falta de comprometimento com medidas para estancar a privatização do espaço público, dando prioridade a aspectos paisagísticos e à mobilidade como um todo. Um estacionamento fisicamente instalado entre duas pistas de rolamento e uma ciclovia contribuindo minimamente para a mobilidade e segurança da população, principalmente de deficientes e crianças. Uma janela de oportunidade para o trade turístico juntar-se à sociedade civil e demandar cumprimento do Código de Postura do Munícipio.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores