NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Sou filho de Papai Noel

            Viajando pela Turquia descobrimos que a figura de Papai Noel tem sua origem em São Nicolau de Mira, então um homem rico e religioso que ao saber que um dos vizinhos tinha se visto obrigado a prostituir suas três filhas devido à miséria jogou três sapatos cheios de ouro pela janela da casa tentando assim remediar a situação daquela família. Venerado pelos católicos por sua caridade e afinidade com as crianças. 

            Papai Noel é uma fábula irresistível que se tornou sinônimo de comemoração do Natal. O filme “Milagre na Rua 42”, relata a história de um idoso de olhos brilhantes, respeitável barriga e barba branca, que fora contratado para trabalhar como Papai Noel na maior loja de Nova Iorque. Seu sorriso fácil, bondade e simpatia contagiou a todos com o espírito caritativo do Natal. Denunciado como louco por detratores e céticos, foi submetido a julgamento no tribunal. Absolvido unanimemente após o juízo desafiar a fé de todos com a pergunta: você acredita em Papai Noel?

            Conheci meu Papai Noel na década de 1950 em uma celebração de Natal no quartel do 15o Regimento de Infantaria, meu pai tocava trombone na banda de música da corporação. Carregando um enorme saco de presentes, um velhinho barbudo, vestido de vermelho apareceu repentinamente em um jipe aberto, na companha da esposa do comandante da guarnição. Excitado com o prospecto de ser presenteado com um corte de tecido e brinquedos, nunca notei a ausência do meu pai entre os integrantes da banda tocando músicas natalinas. Descobri anos depois que ele era o Papai Noel sempre presente na vida da sua família e das crianças que ele tanto amava. 

            Pouco conhecido no Brasil, tenho dúvidas se o legado de São Nicolau de Mira serviria de inspiração ou motivação para uma vida dedicada a pessoas excluídas e crianças em situação de risco. Meu pai, o Papai Noel de todas os momentos, cumpriu sua missão sem nunca encher seus sapatos de ouro ou vacilar sobre o que era o sentido da sua vida. Feliz Natal Pai, você sempre foi nosso presente...

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores




domingo, 26 de novembro de 2017

Que país é esse?

Trocas de impropérios, atitudes fisicamente ameaçadoras, um aumento exponencial na letalidade dos confrontos entre cidadãos ou com autoridades policiais transbordando o limite mínimo de segurança esperado em um país democrático. Pondo à prova a qualidade do tecido social de um país que outrora chamava-se da terra do homem cordial, insuficiente para guarnecer-nos das intempéries do clima de violência e transgressão que nos transforma em prisioneiros do nosso próprio medo. Somos uma legião urbana, sempre perguntando: que país é esse?

Viajando pelo interior ou mesmo em áreas urbanas sempre nos preparamos ou assumimos que algo sinistro pode acontecer, prontos para testemunhar algo errado ou ter uma história para contar no fim da jornada. Celebrando ocasiões festivas, participando de atividades sociais ou profissionais, indagamos mentalmente quantos de nós chegaremos em casa ilesos ou pelo menos livres de situações constrangedoras.

Intolerância e falta de civilidade, fontes de conflitos sociais que fazem da existência urbana um purgatório para almas que simplesmente querem viver uma vida de moderada tranquilidade, conforto e respeito ao direito alheio. Pequenos incidentes do cotidiano levando pessoas a situações e posturas predispostas a um único desfecho, um vencedor e um perdedor. Bombinhas juninas convertidos em explosões letais.

Aceitamos o manto de um povo alegre, solidário e acolhedor, sem nunca questionar porque nos sentimos tão insatisfeitos ou despreparados em reconhecer a insatisfação latente que vigora nos transportes públicos, hospitais e escolas. Clamamos nossa tolerância com a diversidade porque aceitamos um numero mínimo de refugiados, enquanto falhamos em reconhecer o machismo, a homofobia e o racismo que nos oprime. Nos dizemos solidários mesmo quando remissos em defender causas coletivas ou incapazes de assumir responsabilidade cívica pelo progresso e segurança cidadã. Olhando para o chão, seguimos distraidamente a trilha para a viela da alienação social.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Maria Alice no espaço cibernético

“No vigor da minha maturidade aliei-me ao status de possuir esta máquina voadora de mensagens e assuntos repassáveis e consumidos com rapidez na onda gigantesca da modernidade [...] Compartilhar com a atualidade é algo maravilhoso”. Comentário de Maria Alice, uma amiga nonagenária cujo interesse e participação nas redes sociais realçam os benefícios e conhecimento transmitidos com uma alacridade incompatível com as limitações inerentes à terceira ou quarta idades. Magia cibernética reduzindo o déficit de inclusão e mitigando o isolamento, a solidão e outros sintomas depressivos de pessoas idosas, entrapadas na insularidade do mundo contemporâneo.

Desafiando a ideia de que a mídia social é um domínio exclusivo de gerações mais novas, idosos têm abraçado a internet entusiasticamente em números crescentes, demandando conteúdos relevantes às experiências de vida e maturidade dos usuários. Aproximação do hiato geracional entre avós e netos é indubitavelmente um dos benefícios mais visíveis e positivos da comunicação virtual participativa, fortalecendo laços de parentesco e amizade enfraquecidos pela distância, a nuclearização da família tradicional ou a falta de um equalizador social.  A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível, como disse a outra Alice, a dos Pais das.

Enquanto usuários jovens usam as redes sociais em forma de selfies, ou seja, de uma maneira mais personalizada e eminentemente pública em relação aos seus coortes, idosos usam redes sociais de uma maneira discreta de conectar-se com seus pares e obter informações sobre problemas comuns à população geriátrica. Mais importante, porém, é o processo de ressocialização desencadeado através de grupos afins e pesquisas nas páginas web direcionadas à população idosa, desde problemas de saúde até a reconexão com parceiros de alhures ou mesmo relacionamentos maduros. A internet é uma maneira de exercitar mentes, enriquecer vidas e formar relacionamentos. Parabéns, Maria Alice, por lembrar-nos que tudo é possível no espaço cibernético...

Palmarí H de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Demagogia e o politicamente correto

            Todo demagogo político precisa de um inimigo. Preferivelmente algo ou alguém que possa ser usado para direcionar, aguçar ou universalizar sentimentos de exclusão ou perseguição na psique de parte da população oposta às tendências sociais e culturais atribuídas ao politicamente correto. Retórica incendiaria menoscabando a grande mídia com acusações de subserviência a interesses especiais e apologia pelos excessos de benesses sociais, é o canivete do Exercito Suíço daqueles candidatos que extrapolam normas do comportamento público, civilidade política e respeito a seus oponentes.

            O termo politicamente correto permaneceu na penumbra do debate político até os anos 90, expressão popular em grande parte em comunidades acadêmicas que usava o termo jocosamente para caracterizar o dogmatismo de alguns ativistas. Pouco se sabe de sua origem, apesar de sugestões de parentesco com ideologias totalitárias. O termo foi popularizado nos últimos 25 anos por políticos direitistas como um vetor da “política da identidade” e valores contrários à herança judeu-cristã do mundo ocidental.

            Temos dois campos opostos sem apresentar um discernível debate programático ou partidário, as regras do jogo sendo modificadas pontualmente para acomodar o cabo-de-guerra entre o anti- politicamente correto e o anti-anti- politicamente correto. Donald Trump ganhou enfatizando sua independência e disposição de humilhar, demonizar ou diminuir minorias raciais, mulheres e deficientes, naturalizado o racismo e dando vazão a sentimentos de superioridade racial. Venceu contra o politicamente correto...

            O clima das eleições de 2018 é permeado de desencanto com a corrupção e a impunidade da classe política. Somos um povo irado, politicamente desfranqueado e desnorteado pela crise opressiva, a base de uma pirâmide eleitoral passiva a qualquer candidato capaz de equacionar e galvanizar sentimentos de antipolítica e rejeição de políticos profissionais. Em 2016, a imprensa internacional caracterizou a candidatura de Donald Trump como uma piada de mal gosto, será que vai ser a vez do Brasil em 2018?

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O mesmo do mesmo!

           Possivelmente a mais urgente das reformas desde a Constituição de 1988, a reforma política prossegue cambaleante por tortuosos caminhos, refém da indiferença e fisiologismo político subestimando a construção de um poder legislativo representativo dos interesses do povo, livre do controle das oligarquias políticas e interesses espúrios. Estamos próximos ao fim de mais uma legislatura sem alcançar o mínimo das mudanças discutidas por décadas, exceto pelas tentativas de relaxar as regras de fiscalização e de controle de partidos e candidatos. Generoso financiamento de partidos, campanhas eleitorais e propaganda midiática com fundos abastecidos com dinheiro do contribuinte, assegurando assim a preservação da espécie política.
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            O nível de renovação no Congresso Nacional nas eleições de 2014 foi de 43,5%, o maior desde 1998. Apologistas citam este ganho como um novo paradigma de futuras mudanças na escolha e na representatividade dos parlamentares a serem eleitos em 2018. Dependendo do eleitorado, uma grande parte da renovação poderá ser limitada a uma troca de guarda entre membros de oligarquias políticas. Segundo a Transparência Brasil, 49% dos parlamentares eleitos em 2014, são netos, filhos, irmãos, sobrinhos ou casados com quem exerce ou já exerceu algum cargo eletivo.

            Articulações para formação de coligações e escolha de candidatos para cargos majoritários na Paraíba, reforçam possibilidades de domínio continuado de oligarquias políticas que há muito dominam a nomenclatura do poder no Estado e sua Bancada Federal. Atualmente, 92% dos parlamentares paraibanos têm parentesco com políticos ou afins de grupos familiares. Renovação e assepsia do mundo político e aumento da representatividade do povo paraibano no poder público dependerá em grande parte do compromisso do eleitor em reduzir ou pelo menos mitigar a influência difusa das oligarquias políticas responsáveis pelo clientelismo, fisiologismo, incompetência, o subdesenvolvimento do Estado e à crise afetando o país, como um todo.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 5 de novembro de 2017

Temperamento judicial é preciso

            Temperamento judicial, na sua definição mais abrangente, é uma forma de conduta que se manifesta com imparcialidade de visão, completa equidade, substituindo a raiva pela razão, amparando-se no respeito a todas as partes, uma característica essencial na administração da justiça em um Estado Democrático de Direito.

            O processo de escolha e confirmação de juízes para a Suprema Corte dos EUA faz uma varredura completa dos antecedentes dos nomeados, com o intuito de não somente determinar aptidão profissional e avaliar o temperamento judicial no curso da sua vida acadêmica e profissional. O processo brasileiro, por outro lado, é mais enfocado no viés político do candidato e sintonia aparente com aspectos relevantes a governabilidade e a segurança jurídica de pautas defendidas por bancadas genéricas do Congresso. Alguns dos nomeados aparentam não possuir o temperamento judicial ou as credenciais requeridas de um magistrado do Supremo.

            Existem outras diferenças importantes entre a Suprema Corte dos EUA e o Supremo Tribunal Federal no Brasil. Enquanto à tomada de decisão na América acontece de uma maneira discreta, os nove juízes raramente se engajam em debates e questionamentos públicos ou controversos, seus homônimos brasileiros adotam uma postura pública, muitas vezes provocando conflitos e desequilíbrio institucional. Bate-boca durante audiências nos remetendo a um “reality show”, é impensável que episódios como a recente troca de farpas entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, ocorram na atmosfera austera da corte americana.

            No Brasil as sessões são abertas e transmitidas ao vivo na televisão, porém a transparência é mais aparente do que real. Ministros fazem discursos, alongam-se nos votos, abusam de termos jurídicos e citações em Latim. Transmissão ao vivo das sessões plenárias aumentou o número de performances judiciais sem aumentar os números de decisões colegiadas ou fazer  julgamentos mais céleres.  

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 29 de outubro de 2017

Nacionalismo e separatismo

             Quando o fluxo de imigrantes e ataques terroristas ocorrem simultaneamente e quando seus perpetradores pertencem a mesma etnia e religião dos imigrantes ou refugiados, que geralmente não são terroristas, a combinação de medo e xenofobia se transforma em algo perigoso e destrutivo. Sucesso eleitoral de movimentos da extrema direita aumentando demandas de restrições à aceitação de imigrantes na Europa, causando um nevoeiro de suspeição na paisagem das democracias ocidentais, dando vazão a ações racistas enrustidas em posturas eurocêntricas, contra os costumes e cultura de cidadãos europeus de ancestralidade árabe ou africana. Alguns grupos metamorfoseados como defensores das mulheres, judeus e homossexuais contra a influência e o perigo da Islamização da cultura e valores europeus.

            Movimentos xenofóbicos e antissemitismo não desapareceram completamente da Europa depois da libertação de Auschwitcz, o mesmo acontecendo com grupos suprematistas brancos operando nas trevas de subculturas propensas ao revanchismo racial desde a Proclamação da Emancipação nos Estados Unidos. O que mudou é que agora estes grupos estão emergindo revigorados, muitas vezes apoiados abertamente, por políticos e patrocinadores de movimentos contra a globalização, imigração, refugiados e minorias raciais, usados para seu próprio benefício político-eleitoral.

            O crescimento e aceitação de grupos advogando políticas exclusivistas e xenofóbicas, outrora marginalizados pelos eleitorados das grandes democracias, são hoje peças essenciais ou atores principais na formação de coligações governamentais e fiadores da governabilidade de vários países. A eleição de Donald Trump validou a visão política destes grupos, implícita ou explicitamente, motivando-os a promover suas ideias odiosas abertamente e com um alto nível de legitimidade diante do eleitorado. Notável é a influência difusa exercida por proponentes de políticas nacionalistas e suprematistas brancos na política “America First” adotada pelo Presidente Trump.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores