NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quarta-feira, 18 de julho de 2018

O mágico mundo de Zé Crisólogo


Observando o mundo exterior embaçado por gotas d’água, o jovem músico fotografou mentalmente o cenário minimalista, sem maiores possibilidades de fantasias diurnas ou surtos de criatividade. Longe, bem longe, os acordes de uma canção contemporânea, estrangeira e sedutora, descobriria naquele momento a trilha sonora de sua vida. Despertando sentimentos de paixão, que o levaria mundo afora a procura da beleza em animais, homens franzinos e carnavais. Palavras da canção I want to hold your hand incompreensíveis na ocasião, retornaram seus pensamentos para a sonoridade do ABC do Sertão de Luiz Gonzaga, parte de sua alfabetização musical.

Vivendo inconfortavelmente no quartinho de uma vila no centro da cidade, separado precariamente do forno de uma padaria por uma parede irradiando o calor ou o barulho da panificação noturna. O quarto servia para secar a roupa de outros residentes da comunidade, tão calorento era. Seu cotidiano oferecia pouco conforto ou privilégios, só a música oferecia tréguas periódicas, momentos de felicidade.

Encostado no muro externo de um clube social, se maravilhava com os sons do grupo Quatro Loucos, partituras musicais extraídas de discos dos Beatles. Começou a entender as letras, canções que aparentavam formar um álbum de fotografias dos seus dias difíceis. Trabalhando como um cachorro, sonâmbulo em noites de dias difíceis, sem sequer encontrar alguém para abraçar ou pelo menos ter forças de gritar bem alto, tudo está bem! O único refúgio era a música, de Luiz Gonzaga aos Beatles.

Com a música vieram outras recordações da uma infância vivida entre pastos, gados tangidos por homens magros, peles curtidas impiedosamente pelos caprichos de uma natureza incerta. Atravessando a ponte criada pela música dos Beatles e as cenas campestres de sua adolescência, o músico transformou-se em criador de um estatuário de bovinos, equinos e figuras populares. Encontrou nos animais, no sal da terra, a paz imaginada por John Lennon de Liverpool, a paz de Zé Crisólogo de Picuí.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Verifique antes de votar


 A saída prematura da Seleção Nacional da Copa do Mundo da Rússia expôs em imagens coloridas e deprimentes, que o futebol é o espelho e o reflexo da tragédia em que vivemos na atualidade. Somos um povo talentoso, abençoado com um enorme potencial humano e capacidade ínfima de projetar nossa cultura mundo afora, por outro lado, agimos como se fossemos prisioneiros de forças ocultas. Reféns da insegurança, sentimentos de autopiedade e temerosos do fantasma de uma distopia.

Retiramos a bandeira e a parafernália verde-amarela dos carros, casas e logradouros públicos, após a eliminação da Seleção Brasileira. Declaramos então nosso compromisso de usar a eleição de 2018, para mudar o rumo da nave Brasil. Os sinais de um motim cívico, sugerem que estamos incuravelmente destinados a repetir a mesma rota que nos levou ao atoleiro em que nos encalhamos. “Se há um idiota no poder, é porque os que os elegeram estão bem representados”, afirmou o Barão de Itararé.

A Paraíba é um microcosmo dos germes debilitando a politica brasileira. Temos partidos fisiologistas suspeitos ou acusados de corrupção liderando coligações partidárias, mercantilismo eleitoral negociando a permanência ou inclusão de familiares em esquemas eleitorais e membros do antro de corrupção da Câmara dos Deputados à espreita de novas oportunidades para manter-se no poder. Todos em busca de cargos de confiança para seus apadrinhados, acesso à privilégios e as benesses pagas pelo Erário.

É importante verificar antes de votar, permanecer fiel aos princípios de ética, moral e honestidade ora subestimados pela classe politica. O Congresso em Foco, artigos sobre a “tropa de choque” de Eduardo Cunha, lista de políticos investigados ou denunciados na Operação Lava Jato e o aplicativo Detector de Ficha de Politico, são fontes seguras de informações sobre a adequabilidade de candidatos em 2018. Devemos usar o conhecimento e poder do voto para desafiar e desalojar a influência difusa das oligarquias, que transformaram os municípios paraibanos em capitanias hereditárias.

Palmarí H. de Lucena. membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 8 de julho de 2018

Suprema insegurança

       A recente decisão da Segunda Turma do STF de conceder liberdade a José Dirceu, aprofundou as fissuras e insegurança criada pelo desentendimento e contradições entre membros do colegiado, provocando descrença sobre as decisões e o temperamento judicial de alguns membros da Turma. Decisões, algumas monocráticas, que aparentemente põem em questão o ‘Sistema de freios e contrapesos’articulado por Montesquieu,  “ [...] que nenhum dos três poderes tem autonomia absoluta sobre a sociedade, nem sobre os outros tipos de poderes; mas sim um, em conjunto com o outro, deveria reger o Estado de maneira a exercer uma ‘igualdade social’e governamental”.

Em 2016,  o plenário do STF permitiu a prisão de condenado em segunda instância, por não ferir o princípio constitucional de que ninguém seria culpado antes de serem esgotados todos os recursos judiciais à sua disposição. O colegiado acatou o argumento sugerindo que réus com acesso à advogados caros, conseguiam adiar através de manobras processuais o desfecho de seus julgamentos. Réus denunciados por corrupção ou condenados em instâncias inferiores continuam protegidos por decisões monocráticas, subestimando a eficácia social da decisão do STF.

Pronunciamentos de membros do STF expressando antipatia contra sentenças de juízes da primeira e segunda instância, procuradores e policiais federais investigando casos de corrupção e a proximidade deles com suspeitos e réus diferenciados, provocam a aparência de conflito de interesses ou de viés político-partidário. A postura lobista de um membro do STF propondo o endurecimento de leis contra o abuso de autoridade, que resultaria no constrangimento de operações combatendo o impacto deletério da corrupção e sustentabilidade da democracia. O alistamento de membros do Congresso Nacional e do Poder Executivo manchados por atos de corrupção e abusos de poder, como parceiros na resolução dos problemas criados por eles, cresce a descrença no conceito de igualdade de direitos entre todos e um Estado justo e democrático.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 1 de julho de 2018

Garantismo para quem?


A jornalista Vera Magalhães nos lembra em sua coluna de 27 de junho no jornal Estado de São Paulo, que o ministro Ricardo Lewandowski havia sido flagrado por ela em um restaurante em Brasília no dia 28 de agosto de 2007, fazendo um desabafo telefônico ao seu irmão, Marcelo. Na ocasião, ele dizia ao seu interlocutor  “[...] que o Supremo  havia recebido a denúncia do mensalão, naquele dia, porque votara com ‘a faca no pescoço’ graças à pressão da imprensa. Antes de jornais revelarem o teor de conversas dos ministros combinando votos pelo sistema interno de mensagens da corte, a tendência, dizia Lewandowski, era ‘amaciar’ para o Dirceu [...]”.
Onze anos depois, com uma condenação em segunda instância a 30 anos e nove meses de prisão, Dirceu reapareceu na pauta da Segunda Turma do Supremo com um pedido de habeas corpus. Em 26 de junho, Lewandowsky acompanhado de Dias Toffoli e de Gilmar Mendes – que à época do mensalão, não formava com a dupla a maioria dos votos, concederam um  habeas corpus de ofício a Dirceu, então cumprindo sentença em Curitiba. Decisão que abalou a confiança do povo na imparcialidade e equanimidade das decisões do Supremo envolvendo políticos, empresários e operadores financeiros.
As ações da maioria da Segunda Turma se sustentam na teoria do garantismo penal como justificação de decisões, às vezes contraditórias, que aparentam favorecer ou pelo menos facilitar a impunidade de suspeitos ou condenados por crimes de corrupção. Quando sabatinado pelo Senado Federal, o saudoso ministro Teori Zavascki afirmou que: "Eu acho que os observadores são mais habilitados para estabelecer rótulos. Eu acho que ser garantista ou não, é tudo uma terminologia", afirmando, ainda, que o importante é o conteúdo das decisões. "Se ser garantista é assegurar aquilo o que está na Constituição, eu sou garantista, eu acho que todos devem ser garantistas”. Lamentavelmente, 217 mil detentos ainda aguardam julgamento à revelia do garantismo justificando a liberdade ou “amaciando” as penas impostas aos mais privilegiados...
 Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores