NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 13 de agosto de 2017

Satíricon político

Situações absurdas e ridículas permeando o mundo politico e a sociedade contemporânea como um todo, nos remete à época onde personagens públicos e privados agiam como se fossem desprovidos de pudor ou limites morais e éticos balizando suas ações. Estamos vivendo uma versão moderna do Banquete de Trimalquião do Satíricon de Petrônio, a única diferença sendo a existência de valores judeu-cristãos e normas de conduta estabelecidas por sociedades secularmente democráticas, igualitárias e zelosas dos direitos básicos dos seus cidadãos.

 Contradição, excentricidade, ambivalência e ambiguidade são as marcas do traço estilizado atribuído a Petrônio, criando situações absurdas e ridículas, transformando-as em tragédias sem nunca perder ou remover o manto negro do seu humor. Completa amoralidade dos seus protagonistas, o denominador comum de costumes que hoje considerados absurdos, vista com extrema naturalidade.

A conduta pessoal de políticos e empresários da atualidade abriu as cortinas de um mundo subterrâneo imbuído quase que naturalmente, na sublevação de valores básicos e o uso irrestrito da prática de deslizes éticos para obter vantagens indevidas e privilégios, por todos os meios necessários. Limites estabelecidos por leis e costumes são vistos como empecilhos enfadonhos da gincana frenética pela permanência no poder e acesso continuado a seus benefícios materiais. Hoje temos uma situação de vale-tudo amoral e a desintegração de princípios de civilidade e imparcialidade.

A vulgaridade do linguajar de políticos e pessoas na liderança das nossas instituições é uma fissura grave e perigosa no entendimento cordial que deveria existir entre colegas, políticos e pessoas com pontos de vista opostos. Aberta a Caixa de Pandora das interações de políticos e empresários, nos inteiramos com repugnância que a vulgaridade subterrânea se convertera em contraponto as gentilezas em público, vozes iradas recheadas de obscenidades dignas do Banquete de Trimalquião, no Século I.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores


Cidade cheia de perigos mil

Prometendo uma nova era de paz e tranquilidade no Rio de Janeiro, as unidades de polícia pacificadora começaram a decorar os perigosos aclives e declives de comunidades conhecidas mundialmente como “favelas”, há pouco menos de uma década. Estratégia inspirada nas táticas de contra-insurgência usadas pelas tropas norte-americanas nas guerras do Iraque e do Afeganistão, cujo resultados foram aquém dos objetivos desejados, contribuindo possivelmente para a evolução de um ambiente densamente hostil. Terreno fértil para escaramuças e enfrentamentos assimétricos entre forças militares e grupos fortemente armados. A experiência brasileira parece não ser diferente ou minimamente sustentável diante da crise político-econômica que vivemos.

            O Secretario Estadual de Segurança declarou há dez anos atrás que: “Vocês não podem imaginar o que a negligência do governo com as favelas fez com esta cidade. É a falência do poder público”. Desde então, escândalos de corrupção e a crise financeira do Estado mantendo o poder público quase totalmente inerte diante do agonizante rebaixamento da qualidade de vida e o aumento exponencial da criminalidade, dentro e fora das favelas. Expressões de desespero, ceticismo e narrativas sobre vitimização pessoal são temas comuns. Recente militarização da segurança pública pouco contribuindo para estabelecer um clima de confiança e ordem.

Vilificados e desdenhados pela ira popular, políticos ocupam lugares reservados previamente para meliantes, membro de gangues e quadrilhas. O adjetivo “ladrão” usada como um termo genérico para quase todos os membros da classe politica, exceto aqueles prometendo o desencadeamento de ações agressivas, até mesmo letais, contra “os bandidos”. A situação do Rio de Janeiro apresenta sérios desafios a nossa democracia, aumentando o acirramento entre classes sociais e promovendo o crescimento de lideranças populistas de tendências autoritárias e narrativas preconceituosas. Estamos em uma cidade cheia de perigos mil, no coração do Brasil ...


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 30 de julho de 2017

Autêntica guerreira do povo

            Estrutura de um restaurante popular contrapondo-se à silhueta cinzenta, serras em mutação para um espetáculo de belos matizes da escala tonal dourada cobrindo a Borborema Potiguar, simplificando desafios topográficos e escondendo as poucas estrelas penduradas na imensidão do céu. Transitando pela estrada alguns carros, luzes distantes de pequenas casas bruxuleando no horizonte, aves à procura de refúgio das nuvens negras devorando impiedosamente a luminosidade do entardecer. Brilhando longe, bem longe, uma Lua Nova, a mãe de todas as mudanças e possibilidades ...

 Conversando animadamente, duas mulheres na penumbra da parte posterior do restaurante, perfis transformados em camafeus dourados. Enfatizando a materialidade de suas palavras, gestos de mãos bailando no espaço sem projetar ou pelo menos sugerir uma animação para a narrativa. Lugar simples sem nenhuma pretensão decorativa ou marco diferenciado na escala social ou comercial, seu terraço tinha o mais belo pôr do sol entre as cidades potiguares de São Bento da Serra e Monte das Gameleiras.

A pujança do sol nos guiou até uma placa na beira da estrada: Galinha da Serra. Asseverando uma posição de proeminência na vida gastronômica e na geografia turística da microrregião. Encontramos ali Dona Aparecida, conhecida por todos como Cida, o griô do Sitio de Cacimba de Cima. Narrou a saga de uma família de agricultores que se transformara em bem-sucedidos proprietários de uma marca lucrativa.

 Tudo começara na tempestuosa visita de um engenheiro, procurava alguém que preparasse uma galinha de cabidela no estilo campestre. Após inúmeras recusas, Cida concordou. Demanda pelas iguarias produzidas na sua cozinha forçaram a expansão do pequeno negócio em um restaurante formal. Vendendo todos seus animais e bens de subsistência a família se autofinanciou à revelia dos temores de insucesso, da indiferença do poder público e das incertezas da economia. Triunfou, uma autêntica guerreira do povo brasileiro!


--> Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores