NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 15 de janeiro de 2017

A covardia do silêncio

Rebeliões terminando com o assassinato de quase cem encarcerados em presídios de Manaus e Boa Vista são mais uma mostra da fragilidade das instituições brasileiras e da incapacidade do poder público de conter a espiral de violência instalada nos cantões de criminalidade intramural fomentada por facções criminosas, com a cumplicidade silenciosa de agentes públicos corruptos.

O Presidente da República, após três dias de silêncio, caracterizou o massacre como “um acidente pavoroso”, responsabilizando o Estado indiretamente pelo controle ou descontrole penitenciário. Mitigou a culpabilidade de agentes públicos devido ao presídio de Manaus ser terceirizado. Expressando tardiamente solidariedade com as famílias das vítimas, o Presidente enfatizou: “É uma solidariedade governamental e tenho certeza de que apadrinhada por aqueles que aqui se acham". Faltando no pronunciamento expressões de solidariedade humana e comprometimento com medidas efetivas para coibir práticas abusivas, corrupção e o controle de facções criminosas.

Rebeliões, torturas e execuções extrajudiciais são elementos presentes nas instituições penais do país. Práticas adotadas tanto pelos responsáveis pela ordem e preservação dos direitos dos encarcerados como também pelos integrantes de facções criminosas, assegurando a conivência dos seus companheiros em atos de barbárie.

Medidas emergenciais como envio de tropas da Força Nacional, dotação de verbas especiais e mutirões pontuais são minimamente suficientes para acomodar, garantir a segurança e reabilitar uma pequena fração da população carcerária. O preso deve cumprir a pena em presídios distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo. Não cumprimento deste preceito constitucional, segundo o Presidente, é um fator determinante na situação em que nos encontramos. O silêncio e empurra-empurra deve então terminar. Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes, assim falou Abraham Lincoln.


Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Na era da pós-verdade!

Verdade e mentiras, parâmetros convencionais para caracterizar uma narrativa são hoje complementadas ou mesmo substituídas por posicionamentos que poderiam ser tão absurdos ou fantasmagóricos que dispensariam a necessidade de caracterizá-los como falsos ou levianos. Eufemismos são usados para tudo. Políticos são econômicos com a verdade, quando flagrados mentindo ou em situações embaraçosas acusam seus algozes ou a mídia de deturpar fatos ou pronunciamentos fora de contexto.           
            A distorção intencional da verdade, especialmente para fins políticos, é conhecida como a “Grande Mentira”, máxima erroneamente atribuída a Goebbels, o Ministro de Propaganda do 3o Reich. Mentira repetida várias vezes, convertendo-se em verdade, sua premissa principal. Obsoleta devido a capilaridade das redes sociais, agora basta dizer a mentira uma vez e esperar que ela se transforme em verdade instantânea. Deixando de ser algo objetivo, a verdade transformada em um dado de adesão voluntária.  Hoje a verdade é aquilo que um indivíduo ou uma comunidade desejam que seja ou uma justificação plausível para atitudes culturais ou políticas que seriam de outra maneira caracterizadas como radicais, preconceituosas ou antidemocráticas.
Em 2016, o Oxford Dictionary definiu o que é “pós-verdade” (post truth em Inglês): um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais [...] Pós-verdade deixou de ser um termo periférico para se tornar central no comentário político, agora frequentemente usado por grandes publicações sem a necessidade de esclarecimento ou definição em suas manchetes”, escreve a entidade no texto no qual apresenta a palavra escolhida. Usando pós-verdade extensivamente, candidatos a presidência do Brasil e dos Estados Unidos lograram uma vantagem eleitoral que não teria sido possível, se o debate e a narrativa política tivessem sido fundamentados em fatos verídicos e pronunciamentos objetivos.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 8 de janeiro de 2017

O trunfo de Trump

            Política, em uma democracia, é sobre interesses e sobre princípios.  Reconhecimento e aceitação da existência simultânea de grupos diferentes com suas próprias agendas e opiniões, é essencial para manter a ordem e o bom funcionamento de uma sociedade diversa e democrática. Ditaduras usam o autoritarismo e a força bruta para alcançar seus objetivos sem nunca considerar a política como uma alternativa para equilibrar, reconciliar ou harmonizar interesses diversos. Política requer a observância de regras estabelecidas por uma constituição ou costumes para chegar a compromissos de uma maneira em que todas as partes considerem legítima.

            O fator limitante da política é que nem sempre as pessoas vêm claramente seus benefícios em relação às suas aspirações. Decepção com a política é algo normal em uma democracia, daí a noção de que o processo democrático é uma reunião que nunca termina. Crescente viés antipolítica de grupos ou segmentos do eleitorado nas democracias ocidentais, principalmente nos Estados Unidos, estão massificando atitudes contrárias aos compromissos e acomodações da política. Querem candidatos com pouca experiência ou convivência com mecanismos democráticos. Refutam a legitimidade de interesses ou opiniões opostas e ignoram o fato de que a política seja uma atividade limitada. Populismo com promessas exageradas e expectativas não realizáveis é a principal arma usada para chegar e manter-se no poder.

            O sucesso da campanha incerimoniosa de Donald Trump sinaliza uma crescente tendência pela antipolítica e pelo populismo truculento, sobre qualquer forma de compromisso ou acomodação entre republicanos e democratas. Eleitores estes, não estão procurando um processo politico para atender as suas necessidades e aspirações, eles querem um super-herói. Um homem branco que entende e apoie a ira do homem branco contra tributação, quotas raciais, imigração, inclusão social e multilateralismo.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores