NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

9/11: Terrorismo globalizado

Outono de 1979.

   Nosso escritório no andar 69 da Torre II do World Trade Center, tinha uma vista privilegiada. A Estátua da Liberdade. Majestosa. As palavras eloqüentes da poetisa Emma Lazarus. “Dai-me os vossos cansados, vossos pobres, as vossas massas desejosas de respirar liberdade”. Mulher Judia. Família afluente. A voz da diáspora sefaradi. A ponte de Brooklin. Caminho seguro para emigrantes de todas as raças, religiões, origens. Mais de 45% de população nascida fora dos Estados Unidos. Porto seguro para árabes, judeus, eslavos, chineses, caribenhos e afro-americanos. Mosaico de povos e culturas. Coexistindo pragmaticamente. Seduzidos pelo o canto da sereia...

11 de setembro de 2001.

   O taxi se movia devagar na 5ª Avenida. Grupos de pessoas nas calçadas, apontando na direção do Sul da Ilha de Manhattan. Fumaça no horizonte. Labaredas. “Deve ser um incêndio grande, perto da Macy’s na Rua 34”, o taxista paquistanês comentou. Blasé. Driblando o trânsito. Movendo em direção do Chrysler Building, nosso novo escritório na ONU. Tínhamos pressa. Celulares haviam parado de funcionar. Queríamos saber o que estava acontecendo. Soldados e seguranças cercavam a Grand Central Station, a estação ferroviária de Nova Iorque. Edifícios na lista de alvos dos terroristas. “Os Estados Unidos acabam de ser atacados”, nos informaram... “Nossas torres foram destruídas”. Aço misturado com concreto. Fumaça ácida, negra, sufocando as massas. Pearl Harbour no asfalto. As irmãs gêmeas da globalização não eram mais...

   Ato terrorista de 11 de Setembro e a subseqüente “Guerra contra o Terror”. Gêmeos siameses. Expondo dramaticamente o lado ruim da globalização. O fluxo global de tecnologia, comércio, informação, ideologias e pessoas, mostrando que a globalização pode ter efeitos positivos, como também negativos. Dividindo e unificando o mundo. Fazendo inimigos, incorporando amigos. Gerando riqueza, aumentando a pobreza. Os terroristas tiveram sucesso porque usaram a bipolaridade da globalização como um instrumento de destruição. Informações técnicas em paginas web facilitaram a criação do terror tecnológico. Convertendo instrumentos benignos, aeronaves civis, em armas de destruição massiva. Desencadeando ações colaterais, dramáticas e destrutivas. Acordando os demônios da intolerância religiosa. Destruindo as esperanças emergentes do Novo Milênio. Multilateralismo na cooperação econômica, comércio e isonomia nas relações entre os povos. Islamismo, o novo bicho-papão, substituído o comunismo. O novo “império do mal”. Os mísseis, frotas nucleares obsoletas, estados satélites, apoio estatal a grupos subversivos, enterrados nos escombros do Muro de Berlim. Havíamos chegado à era do novo “ismo”. Terrorismo, um fato comum no mundo globalizado. Fênix maldosa...

   O povo norte-americano unido. “Nós contra Eles. Oficiais da reserva, comentaristas do radio, experts, servindo rações diárias de patriotismo. Descrevendo o conflito como se estivessem jogando RPG. Interprentando personangens; simulando todas as possibilides de um novo ataque contra os Estados Unidos. Retaliação contra “Eles”. “This is CNN”, em todas as línguas”. O “choque das civilizações” substituindo o “fim da historia”. Legitimando ações unilaterais, subestimando o sistema das Nações Unidas. Combatentes da mídia globalizada. Os Illuminati da Nova Ordem de George W. Bush. Líder incompetente, desqualificando. Cercado de soldados, policiais, bombeiros, trabalhadores de construção. “Levaremos a guerra até eles”. “Os que não estão conosco, estão contra nós”. Disputas partidárias sepultadas em favor de bipartidarismo. Nova leis aprovadas a toque de caixa. Desencadeando o maior desafio às liberdades civis e direitos humanos, desde a era do anticomunismo virulento do Senador Joe McCarthy. “O senhor não tem vergonha, Senador McCarthy!” Lembranças do grito do jornalista Edward R. Murrow contra a autocensura. Silenciosa e cúmplice. Nenhum jornalista preparado para apontar o dedo em direção aos novos demagogos. O mundo anglo-saxão, cristão contra os bárbaros. Unidos...

   O post-mortem de 11 de setembro ainda não foi escrito. Talvez nunca seja. Tudo mudou, concordamos. Não sabemos precisamente o que mudou e quando. Somos menos inocentes, mais sérios e cautelosos. Bombardeados com informações na internet, na mídia globalizada, sobre modificações dramáticas na economia, cultura, política e no cotidiano. Pouco tempo para reflexão ou análise sobre o que aconteceu naquela manhã. O mundo brincando de “plantar bananeira”. Ajustando-se às mudanças globais. Crianças negras na África e na America Latina, pedindo a pais pobres para comprar uma Barbie. Países industrializados que não podem mais comprar o que compravam, vendendo o supérfluo aos que não podem pagar. “Os Nós contra Eles”. Novos “ismos” sendo inventados na mídia. Os demagogos nos púlpitos de catedrais falidas demandando novos programas de repressão. Povos recém libertados de ditaduras opressivas, pedindo a volta dos soldados à rua...

   O mundo ocidental anuncia diariamente a destruição de mais uma rede terrorista, captura ou morte de um líder do movimento jihadista global. Estamos mais seguros? Não sabemos. Novos “ismos” não vão deixar de aparecer ou serem inventados. A única salvação é que o mundo esta ficando mais democrático. O grande perigo é que somos mais assimétricos. Cocaína versus crack. Barbies versus Mônicas. Grades do terraço versus grades de penitenciarias.

   O que mudou depois de 11 de Setembro é a urgência em que devemos mudar. Pessoas sem equidade são pessoas sem liberdade. Questionando os sistemas que lhes oprimem. “Se não sou parte do sistema, por que devo jogar pelas regras dele?”, perguntam pelo mundo afora. O desespero, a exclusão e o fanatismo são companheiros de viagem, quando a democracia não funciona. Estavam juntos, passageiros de primeira classe nos mesmos aviões, no dia 11 de setembro de 2001. Tickets comprados pela internet, milhagem dupla...

   Precisamos reafirmar os valores básicos e instituições democráticas e procurar soluções locais e globais para problemas que envolvem ambas as dimensões. Governos e movimentos sociais teem e devem lutar contra o terrorismo, militarismo e injustiça social, como também pela democracia, o meio ambiente, direitos humanos e justiça social. Em vez de tentar suprimir ou abrandar a democracia, como uma forma de combater o terrorismo, devemos fortalecê-la contra as forças da violência e da destruição. Esta é a grande lição de 11 de Setembro...

domingo, 20 de dezembro de 2009

O começo da grande aventura...

   Comemoramos hoje quarenta e cinco anos da nossa saída do Brasil, rumo à terra prometida. Buscando a história e escrevendo a nossa própria. Acordamos cedo. Encontramos o que procurávamos. Escarcela antiga. Empoeirada. Derramamos o conteúdo na cama. Documento de emigração, o “green-card”, modelo antigo. Vários passaportes e laissez-passer da ONU, expirados. Cartões de imunização. A burocracia do mundo. Foto antiga de um homem jovem, cara séria. Gravata apertada demais para o conforto. Terno preto com listas brancas. Comprado para um evento acadêmico que nunca aconteceu... Determinação nos olhos. Lembramos daquele dia. Sorrimos.

   Fechado para balanço...

   Não recordamos muita coisa do dia 16 de dezembro de 1964. Estávamos no Aeroporto dos Guararapes. O Caravelle da Panair recebendo os últimos cuidados. Pássaro mimado. Perez Prado e sua Orquestra tocando o mambo El Manisero. Canção feliz sobre um vendedor de amendoim. Não sabemos por que ouvíamos nela a palavra “adiós”. A palavra era “maní”, amendoim. Ato falho... Em duas horas deixaríamos tudo que conhecíamos. Sonho transformando-se em destino.

   A trilha de vapor da aeronave formava duas paralelas no céu. Afastando-se rapidamente do Recife, dos “velhos sobrados, compridos, escuros”. O lugar onde o sonho amadureceu. O livro mágico. A pedra da Roseta para a America de Alexis de Tocqueville. A democracia, por ser um estado de sociedade, se torna também o que ela deve ser, por não conduzir a um estado de governo, a uma ditadura. O povo quando associado livremente, é o dono do seu destino. Estávamos bem longe de casa, bem perto do que queríamos viver. O fermento e as tragédias da década dos anos 60 redefinindo tudo, desafiando todos, criando o mundo possível. E lá estávamos... Organizando trabalhadores; mobilizando pessoas excluídas; ensinando a magia da não-violência a membros de gangues. Engajados na guerra justa, guerra contra a pobreza.

   Férias na África. Seduzido pela beleza da arte africana. O misticismo, as máscaras, as sociedades secretas do povo Dogon, no Mali. A estética africana presente nos quadros e esculturas cubistas. As “Meninas de Avignon”, de Pablo Picasso. Mudamos para a África em 1980. Treze anos envolvidos com lugares e situações onde a miséria, exclusão social e conflitos tomavam precedência sobre outras condições humanas. Conhecemos a África, conhecemos todas as Áfricas. Boa ou ruim. Não importava. Havíamos encontrado nosso grande amor...

   Voltamos para a America Latina. Revoluções, conflitos. O istmo centro-americano em chamas. Fazendo o presente menos possível. Entendendo rapidamente que o caminho da paz nem era fácil, nem uma opção preferencial para muitos. Erupções vulcânicas, terremotos, maremotos, furacões e guerras assimétricas. A única coisa que não faltava era vítimas... Aprendendo a dura e amarga verdade. Nunca começando nada. Sempre começando de novo. Mesmo assim prevalecemos. A paz venceu, eventualmente.

   Vivemos situações que exemplificavam a falha da pessoa humana em comunicar-se, em optar por compromisso em vez de conflito. Diferenças político-partidárias ou tribais transformando-se em antagonismos pessoais, justificando ações caracterizadas por sua mesquinhez e desrespeito ao povo. Todos os conflitos, subdesenvolvimento e miséria que presenciamos foram causados pela incompetência, pela inabilidade de lideres de entender, que o desenvolvimento humano só é possível, quando a civilidade e a convivência civil permeiam suas relações. Nas palavras de Benito Juarez, o grande estadista mexicano, “... o respeito ao direito alheio é a paz.”

   Testemunhamos o começo de uma nova história. Não o fim da historia de Francis Fukuyama. Muitos países consolidaram ganhos democráticos e começaram a crescer. Outros relegados ao subdesenvolvimento por guerras civis, conflitos e corrupção, ainda não entenderam que o desenvolvimento humano, não é possível sem a paz. Que a paz não é sustentável, sem democracia.

   Fotos antigas. Família, filhos, netas, lugares. O homem que nos levou ao aeroporto... Só memórias. Triste, lágrimas nos olhos. “Vá meu filho, não desista do seu sonho.” Abraço, rostos colados com o suor dele... O soldado que venceu todas as guerras sem disparar um tiro. Música maestro!

   Musica movetur mundus.

   Reorganizamos a papelada e os mundos espalhados sobre a cama. Fechamos os livros e nos lembramos de Calderón de la Barca, “Vive Dios, que pudo ser...”

João Pessoa 2009

domingo, 13 de dezembro de 2009

Villa-Lobos e o metrônomo da vida...

    Porta principal do Abrigo de Menores Jesus da Nazaré. Duas freiras esperavam ansiosamente a chegada do visitante. Tratava-se de um músico famoso, na cidade, para um evento no Teatro Santa Rosa. Juntamente com as religiosas, um homem de rosto corado, sobrancelhas espessas, corpo na posição conhecida como “descansar”, no linguajar militar. Sargento Lucena, o regente do coral da instituição. Havia juntado coragem suficiente para sugerir um convite ao grande maestro...

   A guerra fria havia esquentado. A rivalidade entre os sistemas capitalista e comunista se transformava em um conflito militar de grandes proporções. A paz mundial estava ameaçada. Manchetes de jornais noticiavam combates sangrentos na Península Coreana. O ano era 1951.

   O visitante chegou. Baixa estatura, vestido em um terno escuro. Charuto enfiado no canto da boca. Olhos cansados. Taciturno. Conversou baixinho com seus anfitriões. Ouviam atentamente. Música tocando no sistema de som da casa. Caminharam juntos em direção ao recinto do concerto. Entraram. Atmosfera de antecipação. Aplausos. A madre superiora tocou levemente nos lábios, com o dedo indicador. Silencio! Pediu ao visitante para sentar-se. O regente tomou posição em frente ao coral. Soprou em um objeto metálico, circular. Notas musicais. Sussurrando as ultimas instruções. Olhos atentos. Crianças acostumadas com a disciplina espartana da instituição. Gesto coletivo de reverência. O visitante respondeu com um sorriso, seguido de um gesto, mãos espalmadas para cima, como se dizendo: música maestro! Canção de ninar, ciranda, baião... Expressão serena no rosto, dedos acompanhando o ritmo de cada canção. Um metrônomo...

    Inquieto, um menino de dez anos observava a cena do concerto. Sentado de pernas cruzadas no chão, perto da cadeira do visitante. Conhecia quase todo o repertório. Parte do seu cotidiano. Filho do regente. Seu pai queria que fosse músico...

    Anos depois. Aula de violoncelo no conservatório de música. O professor ensaiava uma peça musical com uma cantora lírica. Cantilena da Bachianas Brasileiras No. 5. Adolescente, com as mãos curvadas no topo de um violoncelo. Embevecido com o desempenho dos artistas. Repetiram várias vezes os trechos cantados em "Vocalise". Finalmente satisfeitos, concluíram o ensaio. Entusiasmados, continuaram a conversar sobre a música. Obra do compositor.

   O regente ouviu atentamente o relato do filho. Feliz após seu primeiro dia de aula de violoncelo, no conservatório. Falou da peça musical que o professor estava ensaiado. Havia descoberto o nome do compositor. Heitor Villa-Lobos, o homem que havia visitado o abrigo de menores em 1951... Mais detalhes da visita. Seu pai falou que o maestro havia se incomodado com o volume do sistema de som da instituição. Pediu ao chegar: “... por favor, baixem o volume, música é para meditação.” Começo de uma viagem sem fim no mundo musical... Um coração, alma brasileira, pulsando com “... a cruel saudade que ri e chora!”, da Bachianas Brasileiras No. 5.

   Heitor Villa-Lobos falou essas sabias palavras no seu discurso em João Pessoa-PB, em 1951,
   “... O Brasil já tem uma forma geográfica de um coração. Todo Brasileiro tem esse coração. A Música vai de uma Alma à outra. Os pássaros conversam pela Música; eles têm coração. Tudo o que se sente na vida se sente no coração. O coração é o metrônomo da vida. E há muita gente na Humanidade que se esquece disso. Justamente o que mais precisa a Humanidade é de um metrônomo. Se houvesse alguém no mundo que pudesse colocar um metrônomo no 'cimo da Terra', talvez estivéssemos mais próximo da Paz. Por que se desentendem, vivem descompassados Raças e Povos? Porque não se lembram do metrônomo que guardam no peito: o coração...”

   A guerra da Coréia continuou até 27 de Julho de 1953. Morreram cerca de três milhões e meio de pessoas. O tratado de paz ainda não foi assinado. A Península Coreana continua dividida em Norte e Sul...

João Pessoa, 1951

domingo, 6 de dezembro de 2009

A menina que amava o herói do mangá japonês

   Chegada auspiciosa no hotel de Wuping. Jovens enfileiradas nos esperavam. Vestidas com jaquetas e pantalonas, em vermelho mandarim. Cabelos atados estilo Maria Chiquinha. Mãos estendidas em direção ao topo da entrada. Um homem, com ar de autoridade, nos esperava no lobby. O interprete anunciou com a devida cerimônia: “Prefeito Xie Zhong, Condado de Wuping, Município de Longyan.” Os demais membros do entourage foram apresentados perfunctoriamente. Nomes próprios precedidos pelo titulo funcional. Cartões de visita em Chinês e Inglês, entregues com ambas as mãos. Pequeno discurso de boas vindas, com o tradicional chá de jasmim. Havia uma reunião no saguão às 22 horas, para um banquete em nossa honra. Comunicaram que tínhamos uma agenda extensa para cumprir em três dias... “Descansem!”

   Observamos uma estatua de Mao Tsé-Tung em frente ao hotel. A primeira que havíamos visto na Província de Fujian, o berço da revolução. Decidimos visitar uma livraria. Próximo ao hotel, encontramos uma muito boa. Aparentemente todos os títulos eram em Chinês. Mostramos um calendário para a vendedora, apontamos para a estátua na praça. Pedimos dois com os dedos. Gesto negativo, fora de estoque! Duas meninas e uma adolescente vestida em traje esportivo, bola de basquete nas mãos, nos observavam atentamente. Frustrados, estávamos saindo quando a adolescente acenou para voltarmos. Dirigimo-nos a uma salinha no mezanino. Uma verdadeira mina de pôsteres, calendários e estatuas de Mao Tsé-Tung. Memorabilia revolucionária a preços módicos, made in China...

   Nosso descanso foi interrompido pelo som da campainha. Casal chinês com uma adolescente à porta. Cheios de sorrisos, gestos amistosos. Tentando comunicar-se com as mãos. Observamos que a adolescente carregava vários livros e uma folha de papel com a palavra “slam-dunk”, como se esperando alguém no desembarque do aeroporto. Reconhecemos então nossa amiga da livraria. Chamamos à recepção, nos informaram que os visitantes queriam nos presentear com livros para aprender Chinês. Infelizmente, todos estavam escritos em caracteres “hànzì”. Aceitamos os presentes de qualquer maneira. Despedimo-nos.

   Mencionamos a visita da família durante o banquete. Elogiamos a adolescente por sua hospitalidade, atitude simpática e dedicação ao esporte. Queríamos presenteá-la com uma camiseta da NBA e pôsteres da Michael Jordan. O prefeito reagiu entusiasticamente. Comprometeu-se em entregá-lo. Escrevemos “slam-dunk” no guardanapo e mostramos sua foto digital. A única informação que tínhamos... Enviamos o presente aos cuidados do Prefeito, retornou vários meses depois. Endereço incompleto... Um ano depois, nos encontramos com o Prefeito de Wuping, na cidade de Longyan. Informou que a nossa adolescente, ou “slam-dunk”, seria homenageada como a estudante modelo do distrito escolar, nessa ocasião entregariam nosso presente.

   Recentemente, encontramos em uma livraria uma publicação de nome “Slam-Dunk.” Consultamos uma jovem universitária que estava comprando uma revista semelhante. Explicou-nos que se tratava de um mangá, desenho em quadrinhos japonês, traduzido para o Português. Formato popular mundialmente. Ao contrario dos gibis ocidentais, a leitura dos mangás é feita da direita para a esquerda, do fim para o inicio, como em escrita japonesa. O desenho conta a historia de um adolescente chamado Sakuragi Hanamichi. Rejeitado por mais de cinqüenta garotas no ensino fundamental, decidiu reverter sua sorte no primeiro ano do ensino médio. Conheceu uma jovem chamada Haruko Akagi, que fez a pergunta que iria mudar seu destino. “Você gosta de basquetebol?" Entrou na equipe da escola para eventualmente conquistá-la. Uma longa história, um final feliz?...

   Recordamos imediatamente da adolescente chinesa, que nos presenteou com livros, ao mesmo tempo em que nos mostrava a expressão “slam-dunk”. Assumimos então que se tratava da famosa jogada dos craques da NBA, porque portava uma bola de basquetebol. Motivo que levou sua cidade a homenageá-la por sua dedicação ao esporte. Infelizmente, só agora viemos a descobrir o equívoco. A adolescente de Wuping provavelmente queria trocar livros em Chinês por edições do mangá “Slam-Dunk.” Publicação difícil de encontrar na China, devido a sua origem japonesa e tendência capitalista.

  A Haruko Akagi de Wuping, nossa “estudante modelo”, era fruto de um conflito de geração e cultura. Nada mais...

China 2003

domingo, 29 de novembro de 2009

Cinco personagens a procura de um apartamento barato

   Earle Hotel, esquina Sul da Washington Square com a Fourth Street Oeste, cidade de Nova Iorque. Famoso por seus ciclos de pobreza e luxo; artistas e acomodações baratas. Joan Baez escreveu uma canção inspirada em Bob Dylan, seu ex-amante, anos depois de sair do hotel. "Diamonds & Rust... Agora você está sorrindo para o exterior daquele hotel vagabundo. Na Washington Square...”

   Mudamos para o hotel, logo após a nossa chegada. Hotel de segunda classe. Aluguel barato. Local pitoresco. Ancoradouro perfeito para pessoas em trânsito. Artistas, emigrantes recém-chegados, pessoas recebendo amparo social, veteranos da guerra do Vietnã. Muitas histórias. Ninguém queria ser ninguém... Residentes antigos, sempre sentados nos sofás do lobby, observavam os recém chegados. Olhares de soslaio. “Você sabia que Bob Dylan morou no quarto 302?” Nossa chave! Olhamos para o recepcionista, com um sorriso incrédulo. Não desistiu. “Despejamos o outro Dylan, Dylan Thomas, muito barulhento... Michelle e John, dos Mamas & Papas, escreveram a canção “Twelve-thrirty” no 5-0-7.” Cantarolou uma estrofe: “Eu vivia na cidade de Nova Iorque. Tudo lá era escuro e sujo. Do lado de fora da janela havia um campanário, com um relógio sempre mostrando 12:30...” Ah! Pagamento de um mês adiantado. Não era aconselhável fumar cigarro na cama. Qualquer cigarro! No parque é melhor, mais seguro. Concordamos. A cidade estava em declínio total...

   Grupo de residentes conversando animadamente ao redor de uma mesa na praça. Dois jogavam xadrez intensamente. Todos fumando. Cigarro apagado na boca contemplava a cena. Alguém ofereceu um fósforo acenando com a mão. Um convite. Apresentações rápidas: Mieczyslaw. Cineasta polonês. Lançando um filme de longa metragem (cinco horas!), no mercado americano. Sua esposa, Elektra. “Sou uma lésbica.” Pausa. “Nasci na ilha de Lesbos, Grécia.” Profissão, atriz. Roy, texano, obeso. Comediante stand-up. Imitava objetos inanimados. Maiores sucessos: carburador, liquidificador e cortador de grama. Fritzie, esposa de Roy. Alemã Oriental. Técnica de enfermagem em clinica de metadona. A única pessoa do grupo com meios visíveis de renda. Apresentamos-nos. Silencio geral... Fomos aceitos no grupo. Não sabíamos por que...

   Informamos ao grupo que a prefeitura municipal havia disponibilizado apartamentos, com aluguel controlado, para artistas. Todos olharam ansiosamente na nossa direção. Artista? Falaríamos sobre o tema depois. Aquele dia, Mieczyslaw havia nos convidado para uma exibição privé da sua obra prima, “Elektra em Lesbos”. Cinco horas de poemas declamados em grego arcaico. Um coro trágico, acompanhado de lira e timbales. Elektra correndo aleatoriamente por lugares da ilha. Lésbica em Lesbos. Pálida. Nua. Mostrando uma generosa cobertura de pelos pubianos. Talvez, uma concessão à modéstia. Dez garrafas de vinho Mateus depois... Aplausos. A avant-première, um grande sucesso. Emocionado, Mieczyslaw pediu a palavra. Propôs que fossemos o líder e o redator dos dossiês para o projeto de aluguel controlado...

` Enquanto trabalhávamos inventando um perfil de artista, Poeta, algo inusitado aconteceu. Fritzie engravidou, sem seguro de saúde. Voltaram para Dallas. Elektra fugiu com um ex-adicto haitiano. Babalaô e tocador de maracás. Mieczyslaw após ingerir várias garrafas de Mateus, decidiu ser carpinteiro, sua verdadeira vocação. Partiu em direção à Califórnia. Continuamos o projeto. Um livro de poesias, Trilogia do Earle Hotel: “A vista de uma janela grávida com um ar-condicionado, Ventos poeirentos da minha tristeza e Ferrovia com dormentes indígenas”. Colecionamos mais de 120 cartas de rejeição, em dois meses. Um dia, recebemos 50 dólares de uma revista literária de Nova Orleans. Haviam aceitado uma poesia...

   Manuscrito, cartas de rejeição, fotocopia do cheque da revista. Nosso dossiê. Declamamos vários poemas da Trilogia. A examinadora perguntou, com ar de preocupação: “... estava deprimido quando escreveu a trilogia?” Respondemos, “não, foi pura inspiração”. Outra pergunta: “tem alguma profissão não poética?” Afirmamos com um gesto cheguevariano, “não, venceremos! Primeiro a Nova Orleans, depois o Premio Pulitzer”. O comitê debateu nossa petição por meia hora. Chamaram-nos de volta a sala. Entregaram um contrato de aluguel controlado. Aprovado. Mudamos no dia seguinte. Apartamento de dois quartos, Perry Street, 114, 54 dólares por mês. Ocupante: poeta desempregado...

Nova Iorque 1969

domingo, 22 de novembro de 2009

Pavana para todas as crianças...

    Algo novo aconteceu na Conceição, rua famosa no bairro pelos desfiles dos blocos carnavalescos. Um cortejo triste acompanhava um ataúde azul. Caixão de anjo. Decorado com uma grinalda simples e um ramo de palma. Choro abafado de uma mulher jovem, pálida, frágil. A mãe de Severino. Vestida de negro. Protegida por todos. Adultos falando baixinho, sussurrando, como se não quisessem acordar a criança. Homens tristes arrastando os pés. Curvados. Os fundos de suas calças quase tocando a parte posterior dos joelhos. Rua poeirenta, sem calçamento. Descobrimos então que nem todo anjo tem asas. Simplesmente voam. Noites sem dormir, nem o leite quente funcionava. Imaginando o anjo bem longe, no céu azul. Ainda não entendia a imensidão da perda.

Santo Anjo do Senhor...

   Choro de bebês. Uma sinfonia de dor. Médicos e enfermeiras fazendo anotações rápidas nos prontuários. Chorando alto e “gritando”; alimentação e sono pobres; diarréia; tremores... A mãe estava bem longe. Enfermaria especial. Vultos brancos partindo apressadamente. Uma enfermeira ficou examinando a lista das crianças. Sorrindo timidamente, como se em “rêverie”. Ouvindo de repente um choro sadio, brigão, de um nova-iorquino de verdade. Vai sobreviver! Olhou mais uma vez na direção das crianças. Outro dia no Harlem Hospital.

meu zeloso guardador...

   Hospital de campo, enfermaria pediátrica. Crianças resgatadas de uma zona de guerra, Província de Chokwe, Moçambique. As irmãs do hospital realizavam troca de plantão. Paulatinamente, como se em piloto automático. Rotina vital. Na parede externa da enfermaria, um relatório estatístico com a situação de saúde das crianças e óbitos. Vinte e cinco crianças em estado grave. Malária cerebral, HIV, disenteria e kwashiarkor. Voltamos no final da tarde. Olhamos as estatísticas. Muitos nomes haviam desaparecido. Deram alta? Uma irmã fez o sinal da cruz, pausadamente. Olhou para o céu, como se dizendo: Perdoe-nos, Senhor, tentamos tudo... Respondeu finalmente, “... não, foram para o céu...”

já que a ti me confiou à piedade divina...

   Um ataúde branco no centro de uma sala. Uma grinalda arranjada com pressa. Uma menina, uma recém nascida. Viveu e lutou muito para viver um pouco mais. Lembramos do casamento dos pais. Dia feliz, bem longe de hoje. Imaginamos os planos que haveriam feito. Quantas vezes sonharam com a criança do ataúde. Ah, quantos planos... Lembramos da felicidade da jovem mãe quando a encontramos em um supermercado. Conversando alegremente, segurando o ventre, como se estivesse ninando o bebê. A expectativa de continuar a vida. A palavra mãe estampada no seu rosto bonito, o conforto da realização de um sonho...

sempre me rege, me guarda...

   O avô perdido na imensidão da dor. Pai consolando a filha. Louvando-a, “minha filha é muito forte...” O abraço apertado do pai da criança, como se quisesse ficar eternamente colado a uma pessoa humana. Todos olhavam. Nenhuma pergunta ou comentário. O pequeno ataúde dizia tudo. Familiares, amigos, colegas dos pais. Movíamos em silêncio. Como a criança olhando o cortejo do anjo da Rua da Conceição.

me governa e ilumina...

   Cantarolando baixinho a “Pavane pour une infante défunte” de Ravel. Não tinha nada a ver com morte ou lamento. Nome escolhido por aliteração. Título melodioso e poético. Música divina. Confortante. O padre encomendava o corpo e a alma da criança, com a eloqüência daqueles que têm uma fé profunda na magnificência de Deus. O perfil da mãe. Camafeu de uma mulher nobre. Olhos fixos na terra. Pássaros barulhentos sobrevoando a cena. Cães ladrando. Distantes. O ruído das pás raspando o chão. Os últimos grãos de terra. As rimas do poeta alagoano, Jorge da Cunha Lima, ressoando nas trevas da dor. Da dor de todos nós.

“Essa pavana é para uma defunta

infanta, bem-amada, ungida e santa,

e que foi encerrada num profundo

sepulcro recoberto pelos ramos...”

   O anjo, simplesmente, voou. Em direção ao céu.

   Amém...

João Pessoa 2009

domingo, 1 de novembro de 2009

A Rainha Vermelha e as janelas quebradas...

   - Bem, na nossa terra, responde Alice, ainda arfando um pouco, geralmente você chegaria a algum outro lugar... se corresse muito rápido por um longo tempo, como fizemos.

   - Que terra tão pachorrenta, comentou a Rainha. Pois aqui, como vê, você tem que correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar.

   Diálogo no episodio de encontro de Alice com a Rainha Vermelha, no livro Através do Espelho, de Lewis Carroll.

   A vítima não era um homem comum. Torturado com choques elétricos, com a precisão e a crueldade dos carcereiros da prisão de Abu Ghraib. Uma pessoa de certa notoriedade. Músico, compositor e empresário. Outra vítima, uma pessoa desconhecida. Nome estranho. Tatuagem no torso nu, queimado. Uma maca no chão. Profissão, nenhuma. Estado atual, apenando. Vitima de seus companheiros. Não era considerado uma pessoa, dentro ou fora da instituição. Adquiriu certa notoriedade no corredor do hospital. Posando inconsciente para as câmeras dos celulares de estranhos. O fotografo anônimo dizendo aos vizinhos e família, “a foto é minha!” João Pessoa perdeu a inocência. Somos vitimas, ricos ou pobres. Tema transversal...

   Fomos o ultimo pais a entrar na crise e o primeiro a sair. Perguntamo-nos: Por que nos sentimos tão mal, quando estamos tão bem? Por que planejamos tantas soluções e ainda tratamos o problema de segurança, como uma emergência súbita? Por que nossas cidades estão implodindo? Por que ganhamos os Jogos Olímpicos e estamos perdendo as ruas? Uma das possíveis respostas talvez seja a Teoria das Janelas Quebradas.

   A teoria argumenta que pessoas são mais inclinadas a cometer crimes, em ambiente de desordem. Atos antissociais, como urinar ou cruzar fora da faixa de pedestre nas ruas; uso de drogas ilícitas ou bebidas alcoólicas em publico; mendicância agressiva ou pichação de paredes e monumentos, quando tolerados, estimulam as pessoas cometerem outras violações da lei. Baseia-se num experimento realizado por Philip Zimbardo, psicólogo da Universidade de Stanford, com um automóvel deixado em um bairro de classe alta na Califórnia. Durante a primeira semana, o carro não foi danificado. Após o pesquisador quebrar uma das janelas, o carro foi completamente destroçado e roubado por grupos de vândalos, em poucas horas. Algo semelhante ocorre com a delinquência, com o crime urbano.

   Qualquer pessoa trafegando nas ruas da nossa cidade é confrontada por uma verdadeira legião de suplicantes, pedintes, meliantes e oferecedores de serviços de estacionamento ou lavagem de veículos, cujo propósito principal aparenta ser compensação por não danificar ou deixar outros avariarem sua propriedade. O publico geralmente encara essas atividades como pura chantagem social. Elas ocorrem na luz do dia. Muitas vezes na presença de policiais. Não é necessário procurar por nossas janelas quebradas. Elas nos saltam aos olhos...

   Cadeirantes ora na esquina da Beira Rio com a Avenida Juarez Távora, ora no semáforo da junção da Beira Rio com a Rua Macionila da Conceição, bloqueiam uma das faixas para pedir esmolas aos motoristas. Todos aposentados por invalidez, pelo INSS. Cruzamentos com menores pedindo dinheiro ou tentando lavar pára-brisas. Vários carregam parafernália para o uso de drogas. Alguns são veteranos nas páginas policias. São reconhecidos prontamente pelos motoristas. Menores coletando lixo e dirigindo carroças de tração animal, precariamente. Crianças dormindo ao relento ou nas marquises de prédios públicos. Todos os dias novos programas são anunciados por diversos setores governamentais. Os problemas persistem. Aparentemente ninguém faz nada ou nota as janelas quebradas...

   Continuamos reagindo, esperando que um crime aconteça para tomarmos as “providências cabíveis”. Solução parecida com a rainha de Alice, “... cortem-lhe a cabeça!” Pouco se fala de prevenção, de uma atuação mais integrada da policia, do ministério publico, educadores e a sociedade civil, como uma força tarefa, na mediação e resolução pacifica de conflitos, nas escolas e comunidades. O governo perdeu o controle das ruas. As janelas continuam sendo quebradas. O possível impacto do objetivo pretendido pela bolsa-escola é nulificado pela “bolsa-crime” ofertada por criminosos, como incentivo para o cometimento de atos ilícitos. A mudança-zero persiste...

   O galo cantou. A Rainha Vermelha ficou no mesmo lugar...

domingo, 25 de outubro de 2009

Sim, todos nos podemos...

   O inventor e industrialista, Alfred Nobel, criou o Premio Nobel da Paz com caracteristicas próprias. Um reconhecimento as pessoas e organizações envolvidas em um processo de resolução de problemas, mesmo que ainda não tenham alcançado seus objetivos. Implicito na escolha do homenageado, uma mensagem dupla de incentivos e desafios. Como se dizendo, o mundo aprova suas ações. Estamos com você...

   O debate sobre a escolha do Presidente Obama, gerou controvérsia em todas as regiões do globo. Nos Estados Unidos, as reações dos acólitos de Dick Cheney; do reacionarismo saudosista da Fox Cable Network e dos chamados neoconservadores, não é surpresa. O ressentimento acumulado, devido às políticas socioeconômicas liberais e multilateralistas do presidente, é profundo. Enquanto isso, o mundo respira aliviado com a saída de George W. Bush. A mensagem de esperança de Obama contagiou o eleitorado, o levou a Casa Branca. O prêmio é um incentivo para transforma-la em realidade.

   Fomos privilegiados em nossa vida profissional por haver trabalhado com pessoas que, como Presidente Obama, foram distinguidos com o Prêmio Nobel da Paz. O reconhecimento não passou despercebido por aqueles que não entediam ou simplesmente, questionavam a decisão por razões puramente pessoais, às vezes profundamente ideológicas. Criticaram o prêmio da Madre Teresa (1979) porque a consideravam uma “assistencialista”, não questionava porque muitas pessoas viviam na exclusão. Oscar Arias Sanchez (1987) recebeu o prêmio logo após lançar seu Plano de Paz. Chamaram a escolha de prematura. O Presidente da Nicarágua caracterizou o trabalho de Arias como uma farsa. Nelson Mandela e o Presidente Frederik de Klerk compartiram o prêmio de 1993, por trabalharem juntos pelo fim do regime de apartheid, por uma democracia multirracial. O comitê norueguês foi criticado por aqueles que consideravam o Congresso Nacional Africano, como uma organização terrorista ou viam o presidente sul-africano, como um resquício do regime racista de apartheid.

   O Prêmio Nobel demonstra que a busca da paz não é algo fácil, instantâneo ou de aceitação universal. Todos ganham, mas, muitos perdem com a paz...

   Madre Teresa nos convidou um dia para visita-la em Nairóbi, no Quênia. Precisava urgentemente de ajuda para seus pobres. Um milhão de pessoas vivendo em extrema pobreza em Kibera, uma favela que se tornou famosa no filme “O Jardineiro Fiel”. Necessitavam de comida e medicamentos. Explicamos que teríamos que elaborar um projeto formal. Ela respondeu com firmeza, “meus pobres não podem esperar, tenho certeza que o senhor vai conseguir algo imediato”. Não era um comando. Um apelo à consciência humana. Contatei os representantes dos países doadores, com muita fé e vigor. Dias depois, tínhamos mais de quatro mil toneladas de alimentos e medicamentos garantidos. E ainda não acreditamos em milagres... Madre Teresa contribuiu para o entendimento e a ressurreição da solidariedade, entre pessoas e povos. Muito mais do que um tratado de paz.

   Presidente Jimmy Carter recebeu o prêmio em 2002. Convidou-nos para participar de uma reunião extraordinária do Internacional Negotiations Network. Uma convocação massiva envolvendo partes representando mais de vinte conflitos internos ou problemas bilaterais, em todos continentes. Sua proposta era simples: um grupo de experts e mediadores se reuniriam, com as partes de cada conflito, para ajuda-los a encontrar um “chão comum”. Havia nos convocado como especialista sobre a situação angolana. Nosso grupo encontrou pelo menos quarenta pontos de convergência, entre os dois lados. Não chegamos à paz. Avançamos um pouco mais na sua direção.

   A ONU foi uma das organizações mais criticadas no começo do Milênio. Muitos questionavam sua legitimidade e viabilidade da organização na resolução de disputas, promoção da paz e o desenvolvimento. A recusa dos Estados Unidos em pagar suas contribuições enquanto demandava sua reorganização, havia enfraquecido o sistema multilateral, a ponto da quase total ineficiência. O Secretário Geral, Kofi Anan, colocou a revitalização e reforma da ONU na cabeça da lista das prioridades mundiais. Em 2001, recebeu o Prêmio da Paz por seu esforço e em nome dos funcionários da organização. Incluímos-nos com muita honra e orgulho entre aqueles que receberam esse Nobel.

   Um dia diremos em uma só voz: sim, nós podemos!

Suécia 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

Os brasileiros que levaram a Bahia para a África...

   Conhecemos Emmanuel em um bistrô na cidade de Lomé, a capital do Togo. Era amigo do músico que tocava um korá (instrumento senegalês), para os clientes da casa. Dizia-se ser um “Brésilien”. Um brasileiro de verdade, meu irmão. Julguei que fosse um fã do futebol brasileiro. Um fato comum na África. Jantar encerrado, assunto encerrado. Ainda não sabiamos nada sobre os brasileiros da África Ocidental. Aqueles que Gilberto Freyre dizia ser “baianos”...

   Meses depois, um grupo de ganenses visitou nosso escritório em Acra, Gana. Diziam-se “Brazilians”. Queriam convidar-nos para participar de uma celebração na comunidade brasileira. Agradecemos o convite em Português. Éramos brasileiros, afinal de contas... Silencio geral. Nenhum deles entendia o idioma. Explicaram que eram “Tabom”, descendentes de escravos deportados do Brasil, após a Revolta dos Malês em 1835, na Bahia. Sabiam poucas palavras em Português, dentre elas, a expressão “tá bom”, que deu origem ao nome de comunidade brasileiro-ganense conhecida como Tabom.

   Um oficial da Embaixada Brasileira confirmou que havia um grupo de ganenses que se identificavam como brasileiros. Apareciam na embaixada de vez em quando, com convites para festas ou pedindo coisas do Brasil. “... Não falam Português...”, afirmou. O entusiasmo dos Tabom contrastava com a indiferença do funcionário. Ambos aguçaram nossa curiosidade.

   A diáspora afro-brasileira na África concentra-se principalmente em quatro países do Golfo da Guiné; os agoudas de Benin (antigo Dahomei); Nigéria; Togo e o os Tabom de Gana. Todos são descendentes dos 10.000 escravos retornados ou deportados do Brasil no século dezenove - antes e depois da Abolição. Sobrenomes como Souza, Silva, Cardoso, Fernandes, Câmara, são encontrados nas elites nacionais. Cozido, feijoada e acarajé, introduzidos pelos retornados, ainda hoje são servidos na região.

   O mais rico e famoso dos afro-brasileiros, Francisco Felix de Souza, era baiano, filho de um português e uma cafuza. Chegou ao forte de São Batista da Ajuda (Uidah), Benin, em 1812. Era um traficante de escravos. Convenceu os chefes tribais, que era melhor vender seus prisioneiros como escravos, do que decapitá-los. E foi assim que conseguiu ser nomeado o primeiro Chachá do Dahomei, uma espécie de vice-rei responsável por relações comerciais e estrangeiras. Usava casamentos para forjar alianças. Casou-se mais de 50 vezes, teve 80 filhos e 12.000 escravos. Quando faleceu aos 95 anos, deixou uma herança estimada em US$120 milhões de dólares.

   Em Togo, outro baiano, Francisco Olympio da Silva, também filho de um português e uma cafuza, se converteu em um dos homens mais ricos e influentes, traficando escravos para o Brasil. Foi iniciado no trafico na casa de comercio de escravos do seu tio, Cesar Cerqueira Lima, membro de uma família influente da Bahia. O primeiro presidente de Togo, após a independência da França, foi Sylvanus Epiphanio Olympio, um descendente direto de Francisco.

   A chegada dos Tabom em Acra em 1836 foi diferente. Abordo de um navio fretado pelos ingleses. Todos eram islâmicos, deportados do Brasil. Conhecedores de práticas agrícolas, cultivaram manga, mandioca, feijão e outros vegetais. Demonstraram ser bons pedreiros, marceneiros, alfaiates e trabalhadores com metais preciosos. O Chefe Supremo da Tribo Ga, reconhecendo o valor dos brasileiros, pôs a disposição deles as melhores terras e locais de comércio próximos ao porto. Os Tabom vivem e trabalham, desde então, nesses locais. Tivemos o prazer de ter uma roupa costurada por um alfaiate Tabom, descendente da família Norton da Bahia.

   Nos últimos anos, o Governo Brasileiro tem feito um esforço para abraçar os “Brazilians”. A página web de Embaixada do Brasil apresenta muitas informações sobre o povo Tabom e eventos na área brasileira de Acra.

   Em 2006, o Presidente Lula visitou o atual Chachá de Benin (Dahomei). Declarou na ocasião que: “... O Brasil deve muito ao povo africano. Homens e mulheres livres, neste Continente, eram escravizados e vendidos para as Américas. E lá, com o seu sofrimento e o seu trabalho, ajudaram a construir o meu país. Mas não adianta agora ficar apenas chorando o que aconteceu no passado, é preciso pensar em construir o futuro...”

   Olha, diria meu amigo Emmanuel, parece que agora tudo aqui “tabom” demais...

Gana 1980

domingo, 11 de outubro de 2009

O homem que roubava jornais para Nelson Mandela

   Punhos irados se abriram, mãos se estenderam. Havia chegado a hora de construir uma nova África do Sul.

   O ano de 1989 foi o começo do fim de um sistema de leis racistas, que institucionalizaram desigualdade e segregação racial na África do Sul, por quatro décadas. As leis de apartheid, ou seja, “separação” ou “identidade separada”, impuseram a dominação da minoria branca, descendentes de colonos holandeses e britânicos, sobre pessoas pertencentes a outros grupos étnicos, majoritariamente à população negra.

   O embargo internacional, a desvalorização do ouro e da moeda nacional, ativismo político nas cidades e nas ruas, haviam quebrado a espinha dorsal do regime. O Partido Nacional não tinha mais como assegurar o domínio e o desenvolvimento contínuo da economia, em favor da população branca. O desemprego, a herança mais nociva do sistema de apartheid capitalista, afetava todos os grupos, direta ou indiretamente. O presidente sul-africano Pieter Botha deu o primeiro sinal. Reuniu-se oficialmente com Nelson Mandela, o presidente do Congresso Nacional Africano (ANC), para organizar os preparativos para sua libertação. Mandela cumpria pena de prisão perpétua desde 1964. O novo presidente, F. W. de Klerk, aboliu o sistema de apartheid, libertou os prisioneiros e legalizou os partidos banidos, em Fevereiro de 1990. Nelson Mandela propôs uma constituição multirracial, criando uma nova África do Sul, de todos, para todos.

   A população excluída, através de clubes de poupança informal, chamados de “stokvels”, mobilizava recursos para atividades econômicas, como única forma até 1990. Uma contribuição mensal fixa. Amigos, parentes ou vizinhos, todos iguais. Devido às restrições racistas e à pobreza do povo, paróquias católicas formaram pequenas cooperativas de crédito, geralmente dirigidas por párocos. Um muro branco. Uma folha de parreira. Na Cidade do Cabo, uma associação de cooperativas, conhecida como SACUL, funcionava no Bureau de Assistência Social da Igreja Católica (CWB). Prestes a fechar as portas em 1991, devido à inadimplência, falta de poupança, ou reservas. Só uma mudança drástica poderia salvar a organização. Kwedi Mkalipi, ex-prisioneiro político, foi nomeado o primeiro presidente laico.

   Os doadores queriam mudanças imediatas. Um negócio totalmente aparte das paróquias. Fixamos os parâmetros da reforma, reestruturação e modernização. O movimento cooperativo canadense mobilizaria o capital. Tudo concordado. Negócio concluído. Despedimo-nos. Notei então, um fato curioso. Os jornais e revistas que havia trazido comigo, haviam desaparecido.

   O perfil profissional de Kwedi Mkalipi não era de alguém capaz de liderar uma cooperativa. Esteve encarcerado por vinte anos na Prisão de Robben Island, por atividade antiapartheid. Libertado em 1985, após cumprir sua pena. Seu grupo, o Congresso Pan-africano (PAC), se opunha à criação de uma constituição multirracial. Tinham um slogan “uma bala para cada branco”; propunham expulsá-los do país. Não era membro do ANC de Mandela.

   Encontramo-nos com Nelson Mandela em Harare. Sua primeira visita ao Zimbábue. Discutimos um programa para a capacitação profissional e retorno dos guerrilheiros desmobilizados da ANC para a África do Sul. Propusemos a SECUL como uma das fontes de microcréditos para os ex-combatentes que quisessem abrir seus próprios negócios. A menção do nome Kwedi Mkalipi, causou uma reação entusiástica em Nelson Mandela. Lembrou dos tempos que haviam estado juntos na prisão. “Ele era nosso ladrão dos jornais dos carcereiros...” As publicações eram usadas como material didático na universidade informal, criada para educar os prisioneiros. Kwedi Mkalipi havia se formado em História e Khosa, o dialeto tribal de Nelson Mandela. Textos racistas, para fomentar uma mentalidade multirracial...

   Meses depois, Kwedi Mkalipi nos visitou em Harare. A situação financeira da SECUL havia melhorado substancialmente. Estabeleceram contato com os ex-combatentes. Formaram parcerias. Um homem sem rancor. Com a mentalidade de todos a bordo. Não havia tempo para revanchismo. Precisavam criar uma sociedade justa, multirracial. As balas para os brancos não eram mais necessárias, a “guerra” havia terminado...

   Conversamos longamente sobre seus dias na prisão. Depois do nosso jantar de despedida, notei que meus jornais novamente haviam sumido...

África do Sul 1991

domingo, 4 de outubro de 2009

Uma boneca chamada Victoria...

   Cidade do México, 19 de setembro de 1985, 07:19 horas da manhã. A população foi surpreendida por um terremoto, com uma magnitude de 8,1 graus na escala Ritcher. Os prédios do centro da cidade, cerca de um terço destruído; 10.000 mortos e 30.000 feridos, em 50 segundos. Energia, água e comunicações estavam totalmente comprometidas. Pouca ou nenhuma informação circulava. O Governo impôs um blecaute de 39 horas, em todos os noticiários, ninguém sabia de nada. Ninguém tinha uma resposta, nem o Governo. Ar poluído, cheiro de morte, medo e a tristeza mais triste desde a “Noche Triste” de Montezuma. O Partido Revolucionário Institucional (PRI), no poder desde 1929, era o recurso de primeira instancia para toda e qualquer necessidade. O associativismo acontecia livremente, desde que fosse dentro do contexto partidário. “Ditadura perfeita”, nas palavras do escritor peruano Mario Vargas Llosa. O terremoto expôs as chagas profundas da armadura do sistema

   Foram destruídas mais de 1.200 fábricas e ateliês de costura. As costureiras trabalhavam horas extras sem compensação, como se nenhuma lei trabalhista existisse. Contribuições previdenciárias e sindicais eram descontadas, nunca depositadas. Haviam sido retiradas mais de 150 costureiras mortas, em uma das fábricas. O resgate descobriu os patrões em ação, salvando equipamentos e demolindo o que restou das estruturas. Não pararam um minuto para investigar se alguma trabalhadora estava nos escombros. O mercado conspirava com o setor público. Indiferentes.

   Reunidas em frente de uma fábrica em escombros, um grupo de mulheres. Cena típica do momento. Repetindo-se em quase todas as esquinas. Ataúdes de pinho empilhados na calçada. Altares improvisados com flores, copos de leite, sempre frescas, honravam a Nossa Senhora de Guadalupe. Umas preparavam comida na calçada, outras entrando e saindo nos escombros. Mãos calejadas, ensanguentadas. Procuravam suas companheiras. Tristeza, sofrimento, solidão. Não se ouvia música. O silencio, esta canção sem letra, falando de tudo...

   O país havia chegado ao divisor de águas entre o patrimonialismo do PRI e o associativismo livre. O efeito da catástrofe foi além da destruição. Diante do povo, estava um governo ineficiente, corrupto, incapaz de organizar um programa de resgate e reconstrução. A cidadania renasceu, na tragédia das forças incontroláveis e inesperadas da natureza. Um ato de Deus, seguido por um ato do povo...

   O domínio do PRI, seus agentes e correligionários, sob todos os aspectos da vida social e econômica do país era real, quase insuperável. Necessitavam conquistar novos espaços. Empoderar grupos da sociedade civil, para tomada e realização de ações. A Sociedad Cooperativa Mexicana de Confección “19 de Octubre”, formada pelas costureiras do bairro “Colonia Obrera”, foi um dos primeiros grupos. Apoiadas por advogados e organizações de direitos humanos, descobriram provas das práticas ilegais trabalhistas. Exumaram arquivos soterrados nos escombros. Localizaram fichas de produção e cartões de ponto. A cooperativa apresentou as evidências ao Tribunal do Trabalho, com uma demanda de indenização. Os proprietários alegaram insolvência, se diziam também vitimas do terremoto. Ofereceram o prédio da fábrica, com os equipamentos ainda operacionais, como compensação. A proposta foi aceita.

   Elaboramos com as costureiras, planos para recuperar e viabilizar a fábrica. Asseguramos apoio financeiro não-reembolsável, com doações recebidas das comunidades católicas norte-americanas. Quase tudo estava resolvido. Um pequeno detalhe... As sócias estavam desempregadas. Faltava uma atividade econômica para sobreviverem até a inauguração da fábrica. As costureiras apresentaram uma alternativa. Artistas plásticos mexicanos foram mobilizados, para desenhar bonecas. Todas se chamariam Victoria. Seriam fabricadas pela cooperativa e vendidas ao público, para angariar dinheiro. As bonecas foram exibidas pela primeira vez no Museu Carillo Gil, na Cidade do México, no dia 14 de Dezembro de 1985.

   A fábrica começou a funcionar em Abril de 1986, fabricando jeans para Yves Saint-Laurent.

   Regressamos ao México em 1996. Missão de apoio técnico e logístico da ONU, a observação eleitoral cidadã. Uma coligação de quinhentas organizações, representando todos os segmentos da sociedade civil mexicana, nossa contraparte durante o período eleitoral. Entre as organizações presentes, as muitas mães da boneca chamada Victoria...

México 1985

domingo, 20 de setembro de 2009

Sivuca, eu e a Brisa

    Encontros e reencontros. A complexidade de escrever sobre uma amizade de mais de meio século, não escapa a estas linhas. Às vezes, longe de tudo que nos unia por parentesco. No meio do nada. Um lugar obscuro, uma esquina do mundo. Duas paralelas em busca do infinito - lugar comum.

   Começou em 1949, começou em um ano feliz. Minha primeira irmã havia chegado. Tínhamos um radio novo. Música e choro de menina se misturavam numa sinfonia doméstica. Nosso primo, Sivuca, o “diabo louro da sanfona”, era um dos favoritos do radio. Ah! Vassourinhas, quantas vezes te ouvimos... Apareceu um dia na nossa porta, com uma sanfona a tiracolo. ”Gazo”, bem diferente. Talvez até um pouco tímido. Depois do jantar, tirou a sanfona do estojo, começou a tocar. Dedos deslizando no teclado e nos baixos, com a graça e leveza de colibris. Joãos e Pessoas debruçadas nas janelas, empilhadas em frente da porta, em pequenos grupos na rua. Ouviam em silencio, atentos. Fechou a sanfona tão rápido quanto a abriu. Aplausos, risos, abraços. Sivuca havia ladrilhado nossa rua com pedrinhas de brilhantes...

   Aparecia e desaparecia, subitamente. O único rastro que ficava era de musica. A tristeza nordestina do “Adeus Maria Fulô”. João se despedindo de Maria. A caminho da Terra Prometida. Embarcou para a Europa em 1958, com um grupo chamado “Os Brasileiros”. A imprensa falava de apresentações triunfais na Europa. Em cartaz no Cine São Luis, um novo filme francês, O Diabo e os Dez Mandamentos, com Alain Delon, Mel Ferrer, Fernandel, Charles Aznavour, Lino Ventura, Danielle Darrieux. O Diabo Louro apareceu tocando sanfona. Música para os anjos, pour les amants, todos nós. O ano era 1962. Abriu o show de Marlene Dietrich, em Estocolmo. Meses depois, ela cantou “Luar do Sertão”, em Português, no Copacabana Palace.

   Conversamos horas sobre a situação; a falta de liberdade artística no Brasil; suas experiências na Europa. “... por isso no Bar Savoy...” O clima era asfixiante no Recife de 1964. Passaram-se semanas. Festa em casa de um amigo americano; pequena caminhada até a beira mar. Aceitou um convite da cantora Carmen Costa, para acompanhá-la nos Estados Unidos. Marcamos um encontro em New York. Viajou sem despedir-se...

   No palco do Hollywood Palladium, a cantora Miriam Makeba pediu silencio, encarou o publico e anunciou freneticamente, “... and from Brazil, Si-vu-ca… in the guitar, accordion and...“ Um grito primal rasgou o silêncio... Um solo. A voz humana sendo usada como um instrumento, improvisando ritmos e melodias. “Scatting” na terra de Ella Fitzgerald, em 1968. O público de pé, aplaudindo, gritando, assoviando. Estávamos de mudança. Segui para San Francisco, ele em direção da África de Miriam Makeba.

   Reapareceu em 1969. Historias sobre as aventuras e os perigos da jornada. Uma noitada com Miguel Arraes, no exílio da Algéria; apresentações em palácios presidências; um concerto na Tanzânia para os guerrilheiros do movimento de Nelson Mandela. O musical “Joy” estreou em San Francisco. Alegria para um povo dividido pela guerra no Vietnã. A Palhaçada de Miltinho virou o “Nothing but a fool!” de Oscar Brown Junior. O palhaço só falava Inglês...

   Encontramo-nos em New York em 1970. O musical “Joy” estava em um teatro off - Broadway. Um crítico escreveu, que ele [Sivuca] “... será mais conhecido como um gênio que toca piano, acordeão e guitarra... como alguém, que para todo mundo, soa como um instrumento humano quando “scatting”, junto com um solo em um dos seus instrumentos...” Fez uma turnê mundial com Harry Belafonte. Shows na televisão com Julie Andrews; gravações com Astrud Gilberto, Hugh Masekela, Paul Simon, Bette Middler, entre outros. O rei da colina, no topo da lista. Passava no apartamento com sua guitarra. Sempre tocava uma canção de Johnny Alf, chamada Eu e a Brisa, “... Ah, se a juventude que esta brisa canta. Ficasse aqui comigo mais um pouco...”

   Partiu para o Brasil em 1976, sem despedir-se. Tinha pressa. O inesperado havia feito a surpresa que tanto esperava... Segui para a África, anos depois. Nossas linhas se cruzariam no começo do milênio. Havíamos voltado para o Brasil; Sivuca, eu e a Brisa.

João Pessoa 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

As pirâmides nos caminhos das Marias

    O momento de contemplação e reverencia provocado pela visão das pirâmides, durante o pouso, desaparece rapidamente. Caos é o que impera no trajeto do aeroporto ao hotel. Motoristas agressivos, rudes; de questionável destreza. Dirigem sem demonstrar qualquer interesse. Nosso carro foi avariado em três lugares. Ninguém havia parado ou perguntado... Nosso motorista inspecionou o carro, um gesto de descrença bem ensaiado. “Maálesh!”, sem problema... Levantou as mãos para o céu em suplica. “Inshallah!". Resolvido. Assim aprendemos o vocabulário necessário para sobreviver às situações que nos esperavam.

   O Egito do novelista Naguib Mahfouz é uma mistura de convulsões sociais e políticas; mudança e continuidade. Dicotomia que nos acompanharia por quatro semanas. Visitávamos projetos de melhoria das condições socioeconômicas das comunidades de cristãos cópticos. A Igreja Copta é a maior comunidade cristã no Egito, data do ano 61 D.C., quando São Marcos introduziu o Cristianismo.

   Carrocinhas precárias, puxadas por burros, coletam quase um terço do lixo do Cairo. Mais de 2.500 toneladas diariamente. Os catadores de lixo, de trinta a quarenta mil pessoas “vivendo do lixo”, chamados de “zabbaleen”, na maioria cristãos cópticos, vivem ou trabalham em verdadeiras pirâmides, lixões de quase três pisos de altura. Os homens coletam, as mulheres e crianças separam. Uma população marginalizada por seu status de minoria, pela inobservância de costumes islâmicos, como a criação e consumo de carne suína e contato direto com matéria orgânica. Prestando um serviço importante a uma sociedade que os marginaliza. Vivendo a paradoxal situação da pobreza universal, sem fronteiras.

   Financiaríamos projetos de saúde materno-infantil, controle de hepatite e melhoria da situação da mulher. Quase todos em parceria com a fundação da Irmã Emmanuelle. Religiosa belga, cujas ações eram comparáveis como às de madre Teresa de Calcutá. Os zabbaleen estavam preocupados em perder o “negocio do lixo”, para firmas multinacionais. Asseguramos apoio financeiro para a formação de pequenos negócios, cooperativas e profissionalização.

   Partimos do Cairo em direção de Assyut, no sul do vale do Rio Nilo. Levamos conosco o odor do lixo, até o fim da viagem. Visitaríamos comunidades cópticas, localizadas ao longo da rota usada pela Sagrada Família, quando fugiram da persecução do Rei Herodes... em um burrinho. Assyut é a cidade de maior concentração de cristãos cópticos no país. Venerada por cristãos e mulçumanos, por ter abrigado a Sagrada Família, por mais de três anos em uma gruta, num lugar chamado Dronka.

   Iríamos visitar um projeto para verdureiras, nas proximidades de Dronka. Uma delas chamava-se Mariam. Maria em Árabe. Já havia recebido e pago três empréstimos. Era a historia de sucesso que procurávamos...

   Uma casa simples, construída em adobe. O teto liso, sem telhas, servia para secar grãos, frutas e matéria orgânica usada como combustível no inverno. Na porta, notamos uma mesa feita com uma tabua apoiada em duas latas. Continha apenas três pirâmides de tomates. Parecia uma expressão modesta para evitar a inveja. Olho gordo! A soleira não estava em nível com o piso. Um muro de meio metro de altura bloqueava a entrada, por trás, uma jovem mulher, Mariam. Rosto bonito, mal cuidado... Explicamos o propósito da visita. A expressão na face mudou. Ira nos olhos. Fez um gesto de desrespeito com a mão esquerda. Gritando, parecia enlouquecida a nos mandar embora. Varias mulheres se aproximaram. Vociferavam em direção a Mariam. Mais sinais de desrespeito. Uma batalha de tomates começou, As pirâmides desapareceram. Mariam fechou a porta. Batemos em retirada. As mulheres nos seguiram iradas...

   Qual a causa da disputa? Mariam havia vencido, nos explicou o interprete. Cresceu de verdureira a micro-empresaria. Vivia só, o marido era um zabbaleen no Cairo. Seus desafetos temiam que ela tomasse seus maridos, por ser afluente; outras a acusavam de mau exemplo para suas filhas e de comportar-se como homem. Um inferno na terra. Uma mistura de mudança e continuidade... Decidimos partir. Uma mulher montada num burrinho passou silenciosamente, rosto virado na direção oposta. Mais uma Maria escapando dos seus algozes... Inshallah!

Egito 1987

domingo, 30 de agosto de 2009

Terra dos vikings, bêbados sóbrios, presidiários obedientes...

    “... Trate-me por Ishmael. Há alguns anos, não importa quantos ao certo, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas...” Também queria cruzar os mares, como o personagem de Moby Dick. As palavras agradavam meus ouvidos. Sempre as repetia em Inglês. Pondo certa distancia entre o lugar em que estava e o lugar em que queria estar. Um mantra. A única parte que não me agradava era o final da última frase. Eliminei “... das águas...”

   O Atlântico Norte me fascinava. Não estava seguro da razão. Talvez algo especial que havia aprendido com Dona Noêmi Marinho, a professora de geografia, ou nas Vinte Mil Léguas Submarinas de Julio Verne. Não importava quem havia sido, nem quando. Atravessamos juntos todos os oceanos. Viagens de Leif Erickson, e do seu pai, Erik, o ruivo. Capitão Nemo. Monstros marinhos. Sereias. Ilhas desconhecidas. Terras exóticas... Sempre em terra firme, com a roupa seca. Sem dar um passo.

   Manhattan, 1972. Uma brincadeira entre colegas de trabalho, entediados com a burocracia. Um desafio pessoal. Aceitei. Vendaram meus olhos. Um empurrão gentil dirigindo-me ao mapa mundi na parede. A ponta do dedo indicador tocou na Groenlândia. Terra! Iniciamos os preparativos da viagem, imediatamente. Contatamos agencias de viagens, companhias de aviação. Impossível viajar à terra verde dos Vikings. “... Que tal a Islândia?...” Alguém perguntou. “... É quase a mesma coisa, fica perto de lá...” Concordamos. Promessa feita, promessa cumprida. Viajaria para Reykjavík na semana seguinte. Em busca de algo que me interessasse em um lugar pouco interessante, aparentemente. Onde as noites não existem no verão...

   Passaria a primeira semana em Reykjavík. Comecei minha visita pelos museus e galerias de arte. Excelentes coleções de arte nórdica. Edifícios com arquitetura arrojada, talvez um pouco minimalista. Confortáveis. Lugar fácil de flanar. Limpo. Povo educado. Cheirando a civilização. O relógio mostrou que era noite. Fui ao pub do hotel. Praticamente vazio. Um americano solitário. Conversamos amigavelmente. Parecia frustrado. Falou que estava escrevendo algo sobre o sistema penitenciário. Na sua primeira visita, final de semana, encontrou os portões dos presídios abertos. Os presidiários só regressariam na segunda-feira. O garçom permanecia desatento à conversa. Falou baixinho, “... não servimos bebidas alcoólicas depois das 22 horas. Só nas sextas-feiras e sábados...” era domingo.

   Sexta-feira chegou. Uma manhã agradável passeando pela cidade. Um banho relaxante na piscina térmica, 40°C. Bacalhau fresco regado com umas tantas taças de Chablis, para o almoço. Recuperando-me das surpresas do dia. O Presidente era um dos banhistas na piscina. Sozinho. Um homem comum desfrutando o sol do verão. Descobri também que a Islândia era o único país do mundo onde a população inteira acreditava em gnomos.

   Pronto para enfrentar a noite de Reykjavík. Uma lista de bares e clubes na mão, cortesia do jornalista americano. Fiquei no primeiro. Uma banda de rock and roll tocava freneticamente. Todos bebiam como se a noite fosse a ultima sexta-feira das suas vidas. Aquavit queimando minha garganta. Obstruía qualquer tentativa de pensamento racional. Convidei alguém para dançar. Chamava-se Sigdur, a filha de Benedito. Movemo-nos involuntariamente para o miolo do dancing. Ficamos lá. Prisioneiros da multidão inebriada que nos cercava. Gente alta, energética. Péssimos dançarinos... A música parou. Fim de festa. Ofereci-me para levar Sigdur até à casa. Não respondeu logo. Olhou para mim como se estivesse bêbado ou talvez maluco. Estava... Falou sobriamente, “... não dirigimos quando bebemos...”. Os carros ficam estacionados; as chaves na ignição.

   Caminharíamos em direção da sua casa, cerca de cinco quilômetros do clube. Juntamos-nos a uma multidão de réveilers. Cantavam músicas profanas ou heróicas. Outros solfejavam algo irreconhecível. Talvez uma tentativa de individualidade? Um pensamento aleatório e uma pergunta: temos algum presidiário aqui? “Não”, respondeu Sigdur. “Eles permanecem em casa durante o final da semana. Desfrutam de suas famílias...” Alguém pediu que eu cantasse algo do Brasil. “... Você pensa que cachaça é água?...”. Sucesso total. O sol brilhava no céu. Dia ou noite. Não importava...

Islândia 1972

domingo, 23 de agosto de 2009

A moça bonita na janela do casarão da 1817

   O Liceu, o Ponto de Cem Reis e o Pavilhão do Chá eram as pontas do Triângulo das Bermudas que naveguei na minha juventude. Perdia-me nele todas as tardes. Longe dos olhos que pudessem estranhar minha ausência das aulas, no meio do dia, de vez em quando. A jornada diária começava em frente do relógio do Liceu. Nunca voltava.

   Descia a ladeira em direção a Lagoa. Um lago mágico, rodeado de cores e possibilidades. Um cigarro ou um trago longo, dependendo do que restava da compra no fiteiro. Enchia os pulmões de ar, como se estivesse fazendo yoga. Um suspiro seguido da expressão ah, l’ennui! Repetindo a palavra mágica que havia aprendido no livro de G. Mauger, Cours de Langue et de Civilisation Française. Uma síntese perfeita do meu estado mental. Das contradições da minha juventude. Estava prestes a ser reprovado em Francês...

   O Cassino, sempre cheio de velhos importantes e políticos, era terra incógnita. Passava rápido por lá. Caminhava até meu banco favorito, próximo aos bambus. Local discreto para gazear aula. Ler um livro, sem pensar na minha nêmese, Monseigneur G. Mauger. Dar um beijo na namorada; o romance du jour. Os “bambus” era o meu espaço zen. Longe de tudo. Sonhando. Vivendo o duelo entre os personagens principais da Montanha Mágica de Thomas Mann. O italiano Settembrini apresentando-se ao personagem central do livro, o jovem Hans Castrop, como um humanista, portador das melhores tradições do Iluminismo e do livre–pensar. Seu rival, Naphta, um ex-jesuíta sisudo, dogmático. A encarnação viva da contra-reforma, da censura. Imaginava a professora de Francês como minha Naphta.

   Caminhava até a Rua Padre Meira. Parava atrás da “bomba de gasolina”, na esquina da Rua Diogo Velho. Um pequeno ato de rebelião de adolescente. Girava a manivela do barril de óleo, deixando o combustível escorrer sem controle. Satisfeito, atravessava a rua. Parava na calçada de uma casa com um cão enorme. Le grand chien! Desafiava o canino com pedrinhas de cascalho. A reposta era imediata. Não havia medo, estávamos atrás de grades. Subia a ladeira em direção ao Ponto de Cem Reis. O corpo pulsando com adrenalina.

   Chegava à esquina da Praça 1817. Começava os preparativos para minha dose diária de frisson. Sentia-me como um ator do estúdio de Lee Strasberg, antes de começar a representação da minha vida. Entrava totalmente no personagem, uma mistura de James Dean e “Moi”. Os cravos e espinhas desapareciam. A moça na janela me esperava. Um sorriso aparecia no seu rosto pálido ao notar minha presença. Não era um sorriso ambivalente, muito menos um de alegria, mas um sorriso melancólico, um sorriso que previa tristezas. As sobrancelhas formavam dois arcos perfeitos. Agitava-se. Parecia que saltitava atrás da janela. Passava. Não trocávamos uma palavra nem dizíamos adeus. Não importava os detalhes. A moça era uma visão.

   Sentava no meu banco favorito da Praça João Pessoa. Um escafandrista voltando à superfície. Evitando a descompressão rápida. Do outro lado da rua, o prédio do Jornal A União. Observava o vai e vem de homens com pressa, todos fumando. O odor nocivo das fundições dos linotipos invadindo a calçada. Alguns conversavam animadamente sobre uma matéria, um furo ou algo mais mundano. O chope da Casa dos Frios. Futebol. Mulheres. Um deles fumava um cachimbo distraidamente, sem pressa. O dono da esquina. Ah, l’ennui! Hora do sorvete no Pavilhão do Chá. Fim da viagem. Terra firma.

   Fui reprovado em Francês naquele ano. Não consegui lembrar o ultimo verso do poema “Chanson  d'Automne” de Paul Verlaine, na prova oral. A moça da janela desapareceu. Nunca mais esqueci.

   “... Et je m'en vais/Au vent mauvais/Qui m'emporte/Deçà, dela/Pareil à la/Feuille morte...”

João Pessoa 1956

domingo, 16 de agosto de 2009

Lucy, o diamante na Terra

   O adolescente nos observava atentamente. Cronometrando a duração da caminhada do carro até o pé da escadaria do edifício. Olhos grandes, rápidos. Mostrando a vivência prematura de um trabalhador infantil. Aproximou-se sutilmente. Um pequeno puxão na manga da camisa, seguido de uma saudação coloquial e uma pergunta. “... Selam!... Do you speak English?...” Respondemos que sim. Estendeu sua mão direita, o braço esquerdo dobrado para trás. As costas da mão tocando a parte lombar da coluna. Um sinal de respeito. Apresentou-se como Afework. Explicou que seu nome significava, em Amárico, “... aquele que fala de coisas prazerosas...” Ofereceu seus serviços de guia, contador de historias. Acertaríamos depois seus honorários. O aperto de mão havia selado o acordo.

   Subimos a escadaria juntos até o saguão principal do edifício. Estávamos no Museu Nacional de Arte da Etiópia. Explicou rapidamente o roteiro da visita. Começaríamos na coleção do primeiro andar: tronos, artefatos, esculturas, tabletes, roupas de todas as partes do país. Dois mil anos de história em menos de sessenta minutos. Seguimos para a galeria de arte moderna e tradicional, toda Etíope, no segundo andar. Uma coleção grande e de etnia diversificada. Caminhamos lado a lado, sem muita conversa, visitando todas as pinturas e esculturas. O guia não parecia confortável no millieu. Não perguntei, ele não disse porque. Uma pequena revelação no final da visita. Gostava um quadro chamado “Avó”, de um artista famoso da Etiópia. Não lembrava o nome. Descemos para o andar térreo.

   Pediu que seguíssemos até a galeria do subsolo. Não havia muitos objetos ou artefatos naquele piso. Um pouco distante da entrada, um mostruário horizontal de madeira. O objeto de maior relevo, bem iluminado. Sem avisar, Afework segurou minha mão. Falou baixinho, como se estivesse prestes a contar um grande segredo. Era um convite para visitar “nossa mãe”. Apontou para a figura dentro do mostruário e, em seguida, para uma placa com a descrição do conteúdo. Molde em gesso da ossada de uma fêmea. Hominídeo com um pouco mais de noventa centímetros de altura e menos de 30 quilos de peso, descoberta em 1974 em Hadar, na Etiópia. Teria vivido entre 3,9 e 2,9 milhões de anos atrás. O mundo a conhece como “Lucy”. Chamada assim pelo arqueólogo Donald Johanson, seu descobridor. No momento do achado, ouvia uma canção dos Beatles chamada “Lucy in the Sky with Diamonds”.

   Afework repetiu todas as informações da placa do mostruário. Fato após fato. Esclareceu que “Lucy” é conhecida na Etiópia como “Dinqinesh”, que significa “Vós arte maravilhosa”, em Amárico. A descoberta da ossada, 40% preservada, provou errada todas as teorias anteriores. Acreditava-se que nossos ancestrais só haviam começado a deambular em duas pernas, com o desenvolvimento do cérebro. Dinqinesh andava de pé, apesar do cérebro minúsculo. Maxilar, pélvis e pernas são humanas, sem nenhuma dúvida. A descoberta fez da Etiópia, o “Berço da Humanidade”. O lugar onde a raça humana tomou os primeiros passos da longa caminhada até o homo sapiens. Visita encerrada. Descemos a escadaria do museu. Entramos no jardim. Hora do ritual do café. Recapitulamos toda a visita. O guia estava feliz com seus honorários. Despedimo-nos. Um irmão mais velho correndo o mundo; outro, esperando crescer...

   A Etiópia é um país que todo mundo conhece pelas tragédias da fome e da guerra. As crianças esquálidas, com o olhar distante de quem tem fome. Quase um milhão de pessoas havia morrido, no inicio da década de 80, antes do mundo tomar nota da imensidão da tragédia humanitária no interior do país. Vítimas da indiferença, do cinismo da guerra fria, da nossa falta de respeito com os descendentes de Dinqinesh, nossa mãe. Ela, a arte maravilhosa, o diamante que desvendou a história da nossa espécie.

Etiópia 2005

Os sutiãs que aliviaram a pobreza das mulheres

   Andar em público com o torso descoberto, não é um tabu nas zonas rurais de Gana. As mulheres não devem mostrar as coxas e os quadris, que são cobertos por um short, vestido por baixo da saia. Cruzar as pernas é considerado um ato sensual e provocativo. Todas as meninas devem usar brincos para mostrar que são mulheres de verdade. A roupa da qual fazem uso, são em regra, cangas ou trajes artesanais. Quando convencionais, geralmente são importadas e de segunda mão, conhecidas na língua Akan, como “obruni waawu”. Uma tradução irônica da frase “roupa de defunto branco”.

   As mulheres de um grupo católico americano, após curta viagem de familiarização a vilarejos nas zonas rurais, estavam perplexas com a mostra dos seios entre as mulheres tribais. Todas tinham muitas perguntas a fazer. Queriam ajudar, não acreditavam que seios descobertos em publico era coisa cultural ou natural. A líder do grupo declarou enfática, “... só as católicas usam sutiãs... como é possível no século vinte?...” Outra declarou taxativamente, “... é pobreza!...” Prometeram angariar doações nas suas paróquias. Partiram. Perdemos o debate antropológico.

   Pouco mais de seis meses após a visita do grupo, a Alfândega nos notificou que um container com roupa feminina consignada à nossa organização, havia chegado. Abrimos o container. Descobrimos então que éramos beneficiários de uma montanha de sutiãs. Examinamos a doação. Detalhe, quase todos eram numero 32A. Tamanho geralmente usado por adolescentes americanas, como “sutiã de treinamento”. Chamamos as doadoras americanas. Informaram entusiasticamente que uma empresa havia doado um lote descontinuado de sutiãs, em troca de um beneficio tributário. Não sabíamos o que fazer. Consultamos as associações das mulheres dos vilarejos. A reposta foi imediata e clara, queriam os sutiãs. Adicionaram um pedido, se possível, doem o container também. Enviamos tudo.

   Poucos meses antes do fim da nossa missão em Gana, recebemos a visita de uma grande delegação de chefes tribais e lideres das organizações femininas, que foram agraciadas com o container de sutiãs. Souberam da nossa partida, queriam fazer uma homenagem especial. Não estávamos certos por que.

   Partimos para visitar os vilarejos. Os chefes nos asseguraram que seriamos recebidos com pompa e circunstâncias. Inauguraríamos uma creche, um poço d’água, uma debulhadora de cereais e um posto de saúde. Os vilarejos estavam em festa. Nunca haviam experimentado tanto desenvolvimento, em tão pouco tempo. Ainda não entendíamos por que éramos os convidados de honra. Começaram os discursos e libações. A palavra sutiã era mencionada frequentemente em conexão com o nosso nome. De repente, a verdade veio à tona.

   Após receber os sutiãs, as mulheres decidiram que não poderiam aproveitá-los. Pequenos demais. Alguém teve uma idéia brilhante. Converteriam os sutiãs em bolsas e as venderiam como importadas da America, no outro lado da fronteira, na republica de Togo. A moeda togolesa era garantida pela França e facilmente convertida em dólar americano. O design da bolsa era simples. Separavam os bojos do sutiã, bordavam e costuravam em forma de bolsa. Reutilizavam as alças. A etiqueta, o mais importante, “made in USA”, fixada no lado externo da bolsa. Um sucesso total. Venderam todas as bolsas, converteram o lucro em dólar americano e adquiriram bens e serviços que os vilarejos necessitavam. O povo decidiu as prioridades. Nem todos os sutiãs foram convertidos em bolsas. Reservaram alguns deles para ser usados pelas adolescentes, durante as visitas de estrangeiros e catequistas. Um doador feliz, sempre volta.

   As mulheres transformaram uma doação equivocada em um instrumento de desenvolvimento dos seus vilarejos, algo que programas de ajuda econômica não haviam logrado com todos seus experts e recursos.

Gana 1981

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

Crônica publicada originalmente no livro "Nem aqui, nem ali, nem acolá"

domingo, 9 de agosto de 2009

O tiroteio parou para o “big man” passar...

   Na primeira vez que chegamos ao aeroporto de Acra, tivemos a sensação que estávamos perdidos em uma viela da Babilônia. Lugar barulhento. Uma cacofonia de sons, línguas e dialetos incompreensíveis. Pessoas de estaturas e portes diversos usando todas as combinações de cores e trajes, possíveis e imagináveis. O aroma pungente de azeite de dendê no ar. Música ao vivo, sempre acompanhada por dançarinos calçando tênis ou havaianas de segunda mão. Doleiros e carregadores assediando todos passageiros, ninguém escapava.

    O retorno em 1981 foi diferente. Havia ocorrido um golpe de estado no Réveillon. Jerry Rawlings, um tenente aviador e quatro companheiros haviam derrubado o governo civil, eleito há um ano. O povo estava frustrado com a corrupção penetrante e a inércia do governo em controlar a inflação. Interrompemos nossas férias no Brasil. Voltamos imediatamente para Gana. Era necessário organizar um programa de ajuda humanitária de emergência, para mitigar os efeitos da falta de alimentos e remédios em todo país.

   Tudo havia mudado ao chegarmos. Nossa aeronave foi escoltada por vários veículos blindados até o terminal. Soldados armados entraram e silenciosamente examinaram os documentos, as faces e a bagagem de mão de cada passageiro. Três longas horas de silencio. O calor quase insuportável. Desembarcamos. A cor verde-oliva predominava. O aroma de azeite de dendê mais forte agora. Os soldados tinham fome.

   O país estava em crise, às prateleiras vazias. As únicas mercadorias disponíveis nos supermercados eram preservativos, pulseiras de relógio e latas de espaguete made in Bulgária, com data de vencimento de anos atrás. Na rua, um verdadeiro cabo de guerra entre os soldados, açambarcadores de secos e molhados, operadores no mercado negro e contrabandistas. A palavra “kalabuli”, corrupção no dialeto Akan, explicava tudo.

   Programa de ajuda humanitária organizado. Era hora de cuidar das nossas próprias necessidades. Dirigimos-nos a Lomé, na vizinha republica de Togo, para comprar alimentos e outras necessidades básicas. Saímos cedo, para não violar o toque de recolher. O primeiro sinal de problema aconteceu no meio do caminho. De repente, ouvimos o estampido seco e contínuo de metralhadoras Kalashnikov, vindo de ambos os lados da estrada. Olhei inquisitivamente para meu motorista. E agora, Jacques? Não respondeu. Empurrou a mão na buzina, aumentou a velocidade e dirigiu-se diretamente a área do tiroteio. As armas silenciaram. Atravessamos a junção, o combate recomeçou. Quando estávamos distante do local, gritei: “... você está maluco? Quer nos matar?...” Respondeu tranquilamente: “buzinei para intimidá-los, para dar a impressão que alguém importante estava no carro. Os soldados quase sempre decidem cessar fogo para evitar a possibilidade de matar a pessoa errada, alguém importante...” Um “big man”, em qualquer país da África, é considerado algo mais letal do que a bala de um soldado da facção inimiga. Quando os elefantes brigam, o capim sofre, assim dizem.

   Lomé era como um enorme supermercado. Tudo importado. Baguettes diretamente de Paris, no vôo da Air France. Terminamos nossas compras rapidamente. Tínhamos que atravessar a fronteira de volta em tempo de chegar a Acra, antes do temido toque de recolher às 18 horas. Tudo havia mudado no local do tiroteio. Mulheres vendiam frutas, refrescos e bolos de mandioca. Música no ar. Nenhum vestígio de combate armado, de mortos ou feridos. Vários soldados passeavam entre os civis, fazendo compras, flertando com as moças. Tinham fome. Fuzis a tiracolo, apontando para o chão. Silenciosos. Perguntei a uma vendedora o que havia passado no local pela manhã. Deu um olhar furtivo na direção dos soldados. Ofereceu um bolinho de mandioca com peixe seco ao molho de dendê. Com um sorriso afável sugeriu, “obruni” - estrangeiro branco, você tem uma longa jornada adiante. Deu um muxoxo, encolheu os ombros com indiferença e falou baixinho, “Kalabuli”!

Gana 1981

domingo, 2 de agosto de 2009

Astronautas que gostavam de feijoada, na terra

   Os rotores do helicóptero pararam. A porta da aeronave abriu. Três homens saíram. Vestidos com ternos escuros, gravatas sem atenção à moda. Passo preciso, postura ereta de militar. Auto-suficientes, porta-terno na mão. Movimentos e palavras curtas. Eficientes. Homens acostumados a entrar e sair de aeronaves. A fazer grandes coisas em espaços pequenos. Eram astronautas.

   Esperamos os passageiros na zona segura, longe das hélices da aeronave. Heliporto de Manhattan. Os homens eram Wally Schirra, Donn F. Eisele e Walter Cunningham, tripulantes da nave Apollo 7. O comandante, Wally Schirra, apertou minha mão e apresentou os demais. Com o sorriso e jovialidade do astronauta, que o mundo conhecia como o rei das pegadinhas espaciais. A tripulação do Apolo 7, sob seu comando, ficou famosa pelos pequenos shows de televisão que faziam diariamente enquanto orbitavam a terra. Cheios de graçinhas, mostravam cartazes com mensagens humorísticas e educavam os telespectadores, com informações sobre o vôo e o espaço. Receberiam um Emmy especial por estas transmissões. Os acompanharia até o Carnegie Hall, local da apresentação do prêmio.

   Na limusine, ambiente descontraído. Felizes e honrados em receber o prêmio. Conversa vai, conversa vem, o Brasil entrou no assunto. Creio que Wally Schirra, comentou que havia estado no Brasil. Adoro “f-e-i-j-o-a-d-a brasilieira”. Os demais também já haviam provado feijoada, no Brasil ou em restaurantes nos Estados Unidos. Conversamos sobre outros tópicos brasileiros, carnaval e Copacabana. Falamos da marchinha de carnaval feita em homenagem a Yuri Gagarin, o primeiro homem no espaço.

   “... Gagarin, subiu, subiu. Foi até o espaço sideral, chegou perto da lua e sorriu, vou embora pro Brasil que o negocio é carnaval...”

Após traduzir a letra, risos. Nenhuma possibilidade de pensar em carnaval no espaço, muito menos em feijoada. Flutuando, com o metabolismo quase em zero. A história teria sido diferente, se Gagarin houvesse comido feijoada antes do seu vôo. Chegamos ao Carnegie Hall, na hora certa. Despedimos-nos. Aperto de mão firme, tapinha no ombro, o riso amplo de Wally Schirra, transformou-se rapidamente em uma gargalhada. Confidenciou com um suspiro, ah! f-e-i-j-o-a-d-a... Oh, boy!

Wally Schirra Jr converteu-se no quinto americano a viajar ao espaço, no dia 3 de outubro de 1962. Tinha então 39 anos de idade. Pela primeira vez na história, transmitiram uma mensagem ao vivo do espaço através do rádio e da televisão. Foi o único astronauta que participou em todos três programas espaciais, Mercury, Gemini e Apollo. Perguntaram sobre seus pensamentos quando o foguete Titan do Gemini 6 apresentou falha na ignição, antes de partir. Encarou o problema filosoficamente, lembrando que o modulo espacial, o foguete e tanques de combustível “... foram construídos pela oferta mais baixa...” da licitação do governo. Ajudou a resolver o problema. Era piloto, voou em direção à sua meta, como sempre.

   Faleceu na Califórnia em 2007, após uma longa luta contra o câncer. Em um dos seus pronunciamentos,    Wally Schirra falou, “... Deixei a terra três vezes. Não encontrei nenhum outro lugar para ir. Por favor, cuide da nave espacial Terra...”

Ao chegar a Brasília no dia 2 de agosto de 1961, o cosmonauta russo Yuri Gagarin comentou: "A impressão que eu tenho é a de estar chegando a um planeta diferente". Quem sabe, talvez tenha comido sua primeira feijoada no Rio de Janeiro, na Casa das Pedras do paraibano Drault Ernani.