NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 21 de junho de 2009

O mundo passou na janela e José Costa não viu...

    O narrador da novela Budapeste, de Chico Buarque de Holanda, é um “ghost-writer” chamado José Costa. Um escritor especialista em escrever livros para terceiros sem poder mencionar seu nome. Totalmente acostumado a viver no anonimato, nas sombras. Sua chegada a Budapeste, foi graças a um pouso imprevisto, “quando voava de Istambul a Frankfurt”, regressando de uma convenção de escritores anônimos. Ficou na cidade, passando mais de quatro meses num bom hotel sem ter dinheiro para pagar. Não trabalhou um dia. Eventualmente, conseguiu aprender húngaro, com a ajuda e a inspiração de Kriska, sua amante. Uma grande façanha, visto que o húngaro é tão difícil de aprender que, segundo a tradição local, só o Diabo aprende. Enquanto vivia na Hungria, José Costa alternou entre sua esposa, Vanda, no Rio de Janeiro e Kriska, em Budapeste. Um homem anônimo vivendo a novela venezuelana da sua vida. A cidade descrita por José Costa é vazia, cinzenta, desumana. Para ele, em Budapeste “... a realidade eram os passeios na ilha de Margit com suas atrações domingueiras, os aqualoucos do Danúbio, as corridas de carneiro, as marionetes eslovenas, o coral dos ventríloquos...” Nada mais.

   Vivemos três grandes paixões pela Hungria. Na infância, um disco de 45 r.p.m com uma gravação de Csárdás, magistralmente tocada por George Boulanger. Na juventude, a destreza e competência de um futebolista chamado Ferenc Puskás, temido até pela Seleção Brasileira. Mais tarde, o mistério do “cubo” de Kubrik, que até hoje não consiguimos resolver. Tudo essas coisas fazem de Budapeste, o espelho e o reflexo de um povo chamado Magiar.

   Budapeste é o resultado da união de três cidades, em 1873. Buda abriga o Palácio Real e as Termas Gellért. Peste concentra o Parlamento, a Ópera, a Basílica de São Estevão e os tradicionais cafés. A terceira é Óbuda. Buda e Peste são separadas pelo rio Danúbio e ligadas por suas lindas pontes. Um passeio à noite na margem do Danúbio, admirando a iluminação da Ponte das Correntes e a arquitetura, é um bom começo. Charles Baudelaire descreveu um flâneur como “... uma pessoa que caminha pelas ruas de uma cidade para experimentá-la...”. Peste é o paraíso dos flâneurs. Budapeste é Velho Mundo. Sua grandeza e herança cultural legitimam sua merecida designação como Patrimônio de Humanidade.

   A cidade oferece oportunidades diversas para relaxar, curtir a noite, ou simplesmente visitar uma galeria de arte. As operas são excelentes e os vinhos da região de Tokaj-Hegyalja, uma grata surpresa. Seja qual for sua opção, permita que a curiosidade seja seu guia. Os banhos romanos, principalmente o Szechenyi, são ornados, limpos e rejuvenescedores. Butiques na Rua Kiraly com roupas de design arrojado, vendidas a preço de mercado pulga. Os belos museus, que não custam um cêntimo, dão a cidade o status de ser sofisticada, moderna e velha ao mesmo tempo.

   O cenário musical de Budapeste vai de Liszt e Bartok ao Anima Sound System. Os concertos de verão são ao ar livre na Praça Erzsebet ter, a favorita da cidade. A discoteca Klub de Godor, também localizada na praça, oferece uma repertorio variado, de rap cigano ao jazz. O Piaf Klub é ideal para quem gosta de algo mais tradicional, sem pressa de chegar cedo, a melhor parte começa depois das três da manhã.

   Depois de uma noitada, nada melhor do que café da manhã no Muvesz Kavehaz, fundado há mais de um século. Do outro lado da rua, o novo café Callas, traz uma atmosfera de Art-Deco para a praça em frente da ópera da Hungria. O café serve uma excelente combinação a preços módicos.

  Assim é Budapeste.

“... Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou nosso barco partiu/ Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela...” e só Jose Costa não viu...

Hungria 2009

domingo, 14 de junho de 2009

Os pratos voadores da familia Kennedy

   A colonização portuguesa em Angola durou mais de quinhentos anos, terminou em 1975 após a queda da ditadura em Portugal. Com a saída dos portugueses, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), tomou o controle das principais cidades do país. Estabeleceu um sistema unipartidário e uma economia estatal baseada no modelo do Leste Europeu. Os problemas econômicos se agravaram, o mercado negro floresceu. Os intermináveis combates com a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), o movimento rival do MPLA, forçaram a realização de uma reforma aproximando o país à economia de mercado, em 1985. Após abandonar o marxismo-leninismo em 1990, o governo intensificou negociações com a UNITA. A guerra civil dividia e empobrecia o país. Terminou em 1991, quando concordaram na promulgação de uma constituição multipartidária. A Esperança Sagrada do poeta-presidente da Angola, Agostinho Neto, o primeiro mandatário da Angola, parecia estar mais próxima, em mais de quinhentos anos.

   Amanhã/entoaremos hinos à liberdade/quando comemorarmos/a data da abolição desta escravatura/Nós vamos a busca de luz/Os teus filhos Mãe/(todas as mães negras/cujos filhos partiram)/Vão em busca de vida...

   Luanda em 1991 era uma colméia de delegações governamentais, bancos multilaterais, companhias de exploração de petróleo e diamantes, empresários da construção cível e ONGs. Verdadeiro sarapatel de interessados e desinteressados em ajudar o país. Nos Estados Unidos, o Partido Democrata, liderado pelo Senador Teddy Kennedy, fazia um intenso lobby para a reaproximação com o governo da Angola, um dos seus parceiros mais importantes na área de exploração de petróleo.

   Michael Kennedy, o filho mais velho de Bobby Kennedy, após observar as eleições de 1991, se converteu em um ardente partidário da reconciliação com o governo da Angola. O jovem Kennedy era presidente da Citizens Energy Corporation , uma empresa petrolífera norte-americana sem fins lucrativos. Uma delegação liderada por ele e sua mãe, a viúva de Bobby Kennedy, Ethel , visitaram as organizações católicas. Definiram as necessidades urgentes dos projetos da igreja Católica, no país. Nessa ocasião, nos comunicaram que os Kennedys e associados doariam medicamentos, sapatos, roupas e brinquedos para crianças pobres, aos cuidados das missões católicas. Concordamos então, que serviríamos como ponto central de logística e apoio administrativo, para a distribuição das ajudas dos Kennedys.

   Meses após nossa reunião, nos informaram que vários containeres com as doações, haviam chegado em Luanda. Um deles, quase totalmente cheio de “frisbees”. Um brinquedo em forma de disco, geralmente feito de plástico com diâmetro entre 20 a 25 centímetros. Seu formato permite o vôo quando são lançados em rotação. Era popular nos campi das universidades norte-americanas. Uma irmã católica aceitou a doação em nome da igreja. Chamava-se Michelle, creio. Projeto concluído, caso arquivado.

   Um ano depois, recebemos uma chamada do editor da seção “Rir é o melhor remédio” das Seleções Reader’s Digest. Queriam verificar uma historia que haviam recebido sobre uma doação de “frisbees”, na Angola. Mencionaram que haviam obtido um copia, de uma carta da Irmã Michelle, agradecendo a doação dos Kennedys. Continha uma observação interessante, sobre pratos voadores: Eles são ótimos, disse, estamos muito gratas. Talvez as empresas que os doaram, possam melhorar seus lucros vendendo os pratos como brinquedos. Eles são difíceis de usar como pratos, porque são côncavos e as crianças preferem utilizá-los como brinquedo. Voam quando arremessados. É mais divertido, assegurou. Consultei nosso diretor. Ele sugeriu que eu não nos lembrassemos da doação. A revista nunca publicou a história. Não conseguiram obter as três fontes, para confirmar a veracidade da informação, como de praxe.

Michael Kennedy morreu em Aspen, Colorado, em um acidente de ski em 1997, aos trinta e nove anos de idade. Seu sonho de paz na Angola não foi realizado até o dia 04 de abril de 2002. As relações entre os Estados Unidos e Angola se normalizaram.

Angola 1991

Maratona de degustação de frango com castanhas de caju

   Quando da primeira viagem à Republica Popular da China, decidi revisitar um pouco da história, cultura e a culinária do país. Queria evitar, a todo custo, os infames problemas digestivos ou gafes protocolares que ocorrem durante uma visita oficial ou excursão turística. Descobri imediatamente que, devido sua enorme diversidade, seria praticamente impossível aprender algo substantivo em poucas semanas. A culinária chinesa reflete uma complexa mistura de culturas, regiões e etnias, com sabores e estilos diferentes, conhecidos como as Oito Grandes Tradições. As opções de comida são tão diversas, cada cidade, por pequena que seja, apresenta sua própria versão. As refeições são servidas em pequenos bocados e na etiqueta à mesa, é perfeitamente aceitável por de volta ou mesmo cuspir no prato, algo que você não goste ou que só queira degustar uma pequena porção.

   Além das variações nos ingredientes usados, as traduções dos cardápios de Chinês para o Inglês são incompreensíveis. Tão confusas que o governo ordenou novas traduções dos nomes de mais de 2.000 pratos, antes da Olimpíada de Beijing em 2008. Nos Estados Unidos, o problema é contornado com cardápios “prá americano ver”, com números específicos para cada prato. O mesmo acontece no Brasil.

   O destino era a Província de Fujian, no Sudeste da China, que além de ser uma das mais prósperas, também abriga monumentos históricos declarados patrimônio da humanidade pela UNESCO. Mao Tsé-Tung foi reconhecido como o líder máximo da revolução chinesa, em Janeiro de 1930, em Fujian.

   Em 2003, a província e os municípios queriam aumentar suas exportações através de projetos financiados por organismos e bancos multilaterais. Os temas a serem abordados nas nossas palestras seriam: “Como fazer negocio com a ONU” e os “Princípios do Pacto Global da ONU”.

   O prefeito da cidade de Longyan e os das outras cidades, no fim da missão, nos honram com um banquete típico. A mesa, circular e giratória, estava totalmente coberta de iguarias e bocadinhos, em todos os tamanhos e formas. A conversa era animada, com clima de missão cumprida. O prefeito anunciou intempestivamente que, os municípios haviam concordado em convidar-me para fazer novas conferências. Convite aceito. Em seguida perguntou o que poderiam oferecer de especial da culinária chinesa na próxima visita. Depois de um momento de pânico e busca mental no cardápio de um restaurante chinês, declarei meu prato favorito ser o “number twenty-six, chicken with cashews” (numero vinte e seis, frango com castanhas de caju), por não lembrar de outra opção. O intérprete traduziu e todos tomaram nota da preferência gastronômica. Ah, um pequeno detalhe, odeio frango.

   No regresso a Longyan, seis meses depois, o programa de trabalho foi iniciado com um banquete homenageando o conferencista. A conversa girou em torno das perspectivas de novos negócios e de expansão das relações dos municípios da província, com seus homólogos da America do Sul. O Prefeito de Longyan pediu atenção e anunciou que serviriam algo especial para o convidado de honra. Suspirou profundo, como se estivesse prestes a fazer um mergulho acrobático, e anunciou em Inglês: “number twenty-six, please”. O banquete terminou com muitos elogios a nova experiência culinária. Nas oito cidades seguintes, fui surpreendido com versões locais do prato, sempre anunciado como “number twenty-six”, após cada conferencia. Foi assim que ganhei a maratona de degustação de frango com castanhas de caju na China, em 2004.

   Um detalhe final. A delícia culinária que introduzi aos meus anfritiões de Fujian chama-se- Gong Bao Ji Ding, sempre listada nos cardápio em Inglês da China como “Government abused chicken” (frango maltratado pelo Governo). A tradução correta é frango com castanhas de caju. Nos tempos da Corte, me explicaram, os galináceos eram submetidos a um regime especial antes de serem abatidos e cozinhados. Não tente entender as traduções, simplesmente ponha de volta no prato o que não gostar. Boa viagem!

China 2003