NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 26 de julho de 2009

Conflitos, rosas e “ciganos” na margem do Danúbio

   Começamos nossa jornada pelos Bálcãs na então Republica Socialista Federativa da Iugoslávia. O país era o pôster de uma região conflituosa, plena de contradições. Em dois mil e trezentos anos, o país já havia sido totalmente destruído quarenta e sete vezes. No século XIX, os socialistas alemães cunharam o termo balcanização para criticar as ações do czar da Rússia nos Bálcãs, quando este apoiou a formação de uma pluralidade de unidades políticas. Pequenas, separadas e hostis. Desde então, o termo é usado para descrever um modelo político estabelecido por uma potência externa numa determinada zona, para que esta pudesse influenciá-la decisivamente. O aforismo dividir para conquistar é uma tradução perfeita da expressão.

   O mundo ocidental estava completamente engajado em fortalecer relações políticas e econômicas, com o chamado “comunismo com uma face humana” do Marechal Tito ou de beneficiar-se diplomaticamente da “neutralidade”, professada pelo ditador romeno Nicolau Ceausescu. A comunidade internacional não tomava conhecimento dos pequenos sinais de conflitos entre etnias, religiões e subdivisões geográficas, que emergiam na região. Em 1973, os Bálcãs eram, mais uma vez, um desastre esperando acontecer.

   Atravessamos a Província da Servia, na Iugoslávia, em direção a Bulgária. Queríamos chegar ao famoso Vale das Rosas durante a colheita dos roseirais, dos festivais comemorando a estação. O vale produzia mais de 85% do óleo de rosa, usado mundialmente na produção de perfumes. O aroma das rosas permeava o ambiente. Mulheres adornavam suas tranças; os restaurantes ofereciam licores, geléias e compotas de rosas. Havia uma rosa para todo e qualquer uso, para toda ocasião. Partimos em seguida em direção aos monumentos históricos na fronteira com a Romênia. Nossa destinação final era a cidade de Drobeta-Turnu Severin, na margem esquerda do Danúbio, sul da hidroelétrica chamada “Portões de Ferro”.

   Na entrada da cidade, notamos uma fila de quase cem veículos de tração animal, todos estacionados na rodovia ligando a Europa com a Ásia. Tudo estava paralisado. Buzinas tocavam incessantemente. Vozes iradas repetiam a palavra tsigani, ciganos. O ar estava poluído por epítetos raciais e impropérios. Uma caravana de ciganos havia decidido acampar na rodovia, por tempo indeterminado.

   As cores brilhantes e o absurdo da situação nos inspiraram. Começamos a tirar fotos. Fomos cercados quase imediatamente por policiais uniformizados e um comissário político. Demandaram nossos passaportes. Tomaram nossas câmeras. Explicaram que os ciganos não eram parte da cultura ou da historia do país. Um grupo de vagabundos, ladrões. Queriam nos proteger deles. Eram perigosos. O comissário retirou os filmes das câmeras, expôs os demais à luz. Escoltaram-nos de volta ao veículo, com uma advertência enérgica contra qualquer contato com os ciganos. A situação não havia mudado. Muito longe de ser resolvida amigavelmente. Um dos lideres da caravana explicou os antecedentes do problema. O governo municipal não havia permitido que a caravana entrasse na cidade, ou acampasse na sua periferia. A história se repetia.

   O nome cigano procede da palavra “Gypsy”, já que os etnógrafos da época acreditavam equivocadamente que o povo Romani originava do Egito. Na verdade, vieram do Nordeste da Índia. Sua migração em direção da Europa começou no século V, expandindo-se no século XVI, depois da invasão da Índia pelos mulçumanos. Todos os países da Europa criaram leis discriminando os ciganos. Na Romênia, a escravatura de ciganos só foi abolida em1855. Os Nazistas exterminaram meio milhão de ciganos em campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Os países comunistas do Leste Europeu pós-guerra, os forçaram a participar em programas de assimilação forçada. Em 1979, a ONU finalmente reconheceu trinta e seis milhões de Romani, até então chamados ciganos, como um grupo étnico distinto, com seu próprio idioma, o romanês, sujeito a proteção internacional. O primeiro texto oficial da Igreja Católica dedicado aos Romani, ainda chamando-os de ciganos, foi publicado em 2007.

Romênia 1973

domingo, 12 de julho de 2009

Democracia.com

    O entusiasmo dos jovens por Barack Obama era contagiante. Faziam pequenas doações para a campanha pela internet; participavam de comícios e passeatas; debatiam com seus pares o mérito das plataformas dos partidos. Estavam totalmente engajados no processo democrático, voluntariamente. Quando mandavam noticias para os pais, o assunto era sempre o futuro; a necessidade de mudar tudo; a crise econômica que avançava sem controle. As conversas eram sérias, analíticas, esperançosas. Sem que a diferença geracional ou ideológica atrofiasse a discussão. A Internet e a mídia social haviam criado uma enorme reunião no país.

   Em novembro de 2008, recebi um e-mail do meu filho mais moço. Havia tirado um mês de férias do trabalho para participar, como um voluntário, na campanha de Obama na Virginia. Seu candidato necessitava dos votos do colégio eleitoral daquele estado. Uma meta complicada pela historia das relações raciais no Sul; a predominância de eleitores republicanos e a influencia da chamada direita religiosa na região. Sua mensagem era de esperança. Falava com orgulho e civismo de suas experiências, fazendo campanha de porta em porta em comunidades pobres, de baixa participação eleitoral. Um negro velho com mãos ásperas, deformadas por anos de trabalho braçal, abrindo a porta da sua casa para os jovens voluntários. Confessando orgulhosamente que estava votando pela primeira vez na sua vida. Uma mãe solteira, recebendo amparo social, morando com duas filhas em um trailer espremido entre duas linhas de trem, pedindo uma carona para o local de votação. As filhas levando os voluntários pela mão até outros trailers, mais pessoas necessitando transporte. Perderam-se varias vezes no labirinto de casas pequenas, mal construídas. Um carteiro apareceu e os orientou sobre as ruas, desvios, e caminhos da área. Não era um ato político-partidário. Um funcionário servindo a comunidade, os seus clientes.

   A eleição presidencial de 2008 foi diferente. Mais de 74% dos usuários da Internet, representando 55% da população adulta entraram online para envolver-se no processo eleitoral ou obter informações sobre as eleições. Segundo um estudo da Pew Internet, 46% do eleitorado americano usou a internet, e-mails e celulares para contribuir financeiramente para as campanhas; compartir opiniões e mobilizar apoio para seus candidatos. Não foram os jornalistas profissionais, apresentadores da TV, ou os grandes doadores que influenciaram o resultado do certame. Os blogueiros, grupos de afins, Facebook, Twitter, redes alternativas de noticias, a telefonia celular se transformaram nas principais fontes de discussão eleitoral no país. A mídia eletrônica e impressa, como sempre, expressou opiniões de “um para todos”. A mídia social obteve evidencia e expos fatos sobre todos os aspectos pessoais e profissionais dos candidatos, plataformas políticas e suas propostas sobre a crise econômica que emergia, sempre “de muitos para muitos”.

   Semanas depois das eleições, o país entrou na sua pior recessão econômica desde a Grande Depressão de 1929. O presidente eleito reagiu imediatamente. Comunicou-se diretamente com o povo, através dos canais da mídia social usados na campanha eleitoral. O grande debate nacional sobre a crise econômica e como resolvê-la, começou antes da posse. O povo havia sido preparado pela Internet para enfrentar a longa e árdua estrada adiante. Todos tentando chegar a um consenso, ou pelos menos a um plano de ação, sobre as medidas necessárias para evitar o colapso do sistema financeiro; a perda de competitividade e empregos na indústria nacional; a destruição do patrimônio familiar.

   A importância e a influencia democratizante da Internet, são reconhecidas nas novas regras de financiamento de campanhas eleitorais, permitindo que a maioria das iniciativas da mídia social seja livre de qualquer regulamentação, desde que realizadas sem compensação financeira. Com poucas exceções, uma pessoa pode criar sites, blogues, material para ser distribuído por correio eletrônico, mobilizar recursos e doações, colaborar com amigos ou afins em atividades relacionadas com uma campanha política. A aplicação das regras eleitorais ocorre somente em circunstâncias muito especificas. Quando pagamentos são realizados por anúncios, banners e outros tipos de comunicações, através de blogs e sites de terceiros.

   A Internet e a democracia foram as grandes vencedoras nas eleições de 2008.

Nova Iorque 2008

domingo, 5 de julho de 2009

A bandeira do povo

   Um longo vôo. Começamos a aterrissar no aeroporto de Miami. Dia 17 de dezembro de 1964, às sete horas da manhã. As águas do Caribe estavam calmas. Era inverno na Florida. A aventura americana estava prestes a começar. Menos de vinte e cinco minutos separavam meu passado do meu futuro. Finalmente America!

   O comandante da aeronave interrompeu meus pensamentos. Devido à movimentação na pista, avisou, teríamos que esperar meia hora antes do desembarque. O silêncio reinava na aeronave. Revisei minha lista de documentos, plano de ação do primeiro dia, contei meus dólares pela enésima vez. Distraído, não notei que a aeronave estava em movimento, até que o barulho das turbinas cessou. A porta abriu, havíamos chegamos ao terminal. Segui os passageiros até ao guichê da emigração. Sem nenhuma emoção, no piloto automático. Uma longa fila. Quando da minha vez, o oficial examinou os documentos emitidos pelo consulado americano. Rápida olhada na foto do passaporte comparando-a com a minha cara. Satisfeito, carimbou no passaporte “residente permanente”. Um aperto de mão firme e uma piscada de olho amistosa, falou entusiasticamente: “Welcome to America!”. Bem vindo à América, versão 1964. No primeiro dia na America, me senti como um adolescente-homem na terra prometida.

   Em 1964, a América cruzou o Rubicon em busca da equalidade racial. O Presidente Lyndon Johnson assinou a lei chamada de “Civil Rights Act of 1964 no dia 02 de julho. Era legislação mais completa sobre os direitos civis do povo americano desde a Reconstrução pós-guerra civil. A lei proibia toda forma de discriminação baseada em raça, cor, religião ou origem nacional. Também dava poderes ao governo federal para impor a desegregação dos lugares públicos. Em 07 de agosto do mesmo ano, o Congresso Norte-Americano aprovou a Resolução do Golfo de Tonkin. Autorizou o Presidente Johnson a entrar em conflito bélico contra o Vietnã do Norte, quando fosse necessário para a segurança do país. A pasta estava fora do tubo.

   Saimos do Brasil em busca da América de Alexis de Tocqueville. Havia chegado a um lugar onde aparentemente, ninguém entendia ninguém ou aventurava uma opinião sobre o futuro. Minhas primeiras impressões da América foram marcadas pela intensidade do debate nacional, sobre as divisões entre as classes e raças; pela vontade política do governo em enfrentar o problema da pobreza da população excluída. O ano de 1964 parecia ser o começo de uma década que mudaria o país para sempre. Tudo em jogo, menos os símbolos da nação: sua constituição e a bandeira. Protegida e venerada pelo povo, a bandeira estava sempre presente em festas, manifestações contra a guerra ou em frente de casa. Entendi então que, apesar das circunstancias do momento, estava no lugar certo.

   Quando de Tocqueville veio para America, o propósito inicial era estudar o sistema penal do país. Apaixonado pela democracia americana, a estudou como um princípio, como uma questão a ser ilustrada e resolvida. Logo entendeu que a democracia, por ser um estado de sociedade, se torna também o que ela deve ser, por não conduzir a um estado de governo, a uma ditadura. Dizem que a democracia é uma reunião que nunca termina. A minha mal havia começado.

  A atração pela América começou com a leitura do livro de Alex de Tocqueville. Decidimos então, que viveriamos o sonho de liberdade, de possibilidades, mesmo com um futuro incerto. Na America, versão 1964, o povo era dono da constituição e da bandeira, apesar das divisões, protestos e enfrentamentos entre seus cidadãos. No Brasil, o estado, era dono de todos os símbolos da nação...

Miami 1964

Quem é o cara com Farah Fawcett?

   Todos os anos, a indústria da televisão americana se reúne para premiar os membros da Academia de Artes & Ciências Televisivas (ATAS) , nomeados para os cobiçados Prêmios Emmy. É uma grande festa. O clima é de auto-adulação; tapinhas nas costas; muitos aplausos e lágrimas. Terminando sempre com um suspiro coletivo. A indústria sobreviveu mais um ano.

   A cerimônia dos Prêmios Emmy foi realizada em duas partes em 1970. Pelo comediante Danny Thomas em Hollywood e o apresentador David Frost na Cidade de Nova Iorque. A porta giratória entre a televisão e cinema estava totalmente aberta e funcionando. Vários dos homenageados no Carnegie Hall, como Anna Bancroft e Angela Bassett, eram membros da ATAS e da Academia de Cinema.

   Tradicionalmente os produtores da cerimônia e do show televisivo escolhem pessoas representativas da cidade para servirem de acompanhantes das celebridades e participantes. Dias antes, a produção informou que havia sido escolhido como o acompanhante da atriz Farah Fawcett, uma das “panteras”do show Charlie’s Angels. Receberia 150 dólares pelo esforço. O sindicato não permitia voluntário, justificaram. Aceitei sem hesitação.

   A função de acompanhante, como definida pela produção, era bem simples. Comparecer ao hotel quatro horas antes do show; informar sua presença ao chegar à recepção; ficar a disposição da atriz até deixá-la no Carnegie Hall. Chegando à recepção do hotel, fui convocado por sua assistente para conhecer “Miss Fawcett”. Ao entrar na habitação, senti como se tivesse aterrissado no meio de um campo de batalha. Prisioneiro de um batalhão de manicures, pedicuras, massagistas, costureiros, cabeleireiros e outras tantas pessoas cujas funções não eram claras no momento. Sem aviso, a mulher com o penteado icônico apareceu na sala. Um sorriso amplo, bem texano. Mão estendida em minha direção. “... Oi! Eu sou Farah. Farah Fawcett...” Feitas às apresentações de praxe, o sorriso desapareceu do seu rosto. Perguntou assertivamente: “ onde está meu noivo, Lee Majors?” A voz era impaciente, condescendente. Queria que ele chegasse antes do show, que havia perdido a conexão em Chicago, que resolvêssemos o problema, já. Chamamos a produção. “No problem”, responderam. Tranquilize a moça, o noivo já está a caminho. Todos relaxaram. O sorriso debaixo do penteado reapareceu.

   Descemos juntos para o lobby do hotel, seguido pelo entourage que havia encontrado ao entrar na habitação. Todos deslumbrados. Nunca ouvi fabulosa, maravilhosa, tantas vezes na vida. Os flashes de câmeras explodiam por todos os lados; demandaram autógrafos e fotos, fizeram perguntas indiscretas sobre o noivo. De repente, notaram minha presença. Inúmeros pares de olhos se voltaram para mim. Todos com a mesma expressão de curiosidade. Que é o cara com Farah Fawcett?

   Era famoso, sem ninguém saber por que, nem quem eu era. Meu anonimato havia sido comprometido.

   Good-bye Farrah. May God bless you!

Nova Iorque 1970