NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 30 de agosto de 2009

Terra dos vikings, bêbados sóbrios, presidiários obedientes...

    “... Trate-me por Ishmael. Há alguns anos, não importa quantos ao certo, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas...” Também queria cruzar os mares, como o personagem de Moby Dick. As palavras agradavam meus ouvidos. Sempre as repetia em Inglês. Pondo certa distancia entre o lugar em que estava e o lugar em que queria estar. Um mantra. A única parte que não me agradava era o final da última frase. Eliminei “... das águas...”

   O Atlântico Norte me fascinava. Não estava seguro da razão. Talvez algo especial que havia aprendido com Dona Noêmi Marinho, a professora de geografia, ou nas Vinte Mil Léguas Submarinas de Julio Verne. Não importava quem havia sido, nem quando. Atravessamos juntos todos os oceanos. Viagens de Leif Erickson, e do seu pai, Erik, o ruivo. Capitão Nemo. Monstros marinhos. Sereias. Ilhas desconhecidas. Terras exóticas... Sempre em terra firme, com a roupa seca. Sem dar um passo.

   Manhattan, 1972. Uma brincadeira entre colegas de trabalho, entediados com a burocracia. Um desafio pessoal. Aceitei. Vendaram meus olhos. Um empurrão gentil dirigindo-me ao mapa mundi na parede. A ponta do dedo indicador tocou na Groenlândia. Terra! Iniciamos os preparativos da viagem, imediatamente. Contatamos agencias de viagens, companhias de aviação. Impossível viajar à terra verde dos Vikings. “... Que tal a Islândia?...” Alguém perguntou. “... É quase a mesma coisa, fica perto de lá...” Concordamos. Promessa feita, promessa cumprida. Viajaria para Reykjavík na semana seguinte. Em busca de algo que me interessasse em um lugar pouco interessante, aparentemente. Onde as noites não existem no verão...

   Passaria a primeira semana em Reykjavík. Comecei minha visita pelos museus e galerias de arte. Excelentes coleções de arte nórdica. Edifícios com arquitetura arrojada, talvez um pouco minimalista. Confortáveis. Lugar fácil de flanar. Limpo. Povo educado. Cheirando a civilização. O relógio mostrou que era noite. Fui ao pub do hotel. Praticamente vazio. Um americano solitário. Conversamos amigavelmente. Parecia frustrado. Falou que estava escrevendo algo sobre o sistema penitenciário. Na sua primeira visita, final de semana, encontrou os portões dos presídios abertos. Os presidiários só regressariam na segunda-feira. O garçom permanecia desatento à conversa. Falou baixinho, “... não servimos bebidas alcoólicas depois das 22 horas. Só nas sextas-feiras e sábados...” era domingo.

   Sexta-feira chegou. Uma manhã agradável passeando pela cidade. Um banho relaxante na piscina térmica, 40°C. Bacalhau fresco regado com umas tantas taças de Chablis, para o almoço. Recuperando-me das surpresas do dia. O Presidente era um dos banhistas na piscina. Sozinho. Um homem comum desfrutando o sol do verão. Descobri também que a Islândia era o único país do mundo onde a população inteira acreditava em gnomos.

   Pronto para enfrentar a noite de Reykjavík. Uma lista de bares e clubes na mão, cortesia do jornalista americano. Fiquei no primeiro. Uma banda de rock and roll tocava freneticamente. Todos bebiam como se a noite fosse a ultima sexta-feira das suas vidas. Aquavit queimando minha garganta. Obstruía qualquer tentativa de pensamento racional. Convidei alguém para dançar. Chamava-se Sigdur, a filha de Benedito. Movemo-nos involuntariamente para o miolo do dancing. Ficamos lá. Prisioneiros da multidão inebriada que nos cercava. Gente alta, energética. Péssimos dançarinos... A música parou. Fim de festa. Ofereci-me para levar Sigdur até à casa. Não respondeu logo. Olhou para mim como se estivesse bêbado ou talvez maluco. Estava... Falou sobriamente, “... não dirigimos quando bebemos...”. Os carros ficam estacionados; as chaves na ignição.

   Caminharíamos em direção da sua casa, cerca de cinco quilômetros do clube. Juntamos-nos a uma multidão de réveilers. Cantavam músicas profanas ou heróicas. Outros solfejavam algo irreconhecível. Talvez uma tentativa de individualidade? Um pensamento aleatório e uma pergunta: temos algum presidiário aqui? “Não”, respondeu Sigdur. “Eles permanecem em casa durante o final da semana. Desfrutam de suas famílias...” Alguém pediu que eu cantasse algo do Brasil. “... Você pensa que cachaça é água?...”. Sucesso total. O sol brilhava no céu. Dia ou noite. Não importava...

Islândia 1972

domingo, 23 de agosto de 2009

A moça bonita na janela do casarão da 1817

   O Liceu, o Ponto de Cem Reis e o Pavilhão do Chá eram as pontas do Triângulo das Bermudas que naveguei na minha juventude. Perdia-me nele todas as tardes. Longe dos olhos que pudessem estranhar minha ausência das aulas, no meio do dia, de vez em quando. A jornada diária começava em frente do relógio do Liceu. Nunca voltava.

   Descia a ladeira em direção a Lagoa. Um lago mágico, rodeado de cores e possibilidades. Um cigarro ou um trago longo, dependendo do que restava da compra no fiteiro. Enchia os pulmões de ar, como se estivesse fazendo yoga. Um suspiro seguido da expressão ah, l’ennui! Repetindo a palavra mágica que havia aprendido no livro de G. Mauger, Cours de Langue et de Civilisation Française. Uma síntese perfeita do meu estado mental. Das contradições da minha juventude. Estava prestes a ser reprovado em Francês...

   O Cassino, sempre cheio de velhos importantes e políticos, era terra incógnita. Passava rápido por lá. Caminhava até meu banco favorito, próximo aos bambus. Local discreto para gazear aula. Ler um livro, sem pensar na minha nêmese, Monseigneur G. Mauger. Dar um beijo na namorada; o romance du jour. Os “bambus” era o meu espaço zen. Longe de tudo. Sonhando. Vivendo o duelo entre os personagens principais da Montanha Mágica de Thomas Mann. O italiano Settembrini apresentando-se ao personagem central do livro, o jovem Hans Castrop, como um humanista, portador das melhores tradições do Iluminismo e do livre–pensar. Seu rival, Naphta, um ex-jesuíta sisudo, dogmático. A encarnação viva da contra-reforma, da censura. Imaginava a professora de Francês como minha Naphta.

   Caminhava até a Rua Padre Meira. Parava atrás da “bomba de gasolina”, na esquina da Rua Diogo Velho. Um pequeno ato de rebelião de adolescente. Girava a manivela do barril de óleo, deixando o combustível escorrer sem controle. Satisfeito, atravessava a rua. Parava na calçada de uma casa com um cão enorme. Le grand chien! Desafiava o canino com pedrinhas de cascalho. A reposta era imediata. Não havia medo, estávamos atrás de grades. Subia a ladeira em direção ao Ponto de Cem Reis. O corpo pulsando com adrenalina.

   Chegava à esquina da Praça 1817. Começava os preparativos para minha dose diária de frisson. Sentia-me como um ator do estúdio de Lee Strasberg, antes de começar a representação da minha vida. Entrava totalmente no personagem, uma mistura de James Dean e “Moi”. Os cravos e espinhas desapareciam. A moça na janela me esperava. Um sorriso aparecia no seu rosto pálido ao notar minha presença. Não era um sorriso ambivalente, muito menos um de alegria, mas um sorriso melancólico, um sorriso que previa tristezas. As sobrancelhas formavam dois arcos perfeitos. Agitava-se. Parecia que saltitava atrás da janela. Passava. Não trocávamos uma palavra nem dizíamos adeus. Não importava os detalhes. A moça era uma visão.

   Sentava no meu banco favorito da Praça João Pessoa. Um escafandrista voltando à superfície. Evitando a descompressão rápida. Do outro lado da rua, o prédio do Jornal A União. Observava o vai e vem de homens com pressa, todos fumando. O odor nocivo das fundições dos linotipos invadindo a calçada. Alguns conversavam animadamente sobre uma matéria, um furo ou algo mais mundano. O chope da Casa dos Frios. Futebol. Mulheres. Um deles fumava um cachimbo distraidamente, sem pressa. O dono da esquina. Ah, l’ennui! Hora do sorvete no Pavilhão do Chá. Fim da viagem. Terra firma.

   Fui reprovado em Francês naquele ano. Não consegui lembrar o ultimo verso do poema “Chanson  d'Automne” de Paul Verlaine, na prova oral. A moça da janela desapareceu. Nunca mais esqueci.

   “... Et je m'en vais/Au vent mauvais/Qui m'emporte/Deçà, dela/Pareil à la/Feuille morte...”

João Pessoa 1956

domingo, 16 de agosto de 2009

Lucy, o diamante na Terra

   O adolescente nos observava atentamente. Cronometrando a duração da caminhada do carro até o pé da escadaria do edifício. Olhos grandes, rápidos. Mostrando a vivência prematura de um trabalhador infantil. Aproximou-se sutilmente. Um pequeno puxão na manga da camisa, seguido de uma saudação coloquial e uma pergunta. “... Selam!... Do you speak English?...” Respondemos que sim. Estendeu sua mão direita, o braço esquerdo dobrado para trás. As costas da mão tocando a parte lombar da coluna. Um sinal de respeito. Apresentou-se como Afework. Explicou que seu nome significava, em Amárico, “... aquele que fala de coisas prazerosas...” Ofereceu seus serviços de guia, contador de historias. Acertaríamos depois seus honorários. O aperto de mão havia selado o acordo.

   Subimos a escadaria juntos até o saguão principal do edifício. Estávamos no Museu Nacional de Arte da Etiópia. Explicou rapidamente o roteiro da visita. Começaríamos na coleção do primeiro andar: tronos, artefatos, esculturas, tabletes, roupas de todas as partes do país. Dois mil anos de história em menos de sessenta minutos. Seguimos para a galeria de arte moderna e tradicional, toda Etíope, no segundo andar. Uma coleção grande e de etnia diversificada. Caminhamos lado a lado, sem muita conversa, visitando todas as pinturas e esculturas. O guia não parecia confortável no millieu. Não perguntei, ele não disse porque. Uma pequena revelação no final da visita. Gostava um quadro chamado “Avó”, de um artista famoso da Etiópia. Não lembrava o nome. Descemos para o andar térreo.

   Pediu que seguíssemos até a galeria do subsolo. Não havia muitos objetos ou artefatos naquele piso. Um pouco distante da entrada, um mostruário horizontal de madeira. O objeto de maior relevo, bem iluminado. Sem avisar, Afework segurou minha mão. Falou baixinho, como se estivesse prestes a contar um grande segredo. Era um convite para visitar “nossa mãe”. Apontou para a figura dentro do mostruário e, em seguida, para uma placa com a descrição do conteúdo. Molde em gesso da ossada de uma fêmea. Hominídeo com um pouco mais de noventa centímetros de altura e menos de 30 quilos de peso, descoberta em 1974 em Hadar, na Etiópia. Teria vivido entre 3,9 e 2,9 milhões de anos atrás. O mundo a conhece como “Lucy”. Chamada assim pelo arqueólogo Donald Johanson, seu descobridor. No momento do achado, ouvia uma canção dos Beatles chamada “Lucy in the Sky with Diamonds”.

   Afework repetiu todas as informações da placa do mostruário. Fato após fato. Esclareceu que “Lucy” é conhecida na Etiópia como “Dinqinesh”, que significa “Vós arte maravilhosa”, em Amárico. A descoberta da ossada, 40% preservada, provou errada todas as teorias anteriores. Acreditava-se que nossos ancestrais só haviam começado a deambular em duas pernas, com o desenvolvimento do cérebro. Dinqinesh andava de pé, apesar do cérebro minúsculo. Maxilar, pélvis e pernas são humanas, sem nenhuma dúvida. A descoberta fez da Etiópia, o “Berço da Humanidade”. O lugar onde a raça humana tomou os primeiros passos da longa caminhada até o homo sapiens. Visita encerrada. Descemos a escadaria do museu. Entramos no jardim. Hora do ritual do café. Recapitulamos toda a visita. O guia estava feliz com seus honorários. Despedimo-nos. Um irmão mais velho correndo o mundo; outro, esperando crescer...

   A Etiópia é um país que todo mundo conhece pelas tragédias da fome e da guerra. As crianças esquálidas, com o olhar distante de quem tem fome. Quase um milhão de pessoas havia morrido, no inicio da década de 80, antes do mundo tomar nota da imensidão da tragédia humanitária no interior do país. Vítimas da indiferença, do cinismo da guerra fria, da nossa falta de respeito com os descendentes de Dinqinesh, nossa mãe. Ela, a arte maravilhosa, o diamante que desvendou a história da nossa espécie.

Etiópia 2005

Os sutiãs que aliviaram a pobreza das mulheres

   Andar em público com o torso descoberto, não é um tabu nas zonas rurais de Gana. As mulheres não devem mostrar as coxas e os quadris, que são cobertos por um short, vestido por baixo da saia. Cruzar as pernas é considerado um ato sensual e provocativo. Todas as meninas devem usar brincos para mostrar que são mulheres de verdade. A roupa da qual fazem uso, são em regra, cangas ou trajes artesanais. Quando convencionais, geralmente são importadas e de segunda mão, conhecidas na língua Akan, como “obruni waawu”. Uma tradução irônica da frase “roupa de defunto branco”.

   As mulheres de um grupo católico americano, após curta viagem de familiarização a vilarejos nas zonas rurais, estavam perplexas com a mostra dos seios entre as mulheres tribais. Todas tinham muitas perguntas a fazer. Queriam ajudar, não acreditavam que seios descobertos em publico era coisa cultural ou natural. A líder do grupo declarou enfática, “... só as católicas usam sutiãs... como é possível no século vinte?...” Outra declarou taxativamente, “... é pobreza!...” Prometeram angariar doações nas suas paróquias. Partiram. Perdemos o debate antropológico.

   Pouco mais de seis meses após a visita do grupo, a Alfândega nos notificou que um container com roupa feminina consignada à nossa organização, havia chegado. Abrimos o container. Descobrimos então que éramos beneficiários de uma montanha de sutiãs. Examinamos a doação. Detalhe, quase todos eram numero 32A. Tamanho geralmente usado por adolescentes americanas, como “sutiã de treinamento”. Chamamos as doadoras americanas. Informaram entusiasticamente que uma empresa havia doado um lote descontinuado de sutiãs, em troca de um beneficio tributário. Não sabíamos o que fazer. Consultamos as associações das mulheres dos vilarejos. A reposta foi imediata e clara, queriam os sutiãs. Adicionaram um pedido, se possível, doem o container também. Enviamos tudo.

   Poucos meses antes do fim da nossa missão em Gana, recebemos a visita de uma grande delegação de chefes tribais e lideres das organizações femininas, que foram agraciadas com o container de sutiãs. Souberam da nossa partida, queriam fazer uma homenagem especial. Não estávamos certos por que.

   Partimos para visitar os vilarejos. Os chefes nos asseguraram que seriamos recebidos com pompa e circunstâncias. Inauguraríamos uma creche, um poço d’água, uma debulhadora de cereais e um posto de saúde. Os vilarejos estavam em festa. Nunca haviam experimentado tanto desenvolvimento, em tão pouco tempo. Ainda não entendíamos por que éramos os convidados de honra. Começaram os discursos e libações. A palavra sutiã era mencionada frequentemente em conexão com o nosso nome. De repente, a verdade veio à tona.

   Após receber os sutiãs, as mulheres decidiram que não poderiam aproveitá-los. Pequenos demais. Alguém teve uma idéia brilhante. Converteriam os sutiãs em bolsas e as venderiam como importadas da America, no outro lado da fronteira, na republica de Togo. A moeda togolesa era garantida pela França e facilmente convertida em dólar americano. O design da bolsa era simples. Separavam os bojos do sutiã, bordavam e costuravam em forma de bolsa. Reutilizavam as alças. A etiqueta, o mais importante, “made in USA”, fixada no lado externo da bolsa. Um sucesso total. Venderam todas as bolsas, converteram o lucro em dólar americano e adquiriram bens e serviços que os vilarejos necessitavam. O povo decidiu as prioridades. Nem todos os sutiãs foram convertidos em bolsas. Reservaram alguns deles para ser usados pelas adolescentes, durante as visitas de estrangeiros e catequistas. Um doador feliz, sempre volta.

   As mulheres transformaram uma doação equivocada em um instrumento de desenvolvimento dos seus vilarejos, algo que programas de ajuda econômica não haviam logrado com todos seus experts e recursos.

Gana 1981

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

Crônica publicada originalmente no livro "Nem aqui, nem ali, nem acolá"

domingo, 9 de agosto de 2009

O tiroteio parou para o “big man” passar...

   Na primeira vez que chegamos ao aeroporto de Acra, tivemos a sensação que estávamos perdidos em uma viela da Babilônia. Lugar barulhento. Uma cacofonia de sons, línguas e dialetos incompreensíveis. Pessoas de estaturas e portes diversos usando todas as combinações de cores e trajes, possíveis e imagináveis. O aroma pungente de azeite de dendê no ar. Música ao vivo, sempre acompanhada por dançarinos calçando tênis ou havaianas de segunda mão. Doleiros e carregadores assediando todos passageiros, ninguém escapava.

    O retorno em 1981 foi diferente. Havia ocorrido um golpe de estado no Réveillon. Jerry Rawlings, um tenente aviador e quatro companheiros haviam derrubado o governo civil, eleito há um ano. O povo estava frustrado com a corrupção penetrante e a inércia do governo em controlar a inflação. Interrompemos nossas férias no Brasil. Voltamos imediatamente para Gana. Era necessário organizar um programa de ajuda humanitária de emergência, para mitigar os efeitos da falta de alimentos e remédios em todo país.

   Tudo havia mudado ao chegarmos. Nossa aeronave foi escoltada por vários veículos blindados até o terminal. Soldados armados entraram e silenciosamente examinaram os documentos, as faces e a bagagem de mão de cada passageiro. Três longas horas de silencio. O calor quase insuportável. Desembarcamos. A cor verde-oliva predominava. O aroma de azeite de dendê mais forte agora. Os soldados tinham fome.

   O país estava em crise, às prateleiras vazias. As únicas mercadorias disponíveis nos supermercados eram preservativos, pulseiras de relógio e latas de espaguete made in Bulgária, com data de vencimento de anos atrás. Na rua, um verdadeiro cabo de guerra entre os soldados, açambarcadores de secos e molhados, operadores no mercado negro e contrabandistas. A palavra “kalabuli”, corrupção no dialeto Akan, explicava tudo.

   Programa de ajuda humanitária organizado. Era hora de cuidar das nossas próprias necessidades. Dirigimos-nos a Lomé, na vizinha republica de Togo, para comprar alimentos e outras necessidades básicas. Saímos cedo, para não violar o toque de recolher. O primeiro sinal de problema aconteceu no meio do caminho. De repente, ouvimos o estampido seco e contínuo de metralhadoras Kalashnikov, vindo de ambos os lados da estrada. Olhei inquisitivamente para meu motorista. E agora, Jacques? Não respondeu. Empurrou a mão na buzina, aumentou a velocidade e dirigiu-se diretamente a área do tiroteio. As armas silenciaram. Atravessamos a junção, o combate recomeçou. Quando estávamos distante do local, gritei: “... você está maluco? Quer nos matar?...” Respondeu tranquilamente: “buzinei para intimidá-los, para dar a impressão que alguém importante estava no carro. Os soldados quase sempre decidem cessar fogo para evitar a possibilidade de matar a pessoa errada, alguém importante...” Um “big man”, em qualquer país da África, é considerado algo mais letal do que a bala de um soldado da facção inimiga. Quando os elefantes brigam, o capim sofre, assim dizem.

   Lomé era como um enorme supermercado. Tudo importado. Baguettes diretamente de Paris, no vôo da Air France. Terminamos nossas compras rapidamente. Tínhamos que atravessar a fronteira de volta em tempo de chegar a Acra, antes do temido toque de recolher às 18 horas. Tudo havia mudado no local do tiroteio. Mulheres vendiam frutas, refrescos e bolos de mandioca. Música no ar. Nenhum vestígio de combate armado, de mortos ou feridos. Vários soldados passeavam entre os civis, fazendo compras, flertando com as moças. Tinham fome. Fuzis a tiracolo, apontando para o chão. Silenciosos. Perguntei a uma vendedora o que havia passado no local pela manhã. Deu um olhar furtivo na direção dos soldados. Ofereceu um bolinho de mandioca com peixe seco ao molho de dendê. Com um sorriso afável sugeriu, “obruni” - estrangeiro branco, você tem uma longa jornada adiante. Deu um muxoxo, encolheu os ombros com indiferença e falou baixinho, “Kalabuli”!

Gana 1981

domingo, 2 de agosto de 2009

Astronautas que gostavam de feijoada, na terra

   Os rotores do helicóptero pararam. A porta da aeronave abriu. Três homens saíram. Vestidos com ternos escuros, gravatas sem atenção à moda. Passo preciso, postura ereta de militar. Auto-suficientes, porta-terno na mão. Movimentos e palavras curtas. Eficientes. Homens acostumados a entrar e sair de aeronaves. A fazer grandes coisas em espaços pequenos. Eram astronautas.

   Esperamos os passageiros na zona segura, longe das hélices da aeronave. Heliporto de Manhattan. Os homens eram Wally Schirra, Donn F. Eisele e Walter Cunningham, tripulantes da nave Apollo 7. O comandante, Wally Schirra, apertou minha mão e apresentou os demais. Com o sorriso e jovialidade do astronauta, que o mundo conhecia como o rei das pegadinhas espaciais. A tripulação do Apolo 7, sob seu comando, ficou famosa pelos pequenos shows de televisão que faziam diariamente enquanto orbitavam a terra. Cheios de graçinhas, mostravam cartazes com mensagens humorísticas e educavam os telespectadores, com informações sobre o vôo e o espaço. Receberiam um Emmy especial por estas transmissões. Os acompanharia até o Carnegie Hall, local da apresentação do prêmio.

   Na limusine, ambiente descontraído. Felizes e honrados em receber o prêmio. Conversa vai, conversa vem, o Brasil entrou no assunto. Creio que Wally Schirra, comentou que havia estado no Brasil. Adoro “f-e-i-j-o-a-d-a brasilieira”. Os demais também já haviam provado feijoada, no Brasil ou em restaurantes nos Estados Unidos. Conversamos sobre outros tópicos brasileiros, carnaval e Copacabana. Falamos da marchinha de carnaval feita em homenagem a Yuri Gagarin, o primeiro homem no espaço.

   “... Gagarin, subiu, subiu. Foi até o espaço sideral, chegou perto da lua e sorriu, vou embora pro Brasil que o negocio é carnaval...”

Após traduzir a letra, risos. Nenhuma possibilidade de pensar em carnaval no espaço, muito menos em feijoada. Flutuando, com o metabolismo quase em zero. A história teria sido diferente, se Gagarin houvesse comido feijoada antes do seu vôo. Chegamos ao Carnegie Hall, na hora certa. Despedimos-nos. Aperto de mão firme, tapinha no ombro, o riso amplo de Wally Schirra, transformou-se rapidamente em uma gargalhada. Confidenciou com um suspiro, ah! f-e-i-j-o-a-d-a... Oh, boy!

Wally Schirra Jr converteu-se no quinto americano a viajar ao espaço, no dia 3 de outubro de 1962. Tinha então 39 anos de idade. Pela primeira vez na história, transmitiram uma mensagem ao vivo do espaço através do rádio e da televisão. Foi o único astronauta que participou em todos três programas espaciais, Mercury, Gemini e Apollo. Perguntaram sobre seus pensamentos quando o foguete Titan do Gemini 6 apresentou falha na ignição, antes de partir. Encarou o problema filosoficamente, lembrando que o modulo espacial, o foguete e tanques de combustível “... foram construídos pela oferta mais baixa...” da licitação do governo. Ajudou a resolver o problema. Era piloto, voou em direção à sua meta, como sempre.

   Faleceu na Califórnia em 2007, após uma longa luta contra o câncer. Em um dos seus pronunciamentos,    Wally Schirra falou, “... Deixei a terra três vezes. Não encontrei nenhum outro lugar para ir. Por favor, cuide da nave espacial Terra...”

Ao chegar a Brasília no dia 2 de agosto de 1961, o cosmonauta russo Yuri Gagarin comentou: "A impressão que eu tenho é a de estar chegando a um planeta diferente". Quem sabe, talvez tenha comido sua primeira feijoada no Rio de Janeiro, na Casa das Pedras do paraibano Drault Ernani.