NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

domingo, 20 de setembro de 2009

Sivuca, eu e a Brisa

    Encontros e reencontros. A complexidade de escrever sobre uma amizade de mais de meio século, não escapa a estas linhas. Às vezes, longe de tudo que nos unia por parentesco. No meio do nada. Um lugar obscuro, uma esquina do mundo. Duas paralelas em busca do infinito - lugar comum.

   Começou em 1949, começou em um ano feliz. Minha primeira irmã havia chegado. Tínhamos um radio novo. Música e choro de menina se misturavam numa sinfonia doméstica. Nosso primo, Sivuca, o “diabo louro da sanfona”, era um dos favoritos do radio. Ah! Vassourinhas, quantas vezes te ouvimos... Apareceu um dia na nossa porta, com uma sanfona a tiracolo. ”Gazo”, bem diferente. Talvez até um pouco tímido. Depois do jantar, tirou a sanfona do estojo, começou a tocar. Dedos deslizando no teclado e nos baixos, com a graça e leveza de colibris. Joãos e Pessoas debruçadas nas janelas, empilhadas em frente da porta, em pequenos grupos na rua. Ouviam em silencio, atentos. Fechou a sanfona tão rápido quanto a abriu. Aplausos, risos, abraços. Sivuca havia ladrilhado nossa rua com pedrinhas de brilhantes...

   Aparecia e desaparecia, subitamente. O único rastro que ficava era de musica. A tristeza nordestina do “Adeus Maria Fulô”. João se despedindo de Maria. A caminho da Terra Prometida. Embarcou para a Europa em 1958, com um grupo chamado “Os Brasileiros”. A imprensa falava de apresentações triunfais na Europa. Em cartaz no Cine São Luis, um novo filme francês, O Diabo e os Dez Mandamentos, com Alain Delon, Mel Ferrer, Fernandel, Charles Aznavour, Lino Ventura, Danielle Darrieux. O Diabo Louro apareceu tocando sanfona. Música para os anjos, pour les amants, todos nós. O ano era 1962. Abriu o show de Marlene Dietrich, em Estocolmo. Meses depois, ela cantou “Luar do Sertão”, em Português, no Copacabana Palace.

   Conversamos horas sobre a situação; a falta de liberdade artística no Brasil; suas experiências na Europa. “... por isso no Bar Savoy...” O clima era asfixiante no Recife de 1964. Passaram-se semanas. Festa em casa de um amigo americano; pequena caminhada até a beira mar. Aceitou um convite da cantora Carmen Costa, para acompanhá-la nos Estados Unidos. Marcamos um encontro em New York. Viajou sem despedir-se...

   No palco do Hollywood Palladium, a cantora Miriam Makeba pediu silencio, encarou o publico e anunciou freneticamente, “... and from Brazil, Si-vu-ca… in the guitar, accordion and...“ Um grito primal rasgou o silêncio... Um solo. A voz humana sendo usada como um instrumento, improvisando ritmos e melodias. “Scatting” na terra de Ella Fitzgerald, em 1968. O público de pé, aplaudindo, gritando, assoviando. Estávamos de mudança. Segui para San Francisco, ele em direção da África de Miriam Makeba.

   Reapareceu em 1969. Historias sobre as aventuras e os perigos da jornada. Uma noitada com Miguel Arraes, no exílio da Algéria; apresentações em palácios presidências; um concerto na Tanzânia para os guerrilheiros do movimento de Nelson Mandela. O musical “Joy” estreou em San Francisco. Alegria para um povo dividido pela guerra no Vietnã. A Palhaçada de Miltinho virou o “Nothing but a fool!” de Oscar Brown Junior. O palhaço só falava Inglês...

   Encontramo-nos em New York em 1970. O musical “Joy” estava em um teatro off - Broadway. Um crítico escreveu, que ele [Sivuca] “... será mais conhecido como um gênio que toca piano, acordeão e guitarra... como alguém, que para todo mundo, soa como um instrumento humano quando “scatting”, junto com um solo em um dos seus instrumentos...” Fez uma turnê mundial com Harry Belafonte. Shows na televisão com Julie Andrews; gravações com Astrud Gilberto, Hugh Masekela, Paul Simon, Bette Middler, entre outros. O rei da colina, no topo da lista. Passava no apartamento com sua guitarra. Sempre tocava uma canção de Johnny Alf, chamada Eu e a Brisa, “... Ah, se a juventude que esta brisa canta. Ficasse aqui comigo mais um pouco...”

   Partiu para o Brasil em 1976, sem despedir-se. Tinha pressa. O inesperado havia feito a surpresa que tanto esperava... Segui para a África, anos depois. Nossas linhas se cruzariam no começo do milênio. Havíamos voltado para o Brasil; Sivuca, eu e a Brisa.

João Pessoa 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

As pirâmides nos caminhos das Marias

    O momento de contemplação e reverencia provocado pela visão das pirâmides, durante o pouso, desaparece rapidamente. Caos é o que impera no trajeto do aeroporto ao hotel. Motoristas agressivos, rudes; de questionável destreza. Dirigem sem demonstrar qualquer interesse. Nosso carro foi avariado em três lugares. Ninguém havia parado ou perguntado... Nosso motorista inspecionou o carro, um gesto de descrença bem ensaiado. “Maálesh!”, sem problema... Levantou as mãos para o céu em suplica. “Inshallah!". Resolvido. Assim aprendemos o vocabulário necessário para sobreviver às situações que nos esperavam.

   O Egito do novelista Naguib Mahfouz é uma mistura de convulsões sociais e políticas; mudança e continuidade. Dicotomia que nos acompanharia por quatro semanas. Visitávamos projetos de melhoria das condições socioeconômicas das comunidades de cristãos cópticos. A Igreja Copta é a maior comunidade cristã no Egito, data do ano 61 D.C., quando São Marcos introduziu o Cristianismo.

   Carrocinhas precárias, puxadas por burros, coletam quase um terço do lixo do Cairo. Mais de 2.500 toneladas diariamente. Os catadores de lixo, de trinta a quarenta mil pessoas “vivendo do lixo”, chamados de “zabbaleen”, na maioria cristãos cópticos, vivem ou trabalham em verdadeiras pirâmides, lixões de quase três pisos de altura. Os homens coletam, as mulheres e crianças separam. Uma população marginalizada por seu status de minoria, pela inobservância de costumes islâmicos, como a criação e consumo de carne suína e contato direto com matéria orgânica. Prestando um serviço importante a uma sociedade que os marginaliza. Vivendo a paradoxal situação da pobreza universal, sem fronteiras.

   Financiaríamos projetos de saúde materno-infantil, controle de hepatite e melhoria da situação da mulher. Quase todos em parceria com a fundação da Irmã Emmanuelle. Religiosa belga, cujas ações eram comparáveis como às de madre Teresa de Calcutá. Os zabbaleen estavam preocupados em perder o “negocio do lixo”, para firmas multinacionais. Asseguramos apoio financeiro para a formação de pequenos negócios, cooperativas e profissionalização.

   Partimos do Cairo em direção de Assyut, no sul do vale do Rio Nilo. Levamos conosco o odor do lixo, até o fim da viagem. Visitaríamos comunidades cópticas, localizadas ao longo da rota usada pela Sagrada Família, quando fugiram da persecução do Rei Herodes... em um burrinho. Assyut é a cidade de maior concentração de cristãos cópticos no país. Venerada por cristãos e mulçumanos, por ter abrigado a Sagrada Família, por mais de três anos em uma gruta, num lugar chamado Dronka.

   Iríamos visitar um projeto para verdureiras, nas proximidades de Dronka. Uma delas chamava-se Mariam. Maria em Árabe. Já havia recebido e pago três empréstimos. Era a historia de sucesso que procurávamos...

   Uma casa simples, construída em adobe. O teto liso, sem telhas, servia para secar grãos, frutas e matéria orgânica usada como combustível no inverno. Na porta, notamos uma mesa feita com uma tabua apoiada em duas latas. Continha apenas três pirâmides de tomates. Parecia uma expressão modesta para evitar a inveja. Olho gordo! A soleira não estava em nível com o piso. Um muro de meio metro de altura bloqueava a entrada, por trás, uma jovem mulher, Mariam. Rosto bonito, mal cuidado... Explicamos o propósito da visita. A expressão na face mudou. Ira nos olhos. Fez um gesto de desrespeito com a mão esquerda. Gritando, parecia enlouquecida a nos mandar embora. Varias mulheres se aproximaram. Vociferavam em direção a Mariam. Mais sinais de desrespeito. Uma batalha de tomates começou, As pirâmides desapareceram. Mariam fechou a porta. Batemos em retirada. As mulheres nos seguiram iradas...

   Qual a causa da disputa? Mariam havia vencido, nos explicou o interprete. Cresceu de verdureira a micro-empresaria. Vivia só, o marido era um zabbaleen no Cairo. Seus desafetos temiam que ela tomasse seus maridos, por ser afluente; outras a acusavam de mau exemplo para suas filhas e de comportar-se como homem. Um inferno na terra. Uma mistura de mudança e continuidade... Decidimos partir. Uma mulher montada num burrinho passou silenciosamente, rosto virado na direção oposta. Mais uma Maria escapando dos seus algozes... Inshallah!

Egito 1987