NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 25 de outubro de 2009

Sim, todos nos podemos...

   O inventor e industrialista, Alfred Nobel, criou o Premio Nobel da Paz com caracteristicas próprias. Um reconhecimento as pessoas e organizações envolvidas em um processo de resolução de problemas, mesmo que ainda não tenham alcançado seus objetivos. Implicito na escolha do homenageado, uma mensagem dupla de incentivos e desafios. Como se dizendo, o mundo aprova suas ações. Estamos com você...

   O debate sobre a escolha do Presidente Obama, gerou controvérsia em todas as regiões do globo. Nos Estados Unidos, as reações dos acólitos de Dick Cheney; do reacionarismo saudosista da Fox Cable Network e dos chamados neoconservadores, não é surpresa. O ressentimento acumulado, devido às políticas socioeconômicas liberais e multilateralistas do presidente, é profundo. Enquanto isso, o mundo respira aliviado com a saída de George W. Bush. A mensagem de esperança de Obama contagiou o eleitorado, o levou a Casa Branca. O prêmio é um incentivo para transforma-la em realidade.

   Fomos privilegiados em nossa vida profissional por haver trabalhado com pessoas que, como Presidente Obama, foram distinguidos com o Prêmio Nobel da Paz. O reconhecimento não passou despercebido por aqueles que não entediam ou simplesmente, questionavam a decisão por razões puramente pessoais, às vezes profundamente ideológicas. Criticaram o prêmio da Madre Teresa (1979) porque a consideravam uma “assistencialista”, não questionava porque muitas pessoas viviam na exclusão. Oscar Arias Sanchez (1987) recebeu o prêmio logo após lançar seu Plano de Paz. Chamaram a escolha de prematura. O Presidente da Nicarágua caracterizou o trabalho de Arias como uma farsa. Nelson Mandela e o Presidente Frederik de Klerk compartiram o prêmio de 1993, por trabalharem juntos pelo fim do regime de apartheid, por uma democracia multirracial. O comitê norueguês foi criticado por aqueles que consideravam o Congresso Nacional Africano, como uma organização terrorista ou viam o presidente sul-africano, como um resquício do regime racista de apartheid.

   O Prêmio Nobel demonstra que a busca da paz não é algo fácil, instantâneo ou de aceitação universal. Todos ganham, mas, muitos perdem com a paz...

   Madre Teresa nos convidou um dia para visita-la em Nairóbi, no Quênia. Precisava urgentemente de ajuda para seus pobres. Um milhão de pessoas vivendo em extrema pobreza em Kibera, uma favela que se tornou famosa no filme “O Jardineiro Fiel”. Necessitavam de comida e medicamentos. Explicamos que teríamos que elaborar um projeto formal. Ela respondeu com firmeza, “meus pobres não podem esperar, tenho certeza que o senhor vai conseguir algo imediato”. Não era um comando. Um apelo à consciência humana. Contatei os representantes dos países doadores, com muita fé e vigor. Dias depois, tínhamos mais de quatro mil toneladas de alimentos e medicamentos garantidos. E ainda não acreditamos em milagres... Madre Teresa contribuiu para o entendimento e a ressurreição da solidariedade, entre pessoas e povos. Muito mais do que um tratado de paz.

   Presidente Jimmy Carter recebeu o prêmio em 2002. Convidou-nos para participar de uma reunião extraordinária do Internacional Negotiations Network. Uma convocação massiva envolvendo partes representando mais de vinte conflitos internos ou problemas bilaterais, em todos continentes. Sua proposta era simples: um grupo de experts e mediadores se reuniriam, com as partes de cada conflito, para ajuda-los a encontrar um “chão comum”. Havia nos convocado como especialista sobre a situação angolana. Nosso grupo encontrou pelo menos quarenta pontos de convergência, entre os dois lados. Não chegamos à paz. Avançamos um pouco mais na sua direção.

   A ONU foi uma das organizações mais criticadas no começo do Milênio. Muitos questionavam sua legitimidade e viabilidade da organização na resolução de disputas, promoção da paz e o desenvolvimento. A recusa dos Estados Unidos em pagar suas contribuições enquanto demandava sua reorganização, havia enfraquecido o sistema multilateral, a ponto da quase total ineficiência. O Secretário Geral, Kofi Anan, colocou a revitalização e reforma da ONU na cabeça da lista das prioridades mundiais. Em 2001, recebeu o Prêmio da Paz por seu esforço e em nome dos funcionários da organização. Incluímos-nos com muita honra e orgulho entre aqueles que receberam esse Nobel.

   Um dia diremos em uma só voz: sim, nós podemos!

Suécia 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

Os brasileiros que levaram a Bahia para a África...

   Conhecemos Emmanuel em um bistrô na cidade de Lomé, a capital do Togo. Era amigo do músico que tocava um korá (instrumento senegalês), para os clientes da casa. Dizia-se ser um “Brésilien”. Um brasileiro de verdade, meu irmão. Julguei que fosse um fã do futebol brasileiro. Um fato comum na África. Jantar encerrado, assunto encerrado. Ainda não sabiamos nada sobre os brasileiros da África Ocidental. Aqueles que Gilberto Freyre dizia ser “baianos”...

   Meses depois, um grupo de ganenses visitou nosso escritório em Acra, Gana. Diziam-se “Brazilians”. Queriam convidar-nos para participar de uma celebração na comunidade brasileira. Agradecemos o convite em Português. Éramos brasileiros, afinal de contas... Silencio geral. Nenhum deles entendia o idioma. Explicaram que eram “Tabom”, descendentes de escravos deportados do Brasil, após a Revolta dos Malês em 1835, na Bahia. Sabiam poucas palavras em Português, dentre elas, a expressão “tá bom”, que deu origem ao nome de comunidade brasileiro-ganense conhecida como Tabom.

   Um oficial da Embaixada Brasileira confirmou que havia um grupo de ganenses que se identificavam como brasileiros. Apareciam na embaixada de vez em quando, com convites para festas ou pedindo coisas do Brasil. “... Não falam Português...”, afirmou. O entusiasmo dos Tabom contrastava com a indiferença do funcionário. Ambos aguçaram nossa curiosidade.

   A diáspora afro-brasileira na África concentra-se principalmente em quatro países do Golfo da Guiné; os agoudas de Benin (antigo Dahomei); Nigéria; Togo e o os Tabom de Gana. Todos são descendentes dos 10.000 escravos retornados ou deportados do Brasil no século dezenove - antes e depois da Abolição. Sobrenomes como Souza, Silva, Cardoso, Fernandes, Câmara, são encontrados nas elites nacionais. Cozido, feijoada e acarajé, introduzidos pelos retornados, ainda hoje são servidos na região.

   O mais rico e famoso dos afro-brasileiros, Francisco Felix de Souza, era baiano, filho de um português e uma cafuza. Chegou ao forte de São Batista da Ajuda (Uidah), Benin, em 1812. Era um traficante de escravos. Convenceu os chefes tribais, que era melhor vender seus prisioneiros como escravos, do que decapitá-los. E foi assim que conseguiu ser nomeado o primeiro Chachá do Dahomei, uma espécie de vice-rei responsável por relações comerciais e estrangeiras. Usava casamentos para forjar alianças. Casou-se mais de 50 vezes, teve 80 filhos e 12.000 escravos. Quando faleceu aos 95 anos, deixou uma herança estimada em US$120 milhões de dólares.

   Em Togo, outro baiano, Francisco Olympio da Silva, também filho de um português e uma cafuza, se converteu em um dos homens mais ricos e influentes, traficando escravos para o Brasil. Foi iniciado no trafico na casa de comercio de escravos do seu tio, Cesar Cerqueira Lima, membro de uma família influente da Bahia. O primeiro presidente de Togo, após a independência da França, foi Sylvanus Epiphanio Olympio, um descendente direto de Francisco.

   A chegada dos Tabom em Acra em 1836 foi diferente. Abordo de um navio fretado pelos ingleses. Todos eram islâmicos, deportados do Brasil. Conhecedores de práticas agrícolas, cultivaram manga, mandioca, feijão e outros vegetais. Demonstraram ser bons pedreiros, marceneiros, alfaiates e trabalhadores com metais preciosos. O Chefe Supremo da Tribo Ga, reconhecendo o valor dos brasileiros, pôs a disposição deles as melhores terras e locais de comércio próximos ao porto. Os Tabom vivem e trabalham, desde então, nesses locais. Tivemos o prazer de ter uma roupa costurada por um alfaiate Tabom, descendente da família Norton da Bahia.

   Nos últimos anos, o Governo Brasileiro tem feito um esforço para abraçar os “Brazilians”. A página web de Embaixada do Brasil apresenta muitas informações sobre o povo Tabom e eventos na área brasileira de Acra.

   Em 2006, o Presidente Lula visitou o atual Chachá de Benin (Dahomei). Declarou na ocasião que: “... O Brasil deve muito ao povo africano. Homens e mulheres livres, neste Continente, eram escravizados e vendidos para as Américas. E lá, com o seu sofrimento e o seu trabalho, ajudaram a construir o meu país. Mas não adianta agora ficar apenas chorando o que aconteceu no passado, é preciso pensar em construir o futuro...”

   Olha, diria meu amigo Emmanuel, parece que agora tudo aqui “tabom” demais...

Gana 1980

domingo, 11 de outubro de 2009

O homem que roubava jornais para Nelson Mandela

   Punhos irados se abriram, mãos se estenderam. Havia chegado a hora de construir uma nova África do Sul.

   O ano de 1989 foi o começo do fim de um sistema de leis racistas, que institucionalizaram desigualdade e segregação racial na África do Sul, por quatro décadas. As leis de apartheid, ou seja, “separação” ou “identidade separada”, impuseram a dominação da minoria branca, descendentes de colonos holandeses e britânicos, sobre pessoas pertencentes a outros grupos étnicos, majoritariamente à população negra.

   O embargo internacional, a desvalorização do ouro e da moeda nacional, ativismo político nas cidades e nas ruas, haviam quebrado a espinha dorsal do regime. O Partido Nacional não tinha mais como assegurar o domínio e o desenvolvimento contínuo da economia, em favor da população branca. O desemprego, a herança mais nociva do sistema de apartheid capitalista, afetava todos os grupos, direta ou indiretamente. O presidente sul-africano Pieter Botha deu o primeiro sinal. Reuniu-se oficialmente com Nelson Mandela, o presidente do Congresso Nacional Africano (ANC), para organizar os preparativos para sua libertação. Mandela cumpria pena de prisão perpétua desde 1964. O novo presidente, F. W. de Klerk, aboliu o sistema de apartheid, libertou os prisioneiros e legalizou os partidos banidos, em Fevereiro de 1990. Nelson Mandela propôs uma constituição multirracial, criando uma nova África do Sul, de todos, para todos.

   A população excluída, através de clubes de poupança informal, chamados de “stokvels”, mobilizava recursos para atividades econômicas, como única forma até 1990. Uma contribuição mensal fixa. Amigos, parentes ou vizinhos, todos iguais. Devido às restrições racistas e à pobreza do povo, paróquias católicas formaram pequenas cooperativas de crédito, geralmente dirigidas por párocos. Um muro branco. Uma folha de parreira. Na Cidade do Cabo, uma associação de cooperativas, conhecida como SACUL, funcionava no Bureau de Assistência Social da Igreja Católica (CWB). Prestes a fechar as portas em 1991, devido à inadimplência, falta de poupança, ou reservas. Só uma mudança drástica poderia salvar a organização. Kwedi Mkalipi, ex-prisioneiro político, foi nomeado o primeiro presidente laico.

   Os doadores queriam mudanças imediatas. Um negócio totalmente aparte das paróquias. Fixamos os parâmetros da reforma, reestruturação e modernização. O movimento cooperativo canadense mobilizaria o capital. Tudo concordado. Negócio concluído. Despedimo-nos. Notei então, um fato curioso. Os jornais e revistas que havia trazido comigo, haviam desaparecido.

   O perfil profissional de Kwedi Mkalipi não era de alguém capaz de liderar uma cooperativa. Esteve encarcerado por vinte anos na Prisão de Robben Island, por atividade antiapartheid. Libertado em 1985, após cumprir sua pena. Seu grupo, o Congresso Pan-africano (PAC), se opunha à criação de uma constituição multirracial. Tinham um slogan “uma bala para cada branco”; propunham expulsá-los do país. Não era membro do ANC de Mandela.

   Encontramo-nos com Nelson Mandela em Harare. Sua primeira visita ao Zimbábue. Discutimos um programa para a capacitação profissional e retorno dos guerrilheiros desmobilizados da ANC para a África do Sul. Propusemos a SECUL como uma das fontes de microcréditos para os ex-combatentes que quisessem abrir seus próprios negócios. A menção do nome Kwedi Mkalipi, causou uma reação entusiástica em Nelson Mandela. Lembrou dos tempos que haviam estado juntos na prisão. “Ele era nosso ladrão dos jornais dos carcereiros...” As publicações eram usadas como material didático na universidade informal, criada para educar os prisioneiros. Kwedi Mkalipi havia se formado em História e Khosa, o dialeto tribal de Nelson Mandela. Textos racistas, para fomentar uma mentalidade multirracial...

   Meses depois, Kwedi Mkalipi nos visitou em Harare. A situação financeira da SECUL havia melhorado substancialmente. Estabeleceram contato com os ex-combatentes. Formaram parcerias. Um homem sem rancor. Com a mentalidade de todos a bordo. Não havia tempo para revanchismo. Precisavam criar uma sociedade justa, multirracial. As balas para os brancos não eram mais necessárias, a “guerra” havia terminado...

   Conversamos longamente sobre seus dias na prisão. Depois do nosso jantar de despedida, notei que meus jornais novamente haviam sumido...

África do Sul 1991

domingo, 4 de outubro de 2009

Uma boneca chamada Victoria...

   Cidade do México, 19 de setembro de 1985, 07:19 horas da manhã. A população foi surpreendida por um terremoto, com uma magnitude de 8,1 graus na escala Ritcher. Os prédios do centro da cidade, cerca de um terço destruído; 10.000 mortos e 30.000 feridos, em 50 segundos. Energia, água e comunicações estavam totalmente comprometidas. Pouca ou nenhuma informação circulava. O Governo impôs um blecaute de 39 horas, em todos os noticiários, ninguém sabia de nada. Ninguém tinha uma resposta, nem o Governo. Ar poluído, cheiro de morte, medo e a tristeza mais triste desde a “Noche Triste” de Montezuma. O Partido Revolucionário Institucional (PRI), no poder desde 1929, era o recurso de primeira instancia para toda e qualquer necessidade. O associativismo acontecia livremente, desde que fosse dentro do contexto partidário. “Ditadura perfeita”, nas palavras do escritor peruano Mario Vargas Llosa. O terremoto expôs as chagas profundas da armadura do sistema

   Foram destruídas mais de 1.200 fábricas e ateliês de costura. As costureiras trabalhavam horas extras sem compensação, como se nenhuma lei trabalhista existisse. Contribuições previdenciárias e sindicais eram descontadas, nunca depositadas. Haviam sido retiradas mais de 150 costureiras mortas, em uma das fábricas. O resgate descobriu os patrões em ação, salvando equipamentos e demolindo o que restou das estruturas. Não pararam um minuto para investigar se alguma trabalhadora estava nos escombros. O mercado conspirava com o setor público. Indiferentes.

   Reunidas em frente de uma fábrica em escombros, um grupo de mulheres. Cena típica do momento. Repetindo-se em quase todas as esquinas. Ataúdes de pinho empilhados na calçada. Altares improvisados com flores, copos de leite, sempre frescas, honravam a Nossa Senhora de Guadalupe. Umas preparavam comida na calçada, outras entrando e saindo nos escombros. Mãos calejadas, ensanguentadas. Procuravam suas companheiras. Tristeza, sofrimento, solidão. Não se ouvia música. O silencio, esta canção sem letra, falando de tudo...

   O país havia chegado ao divisor de águas entre o patrimonialismo do PRI e o associativismo livre. O efeito da catástrofe foi além da destruição. Diante do povo, estava um governo ineficiente, corrupto, incapaz de organizar um programa de resgate e reconstrução. A cidadania renasceu, na tragédia das forças incontroláveis e inesperadas da natureza. Um ato de Deus, seguido por um ato do povo...

   O domínio do PRI, seus agentes e correligionários, sob todos os aspectos da vida social e econômica do país era real, quase insuperável. Necessitavam conquistar novos espaços. Empoderar grupos da sociedade civil, para tomada e realização de ações. A Sociedad Cooperativa Mexicana de Confección “19 de Octubre”, formada pelas costureiras do bairro “Colonia Obrera”, foi um dos primeiros grupos. Apoiadas por advogados e organizações de direitos humanos, descobriram provas das práticas ilegais trabalhistas. Exumaram arquivos soterrados nos escombros. Localizaram fichas de produção e cartões de ponto. A cooperativa apresentou as evidências ao Tribunal do Trabalho, com uma demanda de indenização. Os proprietários alegaram insolvência, se diziam também vitimas do terremoto. Ofereceram o prédio da fábrica, com os equipamentos ainda operacionais, como compensação. A proposta foi aceita.

   Elaboramos com as costureiras, planos para recuperar e viabilizar a fábrica. Asseguramos apoio financeiro não-reembolsável, com doações recebidas das comunidades católicas norte-americanas. Quase tudo estava resolvido. Um pequeno detalhe... As sócias estavam desempregadas. Faltava uma atividade econômica para sobreviverem até a inauguração da fábrica. As costureiras apresentaram uma alternativa. Artistas plásticos mexicanos foram mobilizados, para desenhar bonecas. Todas se chamariam Victoria. Seriam fabricadas pela cooperativa e vendidas ao público, para angariar dinheiro. As bonecas foram exibidas pela primeira vez no Museu Carillo Gil, na Cidade do México, no dia 14 de Dezembro de 1985.

   A fábrica começou a funcionar em Abril de 1986, fabricando jeans para Yves Saint-Laurent.

   Regressamos ao México em 1996. Missão de apoio técnico e logístico da ONU, a observação eleitoral cidadã. Uma coligação de quinhentas organizações, representando todos os segmentos da sociedade civil mexicana, nossa contraparte durante o período eleitoral. Entre as organizações presentes, as muitas mães da boneca chamada Victoria...

México 1985