NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 29 de novembro de 2009

Cinco personagens a procura de um apartamento barato

   Earle Hotel, esquina Sul da Washington Square com a Fourth Street Oeste, cidade de Nova Iorque. Famoso por seus ciclos de pobreza e luxo; artistas e acomodações baratas. Joan Baez escreveu uma canção inspirada em Bob Dylan, seu ex-amante, anos depois de sair do hotel. "Diamonds & Rust... Agora você está sorrindo para o exterior daquele hotel vagabundo. Na Washington Square...”

   Mudamos para o hotel, logo após a nossa chegada. Hotel de segunda classe. Aluguel barato. Local pitoresco. Ancoradouro perfeito para pessoas em trânsito. Artistas, emigrantes recém-chegados, pessoas recebendo amparo social, veteranos da guerra do Vietnã. Muitas histórias. Ninguém queria ser ninguém... Residentes antigos, sempre sentados nos sofás do lobby, observavam os recém chegados. Olhares de soslaio. “Você sabia que Bob Dylan morou no quarto 302?” Nossa chave! Olhamos para o recepcionista, com um sorriso incrédulo. Não desistiu. “Despejamos o outro Dylan, Dylan Thomas, muito barulhento... Michelle e John, dos Mamas & Papas, escreveram a canção “Twelve-thrirty” no 5-0-7.” Cantarolou uma estrofe: “Eu vivia na cidade de Nova Iorque. Tudo lá era escuro e sujo. Do lado de fora da janela havia um campanário, com um relógio sempre mostrando 12:30...” Ah! Pagamento de um mês adiantado. Não era aconselhável fumar cigarro na cama. Qualquer cigarro! No parque é melhor, mais seguro. Concordamos. A cidade estava em declínio total...

   Grupo de residentes conversando animadamente ao redor de uma mesa na praça. Dois jogavam xadrez intensamente. Todos fumando. Cigarro apagado na boca contemplava a cena. Alguém ofereceu um fósforo acenando com a mão. Um convite. Apresentações rápidas: Mieczyslaw. Cineasta polonês. Lançando um filme de longa metragem (cinco horas!), no mercado americano. Sua esposa, Elektra. “Sou uma lésbica.” Pausa. “Nasci na ilha de Lesbos, Grécia.” Profissão, atriz. Roy, texano, obeso. Comediante stand-up. Imitava objetos inanimados. Maiores sucessos: carburador, liquidificador e cortador de grama. Fritzie, esposa de Roy. Alemã Oriental. Técnica de enfermagem em clinica de metadona. A única pessoa do grupo com meios visíveis de renda. Apresentamos-nos. Silencio geral... Fomos aceitos no grupo. Não sabíamos por que...

   Informamos ao grupo que a prefeitura municipal havia disponibilizado apartamentos, com aluguel controlado, para artistas. Todos olharam ansiosamente na nossa direção. Artista? Falaríamos sobre o tema depois. Aquele dia, Mieczyslaw havia nos convidado para uma exibição privé da sua obra prima, “Elektra em Lesbos”. Cinco horas de poemas declamados em grego arcaico. Um coro trágico, acompanhado de lira e timbales. Elektra correndo aleatoriamente por lugares da ilha. Lésbica em Lesbos. Pálida. Nua. Mostrando uma generosa cobertura de pelos pubianos. Talvez, uma concessão à modéstia. Dez garrafas de vinho Mateus depois... Aplausos. A avant-première, um grande sucesso. Emocionado, Mieczyslaw pediu a palavra. Propôs que fossemos o líder e o redator dos dossiês para o projeto de aluguel controlado...

` Enquanto trabalhávamos inventando um perfil de artista, Poeta, algo inusitado aconteceu. Fritzie engravidou, sem seguro de saúde. Voltaram para Dallas. Elektra fugiu com um ex-adicto haitiano. Babalaô e tocador de maracás. Mieczyslaw após ingerir várias garrafas de Mateus, decidiu ser carpinteiro, sua verdadeira vocação. Partiu em direção à Califórnia. Continuamos o projeto. Um livro de poesias, Trilogia do Earle Hotel: “A vista de uma janela grávida com um ar-condicionado, Ventos poeirentos da minha tristeza e Ferrovia com dormentes indígenas”. Colecionamos mais de 120 cartas de rejeição, em dois meses. Um dia, recebemos 50 dólares de uma revista literária de Nova Orleans. Haviam aceitado uma poesia...

   Manuscrito, cartas de rejeição, fotocopia do cheque da revista. Nosso dossiê. Declamamos vários poemas da Trilogia. A examinadora perguntou, com ar de preocupação: “... estava deprimido quando escreveu a trilogia?” Respondemos, “não, foi pura inspiração”. Outra pergunta: “tem alguma profissão não poética?” Afirmamos com um gesto cheguevariano, “não, venceremos! Primeiro a Nova Orleans, depois o Premio Pulitzer”. O comitê debateu nossa petição por meia hora. Chamaram-nos de volta a sala. Entregaram um contrato de aluguel controlado. Aprovado. Mudamos no dia seguinte. Apartamento de dois quartos, Perry Street, 114, 54 dólares por mês. Ocupante: poeta desempregado...

Nova Iorque 1969

domingo, 22 de novembro de 2009

Pavana para todas as crianças...

    Algo novo aconteceu na Conceição, rua famosa no bairro pelos desfiles dos blocos carnavalescos. Um cortejo triste acompanhava um ataúde azul. Caixão de anjo. Decorado com uma grinalda simples e um ramo de palma. Choro abafado de uma mulher jovem, pálida, frágil. A mãe de Severino. Vestida de negro. Protegida por todos. Adultos falando baixinho, sussurrando, como se não quisessem acordar a criança. Homens tristes arrastando os pés. Curvados. Os fundos de suas calças quase tocando a parte posterior dos joelhos. Rua poeirenta, sem calçamento. Descobrimos então que nem todo anjo tem asas. Simplesmente voam. Noites sem dormir, nem o leite quente funcionava. Imaginando o anjo bem longe, no céu azul. Ainda não entendia a imensidão da perda.

Santo Anjo do Senhor...

   Choro de bebês. Uma sinfonia de dor. Médicos e enfermeiras fazendo anotações rápidas nos prontuários. Chorando alto e “gritando”; alimentação e sono pobres; diarréia; tremores... A mãe estava bem longe. Enfermaria especial. Vultos brancos partindo apressadamente. Uma enfermeira ficou examinando a lista das crianças. Sorrindo timidamente, como se em “rêverie”. Ouvindo de repente um choro sadio, brigão, de um nova-iorquino de verdade. Vai sobreviver! Olhou mais uma vez na direção das crianças. Outro dia no Harlem Hospital.

meu zeloso guardador...

   Hospital de campo, enfermaria pediátrica. Crianças resgatadas de uma zona de guerra, Província de Chokwe, Moçambique. As irmãs do hospital realizavam troca de plantão. Paulatinamente, como se em piloto automático. Rotina vital. Na parede externa da enfermaria, um relatório estatístico com a situação de saúde das crianças e óbitos. Vinte e cinco crianças em estado grave. Malária cerebral, HIV, disenteria e kwashiarkor. Voltamos no final da tarde. Olhamos as estatísticas. Muitos nomes haviam desaparecido. Deram alta? Uma irmã fez o sinal da cruz, pausadamente. Olhou para o céu, como se dizendo: Perdoe-nos, Senhor, tentamos tudo... Respondeu finalmente, “... não, foram para o céu...”

já que a ti me confiou à piedade divina...

   Um ataúde branco no centro de uma sala. Uma grinalda arranjada com pressa. Uma menina, uma recém nascida. Viveu e lutou muito para viver um pouco mais. Lembramos do casamento dos pais. Dia feliz, bem longe de hoje. Imaginamos os planos que haveriam feito. Quantas vezes sonharam com a criança do ataúde. Ah, quantos planos... Lembramos da felicidade da jovem mãe quando a encontramos em um supermercado. Conversando alegremente, segurando o ventre, como se estivesse ninando o bebê. A expectativa de continuar a vida. A palavra mãe estampada no seu rosto bonito, o conforto da realização de um sonho...

sempre me rege, me guarda...

   O avô perdido na imensidão da dor. Pai consolando a filha. Louvando-a, “minha filha é muito forte...” O abraço apertado do pai da criança, como se quisesse ficar eternamente colado a uma pessoa humana. Todos olhavam. Nenhuma pergunta ou comentário. O pequeno ataúde dizia tudo. Familiares, amigos, colegas dos pais. Movíamos em silêncio. Como a criança olhando o cortejo do anjo da Rua da Conceição.

me governa e ilumina...

   Cantarolando baixinho a “Pavane pour une infante défunte” de Ravel. Não tinha nada a ver com morte ou lamento. Nome escolhido por aliteração. Título melodioso e poético. Música divina. Confortante. O padre encomendava o corpo e a alma da criança, com a eloqüência daqueles que têm uma fé profunda na magnificência de Deus. O perfil da mãe. Camafeu de uma mulher nobre. Olhos fixos na terra. Pássaros barulhentos sobrevoando a cena. Cães ladrando. Distantes. O ruído das pás raspando o chão. Os últimos grãos de terra. As rimas do poeta alagoano, Jorge da Cunha Lima, ressoando nas trevas da dor. Da dor de todos nós.

“Essa pavana é para uma defunta

infanta, bem-amada, ungida e santa,

e que foi encerrada num profundo

sepulcro recoberto pelos ramos...”

   O anjo, simplesmente, voou. Em direção ao céu.

   Amém...

João Pessoa 2009

domingo, 1 de novembro de 2009

A Rainha Vermelha e as janelas quebradas...

   - Bem, na nossa terra, responde Alice, ainda arfando um pouco, geralmente você chegaria a algum outro lugar... se corresse muito rápido por um longo tempo, como fizemos.

   - Que terra tão pachorrenta, comentou a Rainha. Pois aqui, como vê, você tem que correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar.

   Diálogo no episodio de encontro de Alice com a Rainha Vermelha, no livro Através do Espelho, de Lewis Carroll.

   A vítima não era um homem comum. Torturado com choques elétricos, com a precisão e a crueldade dos carcereiros da prisão de Abu Ghraib. Uma pessoa de certa notoriedade. Músico, compositor e empresário. Outra vítima, uma pessoa desconhecida. Nome estranho. Tatuagem no torso nu, queimado. Uma maca no chão. Profissão, nenhuma. Estado atual, apenando. Vitima de seus companheiros. Não era considerado uma pessoa, dentro ou fora da instituição. Adquiriu certa notoriedade no corredor do hospital. Posando inconsciente para as câmeras dos celulares de estranhos. O fotografo anônimo dizendo aos vizinhos e família, “a foto é minha!” João Pessoa perdeu a inocência. Somos vitimas, ricos ou pobres. Tema transversal...

   Fomos o ultimo pais a entrar na crise e o primeiro a sair. Perguntamo-nos: Por que nos sentimos tão mal, quando estamos tão bem? Por que planejamos tantas soluções e ainda tratamos o problema de segurança, como uma emergência súbita? Por que nossas cidades estão implodindo? Por que ganhamos os Jogos Olímpicos e estamos perdendo as ruas? Uma das possíveis respostas talvez seja a Teoria das Janelas Quebradas.

   A teoria argumenta que pessoas são mais inclinadas a cometer crimes, em ambiente de desordem. Atos antissociais, como urinar ou cruzar fora da faixa de pedestre nas ruas; uso de drogas ilícitas ou bebidas alcoólicas em publico; mendicância agressiva ou pichação de paredes e monumentos, quando tolerados, estimulam as pessoas cometerem outras violações da lei. Baseia-se num experimento realizado por Philip Zimbardo, psicólogo da Universidade de Stanford, com um automóvel deixado em um bairro de classe alta na Califórnia. Durante a primeira semana, o carro não foi danificado. Após o pesquisador quebrar uma das janelas, o carro foi completamente destroçado e roubado por grupos de vândalos, em poucas horas. Algo semelhante ocorre com a delinquência, com o crime urbano.

   Qualquer pessoa trafegando nas ruas da nossa cidade é confrontada por uma verdadeira legião de suplicantes, pedintes, meliantes e oferecedores de serviços de estacionamento ou lavagem de veículos, cujo propósito principal aparenta ser compensação por não danificar ou deixar outros avariarem sua propriedade. O publico geralmente encara essas atividades como pura chantagem social. Elas ocorrem na luz do dia. Muitas vezes na presença de policiais. Não é necessário procurar por nossas janelas quebradas. Elas nos saltam aos olhos...

   Cadeirantes ora na esquina da Beira Rio com a Avenida Juarez Távora, ora no semáforo da junção da Beira Rio com a Rua Macionila da Conceição, bloqueiam uma das faixas para pedir esmolas aos motoristas. Todos aposentados por invalidez, pelo INSS. Cruzamentos com menores pedindo dinheiro ou tentando lavar pára-brisas. Vários carregam parafernália para o uso de drogas. Alguns são veteranos nas páginas policias. São reconhecidos prontamente pelos motoristas. Menores coletando lixo e dirigindo carroças de tração animal, precariamente. Crianças dormindo ao relento ou nas marquises de prédios públicos. Todos os dias novos programas são anunciados por diversos setores governamentais. Os problemas persistem. Aparentemente ninguém faz nada ou nota as janelas quebradas...

   Continuamos reagindo, esperando que um crime aconteça para tomarmos as “providências cabíveis”. Solução parecida com a rainha de Alice, “... cortem-lhe a cabeça!” Pouco se fala de prevenção, de uma atuação mais integrada da policia, do ministério publico, educadores e a sociedade civil, como uma força tarefa, na mediação e resolução pacifica de conflitos, nas escolas e comunidades. O governo perdeu o controle das ruas. As janelas continuam sendo quebradas. O possível impacto do objetivo pretendido pela bolsa-escola é nulificado pela “bolsa-crime” ofertada por criminosos, como incentivo para o cometimento de atos ilícitos. A mudança-zero persiste...

   O galo cantou. A Rainha Vermelha ficou no mesmo lugar...