NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

9/11: Terrorismo globalizado

Outono de 1979.

   Nosso escritório no andar 69 da Torre II do World Trade Center, tinha uma vista privilegiada. A Estátua da Liberdade. Majestosa. As palavras eloqüentes da poetisa Emma Lazarus. “Dai-me os vossos cansados, vossos pobres, as vossas massas desejosas de respirar liberdade”. Mulher Judia. Família afluente. A voz da diáspora sefaradi. A ponte de Brooklin. Caminho seguro para emigrantes de todas as raças, religiões, origens. Mais de 45% de população nascida fora dos Estados Unidos. Porto seguro para árabes, judeus, eslavos, chineses, caribenhos e afro-americanos. Mosaico de povos e culturas. Coexistindo pragmaticamente. Seduzidos pelo o canto da sereia...

11 de setembro de 2001.

   O taxi se movia devagar na 5ª Avenida. Grupos de pessoas nas calçadas, apontando na direção do Sul da Ilha de Manhattan. Fumaça no horizonte. Labaredas. “Deve ser um incêndio grande, perto da Macy’s na Rua 34”, o taxista paquistanês comentou. Blasé. Driblando o trânsito. Movendo em direção do Chrysler Building, nosso novo escritório na ONU. Tínhamos pressa. Celulares haviam parado de funcionar. Queríamos saber o que estava acontecendo. Soldados e seguranças cercavam a Grand Central Station, a estação ferroviária de Nova Iorque. Edifícios na lista de alvos dos terroristas. “Os Estados Unidos acabam de ser atacados”, nos informaram... “Nossas torres foram destruídas”. Aço misturado com concreto. Fumaça ácida, negra, sufocando as massas. Pearl Harbour no asfalto. As irmãs gêmeas da globalização não eram mais...

   Ato terrorista de 11 de Setembro e a subseqüente “Guerra contra o Terror”. Gêmeos siameses. Expondo dramaticamente o lado ruim da globalização. O fluxo global de tecnologia, comércio, informação, ideologias e pessoas, mostrando que a globalização pode ter efeitos positivos, como também negativos. Dividindo e unificando o mundo. Fazendo inimigos, incorporando amigos. Gerando riqueza, aumentando a pobreza. Os terroristas tiveram sucesso porque usaram a bipolaridade da globalização como um instrumento de destruição. Informações técnicas em paginas web facilitaram a criação do terror tecnológico. Convertendo instrumentos benignos, aeronaves civis, em armas de destruição massiva. Desencadeando ações colaterais, dramáticas e destrutivas. Acordando os demônios da intolerância religiosa. Destruindo as esperanças emergentes do Novo Milênio. Multilateralismo na cooperação econômica, comércio e isonomia nas relações entre os povos. Islamismo, o novo bicho-papão, substituído o comunismo. O novo “império do mal”. Os mísseis, frotas nucleares obsoletas, estados satélites, apoio estatal a grupos subversivos, enterrados nos escombros do Muro de Berlim. Havíamos chegado à era do novo “ismo”. Terrorismo, um fato comum no mundo globalizado. Fênix maldosa...

   O povo norte-americano unido. “Nós contra Eles. Oficiais da reserva, comentaristas do radio, experts, servindo rações diárias de patriotismo. Descrevendo o conflito como se estivessem jogando RPG. Interprentando personangens; simulando todas as possibilides de um novo ataque contra os Estados Unidos. Retaliação contra “Eles”. “This is CNN”, em todas as línguas”. O “choque das civilizações” substituindo o “fim da historia”. Legitimando ações unilaterais, subestimando o sistema das Nações Unidas. Combatentes da mídia globalizada. Os Illuminati da Nova Ordem de George W. Bush. Líder incompetente, desqualificando. Cercado de soldados, policiais, bombeiros, trabalhadores de construção. “Levaremos a guerra até eles”. “Os que não estão conosco, estão contra nós”. Disputas partidárias sepultadas em favor de bipartidarismo. Nova leis aprovadas a toque de caixa. Desencadeando o maior desafio às liberdades civis e direitos humanos, desde a era do anticomunismo virulento do Senador Joe McCarthy. “O senhor não tem vergonha, Senador McCarthy!” Lembranças do grito do jornalista Edward R. Murrow contra a autocensura. Silenciosa e cúmplice. Nenhum jornalista preparado para apontar o dedo em direção aos novos demagogos. O mundo anglo-saxão, cristão contra os bárbaros. Unidos...

   O post-mortem de 11 de setembro ainda não foi escrito. Talvez nunca seja. Tudo mudou, concordamos. Não sabemos precisamente o que mudou e quando. Somos menos inocentes, mais sérios e cautelosos. Bombardeados com informações na internet, na mídia globalizada, sobre modificações dramáticas na economia, cultura, política e no cotidiano. Pouco tempo para reflexão ou análise sobre o que aconteceu naquela manhã. O mundo brincando de “plantar bananeira”. Ajustando-se às mudanças globais. Crianças negras na África e na America Latina, pedindo a pais pobres para comprar uma Barbie. Países industrializados que não podem mais comprar o que compravam, vendendo o supérfluo aos que não podem pagar. “Os Nós contra Eles”. Novos “ismos” sendo inventados na mídia. Os demagogos nos púlpitos de catedrais falidas demandando novos programas de repressão. Povos recém libertados de ditaduras opressivas, pedindo a volta dos soldados à rua...

   O mundo ocidental anuncia diariamente a destruição de mais uma rede terrorista, captura ou morte de um líder do movimento jihadista global. Estamos mais seguros? Não sabemos. Novos “ismos” não vão deixar de aparecer ou serem inventados. A única salvação é que o mundo esta ficando mais democrático. O grande perigo é que somos mais assimétricos. Cocaína versus crack. Barbies versus Mônicas. Grades do terraço versus grades de penitenciarias.

   O que mudou depois de 11 de Setembro é a urgência em que devemos mudar. Pessoas sem equidade são pessoas sem liberdade. Questionando os sistemas que lhes oprimem. “Se não sou parte do sistema, por que devo jogar pelas regras dele?”, perguntam pelo mundo afora. O desespero, a exclusão e o fanatismo são companheiros de viagem, quando a democracia não funciona. Estavam juntos, passageiros de primeira classe nos mesmos aviões, no dia 11 de setembro de 2001. Tickets comprados pela internet, milhagem dupla...

   Precisamos reafirmar os valores básicos e instituições democráticas e procurar soluções locais e globais para problemas que envolvem ambas as dimensões. Governos e movimentos sociais teem e devem lutar contra o terrorismo, militarismo e injustiça social, como também pela democracia, o meio ambiente, direitos humanos e justiça social. Em vez de tentar suprimir ou abrandar a democracia, como uma forma de combater o terrorismo, devemos fortalecê-la contra as forças da violência e da destruição. Esta é a grande lição de 11 de Setembro...

domingo, 20 de dezembro de 2009

O começo da grande aventura...

   Comemoramos hoje quarenta e cinco anos da nossa saída do Brasil, rumo à terra prometida. Buscando a história e escrevendo a nossa própria. Acordamos cedo. Encontramos o que procurávamos. Escarcela antiga. Empoeirada. Derramamos o conteúdo na cama. Documento de emigração, o “green-card”, modelo antigo. Vários passaportes e laissez-passer da ONU, expirados. Cartões de imunização. A burocracia do mundo. Foto antiga de um homem jovem, cara séria. Gravata apertada demais para o conforto. Terno preto com listas brancas. Comprado para um evento acadêmico que nunca aconteceu... Determinação nos olhos. Lembramos daquele dia. Sorrimos.

   Fechado para balanço...

   Não recordamos muita coisa do dia 16 de dezembro de 1964. Estávamos no Aeroporto dos Guararapes. O Caravelle da Panair recebendo os últimos cuidados. Pássaro mimado. Perez Prado e sua Orquestra tocando o mambo El Manisero. Canção feliz sobre um vendedor de amendoim. Não sabemos por que ouvíamos nela a palavra “adiós”. A palavra era “maní”, amendoim. Ato falho... Em duas horas deixaríamos tudo que conhecíamos. Sonho transformando-se em destino.

   A trilha de vapor da aeronave formava duas paralelas no céu. Afastando-se rapidamente do Recife, dos “velhos sobrados, compridos, escuros”. O lugar onde o sonho amadureceu. O livro mágico. A pedra da Roseta para a America de Alexis de Tocqueville. A democracia, por ser um estado de sociedade, se torna também o que ela deve ser, por não conduzir a um estado de governo, a uma ditadura. O povo quando associado livremente, é o dono do seu destino. Estávamos bem longe de casa, bem perto do que queríamos viver. O fermento e as tragédias da década dos anos 60 redefinindo tudo, desafiando todos, criando o mundo possível. E lá estávamos... Organizando trabalhadores; mobilizando pessoas excluídas; ensinando a magia da não-violência a membros de gangues. Engajados na guerra justa, guerra contra a pobreza.

   Férias na África. Seduzido pela beleza da arte africana. O misticismo, as máscaras, as sociedades secretas do povo Dogon, no Mali. A estética africana presente nos quadros e esculturas cubistas. As “Meninas de Avignon”, de Pablo Picasso. Mudamos para a África em 1980. Treze anos envolvidos com lugares e situações onde a miséria, exclusão social e conflitos tomavam precedência sobre outras condições humanas. Conhecemos a África, conhecemos todas as Áfricas. Boa ou ruim. Não importava. Havíamos encontrado nosso grande amor...

   Voltamos para a America Latina. Revoluções, conflitos. O istmo centro-americano em chamas. Fazendo o presente menos possível. Entendendo rapidamente que o caminho da paz nem era fácil, nem uma opção preferencial para muitos. Erupções vulcânicas, terremotos, maremotos, furacões e guerras assimétricas. A única coisa que não faltava era vítimas... Aprendendo a dura e amarga verdade. Nunca começando nada. Sempre começando de novo. Mesmo assim prevalecemos. A paz venceu, eventualmente.

   Vivemos situações que exemplificavam a falha da pessoa humana em comunicar-se, em optar por compromisso em vez de conflito. Diferenças político-partidárias ou tribais transformando-se em antagonismos pessoais, justificando ações caracterizadas por sua mesquinhez e desrespeito ao povo. Todos os conflitos, subdesenvolvimento e miséria que presenciamos foram causados pela incompetência, pela inabilidade de lideres de entender, que o desenvolvimento humano só é possível, quando a civilidade e a convivência civil permeiam suas relações. Nas palavras de Benito Juarez, o grande estadista mexicano, “... o respeito ao direito alheio é a paz.”

   Testemunhamos o começo de uma nova história. Não o fim da historia de Francis Fukuyama. Muitos países consolidaram ganhos democráticos e começaram a crescer. Outros relegados ao subdesenvolvimento por guerras civis, conflitos e corrupção, ainda não entenderam que o desenvolvimento humano, não é possível sem a paz. Que a paz não é sustentável, sem democracia.

   Fotos antigas. Família, filhos, netas, lugares. O homem que nos levou ao aeroporto... Só memórias. Triste, lágrimas nos olhos. “Vá meu filho, não desista do seu sonho.” Abraço, rostos colados com o suor dele... O soldado que venceu todas as guerras sem disparar um tiro. Música maestro!

   Musica movetur mundus.

   Reorganizamos a papelada e os mundos espalhados sobre a cama. Fechamos os livros e nos lembramos de Calderón de la Barca, “Vive Dios, que pudo ser...”

João Pessoa 2009

domingo, 13 de dezembro de 2009

Villa-Lobos e o metrônomo da vida...

    Porta principal do Abrigo de Menores Jesus da Nazaré. Duas freiras esperavam ansiosamente a chegada do visitante. Tratava-se de um músico famoso, na cidade, para um evento no Teatro Santa Rosa. Juntamente com as religiosas, um homem de rosto corado, sobrancelhas espessas, corpo na posição conhecida como “descansar”, no linguajar militar. Sargento Lucena, o regente do coral da instituição. Havia juntado coragem suficiente para sugerir um convite ao grande maestro...

   A guerra fria havia esquentado. A rivalidade entre os sistemas capitalista e comunista se transformava em um conflito militar de grandes proporções. A paz mundial estava ameaçada. Manchetes de jornais noticiavam combates sangrentos na Península Coreana. O ano era 1951.

   O visitante chegou. Baixa estatura, vestido em um terno escuro. Charuto enfiado no canto da boca. Olhos cansados. Taciturno. Conversou baixinho com seus anfitriões. Ouviam atentamente. Música tocando no sistema de som da casa. Caminharam juntos em direção ao recinto do concerto. Entraram. Atmosfera de antecipação. Aplausos. A madre superiora tocou levemente nos lábios, com o dedo indicador. Silencio! Pediu ao visitante para sentar-se. O regente tomou posição em frente ao coral. Soprou em um objeto metálico, circular. Notas musicais. Sussurrando as ultimas instruções. Olhos atentos. Crianças acostumadas com a disciplina espartana da instituição. Gesto coletivo de reverência. O visitante respondeu com um sorriso, seguido de um gesto, mãos espalmadas para cima, como se dizendo: música maestro! Canção de ninar, ciranda, baião... Expressão serena no rosto, dedos acompanhando o ritmo de cada canção. Um metrônomo...

    Inquieto, um menino de dez anos observava a cena do concerto. Sentado de pernas cruzadas no chão, perto da cadeira do visitante. Conhecia quase todo o repertório. Parte do seu cotidiano. Filho do regente. Seu pai queria que fosse músico...

    Anos depois. Aula de violoncelo no conservatório de música. O professor ensaiava uma peça musical com uma cantora lírica. Cantilena da Bachianas Brasileiras No. 5. Adolescente, com as mãos curvadas no topo de um violoncelo. Embevecido com o desempenho dos artistas. Repetiram várias vezes os trechos cantados em "Vocalise". Finalmente satisfeitos, concluíram o ensaio. Entusiasmados, continuaram a conversar sobre a música. Obra do compositor.

   O regente ouviu atentamente o relato do filho. Feliz após seu primeiro dia de aula de violoncelo, no conservatório. Falou da peça musical que o professor estava ensaiado. Havia descoberto o nome do compositor. Heitor Villa-Lobos, o homem que havia visitado o abrigo de menores em 1951... Mais detalhes da visita. Seu pai falou que o maestro havia se incomodado com o volume do sistema de som da instituição. Pediu ao chegar: “... por favor, baixem o volume, música é para meditação.” Começo de uma viagem sem fim no mundo musical... Um coração, alma brasileira, pulsando com “... a cruel saudade que ri e chora!”, da Bachianas Brasileiras No. 5.

   Heitor Villa-Lobos falou essas sabias palavras no seu discurso em João Pessoa-PB, em 1951,
   “... O Brasil já tem uma forma geográfica de um coração. Todo Brasileiro tem esse coração. A Música vai de uma Alma à outra. Os pássaros conversam pela Música; eles têm coração. Tudo o que se sente na vida se sente no coração. O coração é o metrônomo da vida. E há muita gente na Humanidade que se esquece disso. Justamente o que mais precisa a Humanidade é de um metrônomo. Se houvesse alguém no mundo que pudesse colocar um metrônomo no 'cimo da Terra', talvez estivéssemos mais próximo da Paz. Por que se desentendem, vivem descompassados Raças e Povos? Porque não se lembram do metrônomo que guardam no peito: o coração...”

   A guerra da Coréia continuou até 27 de Julho de 1953. Morreram cerca de três milhões e meio de pessoas. O tratado de paz ainda não foi assinado. A Península Coreana continua dividida em Norte e Sul...

João Pessoa, 1951

domingo, 6 de dezembro de 2009

A menina que amava o herói do mangá japonês

   Chegada auspiciosa no hotel de Wuping. Jovens enfileiradas nos esperavam. Vestidas com jaquetas e pantalonas, em vermelho mandarim. Cabelos atados estilo Maria Chiquinha. Mãos estendidas em direção ao topo da entrada. Um homem, com ar de autoridade, nos esperava no lobby. O interprete anunciou com a devida cerimônia: “Prefeito Xie Zhong, Condado de Wuping, Município de Longyan.” Os demais membros do entourage foram apresentados perfunctoriamente. Nomes próprios precedidos pelo titulo funcional. Cartões de visita em Chinês e Inglês, entregues com ambas as mãos. Pequeno discurso de boas vindas, com o tradicional chá de jasmim. Havia uma reunião no saguão às 22 horas, para um banquete em nossa honra. Comunicaram que tínhamos uma agenda extensa para cumprir em três dias... “Descansem!”

   Observamos uma estatua de Mao Tsé-Tung em frente ao hotel. A primeira que havíamos visto na Província de Fujian, o berço da revolução. Decidimos visitar uma livraria. Próximo ao hotel, encontramos uma muito boa. Aparentemente todos os títulos eram em Chinês. Mostramos um calendário para a vendedora, apontamos para a estátua na praça. Pedimos dois com os dedos. Gesto negativo, fora de estoque! Duas meninas e uma adolescente vestida em traje esportivo, bola de basquete nas mãos, nos observavam atentamente. Frustrados, estávamos saindo quando a adolescente acenou para voltarmos. Dirigimo-nos a uma salinha no mezanino. Uma verdadeira mina de pôsteres, calendários e estatuas de Mao Tsé-Tung. Memorabilia revolucionária a preços módicos, made in China...

   Nosso descanso foi interrompido pelo som da campainha. Casal chinês com uma adolescente à porta. Cheios de sorrisos, gestos amistosos. Tentando comunicar-se com as mãos. Observamos que a adolescente carregava vários livros e uma folha de papel com a palavra “slam-dunk”, como se esperando alguém no desembarque do aeroporto. Reconhecemos então nossa amiga da livraria. Chamamos à recepção, nos informaram que os visitantes queriam nos presentear com livros para aprender Chinês. Infelizmente, todos estavam escritos em caracteres “hànzì”. Aceitamos os presentes de qualquer maneira. Despedimo-nos.

   Mencionamos a visita da família durante o banquete. Elogiamos a adolescente por sua hospitalidade, atitude simpática e dedicação ao esporte. Queríamos presenteá-la com uma camiseta da NBA e pôsteres da Michael Jordan. O prefeito reagiu entusiasticamente. Comprometeu-se em entregá-lo. Escrevemos “slam-dunk” no guardanapo e mostramos sua foto digital. A única informação que tínhamos... Enviamos o presente aos cuidados do Prefeito, retornou vários meses depois. Endereço incompleto... Um ano depois, nos encontramos com o Prefeito de Wuping, na cidade de Longyan. Informou que a nossa adolescente, ou “slam-dunk”, seria homenageada como a estudante modelo do distrito escolar, nessa ocasião entregariam nosso presente.

   Recentemente, encontramos em uma livraria uma publicação de nome “Slam-Dunk.” Consultamos uma jovem universitária que estava comprando uma revista semelhante. Explicou-nos que se tratava de um mangá, desenho em quadrinhos japonês, traduzido para o Português. Formato popular mundialmente. Ao contrario dos gibis ocidentais, a leitura dos mangás é feita da direita para a esquerda, do fim para o inicio, como em escrita japonesa. O desenho conta a historia de um adolescente chamado Sakuragi Hanamichi. Rejeitado por mais de cinqüenta garotas no ensino fundamental, decidiu reverter sua sorte no primeiro ano do ensino médio. Conheceu uma jovem chamada Haruko Akagi, que fez a pergunta que iria mudar seu destino. “Você gosta de basquetebol?" Entrou na equipe da escola para eventualmente conquistá-la. Uma longa história, um final feliz?...

   Recordamos imediatamente da adolescente chinesa, que nos presenteou com livros, ao mesmo tempo em que nos mostrava a expressão “slam-dunk”. Assumimos então que se tratava da famosa jogada dos craques da NBA, porque portava uma bola de basquetebol. Motivo que levou sua cidade a homenageá-la por sua dedicação ao esporte. Infelizmente, só agora viemos a descobrir o equívoco. A adolescente de Wuping provavelmente queria trocar livros em Chinês por edições do mangá “Slam-Dunk.” Publicação difícil de encontrar na China, devido a sua origem japonesa e tendência capitalista.

  A Haruko Akagi de Wuping, nossa “estudante modelo”, era fruto de um conflito de geração e cultura. Nada mais...

China 2003