NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Zé Carioca da Sunset Strip

Pequeno prédio de apartamentos na Avenida North Las Palmas, a poucas quadras da Sunset Strip. Ilha de simplicidade funcional alojando famílias e pessoas sem raízes ou planos de permanência na cidade, o bairro de Los Angeles chamado de West Hollywood. Calçadas cobertas de estrelas, carros de luxo e caras famosas, algumas, presas da memória minguante de uma fama distante e decrescente, só podiam ser reconhecidas com exagerada proximidade.

Morávamos no primeiro andar, com vista privilegiada para a piscina, retângulo azul no centro do pátio, quebrando a monotonia bege dos apartamentos. Grupo de idosos mantinha cadeiras de plástico posicionadas para observar o vai e vem do prédio. Congregavam-se perto do apartamento do Senhor Fisher, pai do cantor Eddie Fisher, ex-marido de Debbie Reynolds, Elizabeth Taylor e outras... menos famosas. Fotos do filho e de suas ex-mulheres decoravam sua sala de visitas. Regalou-nos um dia com chá e detalhes íntimos sobre os romances.

Nossos vizinhos: “The Girls from Bahia”, nome hollywoodiano do Quarteto em Cy; a direita uma atriz dramática, cujo trabalho se limitava ao papel de “sogra”, no seriado “Divorce Court”, odiava a música do chamado “Terceiro Mundo”. Atores e atrizes “classe B”, músicos de estúdio, tripulantes e aposentados completavam a população da “menagerie” do Senhor Schnyder, o truculento proprietário.

Bar restaurante na Sunset Strip, pequeno cartaz: “Brazilian Music Tonight”. Palavras sedutoras para um emigrante brasileiro. Entramos sem hesitação. Ouvimos o som de um cavaquinho, acompanhado de um violão e um violino, três homens idosos e um percussionista jovem. Apresentamo-nos durante o intervalo. Tínhamos diante de nos, três músicos que haviam acompanhado a Carmen Miranda na sua meteórica carreira nos estúdios de Hollywood. Zezinho Oliveira, o mais velho, era nada mais, nada menos, que o Zé Carioca de Walt Disney. Começamos nossa amizade naquele dia.

A crítica americana havia premiado com um “Grammy” ao encontro musical de Frank Sinatra com Antônio Carlos Jobim. O álbum perdeu apenas, em vendas, para “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Música brasileira pós-Carmen Miranda, havia estabelecido uma porta de entrada em Hollywood. Luiz Bonfá, João Gilberto, Walter Wanderley, Sergio Mendes, Sivuca, Dom Um Romão, Astrid Gilberto, Vanda de Sá, Rosinha Valença, Moacyr Santos e muitos outros apareciam freqüentemente em shows de televisão, clubes de jazz e alguns no Greek Theatre, a mais famosa casa de espetáculos de Los Angeles. O swing de Hollywood tinha a distinta sinuosidade da Bossa Nova.

Voltávamos sempre a Sunset Strip para ouvir Zezinho e seus companheiros. Quando na cidade, Sivuca nos acompanhava. Fato corriqueiro devido à presença de estúdios de gravação e calendário de concertos de Miriam Makeba. Verdadeiras viagens musicais, de Carmen Miranda a Tom Jobim.   

Frequentamos a casa de Zezinho, cheia de compatriotas, nunca faltava aos amigos ou a aqueles que necessitassem de ajuda ou de conforto. Tinham um costume maravilhoso, ele e sua mulher: mantinham um livro com os endereços e telefones de todas as pessoas que conheciam, em casa ou na noite. No Natal, enviavam cartões de Boas Festas para todos. Recebemos vários durante nossa permanência na África. 

Depois de uma vida dedicada à boemia e ao carinho pelos amigos e familiares, morreu há vinte e três anos. Seus sentimentos mais profundos de amor e amizade foram reservados a tudo que tocasse sua alma brasileira...  Zezinho, em uma única vida, foi homem, músico, papagaio de gibi e estrela de Hollywood – transcendeu a tudo isso, a magia do cinema americano e, inclusive, a Walt Disney... Em momentos de alegria, repetia constantemente a expressão “Too much... Demais!”.  

Todo Natal, relembro “demais” o amigo Zezinho, o Zé Carioca...

João Pessoa, 25/12/2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

No Reino da Pedra Mágica...

   Deitado de modo inconfortável no degrau da entrada do mercadinho, o menino dormia o sobressaltado sono dos inquietos. Longa noite no reino mágico do crack. Momentos de exaltação, sem ansiedade. Janissários dando a vida pelas “pedas” soberanas. Chagas nos braços, pés calejados. Moscas comutando entre olhos semiabertos e uma  fatia de bolo. Pessoas entrando e saindo. Evitam o corpo do menino, como se fosse um tapete de perdição.

Movendo-se sutilmente, um gato preto. Nariz no alerta, passos medidos. Caçador a procura de uma presa. Cheiro de galeto assado misturado com monóxido de carbono no ar. A hora do almoço se aproxima...

 Dia movimentado. Motoristas à espera de vaga no estacionamento. Impacientes. Sinaleiras piscando, buzinas tocando. Alguns irados. Impropérios. “Bombado”, flanela na mão, observa calmamente a situação. Mordomo da calçada. Acomodando veículos nas poucas vagas disponíveis. Gestos firmes, porém profissionais. Rei Salomão brincando com peças de Lego urbano. Sempre abrindo a porta do veiculo: “Doutor... doutora... fique à vontade”. Gorjeta na mão, pequena reverência ao partir. “Muito obrigado, vá com Deus”. Próximo...

Sentadas precariamente em cadeiras de plástico, três mulheres e duas adolescentes. Bacias no colo, cheias de vagens e feijão verde debulhado. Candidatas à lesão por esforço repetitivo. Pequeno corredor entre o mercadinho e os quiosques de frutas e verduras. Vala aberta escoando água suja, receptáculos de lixo orgânico. Gari tenta manter a higiene do local.  

 Policiais observam a cena, sem interagir com as pessoas. Conferem o mostruário de CDs e DVDs. Primeiros acordes de “Love me tender”, invadem a calçada. Elvis Presley amando de verdade, amando com ternura. Realizando sonhos. Troca de ritmo brusca: “Você não vale nada, mas eu gosto de você”... A calçada se alegra. Atendente da banca de jogo do bicho anota números no “pule”. Milhar 5-7-2-6, do primeiro ao quinto, por favor. Visivelmente embriagado, o apostador ensaia pequenos passos de forró.  

Mulher jovem. Bonita. Olhos sonhadores. Unhas pintadas em “verde fashion”. Corrente e pingente de ouro faux, com silhuetas de duas meninas. Arrumando rodelas de abacaxi em bandejas de isopor. Criança aproxima-se, pede dinheiro para comprar comida. Gesto de reverência e súplica. Banguela, mostrando sua “janelinha” com um sorriso cheio de desespero urbano. Estupor narcótico. “Fuinha”, um dos meninos de rua viciados em crack. Resposta imediata: “Pegue descendo”, na linguagem tão verbal das ruas. Epítetos, em resposta. Partiu em direção ao território mais fértil...

“Baixinho”, o parceiro de Bombado, almoçando na barraca da viela, no outro lado da avenida. Prato do dia: guisado com cuscuz, acompanhado de uma “bicada” de cana. Refeição terminada, moedas na pequena mesa. Hora de voltar ao trabalho. Caminha apressadamente em direção à lotérica. Entrega um pedaço de papel, com os números 03-11-27-40-52-60, a uma das “meninas”. Mega-sena, R$2.00. Preço barato para sonhar até o próximo sorteio.

Rumores, excitamento. Ocorrência do dia: farmácia próxima à loja de colchões, assaltada pela segunda vez na semana. “O moído foi grande... Três crianças, moradores de rua, assaltaram o estabelecimento com objetivo de roubar produtos para vender para comprar crack...”, anuncia o tabloide popular. Linguagem crua, simplista. Homem lendo o jornal em voz alta para uma roda de amigos. Reconhecem as crianças na foto. “Celebridades instantâneas na galeria universal da infâmia”. Morte prematura esperando acontecer...

Menino entrega um sanduiche a uma mulher. Distribuidora de panfletos anunciando um novo condomínio. Lanche embrulhado em plástico, com logotipo diferenciado. Esmola recebida de uma “doutora” na saída da padaria. Vendido sempre por R$1.50, pris fixe da rua. “Crack saciou sua fome, melhor do que estragar a comida”. Ato justificado.  

“O povo é besta”, falou a criança. Perdida em uma encruzilhada do Reino da Pedra Mágica...  

João Pessoa 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Enquanto a cidade dorme....

   Avenida Corrientes, Buenos Aires. Vultos genéricos movendo-se furtivamente na luz baixa do anoitecer. Decadência e pobreza empilhadas nas esquinas da vida. Homens e mulheres bailando o tango da sobrevivência em frente de bares, restaurantes e teatros. Ninguém sabe de onde vêm ou aonde vão. Casa número 000 de uma calle sem nome. “Descamisados” de alhures, “cartoneros” de hoje. Sobrevivendo à perversidade da globalização, criando uma economia paralela sustentável, com lixo reciclável.

   Homem magro, vestido modestamente. Acordeão em péssima condição, tocado sem grande interesse. Doações na caixa preta na calçada. Pessoas passam sem prestar atenção ou colocar moedas. Acordes de “Mi Buenos Aires Querido”, versos cantados pausadamente. Sabor de idos dias felizes misturado com nicotina e vinho barato. Paixão portenha abrigando a depressão urbana, sob o manto dourado de Carlos Gardel.

   “Bajo tu amparo no hay desengaño
   vuelan los años, se olvida el dolor...”

   Som de moedas caindo na caixa. O músico anima-se, ensaia pequenos passos de tango enquanto toca. Turistas brasileiros, armados de sacolas cheias de compras, caminham apressadamente. Barulho das rodas das maletas recém adquiridas. Litania de vendedores e cambistas tentando interagir com clientes. Ofertas na língua franca das ruas - todas as variedades e sotaques. Encolhendo os ombros, o homem suspirou como se dizendo: só tenho tango para vender. Continuou...

   “En caravana los recuerdos pasan
   como una estela dulce de emoción,
   quiero que sepas que al evocarte
   se van las penas del corazón...”

   Jantar no Hotel Panamericano, em frente do Obelisco. Meia noite. Trânsito movimentado ao redor do monumento. Decidimos caminhar por La Florída, rua de pedestres, até as Galerias Pacifico. Uma cidade sempre acordada na penumbra da noite. Corpos grudados contra o rodapé dos edifícios. Crianças brincando. Famílias empilhando material reciclável em cada esquina. Esperando por compradores, como se esperassem a Godot...

   Legião de quase 100.000 catadores de lixo, sem benefícios sociais, seguro ou equipamento de proteção industrial. Transformaram o país em exportador de cartão reciclado.

   Lembramos dos cristãos “Zabbaleen” do Cairo e dos Romani, os chamados Ciganos, do Leste Europeu, enquanto caminhávamos. Pessoas vivendo e trabalhando em verdadeiras “lixões”, no perímetro urbano. Negócio de comunidades marginalizadas. Olfatos anestesiados pela miséria e matéria orgânica em decomposição. Vulneráveis à hepatite e expostas ao tétano. Reciclando latas e cartões, gerando renda e empregos para milhares de excluídos. Aqueles que deveriam ser beneficiários de programas de alivio da pobreza, das Metas do Milênio, aliviando, sozinhos, sua própria miséria. Inadvertido paradigma do desenvolvimento sustentável.

   Regressamos ao Brasil no dia seguinte. Poucos carros ou pessoas nas ruas. Cheiro de maresia na solidão da madrugada.

   Vultos caminhando na calçada da orla. Carrocinhas precárias movidas por animais em condições similares. Pequenos grupos de pessoas, adolescentes e mulheres, catando e empilhando materiais. Fim de uma jornada que começou no fim da tarde, nas ruas movimentadas da capital. Tratamento desumano de animais, crianças desprotegidas reciclando o lixo dos que têm, fortalecendo a economia. Brasil, campeão mundial de reciclagem de latas.

   Pessoas humildes são verdadeiros outdoors daquela pobreza que gostaríamos que fosse invisível, catando lixo a céu aberto. Visões diárias que nos envergonham. Dão-nos pena, nada mais. Poucos os consideram ou os aceitam como protagonistas na luta pela sobrevivência do planeta.

   Lixo reciclável gera renda e emprego para mais de 700 mil pessoas. Cada brasileiro produz em média 920 gramas de lixo sólido por dia. A quantidade reciclada, na coleta seletiva ou por catadores, chega apenas a 2,8 kg por ano, por habitante. Centenas de milhões de reais jogados no lixo, literalmente. Hora de mudar.

   Crianças examinando latas de lixo de um restaurante e de um hotel próximo a nossa casa. Chegamos...

   João Pessoa, 08 de Dezembro de 2010

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Encontro na sombra do baobá

   O ritual do “kaffa” havia começado mais cedo. Chuvas torrenciais e enchentes. Inverno na Etiópia. Fogareiro de carvão no centro da sala, Rahel, a dona do quiosque, torrava café verde misturado com cardomomo, cravo e canela. Triturava os grãos num pilão rudimentar. Preparava o café em uma cafeteira cônica de flandre. Servia a bebida em taças minúsculas com um bule de barro. O café mais forte, sempre para os mais idosos ou os mais importantes.

   Hoje seria a nossa última visita ao quiosque. Rahel nos presenteou um pacote de grãos de café, que ela havia torrado e uma lata de mirra. Observou-nos silenciosamente enquanto degustávamos a primeira taça. Pôs uma cruz Amhara na minha mão direita, pedindo nosso silêncio com o dedo indicador tocando nos lábios. “Ata, tenho um mau pressentimento, muitas nuvens negras no horizonte. Se cuide!” Despedimo-nos de uma vez.Dehna hunu!” Partimos para o aeroporto. Embarque imediato para Lusaka, no outro lado da África...

   As nuvens negras nos seguiram. Pouso horroroso no meio de uma tempestade. Havíamos passado um mês em Lusaka, antes da missão em Adis Ababa. Regressávamos agora para fazer uma conferência para o empresariado nacional e consultas com a Missão da ONU. Terminamos tudo em quatro dias. Sobraram três dias para umas pequenas férias e a tradicional festa de despedida.

   “The Brown Frog”, o bar mais popular de Lusaka. Dançamos e bebemos até quase o dia amanhecer. Os homens em grupo, , sempre com um copo de cerveja na mão; as mulheres organizadas em pelotões, dançando em movimentos simétricos e de crescente complexidade coreográfica. Saiam da fila para dançar um solo, um pouco de marketing pessoal. “Gostou da festa?” Perguntou o colega ao deixar-nos no hotel.  Continuou, sem esperar a resposta. “O senhor não parece estar muito feliz, talvez um pouco perdido”. Declarou em seguida: “... quando nos sentimos perdidos na África, caminhamos em direção ao horizonte até nos encontramos. Por que não faz um safári antes de partir?” Uma pergunta e uma sugestão. “Soubemos que seu aniversário é amanhã, seu safári a pé já está reservado. É só dizer sim”. Confessou com um sorriso matreiro e um piscar de olho.

   Começamos o safári com os primeiros raios de sol. Guia e dois guardas armados; provisões para dois dias. O solo estava encharcado pelas chuvas, o rio Zambezi transbordando. Poucos animais apareceram.

   Encontramos uma família americana, perdida, descansando na sombra de um baobá. Enquanto o guia explicava o caminho de volta, entretemos a filha do casal. Chamava-se Annie, tinha três anos, olhos azuis e uma risada contagiante. Fizemos caretas horríveis, imitamos todos os animais conhecidos e desconhecidos. Cansou de brincar subitamente. Deitou-se no banco traseiro do jipe. Saímos para observar uma prole de leoas. Voltamos.  Partiram sem dizer adeus.

   Regressamos ao acampamento. A família americana tomava chá. Annie aproximou-se da nossa mesa, tocou no meu braço e gritou em direção aos seus pais: “This is the man!”. Responderam com uma gargalhada coletiva. Vieram em seguida à nossa mesa pra explicar o que acabara de acontecer, a razão do barulho. Havíamos sido escolhidos por Annie como o seu animal favorito da savana africana. O mais engraçado também. Vencemos contra todos. Concorrentes sérios como o gnu, o crocodilo, a girafa, o rinoceronte, o hipopótamo, até o Rei Leão.

   O céu estava limpo naquele dia, o horizonte visível. As nuvens negras haviam desaparecido. Primeiro dia feliz em semanas. Tocamos na cruz de Rahel. Descobrimos que não estávamos sós na sombra de baobá...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Haiti nos tempos de cólera...

   Quando pensávamos que todas as misérias possíveis ou imagináveis já haviam atormentado o povo do Haiti, nos deparamos agora com uma epidemia de cólera. O desgoverno e a pobreza do estado haitiano aumentam em cada crise.

   Ironicamente, os maiores beneficiários da democracia são mais de dois milhões de haitianos que votaram com os pés. Navegando águas traiçoeiras do Estreito da Florida, muitos optaram por trabalhar em condições precárias no mundo subterrâneo da emigração ilegal nos Estados Unidos, Canadá e na Republica Dominicana. A diáspora remete à sua terra natal, mais de um bilhão de dólares, representando ¼ do Produto Interno Bruto (PIB), evitando assim o colapso total da economia haitiana.

   Trabalhamos por mais de doze anos em projetos financiados pela comunidade internacional. Programas de reconstrução pós-desastre ou para a redemocratização, todos apoiados por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Muitos deles sucederam. Desde 2003, outras missões seguiram...

   O terremoto de 2010 renovou o interesse da comunidade internacional, que atravessava um caso sério de fadiga de compaixão, deixando o destino do Haiti à deriva nas águas do Caribe. Lâmpada do gênio aberta. A calamidade confinou um milhão e quinhentos mil haitianos na pobreza, vivendo em acampamentos precários, em condições de saúde e higiene deploráveis. Expostos aos caprichos da natureza, aterrorizados por gangues e vulneráveis a doenças epidêmicas

   Haiti proclamou sua independência no dia primeiro de janeiro de 1804. Transformou-se assim no primeiro estado independente da America Latina e no primeiro governado por negros no mundo - produto de uma rebelião de escravos contra a colonização francesa. Quase três décadas depois, a nova nação tomou medidas preventivas para evitar que a propagação da cólera originária dos Estados Unidos e da Europa, entrasse no país através dos seus portos. Durante o século XIX, um dos poucos países da região a não apresentar surtos da doença. Escapando ileso de seis pandemias que afetaram o mundo na década de noventa, em estado de caos político quase permanente, empobrecimento continuado e desastres naturais devastadores...

   Pequeno surto de cólera em uma província espalhou-se rapidamente, resultando em quase 1.000 mortos e 20.000 infectados. Clínicas e hospitais operam além da capacidade desde antes do terremoto. Autoridades sanitárias estimam que a doença poderia afetar eventualmente a 270.000 pessoas.

   Dedos acusatórios apontam em todas as direções, lendas urbanas e suspeição movem rapidamente, antecipando-se às soluções para o problema. O “bicho papão” preferencial do momento, são a base e as tropas da ONU, originários do Nepal. A doença é endêmica naquele país, que experimentou um surto antes do embarque das tropas. A variedade do vírus é asiática, o que reforça a percepção. Demonstrações contras as tropas da ONU, especialmente as do Nepal, aumentam dia-a-dia. As tropas brasileiras também não estão isentas...

   A Gazeta de Notícias reportou no dia 14 de novembro de 1904, uma situação caótica no Rio de Janeiro. "Tiros, gritaria, engarrafamento de trânsito, comércio fechado, transporte público assaltado e queimado, lampiões quebrados a pedradas, destruição de fachadas dos edifícios públicos e privados, árvores derrubadas: o povo do Rio de Janeiro se revolta contra o projeto de vacinação obrigatório proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz".

   A situação descrita na Gazeta de Notícias, nos leva ao Haiti do momento. A fragilidade e os perigos da situação são reais e constituem ameaças constantes. Bastaria substituir as últimas dezenove palavras do texto do jornal brasileiro por: “o povo de Port-au-Prince se revolta contra o projeto de combate à cólera e à Missão das Nações Unidas”, para chegarmos ao provável desenlace para o caos e a pobreza haitiana.

   Osvaldo Cruz teve sucesso eventualmente. E o Haiti nos tempos de cólera?

João Pessoa 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A casa da Virgem Maria na montanha de Bulbul...

   Mal podendo conter seu entusiasmo, nosso guia, Yako Misiel, anunciou solenemente que nos aproximávamos de Bulbul Dag, a montanha do rouxinol, nas proximidades da cidade de Selçuk. Estávamos a menos de oito quilômetros de Meryemana, última morada da Virgem Maria, a mãe de Jesus. As emoções da visita às cavernas da Capadócia, refúgio das comunidades cristãs nos séculos III e IV d.C, ainda pulsavam na nossa memória. Fé dentro da montanha, fé no topo da montanha. Ouvíamos os sons da natureza ao nosso redor...

   Movíamos em direção ao céu, subida íngreme. Entrada do parque que abriga o santuário. Jovens voluntários trabalhavam, coletando lixo deixado por visitantes, podando plantas. Placas anunciando que os recursos gerados pela venda de ingressos eram revertidos em manutenção. Local venerado por católicos e muçulmanos, também um ponto turístico importante.

   Pequena explicação antes de chegarmos. Citando uma passagem da Bíblia: “Quando Jesus viu a sua mãe, e perto dela, o discípulo que ele amava (João), disse a ela: – Este é o seu filho. Em seguida disse a ele: – Esta é a sua mãe. E esse discípulo levou a mãe de Jesus para morar desse momento em diante na casa dele.” Depois da morte de Jesus, os discípulos se espalharam pelo Império Romano, tendo João ido para Éfeso, importante porto marítimo nas margens do Mediterrâneo. Levou consigo a mãe de Jesus. O guia pausou, como se esperasse por perguntas. Silêncio. Continuou...

   O mundo tomou conhecimento do local no século XIX, através das visões da irmã Anne Catherine, uma freira inválida e estigmatizada, que nunca havia deixado a Alemanha. Descrições feitas com grande riqueza de detalhes foram registradas em um livro publicado por Clemens Brentano. Em 1881, um padre francês descobriu as ruínas do que teria sido a casa descrita pela religiosa. Embora datada do século VI d.C., as fundações originais comprovam sua construção no século I d.C. Outra expedição através da mesma descrição do livro, descobriu que era um centro de adoração há séculos, por pessoas que se diziam descendentes dos "Cristãos de Éfeso". Acreditavam que a Virgem Maria viveu e morreu nesta casa. Faziam peregrinações anuais a cada 15 de agosto. Concluiu explicando a veneração dos turcos pela Mãe de Jesus, a mãe de Isa, Jésus, o penúltimo profeta. Aquele que os mulçumanos acreditam ter profetizado a vinda de Maomé.

   Rastreamos nossa mente, tentando resgatar memórias de textos e livros sagrados. Imbuídas robustamente na nossa imaginação, poucas lembranças. João, o favorito, encarregado de proteger a mãe de Jesus. Escondeu-se em Éfeso, numa casa com vistas para o mar. Subíamos a montanha. Estrada revestida por pinheiros mansos e fragrantes. Escombros de uma muralha que defendia a Éfeso, à nossa direita.

   Chegamos. Caminhamos em direção a pequena capela. Santuário dos católicos e muçulmanos. Bebemos a água da fonte, quem sabe da mesma fonte que saciou a sede da Virgem Maria. Quanto mais nos aproximávamos, mais profundo o silêncio. Não ouvíamos vozes, ruídos ou mesmo o canto dos pássaros.

   Altar simples, velas acesas, atmosfera de paz. Economizando nossos passos. Aproveitando cada momento, cada segundo. Estávamos na casa da Virgem Maria, mãe de Jesus. Ela estava presente, sentimos sua benção. Acendemos uma pequena vela, de vida.

   Ao sairmos, deparamos com pessoas em frente a um muro, colocando pequenos bilhetes com mensagens de agradecimentos e pedidos. Lembramos da nossa mãe, portando sempre seu mural particular no colo. Deixamos os nossos, partimos em silêncio...

   Turquia 2007

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A saga do corneteiro e do mineiro do Atacama...

Médico completou a avaliação clínica, resultados dos exames de laboratório, laudos de raios-x e ECG. Com um pigarro, parte de rotina, pediu nossa atenção: “Apto”. “O senhor pode viver e trabalhar na altitude de La Paz”, afirmou casualmente, como se viver a 3.660 metros acima do mar, fosse um pequeno desafio.

Aterrissagem em La Paz. A estranha austeridade da neve glacial do Monte Ilimani, contrastando com a diversidade das edificações da cidade que sobrevoávamos. Jamais esqueceremos a lassidão envolvente que sentimos ao desembarcar.  

Escritório do programa de ajuda humanitária às comunidades afetadas por “El Niño”. Corneta Mamani, pequena rua em forma de L, próxima à universidade; o centro do nosso universo. Enfrentando as incertezas geradas pela instabilidade política e econômica, corrupção e pobreza, adicionadas à dose diária de “soroche”, mal da altura. Imersos no caldeirão do subdesenvolvimento boliviano e em uma atmosfera rarefeita, sobrevivemos doze meses. Cumprimos nossa missão. Partimos. Levamos poucas lembranças da nossa passagem pelos Andes, afora a própria paisagem e pessoas amigas...

Carlos Mamani, 24, o quarto mineiro a ser resgatado, saiu da cápsula Fênix 2 às 4:30 horas do dia 14 de outubro de 2010. Boliviano, o único estrangeiro entre os trinta e três mineiros encurralados desde 05 de Agosto, a 700 metros de profundidade, na mina chilena de San José. Herói nacional do povo boliviano... salvo por chilenos. O sobrenome nos lembrou da rua, onde trabalhamos vinte e cinco anos atrás. Corneta Mamani, assim chamada em homenagem a um herói de guerra boliviano. Nada sabíamos sobre as façanhas que justificaram o galardão. Decidimos averiguar.

Companhias anglo-chilenas recusaram-se a pagar um aumento do imposto de exportação sobre o salitre extraído do Deserto de Atacama, na província boliviana de Antafogasta. Empresas confiscadas e postas à venda, reação imediata. A província foi invadida por tropas chilenas, dando inicio à  Guerra do Pacífico. Com apoio de uma forte marinha e de empresários ingleses, as tropas chilenas assenhoraram-se rapidamente do território boliviano.  As riquezas minerais do deserto e a costa do Pacifico, perdidas para o Chile.

Pascual Mamani, o corneteiro, combateu na guerra. Tropas bolivianas, apoiadas por seus aliados peruanos, lograram escalar um morro e capturar varias peças de artilharia chilena. 14 de Novembro de 1879.  Enfrentado forças numericamente superiores, causaram muitas baixas. Ensanguentado, perna fraturada, o corneteiro montou-se em um canhão chileno, tocando seu instrumento, pedindo reforços. Desorganizados, bateram em retirada. Morreu assim. Índio aimará, herói pouco reconhecido, morto em combate por soldados chilenos.

A saga do corneteiro Pascual e do mineiro Carlos, começou e terminou no Deserto de Atacama. Pontos extremos de uma cronologia de vicissitudes e miséria, causados pela derrota da Bolívia. Separados por cento e trinta anos de história, mas vitimas da mesma dicotomia de opressão e miséria que subjugaram os povos indígenas na conquista e que os mantêm na pobreza ainda hoje...

Mamani, o herói da guerra, defendendo a possessão de uma província rica em minerais, explorado por companhias estrangeiras. Mineiros indígenas, trabalhando em condições de semi-escravos. Seu povo morrendo na guerra e nas minas. E o outro Mamani? Votou com os pés. Escapou da pobreza boliviana, atravessando a fronteira para trabalhar nas minas do Atacama. Resgatado milagrosamente das entranhas da terra, sobreviveu para contar a história e colher os frutos do reality show produzido magistralmente pela mídia internacional.

Seduzidos pelo evento e potencial midiático, nos esquecemos de questionar as péssimas condições de trabalho enfrentadas pelos mineiros ou de deteminar a culpabilidade dos empresários e oficiais do governo responsáveis pelo desastre.

Os Atacamas e Aimarás, corneteiros ou mineiors, eternas vitimas... Agora, em real time e HD.

João Pessoa 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Era uma vez uma dançarina de limbo...

Parque Sólon de Lucena, começo da década de sessenta. Flores do ipê-amarelo, galhos secos recobertos de efêmero ouro, decoravam o solo do anel exterior. Círculo de palmeiras imperiais, plantadas simetricamente, prestavam sentinela ao precioso espelho de água no centro do logradouro. Pessoas, amantes, crianças, vendedores ambulantes, caminhavam sem pressa. Reflexos anônimos, sombras...

Ruído da multidão quebrava a beleza calma do crepúsculo. Cheios de antecipação. Orquestra de calipso, uma novidade musical, preparava-se para começar sua apresentação. Negros e mulatos da Guiana organizavam seus instrumentos, outros testavam o sistema de som. Espetáculo de música caribenha, sem rumbeiras em trajes diminutos, caldas de poás coloridas, turbantes enfeitados com plumas de aves exóticas. Sensualidade coberta de rendas e campânula. Requebros sinuosos, mambos frenéticos ou gritos primitivos de gargantas roucas por rum e tabaco, não estavam no programa.  

Homem franzino, roupa multicolorida, voz suave. Chamava-se Cy Manifold, crooner e líder do grupo. Gestos de mão estudados, apresentando seus colegas. Reverência em direção ao público. Sorrisos cintilantes, alguns iluminados por dentes de ouro. Explicação breve sobre os instrumentos, tambores de aço, “steel drums”, espalhados no pequeno palco. Cilindros feitos de aço, com o fundo moldado em concavidades de diferentes tamanhos, tocados com baquetas revestidas de borracha ou feltro. Mencionou algo sobre a escala cromática, poucos entenderam. Não importava, o clima era de festa.

 “Day-o Day-o...” “Come Mister Tally Mon, tally me bananas”, canção popularizada por Harry Belafonte, esquentando o público com algo familiar. Resposta entusiástica.  Prosseguiram viajando pelas plantações de cana, fabricas de rum e praias de areia branca da Guiana, Trinidad e Tobago. Carnaval caribenho na terra do forró. 

 Pequena pausa, instrumentos reordenados no palco. Cy Manifold, no centro do palco cantava a Ave Maria de Gunoud em Latim. Tambores de aço ressonando, música divina. Vozes dissonantes acompanhando os músicos, na alegria e na paz do momento. Tudo parou, até o vento. As garças dormiam...

Sancta Maria, Mater Dei,
Ora pro nobis peccatoribus
Nunc et in hora mortis nostrae
Amen...

Suspiro coletivo...

Retornamos ao Caribe. Barras paralelas sustentadas por dois bailarinos. Parafernália da “dança do limbo”. Mulher esbelta com mãos erguidas para o céu, movendo-se na direção dos pontos cardeais. Dançando lentamente diante das barras, inclinando o corpo para baixo, até as costas ficarem quase rente ao chão.  Grande finale...    

Entrada do Paraíba Palace Hotel.  Integrantes da banda preocupados, não haviam recebido seus cachês. O hotel insistia em pagamento imediato. Convocaram-nos como interprete. Resolvido o problema idiomático, chegamos a um acordo satisfatório. Convidamos o grupo para um almoço típico em nossa casa. Partiram para o próximo concerto...

Cy Manifold estabeleceu-se no Brasil, nunca voltou para a Guiana. Converteu-se em uma das vozes mais conhecidas da noite carioca. Termino da década de noventa, breve encontro em uma boate do Rio de Janeiro. Relembramos os dias de João Pessoa. E a dançarina, tem noticias dela? “Unforgetable, that’s what you are...”, cantarolou baixinho, imitação perfeita de Nat King Cole. Nunca respondeu a pergunta...

Conferência das Nações Unidas, Trinidad, quarenta anos depois. Recepção oferecida ao conferencista pelo ex-primeiro ministro e sua esposa.  Conversávamos sobre nossos países, experiências vividas. Mencionamos a banda de calipso, que havíamos conhecido no Brasil. Marlene, a dançarina de limbo, era natural de San Fernando, coincidentemente o distrito eleitoral do parlamentar.  Responderam entusiasticamente.  Promoveriam um reencontro, quem sabe um final feliz para um romance fugaz, imaginavam. DJ amigo comandou a busca, resultou infrutífera.  A dançarina não existia mais...

O cantor comemorou em 2007, os cinquenta anos de sua carreira artística acompanhado do seu filho Dover, em uma produção chamada “Uma viagem no tempo”, no Teatro Ipanema do Rio de Janeiro. 

João Pessoa 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Embriaguez da fama....

   Iwo Jima, 23 de Fevereiro de 1945. Bandeira dos Estados Unidos hasteada por seis fuzileiros navais em um mastro improvisado, no topo do monte Suribachi. Primeiro pedaço de território japonês conquistado por tropas norte-americanas. Vitória com celebridades instantâneas, ícones da liberdade...

   Foto transmitida instantaneamente para o mundo. Ira Heyes, nativo americano da tribo Pima. O sexto homem, mal tocando no mastro. Transferido de volta aos Estados Unidos para participar de espetáculos midiáticos promovendo a venda dos Bônus de Guerra do Tesouro Nacional. Magos da propaganda regozijaram com a oportunidade de lançar mais uma campanha baseada na fusão do cidadão contribuinte com o cidadão soldado. Filho do povo mais oprimido do continente, herói americano prêt-à-porter. Viagens, homenagens, recepções na Casa Branca.

   Tony Curtis interpretando seu papel no filme “O sexto homem”; a Balada de Ira Heyes, na parada de sucessos. Retornando à vida civil, após a guerra, encontrou tremendas dificuldades em ajustar-se ao seu novo status. Enveredou no alcoolismo, cinquenta e quatro detenções por embriaguez pública. Noite de farra, caiu em uma vala e asfixiou-se com o seu próprio vômito. Morreu aos 32 anos de idade... Estátua de bronze, cerca de 100 toneladas, réplica da foto, o principal ícone do patriotismo americano. Eternamente mais heróico que sua vida, o sexto homem...

   Sala de visitas da prisão. Dois amigos conversam por interfone, através de um painel de vidro, anteparo entre o apenado e seu visitante. Chamava-se Jesse James, negro, nariz de boxeador, ex-viciado em heroína e alcoólatra, condenado previamente a cinco anos de prisão, por assalto à mão armada. Conhecemo-nos quando organizamos “Os Rebeldes do Bairro da Missão”, um grupo de auto-ajuda para adolescentes usando drogas ou engajados em atividades anti-sociais. Trabalho realizado após receber liberdade condicional. Cursou teologia e ordenou-se pastor ainda na prisão. Descoberto pela mídia, artigos na revista TIME e em jornais importantes. Entrevistas com apresentadores famosos. As ruas de São Francisco tinham um novo herói: Reverendo Jesse James. Havia galgado o topo da montanha...

   O “demônio do álcool invadiu minha alma”, começou antes de explicar o motivo da nossa visita. Primeiro episódio de embriaguez pública, depois de vários meses. Episódio encoberto, precisavam de heróis, havia poucos. Descenso rápido. Preso embriagado, violando os termos de sua liberdade, com um cheque falso. Voltou à prisão para cumprir o resto da pena original. A organização precisava restabelecer sua credibilidade. Éramos o nome indicado para liderá-la durante o período de transição. Nunca mais nos encontramos...

   Informações sobre problemas psicológicos e alcoolismo afetando pelo menos 5 dos 33 mineiros chilenos, começam a circular na imprensa internacional. Assédio constante de jornalistas, status de celebridades e possibilidade de ganhar significantes somas de dinheiro, sem mencionar o resgate espetacular. Abutres circulando, imaginando lucros, prêmios e fama. E os mineiros? Serão descartados como Ira Heyes ou encarcerados como Jesse James?

   Ira Heyes comentou uma vez sobre seu alcoolismo: “Eu estava doente. Imagino que estava prestes a surtar, pensando nos meus bons companheiros. Eles eram melhores que eu e não iriam retornar. Muito menos para a Casa Branca, como eu”... Ninguém notou o seu descenso até a sua morte prematura. Recebeu um funeral de herói, o maior na história do Arizona...

   Assim já morreram outros. Escritores, poetas, artistas, ricos e famosos. O mundo só sabe a verdade quando cada um expõe seu próprio demônio. A mídia faz os heróis, a mídia mata os heróis. Cúmplices silenciosos. Apologistas justificando todo e qualquer excesso alcoólico. Trivializando uma doença, como se fosse algo normal, hilário ou digno de nossa complacência.

   Como disse um escritor brasileiro: “Bêbado, escrevi as melhores páginas da literatura universal... para um bêbado”...

João Pessoa 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quando todos os homens do mundo...

             Mesmerizado pelo drama desenrolando diante dos seus olhos, adolescente atento aos seus mínimos detalhes, com concentração rara à sua idade.  Pequeno cinema, refúgio da monotonia da aula de Latim ou da aspereza da gramática portuguesa. Sonhar ali era possível...

Tripulação com botulismo, devido carne suína contaminada, barco pesqueiro no Atlântico Norte. SOS em ondas curtas, captada por rádio amador no Togo, na África.  Médico francês, em férias no país, informado sobre o teor da mensagem, concluiu que só um soro podia salvar a tripulação. O medicamento deveria chegar ao navio em menos de quinze horas. A informação é transmitida para um radio amador em Paris, que contata o Instituto Pasteur. Obtêm o soro, que será transportado para Berlim Oriental, em um avião polonês. Oficial norte americano encarregado de recolher a carga, atrasa-se. Avião soviético é disponibilizado para levá-la até Copenhague, seguindo para Oslo a bordo de uma aeronave francesa. Piloto norueguês alcança o navio e solta um pára-quedas com o precioso soro. Maomé, um mulçumano do Norte da África, único tripulante não acometido da doença, mergulha nas águas turbulentas e resgata o pacote do mar. Toda a tripulação se salva...

Nunca nos esquecemos do filme: “Si tous les gars du monde”. Grande lição, solidariedade humana na escuridão do cinema.

Passando pela LABRE, a caminho da escola. Antena de rádio perfurando o céu, espalhando mensagens de paz e amizade. Povos do mundo se comunicando, mesmo com as dificuldades causadas pela estática ou pelos sinais transmitidos na cadência do Morse. Não importava em que idioma falassem. Comunicavam-se em código “Q”, uma linguagem própria. QRA...  QTH... QSL...

Televisão e telex transmitindo imagens e detalhes de um terremoto no México. Âncoras narravam uma história, em frases curtas, cuja enormidade era evidente nas cenas. Galvanizados por sentimentos de solidariedade, o mundo respondeu.

Rumamos em direção à Cidade do México, imediatamente. Leve tremor enquanto o avião pousava. Longo momento de terror, em poucos segundos. Centro da cidade, odor nauseabundo de corpos em decomposição, pairava no ar. Números estarrecedores, mais de 250 prédios destruídos, milhares de pessoas desabrigadas, mortas ou desaparecidas nos escombros...  

Governo apático, atônito, minimizando a gravidade situação. Mãos ensanguentadas removendo escombros com ferramentas rudimentares, desenterrando sobreviventes e mortos. Exército solidário de cinquenta mil soldados. Plácido Domingo, em mangas de camisa, ajudando nos trabalhos de resgate.  Havia perdido seus tios, um sobrinho e seu filho. O socorrista Marcos Zariñana, conhecido como “La Pulga”, e membros da equipe de resgate “Los Topos”, os topeiras, moviam escombros e penetravam nas brechas procurando sobreviventes. Estrangeiros trabalhando lado a lado com mexicanos. Atos de heroísmo cidadão, em um país carente de heróis e solidariedade.

“Nós estamos bem, os 33, no refúgio", mensagem escrita dos mineiros desaparecidos há 18 dias nas entranhas da terra. Esforço multinacional, americanos, alemães, japoneses, coreanos, suecos e chilenos, comunicando-se pelo Internet. Todos unidos para salva-los. Desenhada pela NASA, construída pela Marinha Chilena, o primeiro mineiro saiu da cápsula dois meses e nove dias depois, seguido pelos demais companheiros. Primeiro passageiro e  último a sair, o socorrista Manuel “Manolo” Gonzáles, que desceu para orientar o resgate. Todos salvos. Obstáculos superados, a solidariedade humana havia vencido. Tínhamos novos heróis...  

Homem concentrado na tela da televisão, quarto no escuro. Voz monótona da CNN, expertos explicando  minúcias do resgate.  Manolo entra na cápsula, lembranças de Maomé ou La Pulga. Ficção e realidade justapostas. Lição de humanidade aprendida há mais de cinquenta anos, voltando e voltando. Éramos mais humanos. E se todos os homens do mundo...


João Pessoa 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

Enquanto a procissão passava...

Aroma almiscarado de pétalas de rosas misturadas com incenso. Indígenas, cabeças cobertas com capuz de cor púrpura, carregando um andor pesado com uma grande imagem do Nosso Senhor. Caminhavam ritmicamente. Cadenciados por batidas monótonas de tambores. Observávamos a procissão. Cinco séculos de história em câmera lenta. Povo oprimido, povo de fé.  Páscoa em Antigua, Guatemala.

Acordo de Paz entre o Governo e rebeldes encerra um conflito armado que durou mais de 36 anos.  Povo Maia, terceiro aniversário. Quantos pagaram o preço mais alto pela liberdade? Quantas vidas? Buscávamos as respostas, rostos suados, olhos tristes. Pareciam em transe, a procissão movia... 

Domingo de Ramos, as primeiras procissões da Semana Santa. Imagens de Jesus de Nazaré e Nossa Senhora das Dores carregadas em andores originários de várias igrejas, convergiam para a procissão principal.  Pesavam toneladas e requeriam de 50 a 100 pessoas para carregá-los. Vestidos em trajes típicos Maia, chamados de “cucuruchas”, reencenavam a entrada de Jesus em Jerusalém.  Motivados pela penitência; o status não era de grande importância. Continuariam até a quinta-feira celebrando eventos similares, em memória dos últimos dias de Cristo na terra.  Entardeceu. Bandas funerárias tocam em frente das igrejas. O povo congregado come, bebe e joga em bazares de festas.

Dois anos depois, a apresentação ao público do relatório "Guatemala: nunca mais", resulta no assassinato do seu autor Bispo Juan Gerardi.

"Se não tivesse sido pela resistência dos nossos povos, os militares teriam exterminado a todos. Nós, viúvas, somos a cicatriz, o sinal mais claro da violência que sofremos. Agora nos organizamos não somente para sobreviver, mas também para buscar justiça." Tribunal Permanente dos Povos, Madri, Espanha.

Anoitecer da Sexta-feira Santa. Cidade e devotos enlutados. Ruas e casas decoradas com faixas de crepe negro. Fieis queimam incenso e acendem velas.  Homem carregando um crucifixo lidera a procissão, seus seguidores com estandartes inscritos com as últimas palavras de Jesus. Multidão reza silenciosamente. Devotos choram e fazem penitência. A imagem de Cristo crucificado, permeada pelo incenso no ar, cria uma atmosfera obsedante. Às 23 horas pousam a imagem dentro da igreja.

A procissão do Sábado de Aleluia é dedicada à Virgem Maria. Andores  menores e carregados por mulheres vestidas nos seus melhores trajes, algumas usando sapato alto. Domingo de Páscoa, dia festivo com celebrações e fogos de artifício. O céu brilha...

"Os massacres indiscriminados dos indígenas, inclusive mulheres, anciãos e crianças, e a forma com a qual foram realizados, evidenciam a intencionalidade de destruir, total ou parcialmente, a população indígena da Guatemala. Essas ações se caracterizam como crime de genocídio". Tribunal Permanente dos Povos, Madri, Espanha.

· 150 mil assassinatos
· 50 mil desaparecidos
· 1 milhão de refugiados
· 200 mil órfãos

Alfombras adornam as rotas das procissões. A palavra significa tapete em árabe, costume trazido da Andaluzia Mourisca pelos colonizadores do povo Maia. Residentes começam preparativos para sua criação, semanas, às vezes meses antes da Semana Santa. Nivelam com areia as ruas calçadas, desenham moldes com cavaco de madeira pintando em cores brilhantes. Decoram com agulhas de pinho e plantas nativas, que exalam fragrâncias.

Tradição Maia, simbolismo bíblico e cenas da natureza são refletidos nas alfombras. Sua construção: um sacrifício, uma penitencia. Destruídas pelas procissões que passam. Sacrifícios em memória à morte de Cristo...

Nossa última visita. A procissão passou enquanto viajávamos pela minúscula cápsula do tempo. Dez anos de memória dos quinhentos anos de opressão da Guatemala, o povo Maia sempre reconstruindo suas alfombras...

Guatemala 2003

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Depois de Cuito Canavale... e depois...

A batalha de Cuito Canavale entre as forças angolanas e cubanas contra o até então imbatível exercito sul-africano e seus aliados da UNITA, chegou a um impasse militar no dia 23 de março de 1988. Oportunidade única para reiniciar o processo de paz, dormente no atoleiro da guerra fria. A fruta estava madura...

Primeira visita a Luanda, novembro de 1988. Clima de otimismo. O exército sul-africano havia saído da Angola, antes mesmo de um acordo final sobre a retirada das tropas cubanas. Embora timidamente, a África do Sul começava a dar os primeiros passos para desmantelar o regime de apartheid. Dependia dos homens de boa vontade negociar as modalidades para uma paz duradoura.  Depois de Cuito Canavale, tudo era possível...

Efeitos da guerra eram visíveis, em todos os aspectos. Desespero e pobreza extrema cresciam a cada instante em um país rico em diamantes e petróleo. Homens armados com barrigas vazias. Populações desabrigadas, impossibilitadas de trabalhar na lavoura devido às minas de guerra e munições dispersas. Ingredientes básicos da poção mágica da bruxa da miséria humana.

Concordamos em concentrar nossas operações na Província de Benguela. Gêneros alimentícios, medicamentos e implementos agrícolas distribuídos sob a direção de organismos sociais da Igreja Católica, em cooperação com autoridades provinciais. Facilidades logísticas e caminhões seriam disponibilizados pelo Governo no Porto de Lobito, para transportar nossas doações a todos os pontos da província.  O primeiro navio chegaria à Angola no ano seguinte.

Movendo-se em direção ao interior, nossos caminhões com ajuda humanitária, cruzavam com transportes militares carregados de petrechos pesados e peças de artilharia, em direção oposta. Causa e efeito trafegando na mesma estrada. Tínhamos que derrotar o poderoso General Fome, o novo inimigo...

Nações Unidas, 22 de Dezembro de 1988. Angola, Cuba e a África do Sul assinaram o chamado Acordo de Nova Iorque. Tropas estrangeiras se retirariam de Angola, e a Namíbia se tornaria um país independente, sem a presença militar da África do Sul.  O processo de desarmamento e reintegração dos ex-combatentes começaria imediatamente. Celebrava-se um Natal, paz finalmente...

Mensagens alarmantes sobre a situação da segurança em Benguela chegavam ao nosso escritório em Zimbábue, quase quatro anos depois. Militares da UNITA haviam aparecido repentinamente nas ruas da cidade, ameaçando a segurança dos nossos armazéns e pessoal. Partiríamos em seguida para Luanda, com conexão em Lusaka, para organizar a remoção de todos para a Namíbia.

Vôo da Aeroflot, nossa única opção. Partimos no velho Tupolev Combi, passageiros e carga dividindo a cabine. Assentos sem cintos de segurança - em manutenção: explicaram. Bananas e vinho da Geórgia, única refeição disponível. Clima tenso à nossa chegada, falavam de choques militares esporádicos em Luanda. A UNITA recusava-se aceitar os resultados das eleições.

Encontramos nossos colegas prontos para ser evacuados do país, pequenos combates próximo ao Hotel Presidente e o porto. Os chefes da UNITA aquartelados no Hotel Turismo, no centro da cidade, negavam tudo, sob alegação de que suas intenções eram pacificas. As carabinas falavam mais alto. A paz estava em perigo...

Embarcamos o pessoal na penumbra em um cargueiro grego, rumo à Namíbia. Seguiríamos no vôo da TAP, o último disponível.  Disparos, pequenas escaramuças próximo ao hotel. Partimos às pressas para o aeroporto, driblando tiroteios e barricadas no caminho. Clima de guerra no saguão do terminal, homens armados. Decolamos. Combates aumentavam nas ruas, caminhão atingido por um míssil. Fênix imolando-se, sem a promessa de um pronto retorno...

Paz na Angola em 2002, quatorze anos depois de Cuito Canavale. Quinhentos mil mortos enterrados na mesma terra do petróleo e dos diamantes da guerra...

Luanda 2002

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A mais preciosa das paraíbas...

Museu de Arte Contemporânea de Monterrey, México. Celebração do casamento de uma mulher católica com um homem hindu. Diversidade cheia de riscos e possibilidades. Coexistindo festivamente, banqueiros, colegas das Nações Unidas, amigos de infância e familiares. A história oral dos nubentes em vários idiomas. Bombaim, Nova Iorque, Dubai, Londres, Singapura ou São Paulo, havia sempre algo novo para contar a respeito das vidas ou do romance. Sáris e vestidos de soirée, fragrâncias do Oriente, do Ocidente, mistura de gente bonita, sucesso e elegância. Conclusão de três dias de festividades...

 “Fiesta mexicana”, amigos íntimos e família. Éramos parte da história. Chefe e mentor da jovem advogada nas Nações Unidas, santuário emocional após o dia 11 de Setembro, designado como seu “pai substituto” em Nova Iorque. Consultados sobre os aspectos culturais e religiosos, transmitimos impressões positivas à família, após jantar com o casal em Nova Iorque.

   Recepção de boas-vindas. Evento formal, os convidados da Ásia, Europa e Estados Unidos haviam chegado. Namastês, “abrazos” e apertos de mão. Babel alegre, moderna. Os mexicanos, na maioria família, conversavam animadamente entre si, salvo aqueles que falavam Inglês. Um banqueiro italiano acompanhado de sua esposa eurasiana foram um dos últimos em chegar. O noivo nos apresentou...

Kim, designer de jóias na Itália. “Femme allumeuse”.  Novas histórias se entrelaçavam. Comentário intempestivo: “Vocês são de São Paulo? Ah, adoramos a Daslu!”. Paraíba, respondemos. Descrentes de que demonstrasse maior interesse pelo lugar. ”Paraíba! Eu amo as paraibas!”. Perguntamos se conhecia nosso estado. Conhecia somente as paraibas, o epônimo, nome genérico das turmalinas azuis encontradas na Paraíba... Pedras preciosas eram seu metier, começou uma longa explicação...

Depois de prospectar por mais de cinco anos, um garimpeiro persistente, encontrou as primeiras turmalinas nas serras da Paraíba. A gema azul neon encontrada em 1989, tornou-se imediatamente uma das raras, caras e procuradas do mundo. O mercado se expandiu no principio do Milênio, com descobertas de “paraibas” de cores variadas, cor-de-rosa, de melancia e verde; em Moçambique e na Nigéria.  A luminescência do “neon” que as torna mais valiosas é causada pela presença de cobre. Continua sendo a turmalina da Paraíba, usada como o “metro de ouro”, para determinar a “paraibanidade” das gemas produzidas mundialmente. Lamentando a dificuldade em encontrar nossas paraibas, Kim suspirou...

Caminhávamos na 5ª Avenida, anos depois, próximos do coração do Distrito de Diamantes dos Estados Unidos. Procuramos turmalinas azuis. Foi-nos apresentada uma pequena bandeja coberta de veludo, com uma pedra azul neon. Hesitamos em perguntar o preço. Prometemos voltar, caso decidíssemos. “Giselle, a top model brasileira comprou brincos de turmalinas da Paraiba, vinte e cinco mil dólares”, comentou. Falha tentativa de motivação. Partimos sem a nossa paraiba...

Descoberta nas serras da Paraíba, há duas décadas, as turmalinas ainda estão sendo retiradas do solo à mão, com instrumentos como cunhas e marretas. Veios com espessura fina, não excedendo a grossura de um lápis. Fragmentam-se facilmente. Causa grandes perdas a maneira artesanal da extração, contribuído para que as paraibas sejam mais raras e caras.

Paraibas brilhando nos salões dos ricos e famosos. Garimpeiros, que não brilham, buscam as riquezas da terra. Paraíba pequenina, famosa no mundo inteiro. Eu tenho pra vender... Quem quer comprar?


Nova Iorque 2008