NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 31 de janeiro de 2010

Haiti: Perigos e oportunidades...

   Existem boas razões para estarmos no Haiti, o segundo país da região a tornar-se independente, em 1804. Além da devastação do terremoto, enfrentamos os problemas de pobreza extrema, HIV/AIDS, violência e corrupção. O tráfico ilícito de armas e drogas desafia a segurança da região e atrofia as possibilidades de criar um clima estável para o desenvolvimento e inversões na economia do país. O terremoto, que ora galvaniza o humanismo da comunidade internacional, pode e deve ser o ponto de partida da corrida em direção às Metas do Milênio. Normalmente, países crescem após experimentar desastres naturais de grande magnitude. Criam solidariedade entres as classes sociais, mitigam danos ambientais, rebobinam a economia do país. Não deveríamos permitir que o Haiti fosse a exceção...

   Sabemos que uma quantidade significativa de drogas destinadas ao mercado norte-americano, é exportada através do Haiti. Falta de lei e ordem é evidente em áreas urbanas, penitenciarias e favelas, controladas por gangues armadas. Risco de um êxodo haitiano pelas águas perigosas do Caribe é uma possibilidade sempre presente, nos esquemas de segurança e patrulhamento naval americano e outras partes interessadas. Todos esses fatos pesam nas decisões do Conselho de Segurança e outras esferas de influência. Limitando o escopo de missões multilaterais e unilaterais à manutenção da ordem pública. Policiando o país com militares estrangeiros, com pouco conhecimento da cultura nacional e elevado custo para a comunidade internacional.

   Provável desgaste e impopularidade das forças de paz da ONU, que patrulham as favelas de Port-au-Prince. Inevitáveis enfrentamentos armados com gangues, prisioneiros evadidos e outros elementos anti-sociais são preocupações constantes e reais. Instituições democráticas falidas e a pobreza extrema são companheiras inseparáveis no Haiti. A ajuda humanitária desinteressada, um ato louvável, deve ser administrada com cautela e eficiência. Evitando assim mais corrupção e dependência na “largesse” de países doadores e da ONU. Quase trinta anos sob a tutela do Fundo Monetário Internacional; várias missões de paz da ONU; e intervenções unilaterais dos Estados Unidos, trocaram muito pouco da realidade haitiana, tornando-o ainda mais vulnerável a catástrofes e suas sequelas.

   Enfocar questões de segurança e restaurar a ordem é o caminho mais fácil, talvez mais palpável, de explicar envolvimento militar em terras distantes. Eventualmente, apoio político e financeiro pode ser afetado por cenas dramáticas, comuns em ocupações militares, mesmo as da ONU. Caixões de pinho com restos mortais de soldados. Confrontos violentos entre soldados da ONU e elementos nacionais, gangues ou paramilitares, podem transformar apoio popular em protestos contra as tropas de ocupação, no Haiti, ou nos países participantes da missão de paz.

   Devemos procurar soluções nacionais, dentro de um contexto global. Não podemos repetir os erros do passado. Globalização e integração econômica, baseada em instrumentos financeiros e administrativos, não apresentam soluções viáveis ou imediatas para os problemas do Haiti. A globalização que o país precisa é a continuação do espírito de fraternidade e solidariedade demonstrado pela comunidade internacional, no terremoto. Além do período de resgate, ajuda material e conforto da população, é imperativo o engajamento imediato e eficaz na reconstrução da infra-estrutura e economia nacional. Eis ai o maior desafio do Haiti...

Haiti 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

O Haiti é lá mesmo...

   Perdemos esta semana um colega da ONU. Outro brasileiro. Luis Costa, funcionário sênior da organização. Vitima de uma tragédia das forças incontroláveis da natureza, que nem sempre são inesperadas. Ato de Deus, um terremoto. Haiti, outra vez...

   O acontecimento nos trouxe de volta ao nosso último encontro. Sede da ONU, na primavera de 2003. Almoçamos na Sala de Jantar dos Delegados. Confraternização do grupo Lusófono. Ocasião festiva, bem longe dos lugares perigosos onde havíamos trabalhado ou trabalhávamos. Nosso companheiro de mesa, Sergio Viera de Mello, morreria meses depois. Caminhão bomba, ato covarde daqueles que cometem violência em nome de Deus. Morreram nos escombros da Casa Azul da ONU; em Bagdá e Port-au-Prince. Ambos em missões humanitárias. Perigosa piedade...

   Além de brasileiros, tínhamos duas outras coisas em comum. Paixão pelo humanitarismo multilateral e envolvimento prévio com missões da ONU no Haiti. Resta-nos agora a tarefa de contar a história. Compartir experiências.

   O Haiti e desastres são sinônimos. Ciclo vicioso de calamidade natural seguida de turbulência política e econômica. Desafiando o truísmo de que toda a população de um país é vitimada igualmente em consequências de desastres. Os excluídos são as vitimas principais. Pobreza inclusiva.

   A comunidade internacional está respondendo às necessidades do povo haitiano com vigor renovado. O mundo parece temporariamente em remissão da “fadiga de compaixão”, cansado do bombardeio de tragédias, guerras e desastres na mídia internacional. Doadores não-tradicionais brigam com doadores históricos, pelo direito de chegar primeiro com ajuda humanitária. No mesmo espaço aéreo, instrumentos de política multilateral; na prática, objetivos totalmente diferentes e unilaterais. A comunidade internacional repetindo os erros que fizeram do Haiti, o “homme malade” da América Latina.

   A pobreza foi a principal causa da destruição massiva. Sabemos que a terra treme; alguns lugares são mais predispostos a terremotos. As consequências são exacerbadas em uma cidade com prédios mal construídos, infra-estrutura precária e serviços públicos inadequados. A destruição e sofrimento ocorreram principalmente nas “bidonvilles” (favelas) de Port-au-Prince; casas construídas precariamente nas encostas de morros. Corte de arvores para lenha, eliminando a proteção de enchentes e deslizamentos. A maioria do povo vivendo no desemprego, fome e analfabetismo.

   Como todo desastre, o terremoto do Haiti, levanta questionamentos importantes. Infelizmente, não existe um acordo sobre como proceder depois da fase de ajuda emergencial. Uns propõem que a solução da pobreza, das consequências do desastre, é a integração do Haiti no mercado internacional. Outros argumentam que os problemas do Haiti foram agravados pelo modelo de desenvolvimento capitalista, imposto pelo FMI e os Estados Unidos, em particular. Condicionalidades nos empréstimos, por exemplo, forçaram o Haiti, antes auto-suficiente na produção de arroz, a remover barreiras para importação de arroz subsidiado. Dizimando assim a agricultura local, forçando camponeses a migrar para Port-au-Prince a procura de trabalho. Fazendo-os mais vulneráveis a desastres. Vitimas do terremoto, vitimas de tudo e todos...

   Primeiro, temos a obrigação de ajudar as vitimas. Depois, aprender e descobrir as melhores possibilidades de ajudar o país a sair da pobreza.

   Que lições aprendemos? Que oportunidades existem? Quem está ajudando o Haiti a se ajudar? As respostas dependem inteiramente da vontade política da comunidade internacional, de promover um programa de reconstrução nacional que seja genuinamente desinteressado, robustamente multilateral.

Port-au-Prince 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sob o céu do povo da estrela Sirius

   Estávamos em Bamako, capital do Mali. Bistrô francês. Imitação pretensiosa do cenário do filme Casablanca. O proprietário, europeu genérico, com a aparência e a indumentária de um mercenário branco. Caqui com manchas de suor nas axilas. Cão de guerra. Sua companheira, mulher indochinesa de meia idade. Souvenir do Vietnã da França. Música congolesa tocando no rádio. Barulhenta. Africana. Pequena concessão do proprietário à cultura nacional. Ah, “le noir, raça primitiva.” Suspiro profundo, seguido de um gesto gaulês de impaciência. Os desgraçados da terra. “Oui, Patron. Oui, Madame”.

   Partimos no dia seguinte para visitar o País Dogon, na região oriental do Mali. Tribo de mais de 300 mil pessoas, vivendo em aldeias instaladas nas escarpas de Bandiagara, ao leste do Rio Niger. Arquitetura interessante. Novos vilarejos construidos sempre abaixo das ocupadas por seus anscestrais. Estrutura central chamada de “togu-na”, casa da palavra. Anciões reunidos, discutindo assuntos comunitários. Teto baixo, forçando todos a permanecerem sentados. Diminuindo a possibilidade de discussões ou brigas.

   Nosso fascinio com o País Dogon, comecou quando assistimos um documentario sobre a arte tribal africana. Povo das mascaras que inspiraram Picasso e as cores que influenciaram profundamente a Matisse. Sociedades secretas. Crianças de Sirius. Descendentes dos mestres...

   Conheciam com precisão o sistema estelar de Sirius e os seus períodos orbitais. Transmitido secreta e oralmente, por seus sacerdotes, há séculos antes dos astrônomos. Com Sirius A, flutuando em um "ovo dourado", veio Amma, que criou a Terra. Depois, Amma mandou os Nommo para o nosso mundo. Nommo, os "Mestres", eram seres anfíbios. O povo Dogon utiliza as máscaras nas cerimônias chamadas Dama e em rituais agrícolas cíclicos. Mais de 65 mascaras diferentes. Forma complexa e multifacetada de expressão artística, o Dama ocorre geralmente num período de seis dias por ano. Centenas de espíritos mascarados variados participam. O ritual promove a expulsão permanente das almas ou dos espíritos daqueles que morreram desde o último Dama. Facilitam sua incorporação no reino sobrenatural com os antepassados. O mundo Dogon, um todo integrado. Relacionando o cotidiano com o tempo e o espaço...

   Começamos a descida na escarpa em uma pequena cidade chamada Sanga, às cinco horas da manhã. Íngreme, trabalhosa, misteriosa. Dez quilômetros. Caminhávamos devagar. Saudados extensivamente por todas às pessoas que encontrávamos. Múltiplas perguntas sobre nossa família, vilarejos, animais... O filho do chefe, o primogênito, nos esperava na base. Guiaria-nos durante a visita. Pernoitaríamos na sua casa, em uma aldeia chamada de Tereli.

   Nosso guia transmitiu um convite do chefe. Solicitava nossa presença na “togu-na”, casa da palavra. Conversar com o homem branco, o “griot” brasileiro. Contador de historias. Primeiro as saudaçõas. Depois... Queriam saber tudo sobre “le Roi”, Pelé. Haviam assistido poucas partidas. Todos atentos. Silencio geral. A palavra era nossa. Que poderiamos dizer? Nunca fomos aficionados ou conhecedores do futebol. Nossa paixão pelo esporte ressuscitava de quatro em quatro anos, com a Copa do Mundo. Curiosos por mais informações sobre as jogadas, os gols, os triunfos. Passamos a noite narrando jogadas, reais ou imaginarias. Demandavam entusiasticamente a repetição daquelas que gostavam. Geralmente as mais fantasiosas. Nunca lembrávamos totalmente da versão anterior. Pelé possivelmente havia feito mais de 1.000 gols, só de bicicleta. Não importava. Pelé, Pelé, Pelé... Ídolo do povo africano. Éramos brasileiros...

   Passamos vários dias visitando aldeias. Recebidos calorosamente por subchefes e outras autoridades. Mais saudações. Crianças de todas as idades nos seguindo, chutando bolas de futebol, latas ou pedras. Partimos. Rumo a nossa aldeia...

   Anos depois... Anoitece na orla do Cabo Branco. O barulho é infernal. Forró competindo com pagode; pagode competindo com axé. Pessoas caminhando sem sequer olhar para o oceano. Procuramos Sirius. Companheira do verão. Maravilhosa. Estrela do povo Dogon. Brilhando no céu do nosso país. Poucos a reconhecem no circulo azul do símbolo da Pátria. "Porque não temos a nossa casa da palavra", perguntamos. Todos sentados, mesma altura. Sob o céu de Sirius...

Mali, 1975

domingo, 10 de janeiro de 2010

O homem de Caaporã na América

   Broadway, vala comum da ilha de Manhattan. Passarela da humanidade apressada. Preocupada. Ouvindo o barulho incessante do metrô, em qualquer esquina. Duas artérias fluindo na mesma direção. Pessoas genéricas e similares caminhando nas calçadas. Atravessando a avenida calçada com ladrilhos amarelos. Cor verde. Quiosques mostrando os jornais do dia. Ninguém vê as manchetes. Crise, crise, crise. Em todas as direções. Jogando Pacman. Come-come urbano. Ganha quem come mais. Ecos neuróticos de Woody Allen ressonando na mente esfumaçada do Cowboy Urbano...

   Chegamos à esquina da Rua 82 e a Broadway. Livraria Barnes & Noble, a maior da cidade. Quase um quarteirão de livros. Paramos em frente à vitrine principal. Mapa da mina. Lançamentos, sessões de autógrafos, promoções. Tudo prático, bem americano. Ordem no meio da crise. Livros, livros e livros. Mostruário principal exibindo uma nova publicação. Titulo curioso... “Duke, the dog priest” (Duke, o cachorro-padre, no Brasil). Confirmando a presença do autor. Domício Coutinho, escritor brasileiro, radicado na América. Presidente da União Brasileira dos Escritores e da Fundação Brasileira das Artes, em Nova Iorque. Folheamos as páginas do livro, apressadamente. Partimos. Hora do vôo de regresso ao Brasil.

   Anos atrás. Sala de conferência do Consulado Brasileiro. Palestra sobre a Biblioteca Brasileira de Nova Iorque às lideranças das comunidades brasileiras. Diplomata abre a sessão. Apresentação sucinta do palestrante. Domício Coutinho, fundador e presidente da União Brasileira de Escritores de Nova Iorque. Homem de baixa estatura, terno sem gravata. Ordenado. Direto ao ponto. As crianças brasileiras precisavam de um lugar com livros em Português. Oasis da nossa cultura. Queria todos a bordo. Perguntas e aplausos. “Cortaram nossa verba. Tem que ser feito por vocês”... O homem ouvindo atentamente a resposta oficial. Tomando notas. Pacientemente. Como se dizendo, tudo se transforma. Pergunte a Duke...

   “Soube que você é paraibano”, o palestrante comentou. Confirmado. “Nasci em Boca da Mata, hoje Caaporã, você conhece?“ “Somente a placa na BR-101”, respondi. Queria saber tudo sobre a Paraíba. Sobre ex-colegas na Universidade Gregoriana de Roma. Havia renunciado ao sacerdócio. Mais perguntas. “Você conhece o padre Chico Pereira?” Lembramos do livro “Vingança Não”, um dos favoritos na adolescência. Não sabíamos a resposta. Dois emigrantes conversando. Geografia de duas vidas. Terminamos amigos. Dois paraibanos com pressa...

   Durante os anos... Mais encontros, mais detalhes. Começou sua caminhada na América como sacristão. Mais trabalho. Ex-padre virando empresário. Companhia imobiliária de grande sucesso. Doutorado em literatura, com o mestre comparatista Gregory Rabassa. Amizade e colaboração com Nélida Piñon. Premio do jornal “The New York Daily News”. Dez dólares para o vencedor. Cheque nas mãos. “Sou escritor, sou escritor”, gritando para a esposa. Fundou a União Brasileira de Escritores de Nova Iorque em 1999. Mais uma transformação...

   Continuando... Centro para o patrocínio das artes e letras brasileiras. Biblioteca “Machado de Assis”. Mais de 4.000 volumes. Revistas, filmes, documentários. Palestras, recitais, saraus, exposições e filmes clássicos brasileiros. Centenário da morte de Machado de Assis, “Machado 21: A Centennial Celebration”, encerrado por Sergio Rouanet. Primeiro Congresso das Escritoras Brasileiras, homenagem a Nísia Floresta, Cecília Meireles e Clarice Lispector. Prêmio Nísia Floresta para a melhor obra de uma escritora brasileira. “Sou escritora, sou escritora”...

   Quem é Duke, o cachorro-padre do homem de Caaporã? Tudo aconteceu no começo de uma madrugada nova-iorquina. Impulsos e instintos sexuais de um animal comum, um cão. Praticando sexo com Lora, sua irmã e companheira de canil, na presença dos padres e irmãos. Gerando uma controvertida discussão, questionamentos bíblicos. Labaredas do pecado. Outro agravante... O irmão Alphonsus havia presenciado o ato, sem retirar-se do local. Inferno e demônios. Culpa e responsabilidade. Questionando quanto tempo o irmão havia fixado o olhar sobre o par canino, durante o ato. Desencadeando mais polêmica...

   No livro, o cão se transforma em ser humano. Um cão-padre. Revelando sentimentos de lealdade, sinceridade e imensa compaixão. Conceitos de ética superiores aos comuns mortais. Alter ego de um padre que se transformou em escritor...

Nova Iorque 2009