NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O guerrilheiro de múltiplas faces

   Em 1990, a África do Sul era a única nação do mundo, que incorporava racismo na sua Constituição e a cor da pele como fator primordial na categorização dos cidadãos, na hierarquia social. Possivelmente um dos aspectos mais cruéis do regime de “apartheid”, estava na Lei do Passe, em vigor de 1948 até 1990. Instrumento usado para privilegiar a minoria branca e institucionalizar a discriminação contra os negros, representando 70% da população, e outras etnias. Um passe para permanecer em um local reservado para brancos, só podia ser emitido para quem tinha trabalho aprovado. Esposas e crianças não podiam ser beneficiárias. O documento incluía dados biométricos e outras informações sobre o caráter, comportamento do portador, fornecidos por uma pessoa branca. Se alguém não possuísse um passe, estava sujeito à prisão imediata, julgamento sumário e "deportação" para um Bantustão, território reservado para negros, em zonas de baixa produção agrícola e parcas possibilidades econômicas.

   No dia 10 de fevereiro de 1990, o prisioneiro mais famoso do mundo, Nelson Mandela, foi libertado na África do Sul, o que desencadeou uma serie de decisões políticas, que eventualmente eliminaria todas as leis de separação racial. O Congresso Nacional Africano (CNA) liderado por Mandela, ao mesmo tempo, começou o processo do desarme e reintegração dos combatentes da resistência armada do CNA, conhecido como “Umkhonto we Sizwe”, a lança da nação. Todos acantonados em áreas remotas nos países da “linha de frente” contra o apartheid, na África Austral.

   Iniciamos um programa de capacitação e retorno à vida civil para combatentes desmobilizados, em parceria com o CNA. O primeiro estágio do retorno à África do Sul começaria em Harare, capital do Zimbábue. Todos os participantes seriam documentados e matriculados em um dos cursos oferecidos por nosso programa. A idéia principal era formar pessoas capazes de abrir suas próprias microempresas, ao chegar de volta na África do Sul. Concordamos que um período de seis meses seria adequando para começar a readaptação dos ex-combatentes à vida civil.

   Observamos o homem na recepção. Não tinha nem o porte nem a estatura de um combatente. Pessoa afável, conversador. Sorriso fácil. Parecia inconfortável com seu traje civil. Terno bem usado, bem cuidado. Pôs no balcão uma bolsa plástica, que aparentava conter documentos. A atendente parecia confusa com o conteúdo. Muita papelada. Manuseou todos rapidamente, sem olhar para o homem. Como um cobrador de pedágio, contando moedas. Encaminhou-o na direção do nosso gabinete.

   O homem reapareceu na nossa porta. Toc-toc discreto. Entrou pausadamente. Bateu continência. Estendeu a mão e em seguida anunciou: “Meu nome é Arafat, Arafat Havana, combatente do CNA”. Abriu a bolsa, conforme orientação, derramando o conteúdo no birô. Examinamos os papeis cuidadosamente. Um verdadeiro pout-pourri de cartões de identidade, passaportes, carteiras de habilitação. Todos cheirando a mofo. Amarelados. Nomes, lugares e idiomas diferentes. O denominador comum era a foto do homem na nossa frente, com múltiplas aparências... Após um período de silencio, o homem falou, “... Arafat Havana é o meu mais recente nome de guerra. Tenho um documento com o meu verdadeiro nome”...

   Explicamos que tudo tinha de ser feito com sua identidade legal. O diploma do curso não podia ser emitido com um nome de guerra. Tirou do bolso do paletó um documento plastificado. Um passe sul-africano. Herança do sistema de apartheid. Coincidentemente, o único documento que estabelecia sua verdadeira identidade. Nosso silencio, um sorriso cúmplice, esconderam a ironia do momento. Voltaria à sua pátria, em poucos meses, um homem livre. Ex-combatente de um exército vitorioso. Havia por quase duas décadas recebido treinamento militar no bloco soviético e em Cuba; lutando em guerras de liberação em outros países da África. Venceu sua grande guerra sem nunca combater na África do Sul. Uma vitória moral...

Zimbábue 1990

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Haiti: Et maintenant?

   O Haiti encontrava-se imerso em disfunção política e econômica, mesmo antes do terremoto de 12 de Janeiro. Após receber mais de cinco bilhões de dólares de ajuda externa, acumulados nos últimos vinte anos, sem nenhuma evidencia palpável de melhorias na governança do país ou no bem estar do povo haitiano. Como e quando reconstruir o Haiti é o grande dilema da comunidade internacional. Uns argumentam que agora é o momento certo da reconstrução, sob a liderança do governo e da sociedade civil haitiana. Outros sugerem que nada significativo ou sustentável poderá acontecer enquanto o país não estiver sob a tutela de um organismo das Nações Unidas.

   Baseando-nos na nossa experiência na chefia da Divisão para a América Latina e o Caribe, da instituição responsável pela execução de projetos da ONU no Haiti, consideramos uma terceira alternativa. A melhor opção para a reconstrução nacional seria uma espécie de Plano Marshall, uma parceria entre o Governo e a sociedade civil do Haiti e um organismo internacional formado por doadores bilaterais e multilaterais, coordenados pelas Nações Unidas. Seria a forma mais transparente e eficaz de assegurar a formação de capacidade institucional em todos os níveis do governo; eliminando ou pelo menos mitigando o impacto de práticas corruptas na aplicação dos recursos; promovendo a participação de todas as partes interessadas no programa, desde a criação até a conclusão dos projetos.

   Outro grande desafio reside no período de dez anos, estimado para a reconstrução nacional. Sabemos que qualquer mudança na liderança política de um país doador, poderia ter um efeito negativo sobre o apoio político e financeiro ao Governo do Haiti. Duas condições importantes, “fatiga de compaixão” e “calafrio de missão”, costumam aparecer em menos tempo. De 1993 a 2004, concluímos vários projetos importantes. Reorganizamos e treinamos uma nova força policial; organizamos o sistema eleitoral e duas eleições nacionais; reconstruímos a rede penitenciária nacional; elaboramos o plano nacional de turismo, criamos um sistema de gestão para a presidência e ministérios, e equipamos os hospitais provinciais. Os mesmos projetos figuram na lista do programa de reconstrução atual, alguns pela terceira vez...

   A repetição de experiências dos últimos trinta anos é real e antecipada por partidos conservadores nos países doadores. Tornado-se mais real ainda, enquanto a comunidade internacional insistir em tratar dos problemas do Haiti de uma forma tutelar: usando capacidade técnica estrangeira em todos os aspectos de um projeto, mesmo no nível mais elementar de competência. A diáspora haitiana possui um contingente apreciável de profissionais e experts treinados nos Estado Unidos e na Europa. Eles podem e devem ser envolvidos como executores, mentores e monitores em qualquer programa de reconstrução nacional. A impotência da sociedade civil e a corrupção que prevalece no setor público são as duas principais razões pelas quais poucos programas de desenvolvimento tiveram êxito, nos últimos trinta anos. Chegou a hora de mudar de estratégia e táticas.

   O povo haitiano sofre de um conflito de emoções sobre a situação de penúria em que se encontram. Expressam gratidão e respeito por àqueles que estão ajudando. E se preocupam constantemente com a falta de competência e credibilidade do governo de planejar e executar a reconstrução nacional com um programa do alcance, eficácia e complexidade compatível com a gravidade e a urgência da situação. O sentimento popular é que a única maneira de assegurar resultados sustentáveis é promover a participação massiva da população na resolução dos problemas nacionais, independentemente da fonte de financiamento ou circunstâncias do momento. Reconstrução não pode ser vista ou considerada fora do contexto da democratização das instituições nacionais.

Haiti 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Quando o terrorismo é caseiro...

   Viajando pela Espanha, especialmente pelas áreas mais deprimidas do país, uma pessoa sente-se como se estivesse na encruzilhada de duas crises mundiais: recessão econômica e terrorismo. Conversas com acadêmicos, comentários anedóticos de pessoas comuns e a mídia, expressam diariamente a frustração, descontentamento, e perplexidade com o fato do país ainda encontrar-se em uma depressão econômica profunda.

   O mal estar nacional é agravado pelo sentimento de vulnerabilidade a ataques terroristas contra cidadãos espanhóis. A recente descoberta de arsenais da ETA, a organização terrorista basca, em Portugal e na França; sequestro de cooperantes da Acción Solidária de Barcelona no Mali, por elementos associados a Al-Queida, e a morte de soldados espanhóis no Afeganistão por terroristas do movimento talibã, dramatizam a complexidade da situação da Espanha frente às incoerências do terrorismo. Membros da ETA e da GRAPO, dissidência comunista armada, matam seus compatriotas indiscriminadamente em nome da autonomia regional e de ideologias radicais. O povo espanhol sente-se vitimado pelo terrorismo, em todas as suas formas. Lamentavelmente, a comunidade internacional não conseguiu até hoje chegar a um acordo, sobre o que é terrorismo ou como combatê-lo...

   Terrorismo como ato, antecede a própria palavra, originária do “Reino de Terror” dos Jacobinos na Revolução Francesa. A prática de ameaçar, ferir ou matar pessoas inocentes por razões políticas, ideológicas ou religiosas é também citada nos tempos bíblicos, quando uma seita judia, conhecida como os zelotes judeus, fizeram uma oposição sangrenta à ocupação romana, há mais de 2.000 anos. Seriam os zelotes condenados como terroristas ou louvados como combatentes da liberdade nos dias de hoje? Eis ai o grande dilema confrontado pelas Nações Unidas...

   Durante as ultimas décadas, a ONU adotou mais de uma dúzia de protocolos e convenções condenando o terrorismo global. Infelizmente, nenhum consenso existe sobre como combatê-lo, ou “eliminá-lo da face da terra”, como propôs Kofi Annan, o ex-secretario geral da organização. Em 1937, a Liga das Nações, organização antecessora da ONU, definiu terrorismo como “... todo ato criminoso dirigido contra um estado, premeditado e calculado, com o intuito de criar um estado de terror na mente de pessoas específicas ou grupo de pessoas ou o público em geral”. A definição nunca foi ratificada. Subsequentemente, uma resolução da ONU, aprovada em 1999, reiterou que “... atos criminosos intencionados ou calculados em provocar um estado de terror no público em geral, grupo de pessoas ou pessoas especificas por razoes políticas são, sob qualquer circunstância, não justificáveis, independentemente de considerações políticas, filosóficas, ideológicas, étnicas, religiosas ou outra natureza, usada para justificar tais ações”. A resolução não contém uma definição precisa de “atos criminosos”. Não é muito complexo concluir que usar uma aeronave civil como uma arma de destruição massiva se enquadra na definição. Porém, nem todo ato violento pode ser facilmente classificado como tal, devido à relutância de alguns países ou grupos de classificar ações tomadas pelos chamados combatentes da liberdade, grupos separatistas ou insurgentes como atos criminosos ou terroristas.

   Enfim o que é terrorismo? Como nações devem tratá-lo? As respostas variam de acordo com percepções nacionais, poderio político-militar e importância de um país na esfera mundial. Richard Baxter, um juiz da Corte Internacional de Justiça, afirmou que “... temos razão de lamentar que o conceito de ‘terrorismo’ nos foi infligido. O termo é impreciso; ambíguo. Acima de tudo, não serve nenhum propósito legal operacional...” Experts citam as palavras de outro Juiz, Potter Steward, da Suprema Corte dos Estados Unidos, que admitiu ser praticamente impossível chegar a uma definição inteligível de obscenidade, ponderando, “conheço obscenidade quando vejo uma”. O mesmo conceito é aplicado ao terrorismo. Em outras palavras, terrorismo, como obscenidade ou beleza, é definido de acordo com os olhos daquele que vê... Uma tarefa extremamente complexa, no caso da Espanha, onde compatriotas cometem atos de violência contra seus homônimos em nome de causas, que não são universalmente apoiadas pelo povo espanhol ou pela comunidade internacional...

Espanha 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O fotógrafo acidental

   Depois de concluída nossa visita à cidade de Drobeta-Turnu Severin, na Romênia, nos dirigimos a Servia. Cruzaríamos a barragem “Portões de Ferro”, erguida em um cânion do Danúbio, ligando os Montes Cárpatos aos Bálcãs. Anoitecia no delta do Danúbio...

   Os faróis do carro encontram uma silhueta. Soldado jovem, fumando descontraidamente, segurando uma carabina AK-47 na mão esquerda. Obstruindo a passagem. Olhando para o carro, com um desinteresse ensaiado. Pediu que desembarcássemos e abríssemos o porta-malas. Quinze minutos depois, inspeção concluída. Caminhou pausadamente em nossa direção. Sinalizou que entrássemos no carro. Notamos enfiado no bolso da túnica do soldado, um dos nossos livros, “Passage to Índia” de E. M. Foster. Nos tranquilizou: “No problem, I speak English!” Gesticulou em direção da Servia, podíamos continuar a jornada. Sem pelo menos um “thank you”, por nossa contribuição literária...

   Escuridão na Servia. Estávamos no campo. Desesperados à procura de um hotel, alguém que falasse Inglês. Decidimos viajar diretamente para Belgrado. Aumentamos a velocidade. Obstáculo na estrada. Ouvimos o inquestionável barulho de ar saindo pelos pneus dianteiros. Passaram-se três longas horas. Faróis aproximando-se. Quatro homens espremidos na cabine de uma caminhoneta Lada. Mal vestidos. Cheirando a cebola, bebida barata e tabaco. Examinaram os pneus. Coçando as cabeças, com precisão de nado sincronizado. Vulcan! Moveram o veiculo precariamente para o acostamento. Removeram os pneus, apoiando a frente do veiculo em pedras. Convidaram-nos para subir na carroceria. Meia hora viajando por estradas de barro, escuras. Chegamos ao nosso destino, uma fazenda coletiva. Estrangeiros! Éramos a grande novidade. Moveram-nos para um pequeno quarto ao lado do estábulo. Calor infernal. Dormimos de janela aberta.

   Acordamos tarde. Várias pessoas nos observavam da janela. Batidas na porta. Mulher idosa, vestida estilo “babushka”. Gesticulou com as mãos, para acompanhá-la. Café da manhã no refeitório da fazenda. Alguém pediu atenção. Homem maduro, aparência de político do interior. Entendemos duas palavras. Soavam como câmera e fotografia. Convidados para segui-lo até um galpão. Decorado ostensivamente, clima festivo. Casal jovem se aproxima. Com gestos sugestivos, compreendemos que era seu dia de núpcias. Alguém apareceu com as nossas câmeras. Bingo! Havíamos sido designados fotografo oficial do evento. Mais uma noite na fazenda. Documentamos o casamento, sucesso total. Trataram-nos como celebridades. Tragos e mais tragos de šljivovica, aguardente de ameixa, à nossa saúde. “E o carro?“ “Vulcan, vulcan...”, responderam.

   Acordamos ressacados. Precariamente prontos para retomar a estrada. Nossos amigos reapareceram, não tinham boas noticias. Os pneus ainda não haviam sido vulcanizados, devido à falta de manchões. Prometeram trazê-lo no dia seguinte. Enquanto tentávamos conversar, apareceu um homem em uma viatura oficial. Falava Inglês. Convidou-nos para fotografar a cerimônia e festa de formatura do colégio local. O chefe do vilarejo estava ansioso por conhecer o “famoso fotografo internacional”, hospedado na fazenda. Sem qualquer alternativa, partimos para uma nova contribuição.

   No dia seguinte, coincidentemente, o carro reapareceu pronto para a viagem. Pequena procissão nos acompanhou até a saída da cidade. Entregaram mais de cinquenta pedaços de papel, como os nomes e endereços das pessoas que fotografamos.

   Meses depois, enviamos as fotos para serem entregues aos noivos e concluintes. Gastamos mais de 350 dólares. Preço razoável pelo momento de fama de fotógrafo internacional, na Servia. Como bônus, duas câmaras de ar vulcanizadas... Seguimos esperando o “thank you!”

Iugoslávia 1973