NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 28 de março de 2010

O visitante indesejável...

   O turbilhão político no mundo colonial lusófono, desencadeado pela chamada Revolução dos Cravos em Portugal, chegou ao Timor-Leste em 1974. Os portugueses desembarcaram na ilha em 1515, em busca de sândalo branco. Quatrocentos e cinquenta anos de negligência e opressão colonial. Abandonaram a ilha tempestivamente, no dia 26 de Agosto de 1975...

   Divergências entre partidos políticos timorenses, alguns dos quais advogavam a integração à Indonésia, pronto degeneraram em confrontos armados. O movimento de resistência timorense, FRETILIN, contra seus opositores, conservadores e líderes tradicionais. Armados simultaneamente, por militares marxistas ou policiais anticomunistas portugueses. A FRETILIN proclamou independência unilateralmente, no dia 28 de novembro de 1975. Tropas da Indonésia, nove dias depois, desembarcaram em Díli. Ocupando o território nacional. Justificaram a intervenção como defesa anticomunista. Beneficiaram-se do apoio passivo dos Estados Unidos e Austrália e receberam condenação quase unanime da Comunidade Internacional.

   A anexação do Timor-Leste, como a 27ª província da Indonésia, desencadeou um ciclo de violência que durou mais de vinte e cinco anos. Resultando em duzentas mil vítimas de combates e chacinas, quase um quinto da população. Moradores das áreas rurais, vistas como simpatizantes da resistência, eram relocados forçosamente para “aldeias de recolonização”. Proibição do ensino de Português, islamização forçada e reconfiguração demográfica do perfil étnico da população, foram introduzidos para assegurar a assimilação do Timor-Leste, como parte da Indonésia.

   A conferencia episcopal timorense e representantes da FRETILIN na ONU, contataram o programa de ajuda humanitária católica dos Estados Unidos, para fazer sérias alegações. Denúncia grave. Militares indonésios estavam desviando ajuda humanitária. Alimentos e remédios usados como uma arma, violavam o próposito do programa de assistência às populações vitimadas pela guerra. Fomos designados para chefiar uma delegação à Indonésia, para investigar as denúncias e visitar contrapartes e beneficiários no Timor-Leste.

   Agendamos reuniões com representantes de países doadores e da Igreja Católica, em Jacarta. Militares associados com a administração do Timor-Leste, nos visitaram no hotel para apresentar argumentos pela manutenção da ajuda humanitária. Informamos da nossa intenção de fazer um visita de inspeção; reunir-nos com a hieraquia católica e beneficiários do programa. Explicaram que seria dificil organizar a visita, devido a situação de intraquilidade e terror causado pelos “comunistas” da FRETILIN.

   A Embaixada Americana expressou preocupação com a situação de fome na ilha, sem condenar explicitamente as consequências das aldeias de recolonização. Consideravam que o programa era uma peça importante na estratégia de antiinsurgência -- pacificação seguida de desenvolvimento. Insistíamos em manter a neutralidade da ajuda humanitária. Condição indiscutível para sua continuação. Prometeram dialogar sobre o tema com o Governo da Indonésia.

   Quatro semanas de reuniões inconclusivas. Os militares nos informaram que não poderíamos visitar Timor-Leste. Dizíam-se preocupados com a nossa segurança pessoal. Os timorenses podiam aproveitar-se do fato de que falávamos português, para espalhar desinformações sobre o programa de aldeias de colonização. Não havia propósito para a nossa presença na Indonésia. Informaram que tinham conseguido uma reserva no primeiro vôo para Tóquio. No dia seguinte, nos levaram pessoalmente ao aeroporto. Assegurando nossa partida...

   Decidimos limitar a distribução de materiais de ajuda humanitária, após consultas com a Igreja Católica do Timor-Leste. Seriam entregues diretamente aos beneficiarios, através das paróquias católicas. A marcha da igreja continuou. O Papa João Paulo II, visitou a ilha e denunciou eloquentemente as violações de direitos humanos, gerando protestos pacifícos dos jovens, reprimidos brutalmente pelos militares indonésios. O Bispo Carlos Filipe Ximenes Belo, compartilhou o Nobel da Paz de 1996, pelo contínuo esforço para terminar com a opressão vigente em Timor-Leste...

   No dia 27 de Setembro de 2002, o Timor-Leste converteu-se no 191º país membro das Nações Unidas...

Indonésia 1983

domingo, 21 de março de 2010

Um lugar perigoso para os fracos do coração...

   A “limpeza étnica” promovida pelo ditador Mobuto havia provocado um deslocamento massivo da população das províncias de Shaba e Kivu Norte, no Zaire. Milhares de mortos e feridos; estupros e execuções extrajudiciais. Crise humanitária. Após semanas de negociações, o governo havia permitido a entrada e distribuição de ajuda humanitária às vitimas do conflito. Estávamos em Gana.

   Embarcamos com destino a Kinshasa, no Zaire, uma semana depois, com duas horas de atraso. A conexão já havia partido, ao chegarmos em Lagos. Trânsito no Aeroporto Internacional Murtala Muhammed. Ambiente hostil, às vezes perigoso. Corrupção, em todas as variedades possíveis, era mencionada constantemente em alertas e artigos na imprensa. As palavras “dash” ou “baksheesh” resolviam todos os problemas que pareciam insolúveis, minutos antes. Ambas significavam propina...

   Guichê da emigração. Oficial examinou o passaporte, nunca olhando em nossa direção. “Por favor, tome um assento, seus papeis não estão em ordem”. Despareceu pela porta do pequeno escritório. Três horas de espera. Paciência, não adianta estrebuchar, ninguém vence aqui. Sabíamos do fenômeno conhecido como “wawa”, abreviatura de “West África wins again”, a África do Oeste vence de novo. Anoitecia...

   Ocupamos-nos com a leitura do livro “In Patagonia”, do escritor inglês Bruce Chatwin. Mestre da literatura odepórica. Estávamos totalmente absorvidos, com uma passagem extremamente hilária. Gargalhadas, gargalhadas. O oficial voltou. Batendo o passaporte na palma da mão. Informou-nos asperamente que estaríamos ilegal no país, a partir da meia noite. A próxima conexão partia em 48 horas. Outra acusação: “desrespeito às autoridades”. As gargalhadas... Uma multa de trezentos dólares. Protestamos. “A Patagônia não é algo engraçado”, declarou, após uma leitura cursória. Pagamos a multa. Permitiram nosso pernoite em um hotel. Havíamos cooperado com as autoridades. Entregariam o recibo, pela manhã, para assegurar nosso retorno e deportação... Wawa!

   Caos fora do terminal. Vários taxistas competindo por nossa bagagem. Pediam cento e cinqüenta dólares para levar-nos ao hotel. Alguém ofereceu uma “tarifa especial”, cem dólares. Pagamento adiantado. Em cinco minutos, estávamos no lobby do hotel. “Esqueceram minha propina”, reclamou o taxista. Demandou cinquenta dólares.

   Fomos informados que o hotel estava lotado. Explicamos nossa situação. Ofereceram uma alternativa, um sofá na parte posterior do lobby, por meia diária. Demandamos um quarto single. Duas horas de espera. Nossa vez chegou. Quarto pequeno, cama ainda morna. O casal de amantes, inebriados, eram os ex-ocupantes. Por segurança, deitamos no colchão. Dormimos. O recepcionista nos acordou. Haviam cometido um erro. Nosso quarto estava reservado para outras pessoas, pagamento adiantado. Deram-nos quinze minutos para fazer o check-out. Desculparam-se pelo equivoco. Ofereceram um sofá para dormir, grátis. Não haveria ressarcimento. Amanhecia...

   Apresentamo-nos cedo na Emigração. Ninguém havia feito um relatório sobre nossa deportação ou entregado um recibo. Examinaram o passaporte. Tudo em ordem: “no problem”. Podíamos permanecer em trânsito até o próximo vôo. Nenhum problema com a conexão para Kinshasa. Basta! Decidimos partir no primeiro vôo para Acra, Gana.

   Desordem no balcão da Ghana Airways. Excesso de passageiros e bagagem. Uma mulher obesa, vestida em pano africano, notou nosso desespero. Confidenciou que podia conseguir um assento, por trezentos e cinquenta dólares. Encarregar-se-ia de tudo, check-in e bagagem. Entregaria-nos a passagem e uma encomenda para sua filha, ao embarcarmos. Um televisor e um saco plástico com várias caixas de sabão em pó OMO; sabonete Rexona e sardinhas. Esperando na entrada da aeronave. Nossa bagagem de mão...

   A filha da nossa benfeitora esperava-nos na alfândega, em Acra. Perguntou com um sorriso de 10.000 megawatts, se podíamos deixá-la em casa. Estamos sem transporte, descartamos. Havíamos vencido uma pequena batalha. Wawa...

Nigéria 1981

domingo, 14 de março de 2010

Seguindo os passos do Jardineiro Fiel

   O filme “O Jardineiro Fiel”, nos trouxe recordações dos tempos em que trabalhávamos no Quênia. Voltamos à estrada conectando a cidade de Marsabit ao Lago Turkana, o Mar de Jade. Viajamos com Justin Quayle, nas cenas finais. Homem procurando seu destino. Memórias de safáris em estradas perigosas, cheias de imprevistos. Nossa picape Nissan não existe mais... Deixamos atrás o que restou, uma carcaça verde quebrando a monotonia dos tons pastéis do deserto. Perda total. Lembramos daquele dia em que vivemos e quase morremos na mesma estrada. Sobrevivemos para contar a história...

   Estrada de barro, superfície ondulada. Dirigindo em alta velocidade. Região perigosa. Muitos “shiftas”, bandidos, atacando comboios de ajuda. Seis soldados nos acompanhavam. “Simba”, leão em Suahili, um soldado gritou de repente. Distraímo-nos, capotamos várias vezes. Nenhum morto. Feridos transportados para uma base avançada, no deserto. Acordamos na madrugada. Aroma de café e musica no ar. “This is Radio Moscow”, seguido pelo Concerto para Piano Nº 3 de Rachmaninov... O ano era 1982, o Noroeste do Quênia estava sendo devastado pela seca e pela fome. Estávamos a caminho da região.

   O povo Turkana, mais de 300.000 pessoas, era o mais afetado. Recebíamos relatórios preocupantes sobre o número de mortos, escassez de alimentos e água, rebanhos dizimados: miséria africana.

   Como todo povo nômade, os Turkanas vivem em um ambiente hostil. Seus animais são a única possessão de valor. Suprem todas as necessidades matérias e nutricionais. Símbolos de posição social e riqueza. Deslocam-se constantemente em pequenos grupos, perseguindo nuvens, na esperança de encontrar nova vegetação. A escassez de pastagem gera conflitos entre os Turkanas e seus vizinhos, nômades do Sudão e da Uganda. A abundância de carabinas Kalashnikov, compradas nas fronteiras da Etiópia ou Sudão, inflama as disputas. Sobrevivência é a preocupação diária...

   Após nosso acidente na estrada de Marsabit, decidimos usar um Cessna 180, para transportar-nos até áreas remotas do Lago Turkana e a fronteira com o Sudão. Tínhamos que compartir a aeronave com exportadores de folhas de “khat”, uma planta narcótica mascada pelo povo da Somália. Únicos pilotos dispostos a aterrissar em pistas improvisadas, voando em plena estação do Harmatão. Ventos quentes carregados de poeira e areia, do deserto do Saara.

   Primeiro “safári” aéreo. Partimos de Nairóbi, capital do Quênia, em direção de Kalacha, um oasis no deserto de Chalbi. Pousaríamos na pista construída pela missão católica. Voaríamos depois para Loyangelani, um vilarejo criado por pessoas escapando da fome, à margem do Lago Turkana.

   As instruções de pouso eram específicas. Vôo rasante para espantar os animais. Procure um arvore grande à esquerda e uma normal à direita, pouse entre elas. Evite a lombada na cabeceira. Cinco tentativas depois... Terra firme. Pessoas de todas as idades, gritando a palavra “jilali”, seca na língua suahili, como se fosse uma saudação. Completamos a organização do sistema para a recepção e distribuição de ajuda humanitária na região. Partimos para Loyangelani. Outra aterrissagem complicada. Local conhecido pelos fortes ventos de proa. Sobrevoamos a pista três vezes, por precaução. Continuamos por terra até as localidades onde estavam as pessoas mais vulneráveis. Grupos de mulheres circulando ao nosso redor, repetindo uma palavra “agoro”. Dança macabra. Mãos levantadas aos céus, depois em direção ao estômago vazio, Agoro... Agoro... Agoro... A única palavra na língua Turkana que não necessita tradução. Significa fome.

   Justin Quayle descobriu a verdade; converteu-se em uma pessoa humanitária; honrou o legado de Tessa, sua mulher. Todos nós descobrimos algo em Turkana. Da beleza do jardim da nossa origem ao purgatório do deserto implacável, aonde a vida poderá num primeiro momento, extinguir-se...

Quênia 1982

domingo, 7 de março de 2010

A grande corrida dos 2.500 dólares...

   Começamos nossa primeira visita a China em Fuzhou, capital da província de Fujian. Marco Pólo descreveu a cidade como “... um centro importante de comércio de pérolas... tão bem provida de amenidades que é uma verdadeira maravilha...” A província é uma das primeiras com as portas abertas ao comércio exterior. Figurando entre os trinta e cinco lugares mais populosos do mundo. Hospedamo-nos no Lakeside Hotel, um complexo hoteleiro com mais de 450 quartos. Bem localizado na margem de um lago rodeado de outros edifícios. Hotéis, bancos, sedes de empresas e um museu. Pessoas caminhando, fazendo exercícios, praticando artes marciais. Jardins manicurados. Progresso no ar...

   Fomos acordados por um toc-toc insistente. Toc-toc, toc-toc. Voz estridente. Tentando comunicar-se em Inglês. Quase incompreensível. Entendemos a palavra “urgent”. Tinha nossa atenção. Avisando que o trem para Longyan, nossa próxima destinação, sairia da estação ás 18:05. O relógio na mesa de cabeceira marcando 16:45. Fizemos nossas malas às pressas. Descemos para o lobby. As contas já haviam sido pagas. A Voz nos empacotou em uma pequena minivan. Rumo à estação...

   Ao chegarmos, a Voz desapareceu na multidão. Retornou sorridente, tickets na mão. Outro aviso, parada militar na plataforma. Tínhamos que esperar até baixarem a bandeira nacional, às 18:00 horas. Menos de cinco minutos para nosso grupo embarcar. Cinco pessoas; uma delas cadeirante. Decidimos carregá-la fisicamente. Outro obstáculo, a largura do corredor não permitia a passagem da cadeira de rodas. Formamos um andor improvisado para movê-la. Seis vagões até o nosso lugar, na primeira classe.

   Compartimento com quatro beliches, dois em cada lado. Acomodações e décor espartanos. A cadeirante permaneceria no centro. Tomaríamos turnos nos beliches ou carregando o andor, quando ela necessitasse ir ao banheiro, no fim do vagão anterior. Em uma das idas e vindas, encontramos soldados vendendo brinquedos eletrônicos. Escolhemos três dúzias. Descobrimos antes de pagar, que o cinturão de guardar dinheiro havia desaparecido. A Voz prometeu resolver o problema. Entre chamadas frenéticas e cigarros, nos informou pouco depois, que havia sido encontrado no quarto do hotel. O faxineiro que entregou o achado à gerencia, recebeu uma promoção por sua honestidade. A Voz nos assegurou que receberíamos nosso pertence em Longyan.

   Chegamos exaustos. Pouco depois das formalidades de boas vindas, nos comunicaram que um dos vice-prefeitos e um subdelegado já haviam viajado a Fuzhou, para resolver o problema. Fomos informados no final da tarde que o hotel estava demandando uma espécie de assinatura e fotocópias autenticadas dos nossos documentos pessoais. Tínhamos que esperar até o dia seguinte. Completamos as formalidades. Dois oficiais partiram imediatamente para Fuzhou para entregar os documentos à seus colegas. Os quatro voltariam juntos para Longyan, no dia seguinte. Tudo seria resolvido na manhã do quinto dia. Infelizmente, tínhamos compromisso de visitar oito outras cidades...

   Apesar de sermos reassegurados pela Voz, em diversas ocasiões, não acreditávamos que o problema fosse ser resolvido antes da nossa partida da China. Estávamos equivocados... Para nossa surpresa e alivio, a Voz reapareceu na nossa porta, com boas noticias. Vários oficiais estavam na recepção nos esperando, para fazer a entrega do cinturão. Deparamos-nos com um grupo de mais de doze pessoas ao chegar ao lobby. Um funcionário sênior nos entregou um envelope grande. Bem lacrado, cheio de carimbos. Coberto de escrita chinesa. Pedia que abríssemos imediatamente. Envelope dentro de envelope, uma matrioska de documentos. Chegamos ao último, o menor. Revisamos o conteúdo. Vinte e cinco cédulas de cem dólares. Flash, flash, flash... Mais uma foto, por favor. Posando com um leque de dólares. Sucesso total. Risos e palmas. Um verdadeiro rodízio de cumprimentos.

   No banquete de despedida, fomos informados que vinte e três pessoas haviam recebido elogios ou reconhecimento pessoal por sua participação no resgate do cinturão. Venceram o rally dos 2.500 dólares. O verdadeiro herói do dia, a Voz, havia desaparecido. Nunca nos disse seu nome, nunca perguntamos...

China 2002