NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 18 de abril de 2010

Casablanca sem heróis...

   A novela “O Alfaiate do Panamá”, de John Le Carré, mostra um cenário realista do país, na época da ditadura do General Manoel Noriega. O espião britânico Andy Osnard é transferido para o Panamá, após ser removido de Madrid, devido a inúmeros faux pás envolvendo mulheres casadas e dívidas de jogo. Colher informações sobre o futuro do Canal do Panamá, sua missão. Faz amizade com Herry Pendel, um alfaiate inglês com reputação e associados questionáveis. Contato importante. Costurava as roupas dos generais. “Bem vindo ao Panamá, Casablanca sem heróis”, Pendel costumava dizer.

   Pendel não reclamava a falta de justiça. Declarou ao capturarem Noriega: “prenderam Ali Babá e deixaram os quarenta ladrões em liberdade”. Ainda havia oportunidades de novos negócios no Panamá. Sempre se encontrava uma alma irmã, quando se tratava de algo lucrativo. Seu ceticismo e sua bela esposa eram um bálsamo para a alma volúvel de Osnard...

   O Arcebispo Metropolitano Marcos Mc Grath era um dos poucos heróis. Homem religioso, ético. Um pastor. Seguia fielmente os princípios da Juventude Operária Católica do Padre Cardjin. Via, analisava, atuava. Demandava publicamente a renúncia imediata de Noriega e seus acólitos. Exigia o cumprimento dos Tratados Torrijos-Carter, que garantiam a neutralidade e o controle do Canal do Panamá, a partir de 1999.

   O Congresso e um tribunal norte-americano acusaram Noriega de participar no tráfico internacional de drogas, enquanto servia de agente da CIA. Contrabandeava armas para movimentos anticomunistas centro-americanos. Declarou-se líder máximo após anular as eleições de 1989. Oficiais militares tentaram derrubá-lo. Não sucederam. Retaliação rápida e brutal, soldados vestidos em traje civil intimidavam oponentes do regime, suprimiam manifestações populares. Presidente Reagan declarou um embargo econômico, bloqueou todas as contas e transferências em dólar. Intensificou a crise, paralisando o país. O Panamá usava o dólar como moeda nacional. Comprava cédulas usadas do Federal Reserve Bank dos Estados Unidos, por não ter um banco central. Quebrado e sem cédulas, não era possível realizar transações pessoais ou comerciais. Fome imperava nas comunidades pobres.

   O Arcebispo Mc Grath fez um apelo urgente, pedindo ajuda humanitária ás Caritas estrangeiras. Viajamos em seguida para o Panamá, a serviço de ajuda humanitária da igreja católica dos Estados Unidos. Faltava dinheiro, porém não faltavam alimentos nos armazéns. Estávamos preparados para financiá-los.

   Ao chegar, nos deparamos com cenas de desordem, devastação e perigo. Inúmeros bloqueios na estrada do aeroporto. Pneus em chamas. Populares atirando pedras, garrafas e outros objetos mais letais contra os veículos. Pequenas lojas saqueadas. Chegamos à residência do arcebispo, horas depois. Precisavam urgentemente de alimentos. Fornecedores não abriram suas portas ou queriam ser pagos em cheques. Temiam as turbas e o embargo bancário, ao mesmo tempo...

   Vários dias em busca de fornecedor... Sem êxito. Finalmente, alguém preparado para “fazer negócio”. Parecia preocupado com a situação. Negociamos os preços de arroz e feijão já aumentados exponencialmente, após horas, chegamos a um acordo. Radiante, o comerciante esfregava as mãos... Dizia sentir-se filantrópico. Pagamento imediato, oitenta e quatro mil dólares em espécie. Protestamos energicamente. Impossível obter tantos dólares. Perguntou casualmente se tínhamos cartões de crédito estado-unidenses. Confirmamos. Olhos faiscando de alegria: “Pode pagar com American Express, se for platino”. Rápida chamada para nosso escritório, compra aprovada. Seríamos reembolsados. Transação concluída. Alimentos entregues, partimos. A situação nas ruas havia deteriorado...

   Eventualmente, o Exército dos Estados Unidos invadiu o Panamá, capturando Noriega. Soubemos da noticia enquanto estávamos de férias em Paris... milhagem resultante das nossas “compras” com o cartão de crédito. Henry Pendel supostamente diria, que o Panamá é cheio de oportunidades...

Panamá 1988

domingo, 11 de abril de 2010

O estranho sequestro de um par de Samellos...

   Presenciamos nossa primeira cena de justiça das turbas, duas semanas depois de nossa remoção para Acra. Linchamento de um homem, mais de vinte pessoas, no outro lado da estrada. Jacques, nosso motorista, estacionou o carro na encosta, removeu um cano da mala e atravessou a estrada em direção do acontecimento. Atingiu a pessoa que estava no chão, varias vezes; regressou lentamente. Protestamos energicamente. “Bater em ladrão não é crime”, justificou assertivamente. Testemunharíamos eventos similares, em outros países...

   Desordem imperava em Gana. O país havia descido às profundezas do subdesenvolvimento. Corrupção e insegurança substituíam a euforia e o otimismo da independência. Políticas promovidas por Kwame Nkrumah, fundador e chefe de Estado por nove anos, devastaram a economia nacional. Cinquenta empresas paraestatais ou mais, foram criadas em cinco anos, negligenciando o setor agrícola, levando o país à borda da bancarrota. Estimava-se que o poder aquisitivo do trabalhador havia retrocedido ao nível de 1939...

   Promovendo sua visão de Panafricanismo, Nkrumah agravara ainda mais a situação econômica do país, apoiando financeiramente movimentos de liberação nacional. Aspirava estabelecer Gana como uma potência emergente no continente africano e entre os países Não Alinhados. Declarou-se Presidente Vitalício em 1966. Foi deposto por um golpe de estado logo depois, quando estava ausente do país em uma das suas múltiplas missões. Seguiram-se quatorze anos de ditaduras militares...

    Um novo governo, eleito democraticamente, tomou posse em 1980. Os gastos extravagantes e excessos de Nkrumah e dos ditadores militares, haviam deixado uma marca profunda no país. Judiciário e Policia no ápice de todos os esquemas de corrupção e abuso de autoridade. O povo dizia-se cansado da democracia. Alguns lamentavam a partida do colonizador inglês...

    Linchamentos e execuções extrajudiciais eram sintomas da descrença popular. O civismo e o patriotismo haviam desaparecido. O cinismo permeava a conduta nas relações interpessoais e com as instituições nacionais. Caso alguém gritasse “ladrão” e apontasse para um transeunte, a turba tomava conta do resto. Soldados e paramilitares organizavam barricadas para extorquir propinas; navios com cargas de ajuda humanitária eram saqueados; o mercado negro parecia a única forma de conduzir transações comerciais. Outro golpe de estado...

    Regressávamos de Lomé, no Togo. Viagem semanal para adquirir alimentos. Deparamo-nos com uma barreira militar a cinquenta quilômetros de Acra. Carabinas apontadas em nossa direção. Descemos do veiculo, como instruídos. Fomos escoltados até uma pequena palhoça, distante da estrada e acusados de crimes contra a economia do país. O julgamento e sentença ocorreriam onde estávamos. Mencionaram uma multa, sem especificar a quantia. Éramos reféns...

   Horas com o cano da carabina colado à cabeça. Subitamente o guarda nos avisou que poderíamos fumar ou urinar, se desejássemos. Depois de um tempo, mudou a posição da arma. Apontava contra nossos pés, para evitar fuga. Relaxou, pediu um cigarro. Prometemos não tentar fugir. Contemplou nossos sapatos. Samellos, made in Brazil. Anunciou abruptamente, “estão confiscados”...

   Oficial seguido de vários soldados apareceu no local. Pediram explicações ao nosso guarda. Longa discussão. Folheavam nossos documentos. Dirigiu-nos a palavra pela primeira vez, pedindo explicações sobre as mercadorias no carro. Confirmou nossa identidade. Informou-nos, sem muita conversa que estávamos livres para continuar a jornada. Devolveu nossos sapatos. Retornando ao nosso veiculo, ouvimos um grito. O soldado contorcia-se no chão, com coronhadas de carabina e pontapés na cabeça e torso. Nosso captor banhado em sangue. Voltamos temerosos. Pedimos ao oficial que parasse, não havíamos sido maltratados. Respondeu-nos severamente que o soldado estava sendo punido por ser um ladrão e que não devíamos intervir com a justiça revolucionária. Estava protegendo nossos “direitos humanos”. Linchamento oficial...

Gana 1980

domingo, 4 de abril de 2010

A roqueira e o astronauta...

   Festejávamos o ritual americano do TGIF, “graças a Deus é sexta-feira”, em um barzinho na Rua 48 Oeste, entre a 7ª e a 8ª avenida. Al, o proprietário, gabava-se do endereço: “estamos a vinte palpitações da Times Square”. Prédio de fachada modesta. Letreiro em néon na vitrine: Al Lang’s Bar – Drinks - OPEN. Cortinas fechadas, discreto. Mister Lang não acreditava em décor moderno. “Só funciona em bar gay”... Longo balcão de mogno, polido constantemente. Prateleiras bem iluminadas, exibindo todos os tipos e marcas de bebidas. Taça de cristal enorme ao lado do caixa, repleta de notas de dólar. Convite às propinas. Longe do balcão, dois richôs com petiscos mexicanos. Ponto de encontro entre colegas.


   A estrutura de poder do bar era inequivocamente vertical. Mantra repetido por seus dois lugares-tenentes: “Mister Lang é quem decide tudo”. Hildelgard Hanna (HH), o caixa, ex-bailarina exótica no Sultanato de Brunei e atual esposa do chefe. Cinquenta anos os separavam. Michael O’Brien, o porteiro. Reboque humano. Ex-policial e boxeador. Aposentado por distúrbios de comportamento. Mão direita estendida, no pé da escada. “Hi, I am Mike”. Homem de poucas palavras. Loquaz, quando discutiam fatos e estatísticas de beisebol. Gênio da trivialidade. Tinha seus fãs...

   Três garçonetes, em trajes de coristas de musical da Broadway, enriqueciam a “mise-en-scène”. Linhas imaginárias dividiam o balcão em três territórios: Deedee, Maria e Rusty. Atriz, roqueira e sapateadora, respectivamente. Sorridos ensaiados. Exímias conhecedoras da preferência e tolerância alcoólica de cada cliente. Rusty, a mais astuta, citava truísmos a todo instante. “Nunca se sabe se o bêbado em frente de você é um produtor ou diretor”, filosofava. Manifestações românticas entre garçonete e cliente, violavam o código de conduta. HH, sempre atenta aos desvios, mantinha a disciplina. Torquemada...

   Dia das Mães. Bar vazio, todos em casa comemorando. Mike ocupado descarregando caixas de cerveja. Maria polindo o balcão pela enésima vez. Terapia ocupacional. A calma do dia nos inspirou a convidá-la para o teatro. Tínhamos dois tickets para o show “Cabaret”. Resposta rápida e contundente, “não nos envolvemos com clientes”. Batemos em retirada...

   Voltamos meses depois. Rusty nos recebeu com um sorriso robusto. “Cuba Libre” no balcão. Evitamos contato visual com Maria. Distraímo-nos com a música. Notamos um guardanapo dobrando, decidimos abri-lo disfarçadamente. Breve mensagem, aceitando nosso convite, com número de telefone. Chamamos no dia seguinte. Primeiro encontro, cine de arte e pizza. Repetimos a rotina quatro semanas. Despedíamos com um beijo de “boa noite”. Parecia discreta sobre o que fazíamos. Terminamos após uma acirrada discussão sobre o documentário “Le Chagrin et la Pitié”, de Marcel Ophüls. Ela não acreditava em anti-semitismo francês. Nunca mais nos vimos...

   Passávamos em frente de uma loja de discos, próxima a Radio City. Abre-se a porta de uma limusine branca. Passageira, mulher jovem vestida como uma hippie de discoteca. Sorrindo em nossa direção. Reconhecimento e surpresa. Maria, a garçonete do Al Lang’s Bar. Roqueira. Tarde de autógrafos, seus autógrafos. Top 10, na parada de sucessos de Nova Iorque. Cantora da banda Dr. Buzzard's Original Savannah Band e da canção “Cherchez la Femme” (Procure a Mulher). O som do Bronx no mapa musical americano.

   Conversamos como velhos amigos, sem mencionar o Al Lang’s Bar. “Ainda gosta de Cuba Libre?”, perguntou timidamente. Partiu acompanhada de sua entourage, sem esperar a resposta... Enquanto nós seguíamos sem entender porque havia aceitado nosso convite.

   Anos depois, colega nosso revelou que havia informado, por pura picardia, que éramos astronautas brasileiros, já que Maria se intitulava de roqueira. Talvez por isso, a garçonete que queria ser uma superstar, tenha aceitado sair conosco...

Nova Iorque 1973