NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 30 de maio de 2010

Ícone, rosas e bossa nova...

   Competindo com caminhões, carros e máquinas agrícolas. Seguindo a estrada pavimentada, sem poder checar os nomes escritos em alfabeto cirílico. Perdemo-nos várias vezes, após consultar com pessoas ao longo da estrada. Os búlgaros inclinam a cabeça quando querem dizer “não” e balançam para as laterais quando querem dizer “sim”. Repetindo sempre a expressão “varvete naprovo!”, vá direto, como se não houvesse curvas no país. Cinco horas na direção errada. Policial nos explicou com gestos manuais, que devíamos seguir rumo ao Leste na rodovia E-80. Estávamos a sete horas Oeste de Sofia, nossa destinação.

   Chegamos à porta do Balkan Hotel às três horas da manhã. Estrutura e mobiliário antigo. Aroma de tabaco forte, cigarros russos, agredindo as narinas. Decadência alimentada por ácaros. Recepcionista sonolento completou as formalidades do check-in. Entregou-nos displicentemente uma chave antiga, chaveiro de bronze, enorme, convocando três babushkas, com uma campainha. Acompanharam-nos ao quarto. Lembramos delas limpando o banheiro e fazendo a cama pausadamente. Terminaram em uma hora. “Blagodaria”, despedindo-se sem grande entusiasmo.

   Explicamos nosso itinerário turístico. Começando em Sofia. Catedral Alexander Nevski, a maior catedral ortodoxa dos Bálcãs. Coro de cantores de ópera e coleção espetacular de ícones búlgaros. O Teatro Nacional Ivan Vazov, em seguida. Expressamos interesse na soprano búlgara Ghena Dimitrova. Famosa com seus papéis de Turandot de Puccini e Abigail em "Nabucco" de Verdi. Todas as cabeças balançando lateralmente, entusiasmados. Ópera era paixão nacional. O baixo Nicolai Ghiaurov, o astro búlgaro da ópera, era considerado o novo ícone nacional, um astro do proletariado.

   Notamos que um homem nos seguia. Alcançou-nos quando paramos para descansar. Trajando modestamente, com o porte e os olhos de uma pessoa culta, diferenciada. Falando em Inglês fluente, apresentou-se como Hassan. Muçulmano ou “pomak”, pejorativo usado pela maioria cristã ortodoxa. Discriminados, como se fossem “ciganos”, “vagabundos ou ladrões”. Ofereceu seus serviços como guia turístico. Dizia-se microempresário. Coletava laminas de barbear descartadas por hospedes e as vendia como novas, depois de afiadas. Sugeriu uma doação...

   Depois de uma noite inesquecível na Ópera, seguimos para Plovdiv, possivelmente a cidade mais formosa da Bulgária. Chamada de Eumolpia trácia, a Filipópolis antiga, a Trimontium romana, a Felibe turca ou a Plovdiv búlgara, no decorrer de sua dramática história. Ponto de convergência das rotas da Ásia Menor para Europa e do Centro da Ásia para Grécia. Show case dos ódios e as intrigas dos Bálcãs.

    Seguimos para Kanzalak, o lugar que os búlgaros chamam de “Rozova dolina”, o Vale das Rosas. Primeira semana de junho, a colheita de rosa damascena havia começado ao raiar do dia. Trabalho intensivo. Necessitavam de cinco toneladas de pétalas para produzir um litro de óleo essencial, o mais fino e caro do mundo. O aroma de rosa estava na natureza, nos ambientes e nas pessoas. Festas, festas e mais festas. Hassan participava da colheita com grande entusiasmo. Boa ocasião para vender lâminas de barbear...

   Passamos nossa ultima noite em Ruse, cidade fronteiriça da Bulgária à margem direita do Rio Danúbio. Localizado em um pomar de cerejas, um pequeno hotel. Informaram-nos que tinham música ao vivo. Quarteto de jazz, na boate do hotel – de quarta a sexta-feira. Esperamos pacientemente enquanto afinavam os instrumentos. Subitamente, começaram tocando com a energia de uma casa cheia. Concerto de música brasileira, encerrado com “Saudade da Bahia”, a favorita da banda. Caymmi cantado em búlgaro não fazia muito sentido. Sentíamos “dentro do peito” uma saudade genuinamente brasileira. Rosas, rosas e rosas. De abril ou de junho. Todas...

Bulgária 1973

domingo, 23 de maio de 2010

O defunto branco era maior...

   Edifício pequeno, desenhado sem grande atenção à estética. Decadência pintada em múltiplas tonalidades de pastel. Estávamos no café do terraço do hotel. Pessoas sentadas precariamente em cadeiras de plástico. Garçons servindo “bubra”, cerveja nacional, sempre morna. Demanda excedia a capacidade do único refrigerador. Raças, idades e reputações diversas, ocupando o mesmo espaço. Observando o vai-e-vem, conversando discretamente ou lendo alguma coisa. Grupos de duas ou três “ashawos”, prostitutas, monitorando a cena em câmera lenta, com desinteresse profissional. Mendigando agressivamente na calçada, dois deficientes mentais, Harrison e Charity. Apareciam em turnos diferentes, despidos. Pequena concessão ao pudor público..

   Penta Hotel, quarto 301, residência temporária ao chegarmos a Gana, nosso primeiro posto na África. O ano era 1980...

   Notamos um homem grisalho nos observando com interesse. Aparentava ser Italiano. Flanqueado por duas mulheres jovens de porte volumoso, vestindo sarongs coloridos e camisetas, sem definição precisa de detalhes anatômicos. Um garçom voluntariou que o cliente era um “obrouni”, homem branco importante. Suas companheiras chamavam-se Jewel e Santa, as ashawos mais cobiçadas e solicitadas pelos clientes estrangeiros e funcionários da Alfandega e da Emigração.

   Pediu permissão para sentar-se. Identificou-se como Carlo Vita, presidente de uma firma de importação e exportação, sem mais detalhes. Falando em tom confidencial que suas “associadas” souberam através de conexões que nosso programa de ajuda humanitária importava roupa usada dos Estados Unidos. Identificando-se como católico, queria fazer uma denúncia, nossa roupa estava sendo vendida nas sulancas e "outlets" populares. Citou como exemplo, a camiseta de Jewel, originaria de uma universidade americana com a frase “Cogito Ergo Periculosus”. Revelando na ocasião, que também importava roupa usada, conhecida como "obrouni wa wo", roupa de defunto branco. Tinha uma proposta comercial a fazer-nos...

   Falando com voz enfadada, reclamava que as autoridades só estavam permitindo a importação de roupa usada, da ajuda humanitária. Protecionismo do governo e a caridade cristã conspirando contra sua empresa. Pequenos negócios e revendedores estavam fechando as portas, despedindo empregados. Propôs que lhes vendêssemos nossa mercadoria. Argumentou que a margem de lucro seria maior, sobre nossa roupa não incidiam impostos e com frete marítimo subsidiado. Geraríamos empregos. Acordo de cavalheiros. Dividiríamos o lucro meio a meio, que seria depositado em um banco no Panamá ou no Caribe, a nosso critério, por facilitar a transação. Parceria rejeitada. Protestos veementes do pretenso sócio.

   Discutimos a distorção da finalidade das nossas doações com a conferência episcopal e autoridades governamentais. Surpresa geral! Todos tinham conhecimento. Roupa usada, doada ou vendida, estava prejudicando a indústria têxtil nacional. Decidimos descontinuar o programa.

   Ao longo do tempo, observamos que as doações descaracterizavam a população. Gradativamente, a indumentária nacional trocava o tradicional pano africano por têxteis industrializados. Mulheres vestidas com camisetas com inscrições das mais bizarras possíveis, como “Sex Bomb”, “Voulez-vous coucher avec moi?” “Hot Mama”, “Hungry for Love”, “100 years of women on the top”, “Torpedoes’”. Anciões de tribo trajados com sobretudo feminino e golas de faux fur. Tristemente, o problema não parece ter solução. Subsídios à indústria algodoeira norte-americana; pobreza e corrupção; importações de roupa usada ou chinesa, de baixa qualidade, conspiram para o subdesenvolvimento continuado da indústria têxtil africana.

   Passados trinta anos, a comercialização de roupa usada alcançou um bilhão de dólares, anualmente. As Nações Unidas estimam que mais de 25% da roupa importada por países africanos, são usadas previamente. Tal como as doações se transformam em comércio, ainda proliferam outros Signores Vita por todo o continente. Mundo global de segunda mão...

Gana 1980

domingo, 16 de maio de 2010

A hora do futebol africano

   Boeing 737 da Ghana Airways voando em círculos, no espaço aéreo de Acra. População da cidade com olhos fixos nos céus, mãos acenando na direção da aeronave. Abraços, abraços, abraços. Barulho infernal das buzinas dos carros. Ônibus lotados a caminho do aeroporto. Tinham algo positivo para celebrar. Passageiros do vôo, as Estrelas Negras de Gana, a equipe campeã da Copa da África de 1982. Vitória nos pênaltis contra a Líbia, em Trípoli. Coronel Muamar Kadafi, cancelou uma doação solidária de produtos petroquímicos, que havia prometido ao povo de Gana... 

   Pessoas afiliadas com organizações internacionais e empresas estrangeiras haviam organizado um evento para arrecadar recursos para a compra de camisas e chuteiras para a equipe, meses antes do retorno vitorioso. Os pés que chutaram os pênaltis contra o arco do goleiro líbio...

   Pinturas, máscaras e objetos de arte dos países onde vivemos, são nossas lembranças da África. Máscara tribal originária dos Camarões, dentre as favoritas. Vendida por um jogador da seleção do grande Roger Milla, ora em Gana, disputando a Copa da África. Precisavam desesperadamente de dinheiro para arcar com as despesas de hospedagem.

   Passados os anos...

   Liderados e inspirados na magia de Roger Milla, a Seleção Camaronesa, foi um dos destaques da Copa do Mundo de 1990, fato inédito na história do futebol. Venceram a poderosa Argentina, campeã da Copa do Mundo de 1986. Milla comemorava gols de uma forma alegre, fã incondicional do “jogo bonito”do Brasil, lembrando seu ídolo, o jogador brasileiro Careca.

   A seleção nacional de Gana derrotou a equipe brasileira na final do Mundial da FIFA Sub-20 de 2009, no Egito. Vários membros da equipe são hoje titulares da seleção disputando a Copa do Mundo da África do Sul. Paulo Henrique Ganso, do Santos, é o único jogador da seleção brasileira que poderá ser convocado.

   É evidente a influência do futebol africano, nas gloriosas apresentações dos seus jogadores, nos campos da Europa. Clubes reclamam constantemente do êxodo dos seus melhores jogadores para participar da Copa da África. Os tempos de George Weah e Roger Milla, como as únicas estrelas, passaram. Hoje, cerca da metade dos jogadores convocados para seleções africanas, estão em equipes da primeira divisão do futebol europeu. Estrelas como Samuel Eto’o dos Camarões; Didier Dogba, Kolo e Yaya Touré, Salomon Kalou e Emmanuel Eboue da Costa do Marfim e Michael Essien de Gana, estarão presentes na África do Sul.

   Listadas entre as primeiras cinquenta do ranking da FIFA, estarão presentes cinco equipes, os Leões Indomáveis dos Camarões (19ª); as Super Águias da Nigéria (20ª); os Elefantes da Costa do Marfim (27ª); as Raposas do Deserto da Argélia (31ª) e as Estrelas Negras de Gana (32ª). A Bafana Bafana da África do Sul (90ª) é a única fora do grupo. Seleções da elite do futebol africano, como os Faraós do Egito e as Panteras do Gabão, na 11ª e 41ª posições, não conseguiram classificar-se.

   Recentemente, os Veados do Baixo Rio Ubangui da Republica Central Africana, a pior seleção do continente e a penúltima do mundo, chocou o público vencendo as Panteras do Gabão. Consagrando-se campeã de um torneio sub-regional. A lei da selva não se aplica ao futebol...

África do Sul 2010

domingo, 9 de maio de 2010

Quando no continente das zebras...

   O futebol africano chega à sua maturidade na Copa do Mundo 2010, África do Sul. Competindo com as melhores - ou pelos menos, as mais famosas seleções do globo. Raposas do Deserto da Argélia; os Leões Indomáveis dos Camarões; os Elefantes da Costa do Marfim; as Super Águias da Nigéria; as Estrelas Negras de Gana e os “boys” de Nelson Mandela, a Bafana Bafana da África do Sul, mundão africano... Respeitados, porém ausentes na lista dos favoritos para o pódio.

   Hora de prestar atenção ao futebol africano e à África, muitas histórias por aqui. As Balas de Cobre da Zâmbia feriram mortalmente a Squadra Azzurra de Tachone, Carnevale e Baggio por 4 a 0, nas Olimpíadas de Seul. Les Bleus ainda não esquecerem que foram estraçalhados pelos Leões do Senegal por 1 a 0, na Copa do Mundo de 2002. As Super Águias da Nigéria paparam a Canarinha por 4 a 3 e depois La Albiceleste por 3 a 1, para conquistar a Medalha de Ouro dos Jogos Olímpicos de Atenas. Partidas complicadas, resultados surpreendentes. Na África do Sul, duas dessas equipes africanas vão estar presentes. Felizmente, as Zebras da Botsuana não conseguiram classificar-se, teríamos muito mais zebras às soltas...

   Indicativo maior das tragédias e triunfos do futebol africano é a história das Balas de Cobre da Zâmbia...

   Terrível acidente aéreo matou dezoito jogadores da Seleção Nacional da Zâmbia, em 28 de abril de 1993. Viajavam rumo ao Senegal. Competiriam nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1994. Usavam um avião militar obsoleto, sem meios para financiar transporte comercial. Kalusha Bwalya, o herói da “zebra” contra a Itália, havia escapado. Astro da equipe e jogador do PSV da Holanda, companheiro de Romário, seu clube havia insistido que o jogador viajasse direto da Holanda para o Senegal, em vôo comercial. Sobreviveu para liderar a equipe, totalmente reformulada, perdendo a classificação para o Marrocos, durante as eliminatórias, por apenas um gol.

   Grupo de jovens atletas conversava animadamente no lobby do Hotel Taj de Lusaka. Homem mais velho se aproxima com passos pausados, como se fosse bater um pênalti. Lobby em silêncio. Fala em voz baixa, parecendo dar instruções ou compartindo algo importante. Clima de expectativa. Perguntamos à recepcionista, quem era o homem. Olhar de surpresa e incredulidade. “Não conhece o grande Geart Kalu”, o Kalusha Bwalya do PSV da Holanda e o herói do futebol nacional? Ficamos embaraçados. O ano era 2004, a Chipolopolo estava concentrada no hotel. Partida contra a Libéria, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2006.

   Encontramos com Geart Kalu, no mesmo dia. Conversamos sobre o futebol zambiano. Estava preocupado com a situação econômica do país e a repercussão no desempenho da seleção. Confesso admirador do futebol brasileiro e de Romário, seu ex-companheiro no PSV. Lembrou que Godfrey Kangwa, meio campista que havia morrido no desastre aéreo de 1993, foi apelidado de Dunga pelos torcedores, por seu espírito de liderança. Convidou-nos para assistir a partida.

   Chegamos ao estádio em meio de uma barulheira infernal e alegria contagiante. Parecia que o país inteiro estava presente para observar mais um milagre de Geart Kalu. Quase no final do segundo tempo, anunciaram a entrada do astro. Delírio no estádio. Subitamente, o placar mudou. Chipolopolo da Zâmbia venceu a Estrela Solitária da Libéria por 1 a 0, com um gol nos momentos finais da partida, na sua ultima partida como jogador. Aposentou-se como técnico da seleção em 2006. Presente na África do Sul, como um dos embaixadores da FIFA.

   Os grandes que se cuidem, ainda há muita zebra na planície... ‘

África do Sul 2010

domingo, 2 de maio de 2010

A cegueira dos que vêem...

   Pingos d’água batendo na janela. Cheiro de chuva na terra, misturado com a maresia oxidante. Tarde preguiçosa. Mundo cinzento na terra do sol. Clima de rêverie. Viajando ajudado pela natureza. O passado é hoje. Pensaremos no futuro depois, amanhã quando a luz voltar...

   Telefone tocando insistentemente. Contagem progressiva. Um, dois, três, quatro... Pronto, respondemos. Ouvimos uma voz metálica de telemarqueteira. Pronunciando prenome e sobrenomes, com a cadência e sotaque de nuveau nordestino. Soavam como originários de um lugar estranho, fora do sistema solar. Ouvimos sem interesse. Respondendo a todas as perguntas monossílabicamente. Termine logo, pensávamos, queremos voltar à viagem. Completou todas as formalidades legais. Chegamos finalmente ao assunto. O Instituto dos Cegos da Paraíba estava em perigo de fechar as portas, devido à falta de recursos financeiros. Política do governo enfatizava a inclusão de deficientes visuais na escola pública. Lei das conseqüências inesperadas. Fatos e números citados em rápida sucessão. Tim-tim por tim-tim. Resumo: a criação de Dona Adalgisa Cunha encontrava-se em perigo de extinção, sessenta e seis anos após seu nascimento. Mundo vidente. Cegos enxergavam a imensidão da perda. Concluída a conversa. Chamariam mais tarde para confirmar uma doação.

   Saramago bailava na nossa consciência: “É assim que os homens verdadeiramente são? É preciso cegarem-se todos para que enxerguemos a essência de cada um?”

   Voltamos à viagem. Tenente Lucena ensaiando o Orfeon do Instituto dos Cegos. Regendo. Olhos dos cantores perdidos no infinito. Corpos seguindo a música, com movimentos laterais. Metrônomos humanos. Sorriam.

   Mensagem eletrônica recebida do México, cinco anos atrás, mais lembranças. Linguagem sucinta e direta. Carta apressada, escrita por uma pessoa jovem. Falava de uma nova descoberta. Olhos que sentiam...

   Visitante estrangeiro a procura de um lugar para jantar, próximo ao hotel. Deparou-se com um restaurante, a entrada lembrava um teatro ou recepção. Tapete vermelho; área de acesso limitado para fotógrafos; pessoas com pranchetas nas mãos. Não se surpreenderia se a qualquer momento, alguém aparecesse com uma claquete, gritando, ação! Homem com câmera na mão ofereceu-se para fotografá-lo. Não, agradeceu. Entrou. Percebeu que a sala estava em quase total escuridão. Um grupo de fotógrafos cegos, o evento chamava-se “Ceia na Escuridão”, patrocinada por uma organização não-governamental, “Ojos que Sienten”. Conduzido a uma mesa cheia de estranhos, sendo servidos por garçons cegos. Os videntes tinham dificuldade em enxergar seus pratos, talheres...

   Encerrada a ceia. O fotógrafo tocou no corpo do visitante. Sentindo a textura da roupa, tomando medidas mentalmente, escolhendo a melhor posição para a foto. Flash, flash, flash. Fotos tiradas em rápida sucessão. Vertical e horizontal. Criando na mente a foto ou situação que queriam fotografar. Processos mentais formando imagens através dos outros sentidos. Não podiam ver as fotografias, porém tinham conhecimento completo do que captavam. Seguiu para uma mostra fotográfica e leilão. Videntes contemplando as criações de olhos que sentiam o mundo na escuridão. Sensibilizando a sociedade por meio de experiências artísticas e sensoriais...

   Visitamos virtualmente a organização “Ojos que Sienten”. Deparamos-nos com uma organização eficaz, enfocada e independente do poder público. Apoiada financeira e materialmente por programas de responsabilidade social empresarial, doações individuais e de organizações da sociedade civil mexicana. Associativismo de pessoas com deficiências visuais, combatendo estereótipos, preconceitos e promovendo inclusão social através de capacitação e “ceias na escuridão”. Fazendo o mundo enxergar...

   Pensamos em Saramago. “Nós estamos todos cegos. Cegos da razão. A razão não se comporta racionalmente, o que é uma forma de cegueira.”

   Talvez nossos olhos vejam um dia os olhos que sentem...

João Pessoa 2010