NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 20 de junho de 2010

Mascando sementes de girassol...

   A complexidade da nossa tarefa não nos escapa... Convite para proferir duas conferências na cidade de Cantão, na província de Guangdong, feito sem muita cerimônia ou detalhes. Empresários chineses estavam interessados em adquirir conhecimento e informações sobre os procedimentos licitatórios usados por organismos e bancos multilaterais. Em mira, bilhões de dólares gastos anualmente, na compra de bens e serviços para programas de reconstrução e desenvolvimento. Participação pequena da China, menos de 1,5% de todas as aquisições feitas pelo sistemas da Nações Unidas em 2008. Processo licitatório complexo, seguindo rígidos critérios de transparência, neutralidade, imparcialidade e isonomia.

   Contrato é um documento que confirma a existência de relações harmoniosas entre as partes, para os chineses. Somos amigos, agora podemos pedir favores mutuamente. Nada escrito no contrato é imutável. Qualquer relação é uma negociação contínua, inclusive as contratuais. Tudo pode e deve ser modificado, para ajustar-se ou ajustar as circunstâncias do momento.

  Empresários ocidentais mais experientes, consideram um contrato com parceiros chineses como uma carta de intenção, sempre atentos às possíveis mudanças das condições. Quando um problema ocorre, as partes sentam-se cara a cara e tentam reconciliar suas diferenças através de intermediários, os “guanxi”. Ninguém disseca o texto ou convoca um advogado. Advogados? Advogados causam mais problemas do que resolvem. Esta é a percepção geral na Ásia, principalmente na China...

   “Guanxi” é um sistema informal, político e organizacional na China, que incorpora uma complexa rede de relação social. Quando um empresário estrangeiro aproxima-se com uma solicitação ou oferta, a primeira coisa considerada é se existe um “guanxi” entre as partes. Caso não exista, pode solicitar a participação de um intermediário, de preferência uma pessoa de posição e bem conectada.

   Empresários e contrapartes nacionais devem desenvolver estratégias e implementar táticas que aumentem sua influência e oportunidades de sucessos. “Guanxi” é geralmente fortalecido pelo aumento deliberado de interações sociais entre as partes, incluindo visitas, presentes e convites para banquetes ou ocasiões especiais.

   Iniciado o “guanxi”, os indivíduos ou organizações devem continuar o relacionamento com uma ou mais pessoas em comum, formando uma rede interpessoal indispensável aos negócios. A reciprocidade e a confiança são duas normas fundamentais na cultura chinesa.

   Procedimentos e regras de licitação internacional são vistos como desincentivos a uma maior participação da China no mercado do sistema das Nações Unidas. Governo e empresariado demonstram interesse em modificar a maneira tradicional de obter negócios, abrindo as portas para licitações abertas e competitivas...

   Nosso convite, no entanto, foi feito por pessoas e organizações com as quais havíamos estabelecido e mantido “guanxi”, há vários anos. Jamais haveríamos chegado, sem ele, a uma atividade promovendo regras de licitação internacional, que negassem os seus princípios básicos.

   Na China, para ser bem sucedido o empresário estrangeiro deve aprender a ter paciência para compreender e aceitar as diferenças, além de estabelecer um “guanxi”. O que os chineses denominam “a arte de mascar sementes de girassol”...

China 2010

domingo, 13 de junho de 2010

A ONU e uma eleição que mudou a história...

   Primeiro de janeiro de 1994, um movimento guerrilheiro apareceu repentinamente no Estado de Chiapas. Ocupando prefeituras e edifícios públicos, milícias de homens e mulheres encapuzados demandando o fim da marginalização do povo indígena; anulação do tratado de livre comércio entre México, Estados Unidos e Canadá; combate à corrupção e reforma política. Luta armada sendo usada não para derrubar o sistema e sim para exigir a inclusão da sociedade civil.


   Consulta informal do Governo do México à ONU, em fevereiro. Mecanismo usado normalmente por países membros, quando abordado temas políticos de negociações intensas. Implícito na consulta, a possibilidade de assistência externa para observação eleitoral, que o governo havia resistido até então. O país vivia em estado permanente de reforma eleitoral, sem nunca implementá-la completamente.

   A eleição presidencial marcaria o principio do fim da hegemonia política do Partido Revolucionário Institucional (PRI). O partido oficial sustentando-se no poder, por um sistema de corrupção, sem golpes, preservando as eleições e o pluripartidarismo, nos últimos 65 anos. A chamada “Ditadura Perfeita”.

   A pressão política do movimento zapatista e a repercussão mundial motivaram o governo a iniciar, embora timidamente, mudanças, e ao mesmo tempo, assistência técnica externa em questões eleitorais. A situação do país e o fato da eleição ser constitucional, não justificavam a presença de uma missão observadora. Faltava confiança no governo, mas este não era um problema dentro da esfera da ONU. Embora não rejeitado, a resposta ao pedido foi cautelosa. As negociações foram aceleradas depois do assassinato do candidato do PRI a presidência, quase três meses após o inicio da rebelião em Chiapas. As partes concordaram em criar condições para usar serviços de assistência técnica eleitoral multilateral, capacitação e apoio logístico às organizações da sociedade civil engajadas na observação da eleição presidencial, a ser realizada em Agosto.

   Chegamos ao México no começo de Junho. Equipe multinacional, cinquenta experts prestando assistência a dezesseis organizações de observadores nacionais. A mais importante delas, a Alianza Cívica, formada por quase quinhentas organizações da sociedade civil representando fielmente o mosaico étnico-cultural do país. O empresariado e o movimento sindical também participavam. Sociedade civil mobilizada. Administrar um fundo especial de mais de três milhões de dólares, nossa missão. Apoio logístico à equipe de experts da ONU e os observadores nacionais. A tarefa mais crítica foi negociar instrumentos e procedimentos que assegurassem a neutralidade das organizações. Várias reuniões, algumas tensas e sumamente complicadas. Chegamos a um acordo sobre a divisão de trabalho entre a ONU e as organizações que velariam pela boa realização do pleito.

   Desenvolvemos algo novo durante o processo. A ONU se converteu em um ator importante na habilitação da sociedade civil para participar em uma observação eleitoral, sem tornar-se um juiz ou coadjuvante no processo. A possibilidade de fraude em uma eleição contenciosa e historicamente imperfeita, criou condições para uma abertura nas relações entre o governo, até então dominado pelo PRI, e as organizações da sociedade civil. Um raio de luz no conceito rígido de soberania nacional em questões relacionadas com a observação eleitoral e a participação de organizações internacionais.

   O modelo desenvolvido no México, não recriou ou modificou o sistema. Os grandes desafios eram aumentar a confiabilidade e a participação do povo na observação eleitoral. Meta alcançada. Estabelecendo assim uma ponte entre o ceticismo cidadão e a esperança de uma sociedade mais justa e aberta...

Mexico 1994

domingo, 6 de junho de 2010

Malabarismo nas esquinas da vida...

   Esquina movimentada, duas crianças, uma de pé sobre o companheiro. Rápida apresentação de malabarismo com pedras, desafiando a gravidade. Concluíram tão rápido como começaram. Corriam em direção aos veículos. Olhos tristes, suplicantes. Mão em direção à boca aberta, gesto universal de fome. Resposta tépida dos motoristas, polegar para baixo. Moviam-se para o veículo seguinte. Semáforo verde. Palco movendo-se com os atores coadjuvantes. Meninos de rua, veteranos do teatro da pobreza...

   Vultos na arcada do prédio, movimentos preguiçosos na confidencialidade da noite. Pausados na esquina, dois policiais ouviam com paciência a um homem visivelmente agitado. Repetindo os fatos, em voz alta, contando nos dedos. “Sou honesto, trabalho como ambulante vendendo DVDs e CDs genéricos”. Próximo ao Mc Donald’s, urinava em um beco. Adolescentes armados levaram tudo. Sessenta “peda” de crack para a miséria deles, vociferou. Instruído como chegar à delegacia, formalizar o boletim de ocorrência. Missão cumprida. Caminharam em direção à praia. Cheiro de maresia, longe da urina do homem e dos vultos. Garrafas de plástico e pedaços de madeira nas mãos. Tomaram posição no meio da interseção, dois meninos. Show time!

   Todos os vultos desapareceram repentinamente. O general inverno havia vencido mais uma batalha, até o próximo verão...

   Jornais e telejornais anunciando aumento da criminalidade. Ladainha diária. Sempre ao meio dia, longe do horário das novelas. Poucos heróis e muitos bandidos. Confissões, momentos de fama, ao vivo e a cores. Mortes causadas por arma de fogo. Atiradores e motos pretas, raramente identificados ou capturados. Pessoas e criminosos genéricos. Todos sofriam, ninguém notava. Vultos nas esquinas e calçadas, distantes, vistos por trás das lentes olho-de-peixe da indiferença humana.

   Poucos malabaristas voltaram. Substituídos pela adolescência, cansaço ou salvos pelas mãos milagrosas de uma avó persistente. Outros ficaram...

   Abandonaram as três pedras. Havíamos descoberto as “peda”. Repaginados pela miséria humana como o novo bicho-papão, o chamado “superpredador”. Todos prestavam atenção a eles, ao olho vivo. Os “eles” começaram a ter nomes ou cognomes. O anonimato das esquinas e arcadas, coisa do passado. Adolescentes subnutridos, às vezes com arma de fogo, muito ódio e rancor no coração. Alguns alcançam o status de celebridade. Quantos pobres materialmente e de baixa auto-estima não gostariam de aparecer na mídia como “o terror do Bessa” ou do “Alto do Mateus?” Cheios de “personalidade e atitude”, termos associados com futebolistas milionários e celebridades da musica pop. Quantos?

   O fenômeno do superpredator e criminalidade associado com o crack é universal. Apareceu subitamente nas áreas deprimidas das grandes cidades americanas, em 1980. Tão súbito como apareceu, a criminalidade atribuída a esta droga, caiu vertiginosamente no final do milênio. O mesmo clima de ansiedade e insegurança prevalece hoje nas cidades brasileiras.

   Todos os expertos estavam certos e errados, ao mesmo tempo, sobre o que ocorria na América. Teorias abundam desde então, sem conclusão definitiva. Fatores como a baixa margem de lucro para traficantes; sentenças severas; imagem negativa dos usuários da droga, chamados “crackheads”; aumentos em oportunidades de primeiro emprego; contribuíram para pôr a droga praticamente fora do mercado. Segundo a grande maioria dos experts, a razão mais importante, foi o impacto da redução da taxa de natalidade na população adolescente excluída. Vitimas e beneficiários da criminalidade associada à droga.

   Crack é abrangente, alcança a todos. Soluções duradoras e apolíticas devem surgir, para a inclusão de adolescentes na vertente econômica. Retirando-os do sentimento de alienação e exclusão que os condenou ao túmulo do esquecimento, ao cárcere da miséria humana. Vítimas da nossa negligência maléfica, os filhos dos malabaristas da esquina estarão, nos próximos verões, nas mesmas esquinas?

João Pessoa 2010