NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 25 de julho de 2010

O cabaret na colina de Montmartre...

   Plataforma do funicular, plano inclinado, para a Basílica de Sacre Coeur. Chegamos, mal notamos que havíamos partido. Menos de um minuto, Montmartre aos nossos pés... Contemplamos Paris, o rio Sena. Subimos os degraus da casa de Deus, sem grande pressa. Entramos, nossas narinas seguindo o aroma reconfortante do incenso. Completamos o pit-stop espiritual, saímos rapidamente. Os bárbaros estavam às portas do templo, tirando auto-retratos. Caminhamos rapidamente rumo ao noroeste, parte posterior, lado esquerdo da torre. Ameaçante fim de tarde cinzento. Mulheres não passavam ou faziam sinais. Ninguém se abraçava nas calçadas... Tudo banal, sob o céu de Paris. Vendedores de souvenires por todos os lados. Buscávamos algo mais profano, menos digital, um cabaret chamado Au Lapin Agile.

   Chegamos a Place du Tertre, meio do caminho entre a basílica e o cabaret. Começou a chover. Artistas acompanhando turistas, terminado perfis ou caricaturas. Trabalhando com mais rapidez e destreza. Pastéis secos e lápis de cor sobre cartolina preta. Bem arrière-gard, avant-gard era coisa do passado. Rosas vermelhas embrulhadas individualmente em celofane. Removidas sem cerimônia, das mãos das mulheres, após a mínima hesitação do cavalheiro. Encontramos refugio na calçada de um café, em frente da praça. Protegidos, comemos mais baguete do que devíamos; bebemos mais vinho do que podíamos. Prontos para a grande noitada de despedida de Paris.

   Descemos a ladeira da rue des Saules. Chegamos a uma encruzilhada, lado direito, nos deparamos com a famosa vinha de Montmartre. O Au Lapin Agile guardava sentinela, na outra esquina. Pouco movimento, o lugar parecia fechado, talvez discreto. Luz na porta nos convidava para uma viagem no túnel do tempo até a Belle Époque de Toulouse-Lautrec. Toc, toc. Yves Mathieu, o proprietário, nos recebeu na ante-sala. Ouvíamos uma mulher cantando uma bela canção. Conversamos um pouco. Perguntamos por Maria, sua esposa, como sempre, estava na Espanha. Aplausos... Convidou-nos a entrar. Subimos os mesmos degraus que Renoir, Proust, Picasso, Modigliani, Apollinaire e Utrillo.

   Sentamos em bancos de madeira, pouco confortáveis. Décadas de nomes e iniciais esculpidas na madeira. Canções, música, humor e poesia. Pianista, acordeonista, doublés de comediantes e cantores. Casa cheia.

   Sala única, parcamente iluminada. Piano encostado na parede, próximo a porta de entrada. Artistas sentados a uma mesa, comportando-se como clientes, amigos da casa. Ninguém tinha pressa. Reprodução do quadro de Picasso “Au Lapin Agile”, pintado a óleo em 1905, na parede. Mesas com bancos simples de madeira espalhados pela sala. Despretensiosamente a história decorava o ambiente. Crucifixo na parede.

   Yves comandando a trupe e a audiencia com gestos e movimentos exagerados – teatrais e gauleses, ao mesmo tempo. Le grand Maurice Chevalier, oh, u-lá-lá... Repertório completo, Piaf misturada com música folclórica, canções de cabaret do século 19. Audiência dividida em grupos, repetindo as palavras “oui, oui, oui – non, non, non”, do refrão da canção popular “Les Chevaliers de la Table Ronde”. Cantamos com o entusiasmo de alguém que havia recuperado a memória. Esquecida sobre a mesa, nossa pequena taça com conhaque de cereja.

   Ambiente alegre. Casal sentado contra a parede, aparte, braços cruzados. Cantando mecanicamente “oui, oui”, sem emoção, olhando em direções opostas. Tipo lambrosiano, taciturno. Ela ainda mostrava migalhas de sonhos nos olhos cansados. Sorriso tímido, no fim da canção. Voltaram aos seus mundos. Próxima canção... Frederic, o filho de Yves, encerrou o show cantando “Dancez sur moi”, escrita por Nougaro, um dos seus antecessores no cabaret.

   Subimos a ladeira em direção a Place de Tertre. Tocando “Samba de Verão”, enquanto chovia, dois guitarristas no barzinho da esquina. Estávamos acordados, Montmartre dormia. A vida é um cabaret, Au Lapin Agile muito mais que uma vida...

Paris 2010

domingo, 18 de julho de 2010

A música silenciou na curva da estrada...

   Previsão de tempestade no fim da tarde, anunciava a meteorologista da tribo CNN. Frio intenso nas ruas da cidade. Calçadas invadidas por um exército armado com sacolas de compras e dívidas crescentes. Quarteto de metais tocando música natalina. “We wish you a Merry Christmas and a Happy New York”. Ambulantes vendendo parafernália nova-iorquina, “I♥NY”, made in China. Pandemônio. Escapamos em direção ao nosso destino, nosso refúgio. Times Square, o umbigo da cidade...

   Virgin Megastore, a maior loja do Leste americano. Mostruário principal, secção de musica clássica, anunciando o lançamento da semana: “Quinteto Brassil plays Brazil”. Composições do músico pernambucano, Maestro Duda, tocadas por professores da UFPB, a grande surpresa. Ouvimos várias músicas na cabine de som. Nordestino vivendo seu Nordeste particular. Imensurável momento de paz no meio da nevasca do lado de fora. Compramos doze exemplares para presentear amigos brasileiros. O Brassil não estava disponível no Brasil...

   Cabo Branco, noite de verão, quatro anos depois. Músicos, amigos, artistas. Confraternização descontraída, comemorando o retorno do Maestro Sivuca à Paraíba. Uma gargalhada robusta, ressonando até o mar, anunciando sua chegada, o trombone de Nova Iorque – Radegundes Feitosa. Olhos semicerrados, instrumento nas mãos. Embocadura descontraída, corpo curvado, mãos prontas, prontas para libertar as linhas maravilhosas da clave de fá. Naquela noite, começou nossa amizade. Ano dos seus novos “Desafios e Challenges”. Longe do Brasil, no frio de Helsinque.

   Estamos em Nova Iorque, a gargalhada se fez anunciar. Presentes no 33º Festival Internacional do Trombone, na cidade de Ithaca. Trazendo, mais uma vez, um Pouquinho do Brasil para o mundo...

   Localizamos um pequeno hotel na Alta Manhattan Oeste. Quartos cheios de metal e talento. Jantar alegre puxado a tagliatelle Alfredo, jazz de JJ Johnson e o barroco do Canadian Brass e muito vinho. Uma idéia, talvez um pedido. Que tal uma “canja” na cidade? Aceitamos o desafio. Partimos em direção ao “Smoke”, renomado clube de jazz na Broadway. O gerente ouviu atentamente a música. “Ok, OK. Tragam os rapazes com seus instrumentos”. Oito músicos “brassileiros” invadindo o clube com a Aquarela do Brasil. Mesmerizados com a apresentação musical, o público e os músicos da casa. “One more time”, mais uma vez, “one more time”. Outro clube queria ouvi-los, Cleopatra’s Needle, também na Broadway. Jazz... “one more time”...

   Outros encontros. Os músicos que conquistaram Nova Iorque participando da gravação do primeiro DVD do Maestro Sivuca. Noite mágica, desta vez na casa de todos nós, o Teatro Santa Rosa. Passados anos, mais uma vez o Maestro Sivuca. Lançamento de um livro de partituras clássicas, homenagem póstuma. Trombonista, professor, maestro, orador relutante, paraibano, Radegundes. Música maestro...

   Nosso romance com o trombone começou na infância. Sentando no chão, ouvindo o ensaio de uma orquestra de frevo. Regida por um maestro a quem chamávamos pai; Tenente Lucena, para o resto do mundo. Trombonista da Banda de Música do 15º R.I. Ele e Radegundes tinham muitas coisas em comum: meninos de filarmônicas; amor pelas orquestras de frevo; músicos por profissão, professores por vocação. O operário e o gênio do trombone acreditavam na força da música, a força que os transportou de São João do Sabugi e Itaporanga, para o mundo.

   Três trombonistas, Radegundis Feitosa, Roberto Ângelo Sabino e Adenilton Soares França, acompanhados do cantor popular Luís Benedito. Povo esperando pela dádiva dos sons dos divinos metais, em Itaporanga. A genialidade das embocaduras, sopro mágico libertando fitas multicoloridas, pombinhas da cor da paz e muitas emoções. Partiram para a eternidade juntos com a música. Que os anjos deixem a banda passar... Porque a música silenciou na curva da estrada. Aleluia!

João Pessoa 2010

domingo, 11 de julho de 2010

O Maestro e Margarida...

   Casa de espetáculos Winter Palace, um lugar de São Francisco. Totalmente lotada. Ocupada por um exército multicolorido – nas peles e nas roupas. Flores abafando o clamor da ira dos excluídos. Hippies comungando inconfortávelmente com a militância do poder negro. Momento de meditação transcendental, quebrado por um anunciante. “Ladies and gentlemen, please welcome the Jimi Hendrix Experience”. Acordes de uma guitarra crua, psicodélica. Mistura de ácido e soul. Criança da macumba enfeitiçando a massa. Névoa púrpura, cheirando a maconha e suor, ofuscando o arco-íris. Ano de 1968, por dentro e por fora...

   Acompanhávamos um grupo de jovens, longe do palco. Ilha de caqui e verde-oliva. Negros, mexicano-americanos e asiáticos, dançando animadamente. Ouvidos atentos aos solos de blues no meio do pandemônio eletrônico. Não importava a distância ou o local inadequado na audiência. Sentiam-se privilegiados, estavam presentes. Presentes graças a uma generosa doação de ingressos por uma cadeia de televisão norte-americana. Prêmio pela participação em um documentário sobre a saúde mental do adolescente. Divirtam-se!

   Mulher jovem, mistura de índio navajo e mexicano. Dedilhando uma guitarra acústica, sentada no chão. Parte do grupo, fora do grupo. Metade do concerto. Todos dançando ao seu redor, como se fosse o guia espiritual de um “pow-wow”, ritual dos índios da sua origem. Chamava-se Margarida. Repetindo uma canção que compôs durante sua internação em uma unidade psiquiátrica. Triste, atônica, monótona. “Acorde-me quando eu morrer”, assim se intitulava. Concerto atingindo os decibéis máximos. Solos de blues, rock, r&b. Pouco de algo para todos, menos para ela. Protegida do caos ao seu redor pela esquizofrenia que a torturava. Imersa no seu inferno particular...

   Produtora de documentários. Urbana, eficiente, charmosa. Tínhamos algo que havia atraído o interesse de uma cadeia de televisão. Jovens previamente envolvidos com drogas e atividade anti-sociais, participando de obras sociais, programas de prevenção e reabilitação. Agentes sociais da comunidade trabalhando com profissionais de saúde mental, orientação vocacional e capacitação. Transformado as vidas de ex-pacientes psiquiátricos, egressados de programas de tratamento de adicção a drogas, dependência de substâncias ou em risco de envolver-se em atividades criminosas. Motivadores de outros jovens, compartindo experiências, propondo alternativas criativas de estilos de vida e desenvolvimento pessoal.

   Completamos a filmagem. Produção precisava de um tema para a trilha sonora. Conversamos com Margarida sobre a possibilidade de usar sua canção. Não gostou da idéia. Maestro ouvindo a pequena música, embevecido. Tamborilando na superfície da mesa, como se fosse os baixos de uma sanfona imaginária. Pediu a guitarra, começou a improvisar um arranjo clássico, barroco. Compositora ouvindo como se não estivesse ouvindo. Chorando baixinho, soluçando. Suspiro profundo, sorriso tímido, “nunca pensei que minha música fosse bonita”. Outra vez...

   Ano seguinte em Nova Iorque. Produtor procurando freneticamente pele trilha sonora do documentário. Programado para exibição em cadeia de televisão da NBC, em poucos dias, organizar músicos, ensaios e gravação, queria uma solução prática. Maestro chegando à cidade, com um arranjo clássico para cinco instrumentos. Gravaria cada um deles separadamente. Tocaria todos, não seria necessário chamar outros músicos... Mixagem e roteiro final completados, um dia depois. Os demônios de Margarida haviam se transformado em música divina, divina música do Maestro Sivuca...

   Jimi Hendrix morreu em 1970, com ele o último grande solista da guitarra. Margarida foi internada em um hospital psiquiátrico, pedindo para ser acordada quando estivesse morta. Nunca mais se levantou – como se pertencesse à noite de Maupassant... Perdemos Hendrix, Margarida e o Maestro Sivuca. Como profetizava o refrão melancólico da esquizofrênica canção transformada em sinfonia, ficarão aqui para sempre: “will be here forever”, Hendrix, Margarida e o Maestro Sivuca...

São Francisco 1968

domingo, 4 de julho de 2010

Do you speak Chinglish?

   Fomos informados de que seriamos atendidos por Phillips, um agente de viagem fluente em Inglês, antes de partirmos para a China. Descobrimos logo que seria impossível comunicar-se. O funcionário simplesmente repetia saudações em Inglês, nome da companhia aérea e numero dos nossos vôos, em ritmo stacatto. Pedimos mais detalhes, repetidamente. Respostas incompreensíveis. Meia hora depois... Entendeu que queríamos o código da reserva. Não conseguindo soletrar as letras e os números, nos enviou as informações por e-mail. Tínhamos um ticket pré-pago, nosso vôo partia em menos de duas horas.

   Chegamos. Estrada do aeroporto de Guangzhou, Sul da China. Viagem de uma hora até o centro da cidade. Árvores e jardins bem cuidados. Poluição visual maculando a beleza do verde. Outdoors em ambos os lados da estrada. Caracteres chineses com tradução em Inglês, pintados quase sempre em vermelho e dourado, as cores de boa sorte. Negócios, negócios, negócios...

   Grande outdoor nos chamou à atenção. Caracteres com tradução em Inglês, sem desenhos ou gráficos: “Hospital for Male Disorders” – Desordens masculinas? Gestos tímidos, porém descritivos, nossa acompanhante não poupou esforços para explicar as especialidades disponíveis no hospital. Deduzimos enfim três possibilidades: um serviço de urologia, uma clinica para disfunção erétil ou talvez algo mais genérico, masculino. Tradução confusa, indicativa das dificuldades que os chineses têm em comunicar-se com estrangeiros.

   Segundo o governo, mais de 250 milhões de chineses estudam Inglês, ou seja, um em cada cinco dedica-se ao aprendizado. Autoridades e organizações locais patrocinam cursos intensivos para seus funcionários e colaboradores, que são pressionados constantemente a comunicarem-se melhor com visitantes. Resultados nem sempre satisfatórios. Decoram frases que são repetidas, sem possibilidade de diálogo, fora do vocabulário que aprenderam. “Welcome to take taxi! Do you like me? Do you like shopping? Look happy! Do you like first time in China? You are my best person! Long time no see. You like warm dog?” Bem-vindos ao Chinglish...

   Anúncios e cardápios bilíngües são quase sempre incompreensíveis, às vezes, com resultados hilários. Traduções literais feitas baseadas nos caracteres chineses ou por softwares especiais. Pratos como: “husband-and-wife lung slices - fatia de pulmão de marido e mulher”; chicken without sexual life - frango sem vida sexual ou three fresh things from the ground - três coisas frescas do chão” são listados nos cardápios entre uma enorme variedade de opções gastronômicas. O visitante não tem outra opção a não ser comer prá ver...

   Placas em lugares públicos contribuem enormemente para a confusão criada pelo Chinglish e sua grande popularidade com comediantes estrangeiros e aficionados da língua. Um hospital em Peking chamava-se “Hospital for Anus and Intestine Desease”, ou seja, Hospital para Anus e Doença do Intestino. Renomeado recentemente como “Dongda Proctology Hospital – Hospital de Proctologia de Dongda”. Entre as mais notórias, as afixadas em sanitários públicos com dizeres como “teliot” ou “urine district” – distrito da urina. Mais de 10.000 já foram substituídas pelo governo, em Xangai, um esforço louvável, mas longe de mudar as frases ou palavras institucionalizadas pelo Chinglish.

   Madrugada do dia 20 de Junho, Brasil versus Costa do Marfim. Tentávamos inutilmente ligar a televisão, mas o controle remoto não trocava de canal. Chamamos a camareira para resolver o problema. Descobrimos logo que não falava Inglês. Repetimos varias vezes a palavra “football”, sem lograr nenhuma reposta. Só sorrisos. Desesperados, chutamos uma pequena almofada enquanto repetíamos a palavra. Apanhou a almofada e dirigiu-se à porta, com uma expressão de missão cumprida na face. Após múltiplas tentativas e erros, conseguimos nosso intento. Infelizmente, o Brasil já havia feito o primeiro gol. A partida seguia narrada entusiasticamente em Chinês. Fala Galvão! Please...

China 2010