NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

domingo, 29 de agosto de 2010

Trincheiras da guerra contra a pobreza

   Os Estados Unidos pareciam uma nação à borda do abismo. Aparentes benefícios da prosperidade pós-guerra, questionados por todos. O consenso sobre a capacidade do sistema para resolver crises ou enfrentar qualquer desafio começava a rasgar-se na emenda. O país enfrentava duas guerras: uma contra a pobreza no território americano; a outra, uma guerra não declarada contra o Vietnã do Norte e o Vietcong, seus aliados no Sul do país...

   Os Beatles invadiram a América, superando o “crooner” Andy Williams, como os artistas favoritos das estações de radio. Os “sessenta” estavam prestes a acontecer, o ano era 1964...

   Ouvíamos atenciosamente o discurso de lançamento do programa de ação comunitária (PAC). Trabalhadores recrutados das comunidades ou através da Bolsa de Empregos do Distrito da Missão, em São Francisco. Apresentador articula a complexidade e as expectativas do programa. Empoderando comunidades pobres, para criar um contraponto nas repartições públicas prestadoras de serviços básicos. Assegurando a máxima participação possível dos beneficiários em todos os aspectos da guerra contra a pobreza. Tínhamos uma pergunta, mas nunca a fizemos... O governo está organizando os pobres contra suas próprias instituições?...

   Nosso time refletia o mosaico étnico do bairro. Éramos três: Jesse, ex-presidiário, com uma história de dependência em heroína; Eduardo, estudante de direito e ativista mexicano-americano; escolheram-nos como líder, em virtude do nosso sucesso na organização dos estivadores desempregados. Prioridades: negociar uma trégua entre as gangues e mobilizar a juventude para participar nas eleições do conselho de ação comunitária. Tarefas difíceis, devido à alienação, exclusão e a violência que permeava entre jovens envolvidos com o uso ou a venda de drogas.

   Olhares desconfiados, gestos intimidantes, palavras ininteligíveis saindo de bocas anestesiadas pela droga, em desobediência aos comandos dos cérebros cansados, na primeira semana. Ninguém acreditava no governo, muito menos em entidades ou pessoas conhecidas genericamente como “the man”. Compareceram à primeira reunião, três jovens: Ed, Tom e Juanita. Havíamos convocado através de panfletos e anúncios. Mil convites, três respostas. Um começo...

   Jesse pôs suas credenciais na mesa: seis anos por assalto na prisão de Sing Sing; doze anos de dependência em heroína; recente status de cristão do nascido de novo. Tínhamos que decidir o nome do grupo. Os três adolescentes queriam que fosse algo relevante, o nome errado causaria problemas. O titulo de um livro de Camus, nos deu a solução: O Rebelde... Os Rebeldes da Missão. Tínhamos que mostrar seriedade nas nossas ações, demonstrando os benefícios da participação e empoderamento, mobilizando recursos, realizando ações concretas.

   Quando o grupo já começava a mostrar sinais de impaciência, mais um incidente de brutalidade policial, nesta ocasião agredindo alguns dos “rebeldes”. Abuso policial, depois do desemprego, era a segunda maior queixa. Organizamos uma demonstração pacífica na delegacia. Contatos na imprensa, devidamente notificados. Estabelecemos diálogo com o comandante. Os adolescentes recém-empoderados, demandaram a indicação de um oficial para atender aos problemas da comunidade e procurar soluções. Designaram um policial experiente, conhecido na comunidade como Dave. A idéia começou a funcionar...

   A revista Time publicou uma matéria sobre os Rebeldes da Missão. O governo aprovou o financiamento do nosso projeto, Operação Motivação. Movemos das mãos da policia para o desemprego. Remuneraríamos adolescentes que haviam deixado a escola, para servir como motivadores daqueles que estavam em risco de abandonar os estudos. Seria responsabilidade do programa, localizar e tentar trazê-los de volta à escola, substituindo as patrulhas policiais nos parques à caça de adolescentes. Os “motivadores” participariam de cursos preparatórios para novas carreiras em serviços sociais. Muitos adolescentes voltaram à escola, como estudantes ou professores. O ciclo da pobreza foi quebrado. As guerras continuaram por muitos anos...

Era um começo.

São Francisco, 1966

domingo, 22 de agosto de 2010

Contraponto no ponto do balcão...

“Você tem que me dizer por quê estão aqui”, a mulher com olhos verdes penetrantes insistiu. Resposta tímida, quase imperceptível: “Porque precisamos de emprego”. Outra pergunta: “Por que trabalhador rural? Sem esperar a resposta: “Você nunca trabalhou no campo, tem mãos de pianista”, conjeturou. Pingue-pongue verbal, a mulher da Bolsa de Empregos da Califórnia versus o jovem emigrante. Levantou-se abruptamente, como se dizendo: por hoje é só. Empate estratégico, sem chegar ao “tie-break”, a partida continuaria por mais de trinta anos.

Retornou ao escritório de Dona Miriam, relutantemente, no dia seguinte. O primeiro encontro não havia deixado uma boa impressão.  A mulher parecia mais acolhedora, talvez menos agressiva. Olhos bem cuidados, esmeraldas polidas. Conversaram sobre o desemprego dos emigrantes.  Concordaram. Fariam um levantamento ocupacional dos desempregados que esperavam na antessala. Designado como o interlocutor entre eles e o serviço.
 
Resultados apresentados, tarefa concluída. Centro-americanos, a maioria, uns tantos mexicanos e dois sul-americanos. Pablo era brasileiro. Procuravam oportunidades econômicas ou escapavam da guerra ou da opressão nos seus respectivos países. Sentados em uma sala de reuniões, aguardavam à Dona Miriam. Entrou apressadamente, uma pilha de documentos nas mãos. Falou um pouco sobre sua história de militância em movimentos político-sociais, de tendência esquerdista e na oposição à guerra no Vietnã. Uma das fundadoras do Sindicato de Estivadores de São Francisco; participou ativamente no grupo de apoio à Brigada Abraham Lincoln, na guerra civil espanhola. Enfim, convenceu seus velhos camaradas no sindicato a aceitar os membros do grupo como trabalhadores temporários.

Garoa espessa, temperatura baixa, meses depois. Labaredas e faíscas saindo de um barril, círculo humano ao redor da calefação improvisada. Esfregando as mãos, falando Espanhol fogo-rápido, protegendo-se do frio, emigrantes latino-americanos. Homens desempregados há três semanas, trabalhadores temporários, “classe C”, nas docas de São Francisco. Descarregavam bananas da América Central. Substituíam estivadores sindicalizados, que temiam a possibilidade de cobras ou inseticidas, nocivos à saúde, nas cargas. Organizaram-se para proteger seus direitos. A reação do sindicato foi contundente, demitidos sumariamente. Olhavam impacientemente em direção a um pequeno prédio, no lado oposto da rua. Esperavam um companheiro que chamavam de Pablo, “el húngaro”. Esquina das ruas 24 e Mission, no coração do bairro latino de São Francisco.

Pablo atravessou a rua, pediu silencio. Tinha algo para comunicar sobre a reunião. Deviam participar em workshops de auto-ajuda para a procura de emprego, insistia Dona Miriam Johnson, a mulher da Bolsa de Empregos. Homens impacientes. Sentiam-se em pior situação do que no primeiro dia que buscavam trabalho.

Reunião na mesma esquina, dia seguinte. Cooperariam com os workshops, cruzaram a rua... Dona Miriam explicou que os desempregados são as pessoas mais bem informadas sobre o mercado de trabalho, o ponto de partida. Argumentou que a Bolsa de Empregos era estática, participante passiva no mercado de trabalho. Oferecendo empregos quando um empregador fazia uma solicitação. Os trabalhadores se transformariam em fontes de informação sobre o mercado; identificando os empregos disponíveis, baseada na experiência de busca de cada um e nos impedimentos ao emprego para os emigrantes. Derrubando procedimentos burocráticos e transformando-os em uma ferramenta, revolucionaram a Bolsa de Empregos.

A experiência dos “estivadores de Miriam”, como os chamava, fundamentou seu primeiro livro: “Counterpoint: The Changing Employment Service”. Counter também significa balcão, em Inglês. O titulo do livro é uma alusão ao balcão que antes separava os desempregados e o serviço.

Ultrapassamos o balcão, continuaríamos a luta pelo contraponto...


São Francisco 1966

domingo, 15 de agosto de 2010

Raposas, santos e dervixes rodopiantes...


Companheiros de um passeio de balão sobre Goreme, na Capadócia, éramos vinte e quatro pessoas. Os ventos da manhã cooperavam, estávamos no ar em poucos minutos. Deslizamos suavemente acima das famosas “chaminés de fadas”. Balões coloridos quebrando o azul do céu no amanhecer. Indescritível sensação de leveza. Comungávamos silenciosamente com o universo, nosso olhar acompanhando uma raposinha correndo freneticamente, tentando escapar da sombra do balão...

Terra firme. Uma senhora argentina estava inquieta. Sem desconforto ou prefácio perguntou a Yako Misiel: “Quando vamos visitar uma família troglodita?” O guia respondeu, sem maiores explicações, que achava que não seria possível.

Entramos nos lugares onde os cristãos foram forçados a esconder-se dos romanos até o ano 313 d.C. Em cavernas antes habitadas por trogloditas, construíam suas comunidades, formando pequenas igrejas em suas próprias casas. Ecclesia Domestica, a casa de Deus, a fé movendo-se dentro das montanhas. Pausadamente, costas curvadas e respiração quase chegando ao limiar aeróbio, carregávamos o enorme peso da história diante de nós. Luz e paz nas cavernas, raposinhas fugindo da escuridão...

Partimos na manhã seguinte em direção a Konya, a Icônio de Paulo de Tarso. Durante sua primeira visita a cidade, o apóstolo converteu uma multidão de judeus e gregos, após pregar em uma sinagoga. Outros judeus e gentios, não convertidos, se amotinaram para apedrejá-lo. Fugiu da cidade, deixando o cristianismo estabelecido.

Viajamos doze séculos, em menos de um dia. Estávamos às portas do santuário da Ordem Sufi Mavlevi, os dervixes rodopiantes seguidores de Mevlana Jelaleddin Rumi, o grande pensador e filósofo sábio místico. Discípulos e seguidores promovem tolerância religiosa, aceitando todas as religiões como verdadeiras. Buscam um modo de vida com realização da unidade e da presença de Deus por meio do amor e do conhecimento baseado na experiência. Ao visitarmos o mausoléu do grande mestre, refletimos sobre o misticismo e o significado da cerimônia sagrada de adoração e meditação em movimento, a dança que os dervixes rodopiantes chamam de Sema. Nossa próxima parada...

Chegamos ao entardecer no caravançarai de Sarihan, o local onde se realizava a Sema dos dervixes de Konya. Construída no século 12, estrutura imponente, próximo à cidade de Avanos. Servia originalmente como uma hospedaria para caravanas viajando na antiga Rota da Seda. Abrigava os viajantes e seus animais indiscriminadamente. Verdadeiro oásis de paz e livre comércio, no meio de uma região onde hostilidades entre os povos era a moeda comum. Um lugar perfeito para a cerimônia da Sema que estávamos prestes a presenciar...

Entraram sutilmente, os músicos que acompanhavam a cerimônia. Movendo-se com gestos lentos e silenciosos, dez dervixes começaram a rodopiar, mal havíamos notado suas presenças. Som estridente de uma flauta de bambu, seguido por música densa e cadenciada. Dançarinos giravam sobre um pé, ao redor do coração, da direita para a esquerda. Erguida em direção ao céu, a mão direita pronta pra receber as graças de Deus; rosto inclinado para a mão esquerda virada em direção a terra, dando o que receberam aos pobres. Estavam em transe, haviam alcançada a perfeição que tanto procuravam...

Sentíamos como se estivéssemos hipnotizados, girando mentalmente ao redor do nosso próprio corpo, procurando algo na imensidão da noite estrelada da Capadócia. Atravessamos o pátio do caravançarai em direção à área iluminada, em frente ao pórtico de entrada. Mirando da escuridão, dois pequenos pontos luminosos, raposinha, dervixes e todos nós procurávamos luz...


Turquia 2007

 

domingo, 8 de agosto de 2010

Viajando com Amanda na estrada de Malelane

   Clima tenso na sala de jantar. Discussão entre nossos anfitriões sobre a metáfora do queijo, no livro “Quem mexeu no meu queijo”, havia crescido até um ferrenho combate conjugal. Sentados próximos à mesa de jantar, o campo de batalha, éramos protagonistas silenciosos. O objeto da discórdia, nosso presente à esposa; estudante de relações humanas, fã despudorada de novelas de Sidney Sheldon e livros de auto-ajuda. O relacionamento estava agonizando há meses, desconstruído minuto a minuto. O foco da discórdia, se a discussão pudesse ser enfocada, era a impossibilidade de encontrar a saída do labirinto, perdidos no seu próprio labirinto. Decidimos dormir, frustrados...

   Vozes na sala, três horas da manhã. Distante, conversa menos acirrada. Cautelosamente, esperamos por um momento. Saímos em direção à cozinha. Fisicamente exaustos e calados, sentados no mesmo sofá. Sorriram cordeiramente em nossa direção, talvez aliviados com a nossa presença. Aproveitamos a trégua. Propusemos: que tal um safári no Parque Nacional de Kruger? Partiríamos na madrugada do dia seguinte. Concordaram hesitantes. Pequena trégua, bateram em retirada para diferentes aposentos. Paz, finalmente...

   Céu claro. Viajaríamos em uma picape cabine dupla. Sentaram-se no banco dianteiro, êle dirigindo. Ficamos inconfortávelmente instalados entre bagagens e uma geladeira portátil. Tínhamos mais de 240 quilômetros de estrada até a pequena cidade de Malelane, na África do Sul, próximo a uma das entradas do parque. Passados 80 quilômetros, silencio glacial. Sugerimos música, para quebrar a “monotonia da estrada”. Busca apressada, sem encontrar nada, salvo um disco esquecido no CD player do veículo. Chiado prolongado seguido de voz masculina, textura de xerez e tabaco, cantando uma canção chilena no estilo flamenco. “Te recuerda Amanda, la calle mojada, corriendo a la fábrica donde trabajaba Manuel”. Durante duas longas horas recordamos Amanda, o CD estava avariado...

   Movíamos em alta velocidade em direção a Malelane... Lembranças súbitas da primeira vez que ouvimos a canção. Noite feliz, três décadas atrás. Mulher chamada Joanne Pottlitzer e amigos do grupo dirigido por ela, o Theater of Latin America, comemoravam o êxito da obra de Augusto Boal, Arena conta Zumbi. Cantor chileno enchendo o apartamento, iluminando e florescendo tudo, com música e letras maravilhosas de Victor Jara.

   Anuncio brusco, chegamos! Vestidos em uniformes de trabalhadores de restaurante, seis mulheres e um homem, formavam uma linha em baixo de uma arvore frondosa. Cantando uma canção de boas vindas, no estilo do grupo Ladysmith Black Mambazo. Mãos estendidas em direção a porta do hotel. Sorriso amplo, seguido de um forte abraço, um homem nos esperava. O casal sorriu pela primeira vez...

   Lugar bonito, bem cuidado. Os proprietários nos conduziram aos nossos aposentos. “Reservamos a suíte real para vocês dois”, anunciaram piscando um olho cúmplice. Coquetéis seriam servidos pontualmente às dezoito horas, no deck em frente do Rio Crocodilo, fronteira com o Kruger. Exploramos o hotel. Caminhamos o perímetro da propriedade, ouvindo o murmúrio do rio, tentando identificar os sons esparsos de aves e de animais. Imensa sensação de paz e ordem...

   Ao pôr do sol, sentamos em um muro de pedra, próximo ao rio. Avistamos uma enorme manada de elefantes descendo o escarpamento, aproximavam-se da margem, os menores à frente ou ao lado das mães, todos tinham acesso à água. Reorganizamo-nos no pequeno espaço que tínhamos, como se imitássemos a simplicidade dos animais. Compromissos e arranjos silenciosos. Escapando dos nossos labirintos a procura de novos queijos... Os animais pareciam nos observar do outro lado do rio....

   Partimos após o fim de semana. Falamos da vida, de coisas agradáveis, planos futuros, enfim... Novos labirintos. Haviam decidido dissolver o relacionamento. Três indivíduos e uma canção. ¿Te recuerdas Amanda?...


África do Sul 2004

domingo, 1 de agosto de 2010

O taxista Alberto e o compañero Gaudi...

   Plano simples, visitar o museu da Fundação Miró, em seguida a Rambla, depois as obras de Gaudi e as fontes mágicas de Montjuic, ao entardecer. Pedimos ao concierge um taxi. Quinze minutos depois, anunciaram que nos esperavam na recepção. “Hola, mi nombre es Alberto, tengo experiencia como taxista y guia turístico en Barcelona”. Homem jovem, vestido em traje pret à porter globalizado, cabelo estilo híbrido de rasta e moicano, dedos decorados com anéis de prata. Faux cigano. A aparência do carro contrastava com o dono. Entramos...

   Partimos rumo ao parque na colina de Montjuïc. Vista impressionante, o porto e a zona antiga da cidade. Estátua de Cristóvão Colombo apontando em direção ao Leste. “¡Tierra!” Direção oposta das Américas, no Hemisfério Ocidental, o taxista ironizou. Colombo era “¡un ¡estranjero!”, sua terra natal, Genova, fica no Leste. O museu da Fundação Miró estava fechado, frustrados. Alberto propôs um tour alternativo de três horas. Começaríamos pelo monumental e inacabado Templo da Sagrada Família, depois o Parque Güell e o Passeig de Gràcia 92, conhecido como La Pedrera. Passagem rápida por sete obras de Antoni Gaudi, Patrimônio da Humanidade. Concluiríamos em um restaurante na Barceloneta, a praia mais acessível da cidade -- de Gaudi ao Mediterrâneo a preço módico.

   Alberto, como toda a Espanha, sonhava com a conquista da Copa do Mundo da África do Sul. “La Fúria”, oito jogadores do Barcelona, símbolo do orgulho da Catalunha. Estranhava a ausência do “catalão” Ronaldinho Gaucho, na seleção brasileira. Conversa amena, apolítica, salvo quando se tratava de Gaudi...

   Gênio artístico e espiritual, tão enigmático como suas obras, comentou Alberto. Algumas expunham simbolicamente a influência da natureza ou da religião; outras se transformam em representações das suas estruturas e dos materiais utilizados na construção. Projetadas sempre, para apoiar a si próprias, sem suporte interno ou externo, como uma arvore no campo se ergue. Síntese e cadência típica de guia turístico. Olho no taxímetro...

   O discurso mudou de repente. Um novo Gaudí: homem político, protagonista na Renaixensa catalã. Movimento artístico revivalista, artes e ofícios mesclados ao nacionalismo fervoroso, anti-castelhanista. Aspiravam restabelecer na Catalunha um estilo de vida, que havia sido suprimido pelo governo centralista de Madri, ao longo dos séculos XVIII e XIX. O Templo da Sagrada Família, símbolo religioso dos desfavorecidos, incorporava todos os aspectos da sua obra: religiosidade, a natureza e o seu desejo de viver e morrer entre os pobres. Os pobres, proibidos de entrar na catedral, contribuíam com seus parcos proventos para o projeto.

   Seguimos o tour, Alberto ora servia como um guia turístico ora como um comentarista social. Parque Güell, um guia oficial nos ouvia atentamente, questionando as informações oferecidas pelo nosso guia. Trocaram palavras, mostrando brochuras. Empate técnico. O desconforto de Alberto durou pouco, mudou de assunto.

   Chamando nossa atenção para o menor traço do compromisso do arquiteto com os pobres, em todas as suas obras. A luta de classe, uma imitação da natureza. O homem de pé com o braço estendido na direção da árvore que se sustenta por si mesma -- o pessoal e o profissional indistinguíveis na sua visão.

   Atropelado por um bonde, Gaudi, devido a sua aparência, foi removido para um hospital de indigentes. Identificado, preferiu não mudar-se. Morreu três dias depois, como sempre quis, como um pobre. O Templo da Sagrada Família, um testamento a Deus e ao povo Catalão, deixando incompleta até hoje, sua maior obra...

   Acertamos as contas, “moltes gràcies”. Partiu. Aumentando o volume do radio, deixando um rastro de sonoridade, uma rumba catalã...

Barcelona 2010