NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A mais preciosa das paraíbas...

Museu de Arte Contemporânea de Monterrey, México. Celebração do casamento de uma mulher católica com um homem hindu. Diversidade cheia de riscos e possibilidades. Coexistindo festivamente, banqueiros, colegas das Nações Unidas, amigos de infância e familiares. A história oral dos nubentes em vários idiomas. Bombaim, Nova Iorque, Dubai, Londres, Singapura ou São Paulo, havia sempre algo novo para contar a respeito das vidas ou do romance. Sáris e vestidos de soirée, fragrâncias do Oriente, do Ocidente, mistura de gente bonita, sucesso e elegância. Conclusão de três dias de festividades...

 “Fiesta mexicana”, amigos íntimos e família. Éramos parte da história. Chefe e mentor da jovem advogada nas Nações Unidas, santuário emocional após o dia 11 de Setembro, designado como seu “pai substituto” em Nova Iorque. Consultados sobre os aspectos culturais e religiosos, transmitimos impressões positivas à família, após jantar com o casal em Nova Iorque.

   Recepção de boas-vindas. Evento formal, os convidados da Ásia, Europa e Estados Unidos haviam chegado. Namastês, “abrazos” e apertos de mão. Babel alegre, moderna. Os mexicanos, na maioria família, conversavam animadamente entre si, salvo aqueles que falavam Inglês. Um banqueiro italiano acompanhado de sua esposa eurasiana foram um dos últimos em chegar. O noivo nos apresentou...

Kim, designer de jóias na Itália. “Femme allumeuse”.  Novas histórias se entrelaçavam. Comentário intempestivo: “Vocês são de São Paulo? Ah, adoramos a Daslu!”. Paraíba, respondemos. Descrentes de que demonstrasse maior interesse pelo lugar. ”Paraíba! Eu amo as paraibas!”. Perguntamos se conhecia nosso estado. Conhecia somente as paraibas, o epônimo, nome genérico das turmalinas azuis encontradas na Paraíba... Pedras preciosas eram seu metier, começou uma longa explicação...

Depois de prospectar por mais de cinco anos, um garimpeiro persistente, encontrou as primeiras turmalinas nas serras da Paraíba. A gema azul neon encontrada em 1989, tornou-se imediatamente uma das raras, caras e procuradas do mundo. O mercado se expandiu no principio do Milênio, com descobertas de “paraibas” de cores variadas, cor-de-rosa, de melancia e verde; em Moçambique e na Nigéria.  A luminescência do “neon” que as torna mais valiosas é causada pela presença de cobre. Continua sendo a turmalina da Paraíba, usada como o “metro de ouro”, para determinar a “paraibanidade” das gemas produzidas mundialmente. Lamentando a dificuldade em encontrar nossas paraibas, Kim suspirou...

Caminhávamos na 5ª Avenida, anos depois, próximos do coração do Distrito de Diamantes dos Estados Unidos. Procuramos turmalinas azuis. Foi-nos apresentada uma pequena bandeja coberta de veludo, com uma pedra azul neon. Hesitamos em perguntar o preço. Prometemos voltar, caso decidíssemos. “Giselle, a top model brasileira comprou brincos de turmalinas da Paraiba, vinte e cinco mil dólares”, comentou. Falha tentativa de motivação. Partimos sem a nossa paraiba...

Descoberta nas serras da Paraíba, há duas décadas, as turmalinas ainda estão sendo retiradas do solo à mão, com instrumentos como cunhas e marretas. Veios com espessura fina, não excedendo a grossura de um lápis. Fragmentam-se facilmente. Causa grandes perdas a maneira artesanal da extração, contribuído para que as paraibas sejam mais raras e caras.

Paraibas brilhando nos salões dos ricos e famosos. Garimpeiros, que não brilham, buscam as riquezas da terra. Paraíba pequenina, famosa no mundo inteiro. Eu tenho pra vender... Quem quer comprar?


Nova Iorque 2008

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Todas as cores marchando de colores...

Movíamos rapidamente na rodovia Route 86, em direção a cidade de El Centro, próxima a fronteira mexicana. Salton Sea, o maior lago da Califórnia, à esquerda.  Calor insuportável, 69 metros abaixo do nível do mar. Superfície da estrada parecia ser betume líquido, uma miragem. Chegaríamos a nossa nova realidade, em menos de vinte minutos...

Grupo de trabalhadores rurais, todos mexicano-americanos. Estátua de Nossa Senhora de Guadalupe, venerada e adorada, em um altar improvisado. Completavam a decoração, dois vasos de flores. Cantavam a canção do movimento “cursillista”.

“De Colores,
De Colores é a primavera florindo caminhos
De Colores,
De Colores são todas as flores são os passarinhos.
De Colores,
De Colores é o arco-íris, caminho de luz...
Venham todos que este é o caminho, cantemos louvores a Cristo na Cruz”...

Explicaríamos porque estávamos na cidade, após as preces. Promoção de direitos civis e avanço econômico das comunidades excluídas, majoritariamente mexicano-americanos. Incrédulos, temiam reações negativas dos rancheiros e da emigração. O Senador e candidato presidencial Robert Kennedy, quando se reuniu com Cesar Chavez e seguidores na cidade de Delano, havia abraçado “La Causa”, em Maio 1968. “¡Si, Se Puede!”. Asseguramos aos trabalhadores. Não estávamos sós...

 Cético sobre  as organizações de trabalhadores rurais, o padre afirmou enfaticamente que não permitiria que os “cursillos” fossem instrumentalizados por “agitadores externos”. “Focos de sindicalismo”, seriam o resultado do nosso projeto. “Rapidamente criam problemas e partem quando a situação se complica no campo, o povo sofre sozinho”.  Éramos parte da guerra contra a pobreza.  Organizar sindicatos com verba federal não era permitido, reiteramos. Manuel, nosso companheiro, era um primo-irmão de Cesar Chávez, aceitamos o argumento do padre sem debatê-lo. Convocaria uma reunião dos “cursillos”, o pragmatismo venceu...  
  
Sede social da comunidade no “outro lado” da linha do trem. Básico, a única palavra suficientemente abrangedora para descrever o local. Explicamos o propósito da nossa visita. Descrevemos a metodologia que usaríamos para coletar e analisar informações. Formamos vários grupos. Discutiriam os problemas da comunidade; tentariam chegar a um consenso sobre os mais complexos e urgentes. Apresentariam planos de trabalho e recomendações na sessão plenária.

Desemprego ou subemprego era o problema mais sério, 25% da força laboral, todos concordaram. A importação de mão de obra mexicana, chamados de “braceros”, e a sazonalidade do setor agrícola não criavam condições propicias para uma melhoria da situação. Sindicalização era a resposta. Permaneceram silenciosos sob os olhos vigilantes do padre. Próximo problema...

Indiscriminadamente vendia-se cola de aeromodelos à menores de idade. Comerciantes e policia discutiam o problema com os “cursillos”, sugerindo que fossem mais responsáveis com seus filhos. O poder não sentia nenhuma a  menor empatia com o problema da comunidade. Janela de oportunidade aberta. Causa suficientemente inofensiva para aqueles que temiam qualquer tipo de organização comunitária. Os “cursillistas” recomendaram mobilização total contra aqueles que comerciavam o produto. Proposta aprovada unanimamente, com o apoio entusiástico do padre.Torta de maçã, mamãe e a pátria”, todos nos apoiariam. Marcharíamos juntos pelas ruas da cidade em 12 de Dezembro, à festa de Nossa Senhora de Guadalupe.

Cerca de trezentas pessoas caminhando juntos, mais procissão do que protesto. Banda de Mariachis na vanguarda, seguida do andor, bandeiras das ordens laicas, homens e mulheres vestidos em trajes tipos. Multidão multicolorida, de colores. Protegidos pela policia, aplaudidos pela comunidade. Visitando lojas, entregando petições aos comerciantes, o Xerife nos acompanhava, informando que apoiava as demandas dos manifestantes. Vários comerciantes acataram a proposta, retirando o produto das prateleiras. O prefeito e os conselheiros receberam a marcha nos degraus da Prefeitura, solidários com a comunidade.

Vitória total, talvez a próxima causa fosse, finalmente, “La Causa”...

California 1968

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Mercadores da miséria no Vale do Rift, berço da humanidade...

Avião monomotor estacionado no pátio de manobras do Wilson Airport, cidade de Nairóbi. Inspecionando os ailerons, dois mecânicos caminhando ao redor do Cesna Caravan. Mulher branca próxima à meia-idade, farda cáqui de um “bush pilot”, acompanhava seus gestos e observações com interesse profissional. Polegar prá cima, inspeção concluída. O pássaro estava pronto prá voar...

 Cathy colocou sua valise de piloto no interior da aeronave. Caminhou em seguida na direção ao pequeno terminal. Formalidades do vôo, limite máximo permitido para três passageiros.  Somalianos, em número de dois, embarcaram pequenos fardos de folhas de “khat” no compartimento de bagagem. Carga perecível. Desidratada, perderia seu efeito estimulante e valor comercial. Compatriotas na Somália mascavam o narcótico para aliviar a fome e a fadiga, “comida divina” dos antigos egípcios. Negocio lucrativo, onde a pobreza era a única indústria. Éramos o outro passageiro. Caixas de remédios da ajuda humanitária completaram o carregamento. Drogas e “drogas” voando em direção do horizonte africano...  

Alerta! Tempestade de areia. Mascando khat mecanicamente, saliva verde escura escorrendo dos cantos da boca, os somalianos pareciam pouco interessados na situação. Esperamos ansiosamente pela liberação do vôo.  Povoados Turkana estavam praticamente sem estoque de medicamentos essenciais.

Nosso destino, Lokkichokio. Estradas precárias e perigosas, devido aos conflitos entre rebeldes da etnia somaliana e o exército do Quênia. Viagem de mais de 900 km. O “khat air”, como chamávamos, era o único meio de transporte rápido e “seguro” entre Nairóbi e as zonas afetadas pela seca, ao Norte.  Desembarcaríamos na cidade de Lodwar, capital do distrito de Turkana, no Vale do Rift, complementaríamos a viagem por terra, 215 km em nove horas.

Céu escuro. Solavancos. Estávamos em plena tempestade de areia. Clima de tensão, os somalianos cochilavam. Olhos colados no painel, Cathy conferindo de vez em quando um mapa aberto sobre as coxas, conversando no rádio. Gesto pedindo descrição, um psiu, dedo indicador tocando os lábios fechados. Lodwar estava interditado. Desviaríamos até uma missão católica. Pista de barro bem mantida, sem instrumentos, unica alternativa viável.  Estacionado na cabeceira, um Land Rover marcaria o lugar do pouso. Os somalianos só seriam informados sobre a “escala”, após a aterrissagem...

Finalmente, saímos da tempestade.  Cathy inclinou a aeronave e voou em direção do reflexo, parecia ser do pára-brisa do jipe.  Pessoas tangiam animais da pista, outros acenavam freneticamente, havíamos chegado ao lugar certo. Rodas tocaram solo áspero, engolidos por uma nuvem de poeira nos movíamos rapidamente. Cavalo de pau no fim da pista, chegamos...

Provavelmente, os somalianos perderiam sua preciosa carga. Embarcamos imediatamente no Land Rover. Tínhamos quase dez horas de viagem até o pequeno hospital de campo. Viajamos 60 km em três horas, problemas na caixa de câmbio. Tentaríamos nos arrastar até um pequeno vilarejo Turkana, ainda com a luz do dia.

Pequeno reservatório de água, construído por uma organização humanitária canadenses, homens armados, camelos e outros animais descansavam. Grupo de pessoas sentadas em forma de um círculo, cabeças cobertas. Mulheres. Mostramos nossa câmera, indicando que queríamos fotografar os camelos. Clic, clic, clic. Carabinas e adagas apontadas em nossa direção. Punhos irados no ar. Fotografávamos, sem saber, um grupo retornando de uma pilhagem de bens, animais e mulheres do Sudão. Demandaram reparação. Oferecemos dinheiro. Desdenham aqueles que não usam animais como instrumentos para transações comerciais e sociais. Apropriaram-se dos medicamentos, provavelmente os trocariam por animais ou armas.

Partimos. Continuamos nossa viagem, notários documentando os fatos nos labirintos escuros do mercado da miséria humana...

Quênia 1983

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Inhames da discórdia: a guerra dos Konkombas e Nanumbas...

   Nossa primeira experiência com conflitos tribais aconteceu no Norte de Gana, em 1981. A guerra entre os Konkombas e Nanumbas, mais de mil mortos, feridos e desabrigados, lavouras e propriedades destruídas. Promessas de progresso, equidade e democracia pós-colonial, perdidas no caos da intolerância e da suspeição. Disputas sobre plantios de inhame ou a ocupação de terras dos Nanumbas para plantar as tuberosas, era a razão principal para o enfrentamento entre as duas tribos. Não era o primeiro nem seria o último...

   A urgência não nos permitiu uma analise mais profunda da “raison d’être” ou das consequências futuras do conflito. A proliferação de rumores substanciava argumentos, que potencializavam soluções violentas, acertos de contas e abusos contra os direitos humanos.

   Surgiram dificuldades para transportar a ajuda. Protagonistas, demandavam pagamento de “impostos” em pedágios informais. Explicações e documentos não eram suficientes para permitir a livre passagem dos comboios. Conflitos armados entre as tribos ou membros da mesma tribo, eliminavam qualquer possibilidade de criar “corredores humanitários”. A certeza da entrega dos mantimentos e remédios, só aconteceria após o retorno dos caminhões, dirigidos por motoristas de tribos não envolvidas na disputa.

   Nana Adjei esperava-nos no escritório. Gestos nervosos, ansiedade estampada no rosto, ombros arqueados. Postura atípica para um homem acostumado a dirigir-se a outras pessoas como um “nana”, um chefe tribal Krobo. Dorso da mão direita tocando repetidamente na palma da mão esquerda, pedindo nossa atenção, gesto usado por suplicantes. Chefe dos caminhoneiros, a visita era para nos informar sobre uma tragédia. Carga com quarenta toneladas de alimentos, capturada e vandalizada por homens Nanumbas. “O motorista foi morto por uma flecha envenenada com bílis de crocodilo”, alegou. Pediu que dispensássemos a companhia de qualquer indenização, nem o caminhão, motorista ou a carga estavam cobertos com seguro de risco de guerra.

   Teríamos que reembolsar trinta e quatro mil dólares ao doador, segundo o programa de ajuda humanitária americana. Entendiam a complexidade da situação, porém sem dispensar a indenização. Propôs que entrássemos com uma ação contra o transportador e o governo ganense. Impossível de concluir uma investigação para estabelecer a culpabilidade pela perda. Nossa única testemunha, o motorista, havia sido assassinado, justificamos. “Flecha com bílis de crocodilo na ponta, morte instantânea...”, o funcionário repetiu várias vezes, incredulidade nos olhos. Retirou-se da sala. Voltou minutos depois com um comunicado. Preocupados com a segurança da comunidade americana no país, queriam investigar a possibilidade de protegê-los contra o até então desconhecido veneno.

   Comunicaram que haviam decidido dispensar o pagamento, por razões humanitárias, duas semanas depois. Desculparam-se por não enviar flores à viúva, visto que, na verdade, eram três...

   Partíamos de Gana. Deparamo-nos com uma delegação de ganeses, vestidos em trajes tribais no saguão do aeroporto. Com os braços abertos e um sorriso amplo na face, um homem aproximou-se. Aparentava ser o líder do grupo. Estávamos novamente diante de Nana Adjei, o chefe dos caminhoneiros. Queriam despedir-se. Servindo libações e presenteando-nos com objetos tradicionais, dignos de alguém do nosso status, um nana honorário, “entronado” recentemente por serviços prestados ao país.

   Discurso de despedida. Agradecimentos profusos pela ajuda prestada durante a guerra no Norte. Lamentamos a morte do motorista e a perda do caminhão. Estavam surpresos e gratos por termos aceitado a estória, confidenciou-nos o chefe. O motorista havia “ressuscitado” meses depois, com uma nova esposa da tribo acusada de matá-lo.

   Seguimos conjecturando sobre a origem do dinheiro para o significativo pagamento do dote a família da nova esposa. Os inhames foram substituídos por uma galinha guiné nos anos noventa, como o ponto de conflito entre as tribos, na famosa “guerra das pintadas”...

Gana 1981