NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Embriaguez da fama....

   Iwo Jima, 23 de Fevereiro de 1945. Bandeira dos Estados Unidos hasteada por seis fuzileiros navais em um mastro improvisado, no topo do monte Suribachi. Primeiro pedaço de território japonês conquistado por tropas norte-americanas. Vitória com celebridades instantâneas, ícones da liberdade...

   Foto transmitida instantaneamente para o mundo. Ira Heyes, nativo americano da tribo Pima. O sexto homem, mal tocando no mastro. Transferido de volta aos Estados Unidos para participar de espetáculos midiáticos promovendo a venda dos Bônus de Guerra do Tesouro Nacional. Magos da propaganda regozijaram com a oportunidade de lançar mais uma campanha baseada na fusão do cidadão contribuinte com o cidadão soldado. Filho do povo mais oprimido do continente, herói americano prêt-à-porter. Viagens, homenagens, recepções na Casa Branca.

   Tony Curtis interpretando seu papel no filme “O sexto homem”; a Balada de Ira Heyes, na parada de sucessos. Retornando à vida civil, após a guerra, encontrou tremendas dificuldades em ajustar-se ao seu novo status. Enveredou no alcoolismo, cinquenta e quatro detenções por embriaguez pública. Noite de farra, caiu em uma vala e asfixiou-se com o seu próprio vômito. Morreu aos 32 anos de idade... Estátua de bronze, cerca de 100 toneladas, réplica da foto, o principal ícone do patriotismo americano. Eternamente mais heróico que sua vida, o sexto homem...

   Sala de visitas da prisão. Dois amigos conversam por interfone, através de um painel de vidro, anteparo entre o apenado e seu visitante. Chamava-se Jesse James, negro, nariz de boxeador, ex-viciado em heroína e alcoólatra, condenado previamente a cinco anos de prisão, por assalto à mão armada. Conhecemo-nos quando organizamos “Os Rebeldes do Bairro da Missão”, um grupo de auto-ajuda para adolescentes usando drogas ou engajados em atividades anti-sociais. Trabalho realizado após receber liberdade condicional. Cursou teologia e ordenou-se pastor ainda na prisão. Descoberto pela mídia, artigos na revista TIME e em jornais importantes. Entrevistas com apresentadores famosos. As ruas de São Francisco tinham um novo herói: Reverendo Jesse James. Havia galgado o topo da montanha...

   O “demônio do álcool invadiu minha alma”, começou antes de explicar o motivo da nossa visita. Primeiro episódio de embriaguez pública, depois de vários meses. Episódio encoberto, precisavam de heróis, havia poucos. Descenso rápido. Preso embriagado, violando os termos de sua liberdade, com um cheque falso. Voltou à prisão para cumprir o resto da pena original. A organização precisava restabelecer sua credibilidade. Éramos o nome indicado para liderá-la durante o período de transição. Nunca mais nos encontramos...

   Informações sobre problemas psicológicos e alcoolismo afetando pelo menos 5 dos 33 mineiros chilenos, começam a circular na imprensa internacional. Assédio constante de jornalistas, status de celebridades e possibilidade de ganhar significantes somas de dinheiro, sem mencionar o resgate espetacular. Abutres circulando, imaginando lucros, prêmios e fama. E os mineiros? Serão descartados como Ira Heyes ou encarcerados como Jesse James?

   Ira Heyes comentou uma vez sobre seu alcoolismo: “Eu estava doente. Imagino que estava prestes a surtar, pensando nos meus bons companheiros. Eles eram melhores que eu e não iriam retornar. Muito menos para a Casa Branca, como eu”... Ninguém notou o seu descenso até a sua morte prematura. Recebeu um funeral de herói, o maior na história do Arizona...

   Assim já morreram outros. Escritores, poetas, artistas, ricos e famosos. O mundo só sabe a verdade quando cada um expõe seu próprio demônio. A mídia faz os heróis, a mídia mata os heróis. Cúmplices silenciosos. Apologistas justificando todo e qualquer excesso alcoólico. Trivializando uma doença, como se fosse algo normal, hilário ou digno de nossa complacência.

   Como disse um escritor brasileiro: “Bêbado, escrevi as melhores páginas da literatura universal... para um bêbado”...

João Pessoa 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quando todos os homens do mundo...

             Mesmerizado pelo drama desenrolando diante dos seus olhos, adolescente atento aos seus mínimos detalhes, com concentração rara à sua idade.  Pequeno cinema, refúgio da monotonia da aula de Latim ou da aspereza da gramática portuguesa. Sonhar ali era possível...

Tripulação com botulismo, devido carne suína contaminada, barco pesqueiro no Atlântico Norte. SOS em ondas curtas, captada por rádio amador no Togo, na África.  Médico francês, em férias no país, informado sobre o teor da mensagem, concluiu que só um soro podia salvar a tripulação. O medicamento deveria chegar ao navio em menos de quinze horas. A informação é transmitida para um radio amador em Paris, que contata o Instituto Pasteur. Obtêm o soro, que será transportado para Berlim Oriental, em um avião polonês. Oficial norte americano encarregado de recolher a carga, atrasa-se. Avião soviético é disponibilizado para levá-la até Copenhague, seguindo para Oslo a bordo de uma aeronave francesa. Piloto norueguês alcança o navio e solta um pára-quedas com o precioso soro. Maomé, um mulçumano do Norte da África, único tripulante não acometido da doença, mergulha nas águas turbulentas e resgata o pacote do mar. Toda a tripulação se salva...

Nunca nos esquecemos do filme: “Si tous les gars du monde”. Grande lição, solidariedade humana na escuridão do cinema.

Passando pela LABRE, a caminho da escola. Antena de rádio perfurando o céu, espalhando mensagens de paz e amizade. Povos do mundo se comunicando, mesmo com as dificuldades causadas pela estática ou pelos sinais transmitidos na cadência do Morse. Não importava em que idioma falassem. Comunicavam-se em código “Q”, uma linguagem própria. QRA...  QTH... QSL...

Televisão e telex transmitindo imagens e detalhes de um terremoto no México. Âncoras narravam uma história, em frases curtas, cuja enormidade era evidente nas cenas. Galvanizados por sentimentos de solidariedade, o mundo respondeu.

Rumamos em direção à Cidade do México, imediatamente. Leve tremor enquanto o avião pousava. Longo momento de terror, em poucos segundos. Centro da cidade, odor nauseabundo de corpos em decomposição, pairava no ar. Números estarrecedores, mais de 250 prédios destruídos, milhares de pessoas desabrigadas, mortas ou desaparecidas nos escombros...  

Governo apático, atônito, minimizando a gravidade situação. Mãos ensanguentadas removendo escombros com ferramentas rudimentares, desenterrando sobreviventes e mortos. Exército solidário de cinquenta mil soldados. Plácido Domingo, em mangas de camisa, ajudando nos trabalhos de resgate.  Havia perdido seus tios, um sobrinho e seu filho. O socorrista Marcos Zariñana, conhecido como “La Pulga”, e membros da equipe de resgate “Los Topos”, os topeiras, moviam escombros e penetravam nas brechas procurando sobreviventes. Estrangeiros trabalhando lado a lado com mexicanos. Atos de heroísmo cidadão, em um país carente de heróis e solidariedade.

“Nós estamos bem, os 33, no refúgio", mensagem escrita dos mineiros desaparecidos há 18 dias nas entranhas da terra. Esforço multinacional, americanos, alemães, japoneses, coreanos, suecos e chilenos, comunicando-se pelo Internet. Todos unidos para salva-los. Desenhada pela NASA, construída pela Marinha Chilena, o primeiro mineiro saiu da cápsula dois meses e nove dias depois, seguido pelos demais companheiros. Primeiro passageiro e  último a sair, o socorrista Manuel “Manolo” Gonzáles, que desceu para orientar o resgate. Todos salvos. Obstáculos superados, a solidariedade humana havia vencido. Tínhamos novos heróis...  

Homem concentrado na tela da televisão, quarto no escuro. Voz monótona da CNN, expertos explicando  minúcias do resgate.  Manolo entra na cápsula, lembranças de Maomé ou La Pulga. Ficção e realidade justapostas. Lição de humanidade aprendida há mais de cinquenta anos, voltando e voltando. Éramos mais humanos. E se todos os homens do mundo...


João Pessoa 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

Enquanto a procissão passava...

Aroma almiscarado de pétalas de rosas misturadas com incenso. Indígenas, cabeças cobertas com capuz de cor púrpura, carregando um andor pesado com uma grande imagem do Nosso Senhor. Caminhavam ritmicamente. Cadenciados por batidas monótonas de tambores. Observávamos a procissão. Cinco séculos de história em câmera lenta. Povo oprimido, povo de fé.  Páscoa em Antigua, Guatemala.

Acordo de Paz entre o Governo e rebeldes encerra um conflito armado que durou mais de 36 anos.  Povo Maia, terceiro aniversário. Quantos pagaram o preço mais alto pela liberdade? Quantas vidas? Buscávamos as respostas, rostos suados, olhos tristes. Pareciam em transe, a procissão movia... 

Domingo de Ramos, as primeiras procissões da Semana Santa. Imagens de Jesus de Nazaré e Nossa Senhora das Dores carregadas em andores originários de várias igrejas, convergiam para a procissão principal.  Pesavam toneladas e requeriam de 50 a 100 pessoas para carregá-los. Vestidos em trajes típicos Maia, chamados de “cucuruchas”, reencenavam a entrada de Jesus em Jerusalém.  Motivados pela penitência; o status não era de grande importância. Continuariam até a quinta-feira celebrando eventos similares, em memória dos últimos dias de Cristo na terra.  Entardeceu. Bandas funerárias tocam em frente das igrejas. O povo congregado come, bebe e joga em bazares de festas.

Dois anos depois, a apresentação ao público do relatório "Guatemala: nunca mais", resulta no assassinato do seu autor Bispo Juan Gerardi.

"Se não tivesse sido pela resistência dos nossos povos, os militares teriam exterminado a todos. Nós, viúvas, somos a cicatriz, o sinal mais claro da violência que sofremos. Agora nos organizamos não somente para sobreviver, mas também para buscar justiça." Tribunal Permanente dos Povos, Madri, Espanha.

Anoitecer da Sexta-feira Santa. Cidade e devotos enlutados. Ruas e casas decoradas com faixas de crepe negro. Fieis queimam incenso e acendem velas.  Homem carregando um crucifixo lidera a procissão, seus seguidores com estandartes inscritos com as últimas palavras de Jesus. Multidão reza silenciosamente. Devotos choram e fazem penitência. A imagem de Cristo crucificado, permeada pelo incenso no ar, cria uma atmosfera obsedante. Às 23 horas pousam a imagem dentro da igreja.

A procissão do Sábado de Aleluia é dedicada à Virgem Maria. Andores  menores e carregados por mulheres vestidas nos seus melhores trajes, algumas usando sapato alto. Domingo de Páscoa, dia festivo com celebrações e fogos de artifício. O céu brilha...

"Os massacres indiscriminados dos indígenas, inclusive mulheres, anciãos e crianças, e a forma com a qual foram realizados, evidenciam a intencionalidade de destruir, total ou parcialmente, a população indígena da Guatemala. Essas ações se caracterizam como crime de genocídio". Tribunal Permanente dos Povos, Madri, Espanha.

· 150 mil assassinatos
· 50 mil desaparecidos
· 1 milhão de refugiados
· 200 mil órfãos

Alfombras adornam as rotas das procissões. A palavra significa tapete em árabe, costume trazido da Andaluzia Mourisca pelos colonizadores do povo Maia. Residentes começam preparativos para sua criação, semanas, às vezes meses antes da Semana Santa. Nivelam com areia as ruas calçadas, desenham moldes com cavaco de madeira pintando em cores brilhantes. Decoram com agulhas de pinho e plantas nativas, que exalam fragrâncias.

Tradição Maia, simbolismo bíblico e cenas da natureza são refletidos nas alfombras. Sua construção: um sacrifício, uma penitencia. Destruídas pelas procissões que passam. Sacrifícios em memória à morte de Cristo...

Nossa última visita. A procissão passou enquanto viajávamos pela minúscula cápsula do tempo. Dez anos de memória dos quinhentos anos de opressão da Guatemala, o povo Maia sempre reconstruindo suas alfombras...

Guatemala 2003

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Depois de Cuito Canavale... e depois...

A batalha de Cuito Canavale entre as forças angolanas e cubanas contra o até então imbatível exercito sul-africano e seus aliados da UNITA, chegou a um impasse militar no dia 23 de março de 1988. Oportunidade única para reiniciar o processo de paz, dormente no atoleiro da guerra fria. A fruta estava madura...

Primeira visita a Luanda, novembro de 1988. Clima de otimismo. O exército sul-africano havia saído da Angola, antes mesmo de um acordo final sobre a retirada das tropas cubanas. Embora timidamente, a África do Sul começava a dar os primeiros passos para desmantelar o regime de apartheid. Dependia dos homens de boa vontade negociar as modalidades para uma paz duradoura.  Depois de Cuito Canavale, tudo era possível...

Efeitos da guerra eram visíveis, em todos os aspectos. Desespero e pobreza extrema cresciam a cada instante em um país rico em diamantes e petróleo. Homens armados com barrigas vazias. Populações desabrigadas, impossibilitadas de trabalhar na lavoura devido às minas de guerra e munições dispersas. Ingredientes básicos da poção mágica da bruxa da miséria humana.

Concordamos em concentrar nossas operações na Província de Benguela. Gêneros alimentícios, medicamentos e implementos agrícolas distribuídos sob a direção de organismos sociais da Igreja Católica, em cooperação com autoridades provinciais. Facilidades logísticas e caminhões seriam disponibilizados pelo Governo no Porto de Lobito, para transportar nossas doações a todos os pontos da província.  O primeiro navio chegaria à Angola no ano seguinte.

Movendo-se em direção ao interior, nossos caminhões com ajuda humanitária, cruzavam com transportes militares carregados de petrechos pesados e peças de artilharia, em direção oposta. Causa e efeito trafegando na mesma estrada. Tínhamos que derrotar o poderoso General Fome, o novo inimigo...

Nações Unidas, 22 de Dezembro de 1988. Angola, Cuba e a África do Sul assinaram o chamado Acordo de Nova Iorque. Tropas estrangeiras se retirariam de Angola, e a Namíbia se tornaria um país independente, sem a presença militar da África do Sul.  O processo de desarmamento e reintegração dos ex-combatentes começaria imediatamente. Celebrava-se um Natal, paz finalmente...

Mensagens alarmantes sobre a situação da segurança em Benguela chegavam ao nosso escritório em Zimbábue, quase quatro anos depois. Militares da UNITA haviam aparecido repentinamente nas ruas da cidade, ameaçando a segurança dos nossos armazéns e pessoal. Partiríamos em seguida para Luanda, com conexão em Lusaka, para organizar a remoção de todos para a Namíbia.

Vôo da Aeroflot, nossa única opção. Partimos no velho Tupolev Combi, passageiros e carga dividindo a cabine. Assentos sem cintos de segurança - em manutenção: explicaram. Bananas e vinho da Geórgia, única refeição disponível. Clima tenso à nossa chegada, falavam de choques militares esporádicos em Luanda. A UNITA recusava-se aceitar os resultados das eleições.

Encontramos nossos colegas prontos para ser evacuados do país, pequenos combates próximo ao Hotel Presidente e o porto. Os chefes da UNITA aquartelados no Hotel Turismo, no centro da cidade, negavam tudo, sob alegação de que suas intenções eram pacificas. As carabinas falavam mais alto. A paz estava em perigo...

Embarcamos o pessoal na penumbra em um cargueiro grego, rumo à Namíbia. Seguiríamos no vôo da TAP, o último disponível.  Disparos, pequenas escaramuças próximo ao hotel. Partimos às pressas para o aeroporto, driblando tiroteios e barricadas no caminho. Clima de guerra no saguão do terminal, homens armados. Decolamos. Combates aumentavam nas ruas, caminhão atingido por um míssil. Fênix imolando-se, sem a promessa de um pronto retorno...

Paz na Angola em 2002, quatorze anos depois de Cuito Canavale. Quinhentos mil mortos enterrados na mesma terra do petróleo e dos diamantes da guerra...

Luanda 2002