NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Haiti nos tempos de cólera...

   Quando pensávamos que todas as misérias possíveis ou imagináveis já haviam atormentado o povo do Haiti, nos deparamos agora com uma epidemia de cólera. O desgoverno e a pobreza do estado haitiano aumentam em cada crise.

   Ironicamente, os maiores beneficiários da democracia são mais de dois milhões de haitianos que votaram com os pés. Navegando águas traiçoeiras do Estreito da Florida, muitos optaram por trabalhar em condições precárias no mundo subterrâneo da emigração ilegal nos Estados Unidos, Canadá e na Republica Dominicana. A diáspora remete à sua terra natal, mais de um bilhão de dólares, representando ¼ do Produto Interno Bruto (PIB), evitando assim o colapso total da economia haitiana.

   Trabalhamos por mais de doze anos em projetos financiados pela comunidade internacional. Programas de reconstrução pós-desastre ou para a redemocratização, todos apoiados por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Muitos deles sucederam. Desde 2003, outras missões seguiram...

   O terremoto de 2010 renovou o interesse da comunidade internacional, que atravessava um caso sério de fadiga de compaixão, deixando o destino do Haiti à deriva nas águas do Caribe. Lâmpada do gênio aberta. A calamidade confinou um milhão e quinhentos mil haitianos na pobreza, vivendo em acampamentos precários, em condições de saúde e higiene deploráveis. Expostos aos caprichos da natureza, aterrorizados por gangues e vulneráveis a doenças epidêmicas

   Haiti proclamou sua independência no dia primeiro de janeiro de 1804. Transformou-se assim no primeiro estado independente da America Latina e no primeiro governado por negros no mundo - produto de uma rebelião de escravos contra a colonização francesa. Quase três décadas depois, a nova nação tomou medidas preventivas para evitar que a propagação da cólera originária dos Estados Unidos e da Europa, entrasse no país através dos seus portos. Durante o século XIX, um dos poucos países da região a não apresentar surtos da doença. Escapando ileso de seis pandemias que afetaram o mundo na década de noventa, em estado de caos político quase permanente, empobrecimento continuado e desastres naturais devastadores...

   Pequeno surto de cólera em uma província espalhou-se rapidamente, resultando em quase 1.000 mortos e 20.000 infectados. Clínicas e hospitais operam além da capacidade desde antes do terremoto. Autoridades sanitárias estimam que a doença poderia afetar eventualmente a 270.000 pessoas.

   Dedos acusatórios apontam em todas as direções, lendas urbanas e suspeição movem rapidamente, antecipando-se às soluções para o problema. O “bicho papão” preferencial do momento, são a base e as tropas da ONU, originários do Nepal. A doença é endêmica naquele país, que experimentou um surto antes do embarque das tropas. A variedade do vírus é asiática, o que reforça a percepção. Demonstrações contras as tropas da ONU, especialmente as do Nepal, aumentam dia-a-dia. As tropas brasileiras também não estão isentas...

   A Gazeta de Notícias reportou no dia 14 de novembro de 1904, uma situação caótica no Rio de Janeiro. "Tiros, gritaria, engarrafamento de trânsito, comércio fechado, transporte público assaltado e queimado, lampiões quebrados a pedradas, destruição de fachadas dos edifícios públicos e privados, árvores derrubadas: o povo do Rio de Janeiro se revolta contra o projeto de vacinação obrigatório proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz".

   A situação descrita na Gazeta de Notícias, nos leva ao Haiti do momento. A fragilidade e os perigos da situação são reais e constituem ameaças constantes. Bastaria substituir as últimas dezenove palavras do texto do jornal brasileiro por: “o povo de Port-au-Prince se revolta contra o projeto de combate à cólera e à Missão das Nações Unidas”, para chegarmos ao provável desenlace para o caos e a pobreza haitiana.

   Osvaldo Cruz teve sucesso eventualmente. E o Haiti nos tempos de cólera?

João Pessoa 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A casa da Virgem Maria na montanha de Bulbul...

   Mal podendo conter seu entusiasmo, nosso guia, Yako Misiel, anunciou solenemente que nos aproximávamos de Bulbul Dag, a montanha do rouxinol, nas proximidades da cidade de Selçuk. Estávamos a menos de oito quilômetros de Meryemana, última morada da Virgem Maria, a mãe de Jesus. As emoções da visita às cavernas da Capadócia, refúgio das comunidades cristãs nos séculos III e IV d.C, ainda pulsavam na nossa memória. Fé dentro da montanha, fé no topo da montanha. Ouvíamos os sons da natureza ao nosso redor...

   Movíamos em direção ao céu, subida íngreme. Entrada do parque que abriga o santuário. Jovens voluntários trabalhavam, coletando lixo deixado por visitantes, podando plantas. Placas anunciando que os recursos gerados pela venda de ingressos eram revertidos em manutenção. Local venerado por católicos e muçulmanos, também um ponto turístico importante.

   Pequena explicação antes de chegarmos. Citando uma passagem da Bíblia: “Quando Jesus viu a sua mãe, e perto dela, o discípulo que ele amava (João), disse a ela: – Este é o seu filho. Em seguida disse a ele: – Esta é a sua mãe. E esse discípulo levou a mãe de Jesus para morar desse momento em diante na casa dele.” Depois da morte de Jesus, os discípulos se espalharam pelo Império Romano, tendo João ido para Éfeso, importante porto marítimo nas margens do Mediterrâneo. Levou consigo a mãe de Jesus. O guia pausou, como se esperasse por perguntas. Silêncio. Continuou...

   O mundo tomou conhecimento do local no século XIX, através das visões da irmã Anne Catherine, uma freira inválida e estigmatizada, que nunca havia deixado a Alemanha. Descrições feitas com grande riqueza de detalhes foram registradas em um livro publicado por Clemens Brentano. Em 1881, um padre francês descobriu as ruínas do que teria sido a casa descrita pela religiosa. Embora datada do século VI d.C., as fundações originais comprovam sua construção no século I d.C. Outra expedição através da mesma descrição do livro, descobriu que era um centro de adoração há séculos, por pessoas que se diziam descendentes dos "Cristãos de Éfeso". Acreditavam que a Virgem Maria viveu e morreu nesta casa. Faziam peregrinações anuais a cada 15 de agosto. Concluiu explicando a veneração dos turcos pela Mãe de Jesus, a mãe de Isa, Jésus, o penúltimo profeta. Aquele que os mulçumanos acreditam ter profetizado a vinda de Maomé.

   Rastreamos nossa mente, tentando resgatar memórias de textos e livros sagrados. Imbuídas robustamente na nossa imaginação, poucas lembranças. João, o favorito, encarregado de proteger a mãe de Jesus. Escondeu-se em Éfeso, numa casa com vistas para o mar. Subíamos a montanha. Estrada revestida por pinheiros mansos e fragrantes. Escombros de uma muralha que defendia a Éfeso, à nossa direita.

   Chegamos. Caminhamos em direção a pequena capela. Santuário dos católicos e muçulmanos. Bebemos a água da fonte, quem sabe da mesma fonte que saciou a sede da Virgem Maria. Quanto mais nos aproximávamos, mais profundo o silêncio. Não ouvíamos vozes, ruídos ou mesmo o canto dos pássaros.

   Altar simples, velas acesas, atmosfera de paz. Economizando nossos passos. Aproveitando cada momento, cada segundo. Estávamos na casa da Virgem Maria, mãe de Jesus. Ela estava presente, sentimos sua benção. Acendemos uma pequena vela, de vida.

   Ao sairmos, deparamos com pessoas em frente a um muro, colocando pequenos bilhetes com mensagens de agradecimentos e pedidos. Lembramos da nossa mãe, portando sempre seu mural particular no colo. Deixamos os nossos, partimos em silêncio...

   Turquia 2007

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A saga do corneteiro e do mineiro do Atacama...

Médico completou a avaliação clínica, resultados dos exames de laboratório, laudos de raios-x e ECG. Com um pigarro, parte de rotina, pediu nossa atenção: “Apto”. “O senhor pode viver e trabalhar na altitude de La Paz”, afirmou casualmente, como se viver a 3.660 metros acima do mar, fosse um pequeno desafio.

Aterrissagem em La Paz. A estranha austeridade da neve glacial do Monte Ilimani, contrastando com a diversidade das edificações da cidade que sobrevoávamos. Jamais esqueceremos a lassidão envolvente que sentimos ao desembarcar.  

Escritório do programa de ajuda humanitária às comunidades afetadas por “El Niño”. Corneta Mamani, pequena rua em forma de L, próxima à universidade; o centro do nosso universo. Enfrentando as incertezas geradas pela instabilidade política e econômica, corrupção e pobreza, adicionadas à dose diária de “soroche”, mal da altura. Imersos no caldeirão do subdesenvolvimento boliviano e em uma atmosfera rarefeita, sobrevivemos doze meses. Cumprimos nossa missão. Partimos. Levamos poucas lembranças da nossa passagem pelos Andes, afora a própria paisagem e pessoas amigas...

Carlos Mamani, 24, o quarto mineiro a ser resgatado, saiu da cápsula Fênix 2 às 4:30 horas do dia 14 de outubro de 2010. Boliviano, o único estrangeiro entre os trinta e três mineiros encurralados desde 05 de Agosto, a 700 metros de profundidade, na mina chilena de San José. Herói nacional do povo boliviano... salvo por chilenos. O sobrenome nos lembrou da rua, onde trabalhamos vinte e cinco anos atrás. Corneta Mamani, assim chamada em homenagem a um herói de guerra boliviano. Nada sabíamos sobre as façanhas que justificaram o galardão. Decidimos averiguar.

Companhias anglo-chilenas recusaram-se a pagar um aumento do imposto de exportação sobre o salitre extraído do Deserto de Atacama, na província boliviana de Antafogasta. Empresas confiscadas e postas à venda, reação imediata. A província foi invadida por tropas chilenas, dando inicio à  Guerra do Pacífico. Com apoio de uma forte marinha e de empresários ingleses, as tropas chilenas assenhoraram-se rapidamente do território boliviano.  As riquezas minerais do deserto e a costa do Pacifico, perdidas para o Chile.

Pascual Mamani, o corneteiro, combateu na guerra. Tropas bolivianas, apoiadas por seus aliados peruanos, lograram escalar um morro e capturar varias peças de artilharia chilena. 14 de Novembro de 1879.  Enfrentado forças numericamente superiores, causaram muitas baixas. Ensanguentado, perna fraturada, o corneteiro montou-se em um canhão chileno, tocando seu instrumento, pedindo reforços. Desorganizados, bateram em retirada. Morreu assim. Índio aimará, herói pouco reconhecido, morto em combate por soldados chilenos.

A saga do corneteiro Pascual e do mineiro Carlos, começou e terminou no Deserto de Atacama. Pontos extremos de uma cronologia de vicissitudes e miséria, causados pela derrota da Bolívia. Separados por cento e trinta anos de história, mas vitimas da mesma dicotomia de opressão e miséria que subjugaram os povos indígenas na conquista e que os mantêm na pobreza ainda hoje...

Mamani, o herói da guerra, defendendo a possessão de uma província rica em minerais, explorado por companhias estrangeiras. Mineiros indígenas, trabalhando em condições de semi-escravos. Seu povo morrendo na guerra e nas minas. E o outro Mamani? Votou com os pés. Escapou da pobreza boliviana, atravessando a fronteira para trabalhar nas minas do Atacama. Resgatado milagrosamente das entranhas da terra, sobreviveu para contar a história e colher os frutos do reality show produzido magistralmente pela mídia internacional.

Seduzidos pelo evento e potencial midiático, nos esquecemos de questionar as péssimas condições de trabalho enfrentadas pelos mineiros ou de deteminar a culpabilidade dos empresários e oficiais do governo responsáveis pelo desastre.

Os Atacamas e Aimarás, corneteiros ou mineiors, eternas vitimas... Agora, em real time e HD.

João Pessoa 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Era uma vez uma dançarina de limbo...

Parque Sólon de Lucena, começo da década de sessenta. Flores do ipê-amarelo, galhos secos recobertos de efêmero ouro, decoravam o solo do anel exterior. Círculo de palmeiras imperiais, plantadas simetricamente, prestavam sentinela ao precioso espelho de água no centro do logradouro. Pessoas, amantes, crianças, vendedores ambulantes, caminhavam sem pressa. Reflexos anônimos, sombras...

Ruído da multidão quebrava a beleza calma do crepúsculo. Cheios de antecipação. Orquestra de calipso, uma novidade musical, preparava-se para começar sua apresentação. Negros e mulatos da Guiana organizavam seus instrumentos, outros testavam o sistema de som. Espetáculo de música caribenha, sem rumbeiras em trajes diminutos, caldas de poás coloridas, turbantes enfeitados com plumas de aves exóticas. Sensualidade coberta de rendas e campânula. Requebros sinuosos, mambos frenéticos ou gritos primitivos de gargantas roucas por rum e tabaco, não estavam no programa.  

Homem franzino, roupa multicolorida, voz suave. Chamava-se Cy Manifold, crooner e líder do grupo. Gestos de mão estudados, apresentando seus colegas. Reverência em direção ao público. Sorrisos cintilantes, alguns iluminados por dentes de ouro. Explicação breve sobre os instrumentos, tambores de aço, “steel drums”, espalhados no pequeno palco. Cilindros feitos de aço, com o fundo moldado em concavidades de diferentes tamanhos, tocados com baquetas revestidas de borracha ou feltro. Mencionou algo sobre a escala cromática, poucos entenderam. Não importava, o clima era de festa.

 “Day-o Day-o...” “Come Mister Tally Mon, tally me bananas”, canção popularizada por Harry Belafonte, esquentando o público com algo familiar. Resposta entusiástica.  Prosseguiram viajando pelas plantações de cana, fabricas de rum e praias de areia branca da Guiana, Trinidad e Tobago. Carnaval caribenho na terra do forró. 

 Pequena pausa, instrumentos reordenados no palco. Cy Manifold, no centro do palco cantava a Ave Maria de Gunoud em Latim. Tambores de aço ressonando, música divina. Vozes dissonantes acompanhando os músicos, na alegria e na paz do momento. Tudo parou, até o vento. As garças dormiam...

Sancta Maria, Mater Dei,
Ora pro nobis peccatoribus
Nunc et in hora mortis nostrae
Amen...

Suspiro coletivo...

Retornamos ao Caribe. Barras paralelas sustentadas por dois bailarinos. Parafernália da “dança do limbo”. Mulher esbelta com mãos erguidas para o céu, movendo-se na direção dos pontos cardeais. Dançando lentamente diante das barras, inclinando o corpo para baixo, até as costas ficarem quase rente ao chão.  Grande finale...    

Entrada do Paraíba Palace Hotel.  Integrantes da banda preocupados, não haviam recebido seus cachês. O hotel insistia em pagamento imediato. Convocaram-nos como interprete. Resolvido o problema idiomático, chegamos a um acordo satisfatório. Convidamos o grupo para um almoço típico em nossa casa. Partiram para o próximo concerto...

Cy Manifold estabeleceu-se no Brasil, nunca voltou para a Guiana. Converteu-se em uma das vozes mais conhecidas da noite carioca. Termino da década de noventa, breve encontro em uma boate do Rio de Janeiro. Relembramos os dias de João Pessoa. E a dançarina, tem noticias dela? “Unforgetable, that’s what you are...”, cantarolou baixinho, imitação perfeita de Nat King Cole. Nunca respondeu a pergunta...

Conferência das Nações Unidas, Trinidad, quarenta anos depois. Recepção oferecida ao conferencista pelo ex-primeiro ministro e sua esposa.  Conversávamos sobre nossos países, experiências vividas. Mencionamos a banda de calipso, que havíamos conhecido no Brasil. Marlene, a dançarina de limbo, era natural de San Fernando, coincidentemente o distrito eleitoral do parlamentar.  Responderam entusiasticamente.  Promoveriam um reencontro, quem sabe um final feliz para um romance fugaz, imaginavam. DJ amigo comandou a busca, resultou infrutífera.  A dançarina não existia mais...

O cantor comemorou em 2007, os cinquenta anos de sua carreira artística acompanhado do seu filho Dover, em uma produção chamada “Uma viagem no tempo”, no Teatro Ipanema do Rio de Janeiro. 

João Pessoa 2010