NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Zé Carioca da Sunset Strip

Pequeno prédio de apartamentos na Avenida North Las Palmas, a poucas quadras da Sunset Strip. Ilha de simplicidade funcional alojando famílias e pessoas sem raízes ou planos de permanência na cidade, o bairro de Los Angeles chamado de West Hollywood. Calçadas cobertas de estrelas, carros de luxo e caras famosas, algumas, presas da memória minguante de uma fama distante e decrescente, só podiam ser reconhecidas com exagerada proximidade.

Morávamos no primeiro andar, com vista privilegiada para a piscina, retângulo azul no centro do pátio, quebrando a monotonia bege dos apartamentos. Grupo de idosos mantinha cadeiras de plástico posicionadas para observar o vai e vem do prédio. Congregavam-se perto do apartamento do Senhor Fisher, pai do cantor Eddie Fisher, ex-marido de Debbie Reynolds, Elizabeth Taylor e outras... menos famosas. Fotos do filho e de suas ex-mulheres decoravam sua sala de visitas. Regalou-nos um dia com chá e detalhes íntimos sobre os romances.

Nossos vizinhos: “The Girls from Bahia”, nome hollywoodiano do Quarteto em Cy; a direita uma atriz dramática, cujo trabalho se limitava ao papel de “sogra”, no seriado “Divorce Court”, odiava a música do chamado “Terceiro Mundo”. Atores e atrizes “classe B”, músicos de estúdio, tripulantes e aposentados completavam a população da “menagerie” do Senhor Schnyder, o truculento proprietário.

Bar restaurante na Sunset Strip, pequeno cartaz: “Brazilian Music Tonight”. Palavras sedutoras para um emigrante brasileiro. Entramos sem hesitação. Ouvimos o som de um cavaquinho, acompanhado de um violão e um violino, três homens idosos e um percussionista jovem. Apresentamo-nos durante o intervalo. Tínhamos diante de nos, três músicos que haviam acompanhado a Carmen Miranda na sua meteórica carreira nos estúdios de Hollywood. Zezinho Oliveira, o mais velho, era nada mais, nada menos, que o Zé Carioca de Walt Disney. Começamos nossa amizade naquele dia.

A crítica americana havia premiado com um “Grammy” ao encontro musical de Frank Sinatra com Antônio Carlos Jobim. O álbum perdeu apenas, em vendas, para “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Música brasileira pós-Carmen Miranda, havia estabelecido uma porta de entrada em Hollywood. Luiz Bonfá, João Gilberto, Walter Wanderley, Sergio Mendes, Sivuca, Dom Um Romão, Astrid Gilberto, Vanda de Sá, Rosinha Valença, Moacyr Santos e muitos outros apareciam freqüentemente em shows de televisão, clubes de jazz e alguns no Greek Theatre, a mais famosa casa de espetáculos de Los Angeles. O swing de Hollywood tinha a distinta sinuosidade da Bossa Nova.

Voltávamos sempre a Sunset Strip para ouvir Zezinho e seus companheiros. Quando na cidade, Sivuca nos acompanhava. Fato corriqueiro devido à presença de estúdios de gravação e calendário de concertos de Miriam Makeba. Verdadeiras viagens musicais, de Carmen Miranda a Tom Jobim.   

Frequentamos a casa de Zezinho, cheia de compatriotas, nunca faltava aos amigos ou a aqueles que necessitassem de ajuda ou de conforto. Tinham um costume maravilhoso, ele e sua mulher: mantinham um livro com os endereços e telefones de todas as pessoas que conheciam, em casa ou na noite. No Natal, enviavam cartões de Boas Festas para todos. Recebemos vários durante nossa permanência na África. 

Depois de uma vida dedicada à boemia e ao carinho pelos amigos e familiares, morreu há vinte e três anos. Seus sentimentos mais profundos de amor e amizade foram reservados a tudo que tocasse sua alma brasileira...  Zezinho, em uma única vida, foi homem, músico, papagaio de gibi e estrela de Hollywood – transcendeu a tudo isso, a magia do cinema americano e, inclusive, a Walt Disney... Em momentos de alegria, repetia constantemente a expressão “Too much... Demais!”.  

Todo Natal, relembro “demais” o amigo Zezinho, o Zé Carioca...

João Pessoa, 25/12/2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

No Reino da Pedra Mágica...

   Deitado de modo inconfortável no degrau da entrada do mercadinho, o menino dormia o sobressaltado sono dos inquietos. Longa noite no reino mágico do crack. Momentos de exaltação, sem ansiedade. Janissários dando a vida pelas “pedas” soberanas. Chagas nos braços, pés calejados. Moscas comutando entre olhos semiabertos e uma  fatia de bolo. Pessoas entrando e saindo. Evitam o corpo do menino, como se fosse um tapete de perdição.

Movendo-se sutilmente, um gato preto. Nariz no alerta, passos medidos. Caçador a procura de uma presa. Cheiro de galeto assado misturado com monóxido de carbono no ar. A hora do almoço se aproxima...

 Dia movimentado. Motoristas à espera de vaga no estacionamento. Impacientes. Sinaleiras piscando, buzinas tocando. Alguns irados. Impropérios. “Bombado”, flanela na mão, observa calmamente a situação. Mordomo da calçada. Acomodando veículos nas poucas vagas disponíveis. Gestos firmes, porém profissionais. Rei Salomão brincando com peças de Lego urbano. Sempre abrindo a porta do veiculo: “Doutor... doutora... fique à vontade”. Gorjeta na mão, pequena reverência ao partir. “Muito obrigado, vá com Deus”. Próximo...

Sentadas precariamente em cadeiras de plástico, três mulheres e duas adolescentes. Bacias no colo, cheias de vagens e feijão verde debulhado. Candidatas à lesão por esforço repetitivo. Pequeno corredor entre o mercadinho e os quiosques de frutas e verduras. Vala aberta escoando água suja, receptáculos de lixo orgânico. Gari tenta manter a higiene do local.  

 Policiais observam a cena, sem interagir com as pessoas. Conferem o mostruário de CDs e DVDs. Primeiros acordes de “Love me tender”, invadem a calçada. Elvis Presley amando de verdade, amando com ternura. Realizando sonhos. Troca de ritmo brusca: “Você não vale nada, mas eu gosto de você”... A calçada se alegra. Atendente da banca de jogo do bicho anota números no “pule”. Milhar 5-7-2-6, do primeiro ao quinto, por favor. Visivelmente embriagado, o apostador ensaia pequenos passos de forró.  

Mulher jovem. Bonita. Olhos sonhadores. Unhas pintadas em “verde fashion”. Corrente e pingente de ouro faux, com silhuetas de duas meninas. Arrumando rodelas de abacaxi em bandejas de isopor. Criança aproxima-se, pede dinheiro para comprar comida. Gesto de reverência e súplica. Banguela, mostrando sua “janelinha” com um sorriso cheio de desespero urbano. Estupor narcótico. “Fuinha”, um dos meninos de rua viciados em crack. Resposta imediata: “Pegue descendo”, na linguagem tão verbal das ruas. Epítetos, em resposta. Partiu em direção ao território mais fértil...

“Baixinho”, o parceiro de Bombado, almoçando na barraca da viela, no outro lado da avenida. Prato do dia: guisado com cuscuz, acompanhado de uma “bicada” de cana. Refeição terminada, moedas na pequena mesa. Hora de voltar ao trabalho. Caminha apressadamente em direção à lotérica. Entrega um pedaço de papel, com os números 03-11-27-40-52-60, a uma das “meninas”. Mega-sena, R$2.00. Preço barato para sonhar até o próximo sorteio.

Rumores, excitamento. Ocorrência do dia: farmácia próxima à loja de colchões, assaltada pela segunda vez na semana. “O moído foi grande... Três crianças, moradores de rua, assaltaram o estabelecimento com objetivo de roubar produtos para vender para comprar crack...”, anuncia o tabloide popular. Linguagem crua, simplista. Homem lendo o jornal em voz alta para uma roda de amigos. Reconhecem as crianças na foto. “Celebridades instantâneas na galeria universal da infâmia”. Morte prematura esperando acontecer...

Menino entrega um sanduiche a uma mulher. Distribuidora de panfletos anunciando um novo condomínio. Lanche embrulhado em plástico, com logotipo diferenciado. Esmola recebida de uma “doutora” na saída da padaria. Vendido sempre por R$1.50, pris fixe da rua. “Crack saciou sua fome, melhor do que estragar a comida”. Ato justificado.  

“O povo é besta”, falou a criança. Perdida em uma encruzilhada do Reino da Pedra Mágica...  

João Pessoa 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Enquanto a cidade dorme....

   Avenida Corrientes, Buenos Aires. Vultos genéricos movendo-se furtivamente na luz baixa do anoitecer. Decadência e pobreza empilhadas nas esquinas da vida. Homens e mulheres bailando o tango da sobrevivência em frente de bares, restaurantes e teatros. Ninguém sabe de onde vêm ou aonde vão. Casa número 000 de uma calle sem nome. “Descamisados” de alhures, “cartoneros” de hoje. Sobrevivendo à perversidade da globalização, criando uma economia paralela sustentável, com lixo reciclável.

   Homem magro, vestido modestamente. Acordeão em péssima condição, tocado sem grande interesse. Doações na caixa preta na calçada. Pessoas passam sem prestar atenção ou colocar moedas. Acordes de “Mi Buenos Aires Querido”, versos cantados pausadamente. Sabor de idos dias felizes misturado com nicotina e vinho barato. Paixão portenha abrigando a depressão urbana, sob o manto dourado de Carlos Gardel.

   “Bajo tu amparo no hay desengaño
   vuelan los años, se olvida el dolor...”

   Som de moedas caindo na caixa. O músico anima-se, ensaia pequenos passos de tango enquanto toca. Turistas brasileiros, armados de sacolas cheias de compras, caminham apressadamente. Barulho das rodas das maletas recém adquiridas. Litania de vendedores e cambistas tentando interagir com clientes. Ofertas na língua franca das ruas - todas as variedades e sotaques. Encolhendo os ombros, o homem suspirou como se dizendo: só tenho tango para vender. Continuou...

   “En caravana los recuerdos pasan
   como una estela dulce de emoción,
   quiero que sepas que al evocarte
   se van las penas del corazón...”

   Jantar no Hotel Panamericano, em frente do Obelisco. Meia noite. Trânsito movimentado ao redor do monumento. Decidimos caminhar por La Florída, rua de pedestres, até as Galerias Pacifico. Uma cidade sempre acordada na penumbra da noite. Corpos grudados contra o rodapé dos edifícios. Crianças brincando. Famílias empilhando material reciclável em cada esquina. Esperando por compradores, como se esperassem a Godot...

   Legião de quase 100.000 catadores de lixo, sem benefícios sociais, seguro ou equipamento de proteção industrial. Transformaram o país em exportador de cartão reciclado.

   Lembramos dos cristãos “Zabbaleen” do Cairo e dos Romani, os chamados Ciganos, do Leste Europeu, enquanto caminhávamos. Pessoas vivendo e trabalhando em verdadeiras “lixões”, no perímetro urbano. Negócio de comunidades marginalizadas. Olfatos anestesiados pela miséria e matéria orgânica em decomposição. Vulneráveis à hepatite e expostas ao tétano. Reciclando latas e cartões, gerando renda e empregos para milhares de excluídos. Aqueles que deveriam ser beneficiários de programas de alivio da pobreza, das Metas do Milênio, aliviando, sozinhos, sua própria miséria. Inadvertido paradigma do desenvolvimento sustentável.

   Regressamos ao Brasil no dia seguinte. Poucos carros ou pessoas nas ruas. Cheiro de maresia na solidão da madrugada.

   Vultos caminhando na calçada da orla. Carrocinhas precárias movidas por animais em condições similares. Pequenos grupos de pessoas, adolescentes e mulheres, catando e empilhando materiais. Fim de uma jornada que começou no fim da tarde, nas ruas movimentadas da capital. Tratamento desumano de animais, crianças desprotegidas reciclando o lixo dos que têm, fortalecendo a economia. Brasil, campeão mundial de reciclagem de latas.

   Pessoas humildes são verdadeiros outdoors daquela pobreza que gostaríamos que fosse invisível, catando lixo a céu aberto. Visões diárias que nos envergonham. Dão-nos pena, nada mais. Poucos os consideram ou os aceitam como protagonistas na luta pela sobrevivência do planeta.

   Lixo reciclável gera renda e emprego para mais de 700 mil pessoas. Cada brasileiro produz em média 920 gramas de lixo sólido por dia. A quantidade reciclada, na coleta seletiva ou por catadores, chega apenas a 2,8 kg por ano, por habitante. Centenas de milhões de reais jogados no lixo, literalmente. Hora de mudar.

   Crianças examinando latas de lixo de um restaurante e de um hotel próximo a nossa casa. Chegamos...

   João Pessoa, 08 de Dezembro de 2010

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Encontro na sombra do baobá

   O ritual do “kaffa” havia começado mais cedo. Chuvas torrenciais e enchentes. Inverno na Etiópia. Fogareiro de carvão no centro da sala, Rahel, a dona do quiosque, torrava café verde misturado com cardomomo, cravo e canela. Triturava os grãos num pilão rudimentar. Preparava o café em uma cafeteira cônica de flandre. Servia a bebida em taças minúsculas com um bule de barro. O café mais forte, sempre para os mais idosos ou os mais importantes.

   Hoje seria a nossa última visita ao quiosque. Rahel nos presenteou um pacote de grãos de café, que ela havia torrado e uma lata de mirra. Observou-nos silenciosamente enquanto degustávamos a primeira taça. Pôs uma cruz Amhara na minha mão direita, pedindo nosso silêncio com o dedo indicador tocando nos lábios. “Ata, tenho um mau pressentimento, muitas nuvens negras no horizonte. Se cuide!” Despedimo-nos de uma vez.Dehna hunu!” Partimos para o aeroporto. Embarque imediato para Lusaka, no outro lado da África...

   As nuvens negras nos seguiram. Pouso horroroso no meio de uma tempestade. Havíamos passado um mês em Lusaka, antes da missão em Adis Ababa. Regressávamos agora para fazer uma conferência para o empresariado nacional e consultas com a Missão da ONU. Terminamos tudo em quatro dias. Sobraram três dias para umas pequenas férias e a tradicional festa de despedida.

   “The Brown Frog”, o bar mais popular de Lusaka. Dançamos e bebemos até quase o dia amanhecer. Os homens em grupo, , sempre com um copo de cerveja na mão; as mulheres organizadas em pelotões, dançando em movimentos simétricos e de crescente complexidade coreográfica. Saiam da fila para dançar um solo, um pouco de marketing pessoal. “Gostou da festa?” Perguntou o colega ao deixar-nos no hotel.  Continuou, sem esperar a resposta. “O senhor não parece estar muito feliz, talvez um pouco perdido”. Declarou em seguida: “... quando nos sentimos perdidos na África, caminhamos em direção ao horizonte até nos encontramos. Por que não faz um safári antes de partir?” Uma pergunta e uma sugestão. “Soubemos que seu aniversário é amanhã, seu safári a pé já está reservado. É só dizer sim”. Confessou com um sorriso matreiro e um piscar de olho.

   Começamos o safári com os primeiros raios de sol. Guia e dois guardas armados; provisões para dois dias. O solo estava encharcado pelas chuvas, o rio Zambezi transbordando. Poucos animais apareceram.

   Encontramos uma família americana, perdida, descansando na sombra de um baobá. Enquanto o guia explicava o caminho de volta, entretemos a filha do casal. Chamava-se Annie, tinha três anos, olhos azuis e uma risada contagiante. Fizemos caretas horríveis, imitamos todos os animais conhecidos e desconhecidos. Cansou de brincar subitamente. Deitou-se no banco traseiro do jipe. Saímos para observar uma prole de leoas. Voltamos.  Partiram sem dizer adeus.

   Regressamos ao acampamento. A família americana tomava chá. Annie aproximou-se da nossa mesa, tocou no meu braço e gritou em direção aos seus pais: “This is the man!”. Responderam com uma gargalhada coletiva. Vieram em seguida à nossa mesa pra explicar o que acabara de acontecer, a razão do barulho. Havíamos sido escolhidos por Annie como o seu animal favorito da savana africana. O mais engraçado também. Vencemos contra todos. Concorrentes sérios como o gnu, o crocodilo, a girafa, o rinoceronte, o hipopótamo, até o Rei Leão.

   O céu estava limpo naquele dia, o horizonte visível. As nuvens negras haviam desaparecido. Primeiro dia feliz em semanas. Tocamos na cruz de Rahel. Descobrimos que não estávamos sós na sombra de baobá...