NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ai que sodade de Cesária

   Parcialmente escondido pela nevada que castigava Istambul, um solitário bistrô com poucas mesas ocupadas. Lugar ideal para absorver a história e a arte que tanto nos mesmerizara enquanto visitávamos a Mesquita Azul e a Basílica de Hagia Sofia. Música da Anatólia tocada discretamente no sistema de som, contribuía para nossa sensação de devaneio. O repertório musical mudou tempestivamente. ¨Cesária Évora¨, anunciou o gerente com um sorriso tímido, quase apologético, e um gesto dramático, a mão direita sobre o coração. ¨Miss Perfumado¨ havia conquistado o mundo com sua melancolia e a sodade de um mar azul bem distante... bem longe de São Tomé.

   Desoladas e castigadas pelas ventanias fortes e por séculos de opressão colonial portuguesa, as ilhas do arquipélago de Cabo Verde sofreram um empobrecimento tão profundo, que mais de um terço de sua população emigrou para o exterior. As mornas que Cesária Évora cantava serviam de testemunhas e ao mesmo tempo de protesto contra a pobreza do seu povo. Rosto severo como se enfadada com as coisas do mundo ao seu redor, sempre enfocada em sua missão.  A inimitável simplicidade de sua música confundia a muitos e agradava a todos ao mesmo tempo. Uma diva com os pés no chão – literalmente sem glamour, choques ou fricotes.  

   Ironicamente a diáspora cabo-verdiana, descendentes daqueles que o escritor Manuel Lopes chamou de ¨flagelados do vento leste¨, foram os primeiros a projetá-la na Europa.  Espalhando a mensagem sobre povos vitimados pela miséria causada pela escassez de chuva e cantando as belezas do seu país. Cabo Verde era para Cesária ¨[...] uma árvore frondosa sumida no meio do Atlântico, seus galhos espalhando-se pelo mundo [...]¨.  Foram eles que a levaram aos quatros cantos da terra.

   Cidade de Nova Iorque, Beacon Theatre, Novembro de 2001. Ainda traumatizados pelo 11 de Setembro, a plateia aguardava ansiosamente o inicio da apresentação de Cesária Évora.  Entrou sutilmente, começou a cantar quase despercebida, indumentária simples e aparência austera. Estendendo as mãos acariciantes das mornas sobre sofrimento, decepções e amor pela sua terra. Colo musical para uma cidade ainda vivendo a catarse de sua tragédia.  Quase total silêncio.

   Repentinamente, sentou-se a uma pequena mesa, tomou dois goles de café e acendeu um cigarro, como se estivesse em sua sala de estar. Permaneceu em silêncio por quase dez minutos, alheia ao mundo ao seu redor, ouvindo a banda tocar. Recomeçou... Finalizou com uma canção mais cubana do que uma morna tradicional. Público aplaudindo de pé, a diva aceitando o reconhecimento sem mudar de expressão ou fazer gestos de agradecimento. Deixou escapar um quase sorriso no canto da boca. . ¨Obrigada. Terminou. Obrigada¨.   Caminhou pausadamente em direção aos bastidores.  Ai que sodade de Cesária...

palmari@gmail.com

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Além do portal mágico da Serra do Moura

   Bananeiras é uma cidade privilegiada por um clima ameno, relevo europeu e uma rica história ligada intrinsecamente aos ciclos econômicos da região e à religiosidade do seu povo. Caminhando pelas suas ruas estreitas, cheias de casarões antigos ou por trilhas ecológicas, respirando o ar puro da sua natureza verde, o visitante se sente em comunhão com um passado que faz o presente tão atraente.

   Nosso amigo, um bananeirense convicto, imagina o corte rochoso no topo da Serra do Moura como uma espécie de portal virtual - um lugar mágico. Ponto de partida para seus vôos de imaginação pelos meandros e mistérios da adolescência. Narrativas mágicas que deleitam e enriquecem nossas imaginações. Sentimo-nos na companhia das musas de Bananeiras, verdes sempre verdes, guiando-nos pelas lendas das ruas, praças e veredas escondidas pelo nevoeiro ou perdidas nas falhas da memória.   

   O Cine Excelsior, um pequeno cinema na praça central, e um coreto construído sobre o canal que cruza a cidade criam o recanto fantasiástico por onde todas as suas histórias começam ou convergem. Foi lá que nasceu a sua paixão pela sétima arte. Doublé de censor e proprietário da casa, Padre José, assistia sozinho todos os filmes antes de serem exibidos ao público.  Munido de instruções precisas e religiosamente corretas, Zé do Padre, um projecionista de mão ossuda e nodosa obstruía todas as cenas que não haviam passado pelo crivo austero do seu mentor. Beijos, abraços, cenas de boudoir, às vezes uma mera troca de olhares entre um homem e uma mulher, eram bloqueados sem nenhum respeito à criação artística ou ao roteiro do filme. Hollywood sem sexo e sem sensualidade.

   Leques perfumados, acessórios de rigueur do público feminino, socializavam flagrâncias francesas com movimentos sutis, muitas vezes comunicando paixões ou mensagens românticas. A linguagem expressada em cada movimento escapava à censura do padre. Romance era possível em Bananeiras mesmo sem beijos, olhares ou abraços hollywoodianos.

   O filme ¨E o vento levou¨ mudou tudo. Acessórios femininos, mesmo aqueles perfumados, foram usados para ¨reservar¨ lugares para as senhoras da sociedade, madeira e tijolos marcaram assentos para os demais. O sistema causou grande confusão. Considerado  como favoritismo por muitos, o filme voltou a ser exibido ¨sem reserva de lugares¨.  O vento não passou em vão na Serra do Moura ...
palmari@gmail.com

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A morte do campo santo

   Pessoas vestidas em negro de pé sobre um monte de areia de uma cova recém-cavada. Cheiro de terra fresca misturado com o aroma pungente das flores das coroas fúnebres. Tristeza viajando com a brisa, cantos tímidos dos pássaros acomodando-se à lassidão do descanso eterno. Ruído de pás movendo terra, ocasionalmente um torrão de barro. Visão limitada pelas pernas dos adultos, um menino tentava observar a cena. O ataúde desapareceu, os coveiros partiram. Seu avô querido não era mais. Queria correr, desaparecer. Notou frutos dos castanheiros no chão. Chutou alguns distraidamente. Os adultos caminhavam juntos, bem juntos, como se colados pela tristeza. Dor comum ofuscando a beleza e a exuberância dos mausoléus da alameda central. Chegaram ao portal do Cemitério do Senhor da Boa Sentença. Abraços. Partiram sem nunca olhar para trás.

   Quatro décadas após o enterro, voltamos. Carro estacionado próximo à Praça da Pedra, seguimos pela Rua São Miguel em direção ao cemitério. Lembranças de uma frase pichada com letras e cores iradas do protesto: Pão, paz, terra e liberdade. Paramos diante do que restara do nosso cinema favorito. Imaginamos em silêncio os sinos da Igreja da Conceição anunciando a passagem dos cortejos fúnebres. Sentindo a fragrância enfadonha de incenso permeando a procissão com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Tudo havia mudado.

   Estávamos no palco central de uma tragédia urbana, a morte prematura da cidade antiga. Progresso desordenado, indiferente à nossa herança histórica, conspirava incontrolavelmente. Tudo e todos os vivos seguiam como uma enxurrada em direção ao mar. ¨[...] A praia vai matar a cidade, é uma questão de tempo [...]¨, nos dizia profeticamente o Tenente Lucena - recordação súbita diante do seu mausoléu. Argola e artefatos de bronze haviam sido removidos por usurpadores. Vandalismo, abandono e lixo - garras implacáveis esculpidas nos caminhos e nas alamedas. O cemitério havia se transformado no corpo e na sombra da moribunda cidade, vivos e mortos morrendo juntos.

   Com o advento das perdas biológicas de outros entes queridos, as visitas ao cemitério tornaram-se mais frequentes. Os tempos que havíamos compartilhado e a aproximação cultural das nossas faixas etárias renovavam a urgência de mantê-los vivos nas nossas memórias e tradições. O cemitério havia se transformado em uma enorme terra sem dono, nossos antepassados a mercê de pessoas indiferentes. Os mausoléus, prendas fáceis da luta de classe que continua após a morte.

   Cenas na televisão e crônicas recentes denunciaram o abandono e a corrupção que impera no Cemitério do Senhor da Boa Sentença.  A criminalidade que engolfou o pequeno cortejo fúnebre no sepultamento de uma ilustre paraibana expôs a triste verdade que gostaríamos de esquecer ou negar.  Lugar de descanso dos nossos antepassados e repositório da nossa história, o campo santo está morrendo, vítima do apetite insaciável de tudo aquilo que desafia ou subestima os princípios básicos da nossa tradição e cultura. Os atos de vandalismo e corrupção que ocorrem no cemitério são crimes, ferem os princípios de inviolabilidade do cadáver e a Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos remetem a uma atemporal Antígona que, desde a antiguidade clássica e em nome de leis superiores e não escritas, luta por dar digna sepultura aos membros da sua família...

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Amandla... awethu!

   Suntuoso prédio na Esquina da Rua Maude com a Rivonia, sede da Bolsa de Valores de Johannesburg, na exclusiva zona de Sandton. Marco zero dos investimentos e finanças da África do Sul.  Atmosfera tensa, lembranças das manifestações antiapartheid e da repressão violenta das forças de segurança do estado racista. Todos temiam o caos nas ruas, não queriam acordar os fantasmas do dos anos 70 e 80. Imagens de policiais reprimindo indiscriminadamente os protestos de jovens negros...

   Concertinas de arame farpado formavam barreiras de proteção nas calçadas. Carros da policia bloqueavam acessos a edifícios e ruas, controlando passivamente o progresso da marcha. Multidão multirracial acompanhava o evento com segurança, registrando os acontecimentos com câmeras digitais. Pétalas de jacarandá esmagadas pelos pés irados de jovens que carregavam cartazes de protesto multicoloridos. Cores do protesto pisoteando as cores da natureza. O líder gritava: ¨amandla¨.  Respondiam: ¨awethu¨. Poder para o povo!

   A vanguarda da marcha aguardava milhares de companheiros que convergiriam no local. Dançavam o ¨toi-toi¨, ritual de protesto usado nas manifestações contra o apatheid. Punhos irados contrastavam com o azul do céu e o lilás dos jacarandás em flor. Demandavam a divisão das riquezas da nação e mais oportunidades de trabalho.

   Os manifestantes pertenciam a Ala Jovem do CNA, o partido de Nelson Mandela no poder. Os policias e seus comandantes eram maioritariamente negros; os equipamentos policiais usados para controlar e proteger o trajeto da marcha excluía os Casspirs (caveirões) ou carabinas de calibre pesado. Usados outrora para reprimir demonstrações de desobediência civil contra o apartheid.  Os veículos haviam se convertido em produtos de exportação, para lugares distantes como o Brasil e o Iraq. O protesto terminou pacificamente.

   Chegamos ao Bairro do Soweto, à igreja Regina Mundi, refúgio de manifestantes e pessoas procuradas por resistência ao apartheid. Protagonista da luta pela equidade e justiça para a população negra. Nosso guia apontou em direção a um edifício de dimensões impressionantes, mesmo à distância. Igreja Brasileira! Igreja Universal, explicou. Continuamos a jornada sem nenhuma outra menção.

   Um ícone da luta antiapartheid in Soweto, o memorial Henry Piertson.  Adolescente morto em 1976 por soldados brancos em Casspirs blindados, converteu-se em uma das primeiras vitimas da repressão militar contra estudantes secundários negros. Protestavam contra a imposição do africâner, a língua do colono branco, nas escolas dos guetos raciais, conduzindo à morte de mais de cem estudantes desarmados. Fotografias e filmes dos embates galvanizaram a opinião pública mundial, seguido de um embargo econômico contra o regime racista. A memória do passado reforça a necessidade de manter um regime democrático e o direito de protestar pacificamente.

   A mobilização internacional contra o apartheid expôs os Casspirs nas grandes capitais do mundo, como símbolo maior da brutalidade e da repressão sul-africana. Depois de uma visita ao memorial Henry Piertson, é difícil entender ou explicar o uso dos caveirões, fabricados na África do Sul, nas favelas do Rio de Janeiro, como instrumentos de pacificação e como construtores de confiança da população excluída no estado brasileiro.  ¨Amandla... awethu¨. 

Palmarí H de Lucena                                                   palmari@gmail.com

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Nas curvas da savana


   Placa na curva da estrada: Malelane, Província de Mpumalanga. Anunciando nossa chegada ao refúgio mágico de um passado não tão distante. Chamado "lugar onde o sol nasce", simbolizando tudo que procuraríamos reencontrar na savana que ocupava a fronteira da África do Sul com Moçambique.  Animais selvagens percorrendo planícies intactas; pássaros multicoloridos e cantos diversos; rios e lagos, perigos e beleza. Sons do começo do dia, todos os dias. Polifonia selvagem anunciando mais uma surpresa. Sempre algo espetacular, na imprevisão e na espontaneidade de sua criação.

    Neblina escondendo os mistérios do Rio Crocodilo.  Penetravam a cortina cinzenta, pequenos fachos de luz tocando o capim novo, com leveza. Quinhentas espécies de pássaros anunciariam o amanhecer pela vastidão da savana. Pássaros brancos grasnam na margem oposta, anunciando a aproximação de hipopótamos ou qualquer outra espécie. Conhecidos pelo nome ¨tchiluanda¨, pousam no dorso do animal, que aceita a companhia na maior docilidade, não demonstrando nenhum desagrado. Aqueles que pousam, comem os parasitas que se inserem nas peles dos que comem o capim verde. Comensalismo, harmonia na savana.
  
   Partimos ao nascer do dia. Entraríamos no Kruger Park pelo ¨Malelane Gate¨, a oito quilômetros da River House Lodge, nosso lugar de hospedagem na margem do Rio Crocodilo. Completamos as formalidades. Apontamos nossa picape na direção da savana, sem saber exatamente o que poderia acontecer ou que animais estariam na área do nosso percurso, 200 quilômetros. Viajávamos em silêncio. Nosso guia sussurrou um alerta: “leopardo às 10 horas” - usando o mostrador do relógio como uma bússola. Sentado em um galho de uma arvore seca, uma espécie maravilhosa do predador. Garras enterradas firmemente no que restava da presa, um pequeno antílope. Parecia enfastiado com a nossa presença...

   Continuamos a jornada. Deparamo-nos com uma hiena deitada na estrada ao contornarmos uma pequena curva. Outras cinco cheiravam o chão farejando leões. O fedor de carniça, misturado com o hálito e as bocas ensanguentadas dos animais, sugeria que a noite havia sido proveitosa. Estavam bem alimentadas, mal notaram nosso veiculo a uma pequena distancia.

   Girafas, zebras, elefantes, gnus e antílopes. Aves exóticas, algumas ao borde da extinção. Notávamos e fotografávamos todos, alguns cursoriamente, sem ordem de precedência. Engolfados em matizes e víeis da natureza, penetrávamos os segredos da savana sentindo-nos confortavelmente humanos na presença dos perigos e tribulações da jornada.

   Outra curva. Casal de leões acasalados à sombra de uma árvore precariamente verde. Continuando o ciclo da vida. Continuando... Sequestrados em territórios cada vez menores, sobrevivendo à lógica do progresso humano nas curvas da savana.

   Palmarí H. de Lucena                                            palmari@gmail.com

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O pilão de Dona Josefina e outras mulheres

   Conversamos sobre coisas do passado, quase sempre o passado. Viajando a distância na estrada da memória, sem mapas nem guias. Lembranças de acontecimentos ou pessoas armazenadas virtualmente, sem nenhuma cronologia específica na cápsula de tempo. Mãe e filho e sete décadas de convivência. 
    
   Mera menção ao aroma de café batido em pilão.  Aroma forte, servido em um bule preto de fumaça. Recordando sua mãe Josefina. Pilando café com manjirioba no quintal. Café donzelo:  novo, quente e forte. A primeira xícara, servida a uma vizinha favorita ou a um visitante. Movendo os olhos na direção do topo da cabeça, como se procurando algo secreto, perdido há muitos anos. Mais lembranças surgiam...

   Ellen e sua prima pilando sorgo e milho no quintal. Batendo os grãos alternadamente, ao som de uma melopéia que dava ritmo aos movimentos. Parte do ritual do amanhecer na África. O ritmo e a cantoria traziam lembranças de um Brasil distante. As batidas nos seguiram por muitos anos. Algumas vezes deixaram de existir, o progresso havia chegado trocando o ritmo por ruído.
  
   Mulheres sentadas em um semicírculo em um pequeno vilarejo em Gana. Discursão animada sobre o motor diesel que haviam comprado com o lucro das vendas de bolsas, sutiãs reciclados como bolsas, haviam silenciado os pilões. Guardavam todos como relíquias em um quarto de despejo, ainda não estavam seguras do poder e da utilidade do motor. Depois viriam as bombas d’agua, mais progresso. Os dias seriam mais longos, mais tempo para fazer outras tarefas na casa e no campo.  Trabalho substituindo trabalho.  Estavam entusiasmadas, mesmo assim. Teriam eletricidade eventualmente, escola de alfabetização e creches. Tudo mudaria, até a ingrata divisão social de trabalho que oprimia as mulheres.

   Viajamos pela extensão do Mali, país em forma de uma borboleta. As batidas do pilão nos acompanhavam, sempre anunciando o amanhecer. O ritmo, invariável, era idêntico ao que ouvíamos nos quintais das nossas casas, no quintal de Dona Josefina. No futuro, mais progresso, teriam seus próprios motores, que chamavam de a nora que não fala.
   
   Jovem mulher moçambicana discutindo os preparativos para o seu casamento. Esperava ansiosamente pela conclusão das negociações sobre o valor do lobola (dote), a ser pago pela família do noivo. Firmariam a data do enlace após ser lobolada. Receberia um pilão, como ditava o costume, no dia seguinte ao casamento. Gargalhadas ao redor da mesa. A ideia de uma recém-formada em direito, pilando milho todas as manhãs, parecia algo hilário e distante.  Quanto ao dote, o senhor progresso ainda não havia encontrado um substituto.
   
    Voltamos às nossas lembranças... Massa para o cuscuz, bolo de milho ou xerem, batida no pilão. Café torrado pilado como o milho e a paçoca, sempre por duas mulheres trabalhando horas e horas no mesmo pilão, estilo caçula. As batidas do mundo globalizado de alhures, pilões trazidos da África pelos navegadores portugueses e postos em uso por índios e negros, silenciados pelo progresso. O aroma e os amanheceres nunca mais seriam os mesmos...

Palmari H de Lucena                                                         palmari@gmail.com

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Pura vida!

   Costa Rica, pequena e pacífica.  Esquina tranquila.  Imune às guerras civis que punham em risco o  futuro da região. Lugar básico, sem grandes complexidades ou desafios. Terra do diminutivo.  Expressavam-se nos chamados tiquismos - sempre um “poquitito” ou um “minutito” de algo ou de alguém. A narrativa só mudava quando o assunto era a democracia. Venerada e defendida energicamente, sempre com superlativos e hipérboles.  A expressão “pura vida”, repetida constantemente,  unia-se a todos os sentimentos de orgulho cívico e patriotismo costarriquense.

  Terra de contradições. O exercito foi abolido em 1948, pelo presidente da junta revolucionário estabelecida pelos vencedores de uma sangrenta guerra civil.  A guarda nacional e a rural são as únicas forças uniformizadas. Os membros do legislativo unicameral são eleitos por um termo de quatro anos. Dois partidos políticos; Liberação Nacional e a Democracia Cristã comandam mais de 95% dos votos. Os revolucionários haviam criado uma cultura de civismo e comportamento democrático, sem usar a força do fuzil.

   Chegamos durante o período eleitoral de 1985.  As campanhas partidárias lembravam-nos  de torcidas organizadas. Voluntários aglomerados nas esquinas e ruas distribuíam propaganda politica, acenavam bandeiras, cantavam. Vestidos em verde e branco ou em vermelho e azul. Todos os membros da família participam. Disneylândia democrática. Depois das eleições, o povo se retiraria às suas casas. Tudo voltaria ao normal. Deixariam os eleitos governar, sem animosidade pessoal entre os vencedores e os derrotados. O importante era preservar a democracia.

   Milton Nascimento referiu-se a Costa Rica, como a terra do coração civil. Desejando o mesmo para o  Brasil. “[...] Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço [...]”.

    A Costa Rica, democrática e desarmada, corria o risco de ser dragada pela escalada dos conflitos militares e pela instabilidade política na região. Oscar Arias Sanchez assumiu a presidência de Costa Rica, em 1986, propondo Imediatamente uma solução pacífica para os conflitos. O Plano de Paz Arias de 1987 criou um marco contextual para negociações, democratização, desmilitarização e reconciliação. Recebeu o  Prêmio Nobel da Paz de 1987.

   Precisávamos mobilizar o apoio dos bispos católicos norte-americanos, em contrapeso às políticas intervencionistas do governo do Presidente Reagan. Movemos rápido. Delegação da agencia de ajuda humanitária católica, apoiou explicitamente o processo de paz e comprometeram-se a dar apoio financeiro e logístico às comissões de paz e reconciliação nacional, presididas pela Igreja Católica.  Éramos parceiros na busca pela paz.

   Partimos em 1989, o processo de paz estava engatilhado. Os fuzis silenciaram anos depois. A paz e a civilidade venceram. “Pura vida!”

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Passagens por Moçambique

   Estávamos mais uma vez preparando-nos para deixar Moçambique. Rituais de partida. Decidimos caminhar ao redor da quadra em que vivêramos na Rua Francisco Magumbwe.  Volta olímpica sem o troféu da vitória ou o bramido da multidão. Chegamos à esquina da Rua de Mukumbura, paramos diante do magnifico casarão dourado do Serviço Meteorológico. Sentinela desarmada, guardiã da história da cidade, não importava qual vestimenta: Lourenço Marques ou Maputo. Testemunhando os caprichos e as extravagâncias climatológicas da natureza, que nem sempre portavam as consequências benéficas almejadas pelo povo, cansado da guerra e das calamidades naturais. 

   ¨Ministério das Calamidades¨, anunciava a placa. Recebendo e distribuindo ajuda humanitária. Quarenta e três jipes novos de organismos internacionais estacionados no pátio dramatizavam a situação precária do país.  Lamentavelmente, os doadores permitiam  que Moçambique continuasse a guerra, sem condicionar a ajuda à resolução pacífica do conflito armado. Guerra, enchentes e o programa de ajustamento estrutural do FMI conspiravam para infligir miséria e desespero, indiscriminadamente. O amanhã era a única coisa palpável, sempre amanhã. Sobrevivência ofuscando a sapiência.  Melhor viver sem saber do que saber e morrer, parecia ser o refrão do coro grego da tragédia moçambicana.  O ano da nossa primeira visita, 1989.

   Voltamos várias vezes.  Chegávamos apreensivos, partíamos deprimidos.  Em uma das viagens, decidimos visitar nosso amigo, o escultor Alberto Chisano. Procuramos o único taxi disponível, em frente ao Hotel Polana. Taxista português: homem truculento e obtuso, cuja obsessão pessoal era polir continuadamente uma Mercedes-Benz antiquíssima. Levar-nos-ia à casa do artista no bairro da Matola, porém não esperaria, caso não estivéssemos ao portão da casa antes das 17 horas. Demandou pagamento adiantado, ida e volta. Clima de guerra: toque de recolher não anunciado às 18 horas. Penumbra e perigo compartilhavam o mesmo espaço. O país encontrava-se em curso de colisão frontal com o futuro. A única esperança era que um dia as perdas ficassem insuportáveis para ambos os lados do conflito. Cansaram de lutar em 1992, a guerra civil que durara dezesseis anos terminou. Não regressamos até os meados da primeira década do novo milênio.

   Acalentados pelo barulho das ondas do Índico, cogitávamos sobre o futuro.  O nosso e o de Moçambique.  Quebrando a linha do horizonte, pessoas em vestimentas de cores diversas, decoradas com símbolos como a cruz, as estrelas ou a lua. Cantavam e dançavam ao ritmo de tambores. Profecias, curas, tudo era possível. Repetiam o ritual todos os dias. Eles gritavam, nós olhávamos. A vista mudou um dia. Doze modelos sul-africanas, todas brancas, esbeltas e fúteis, invadiram as areias que nos separavam do mar e dos religiosos. Ensaio fotográfico para uma revista esportiva. Competição pacifica entre a cruz e a carne. Nenhuma das partes declarou-se vencedora.  O mar venceu...

   O artista Malangatana, homem da Renascença. Fazia tudo com a coragem do seu sobrenome e a humildade da sua origem. Conhecemo-nos em Harare há quinze anos. Nosso primeiro reencontro. Conversamos por horas sobre as novas possiblidades das artes moçambicanas, crentes do poder curativo da paz. Recomendou-nos uma exposição de arte, com esculturas criadas por jovens artistas com metal de carabinas AK 47s, minas de guerra e armas de mão. As obras expressavam a capacidade e a criatividade do ser humano de reconciliar-se com o passado. Um milhão de mortos. Muitas armas ainda matavam. Deparamo-nos ao sair com uma bandeira moçambicana.  Símbolos da nação: uma Ak-47, uma enxada e um livro aberto. A luta continua!

   Partíramos de Nova Iorque três meses antes. Mudamos para a casa da Rua Francisco Magumbwe, um sobrado colonial chamado Casa da Alegria, após uma breve estadia no hotel. Servira como câmara de descompressão antes de chegarmos à tona no Brasil, nosso destino final e porto seguro. ¨[...] O céu lá é mais azul... ¨, declarou o cozinheiro Vasco ao nos despedirmos.

Palmarí H. de Lucena                                            palmari@gmail.com

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Resgatando Fernanda

   Policiais conversando animadamente. Taças de cafés e fatias de bolo decoravam o balcão de fórmica. Lanche no meio da tarde, momento de descontração. Motocicletas estacionadas na calçada do estabelecimento. Padaria na periferia da cidade. Bandidos, policiais e famílias compartilhavam o mesmo espaço. Cresceram juntos; caminhos diferentes...

   Bamboleando na calçada estreita, uma menina segurando a mão de uma jovem mulher, sua irmã por adoção. Repetindo a palavra chocolate, como se fosse um mantra. Chegaram à porta. Policial sorriu em direção ao par, o sorriso da criança desapareceu subitamente. Sentia medo, falou em tom confidencial: ¨[...] vamos simbóra, aqueles homens quebram as portas das casas e mata os pais da gente, quero voltar pra casa!¨ Soltou a mão e correu na direção oposta. Sentou-se no meio fio, chorava incontrolavelmente. A irmã tentou assegurá-la de que não estavam em perigo, ¨[...] policiais só matam os bandidos¨. Pânico súbito, o pai da menina estava na prisão por homicídio e tráfico de drogas.  Desconexão entre sua própria realidade e a verdade dos fatos. Surrealismo cruel. Voltaram à padaria. Os policiais partiram. Sirenes estridentes ofendiam os ouvidos. Bandidos, bandidos, bandidos...
   Mulher grávida acompanhada do irmão e de uma filha menor. Abraçou timidamente a coordenadora da pastoral da igreja. Os olhos tristes diziam tudo, carecia de ajuda. Conheciam-se há anos, desde a outra gravidez. Pessoas da comunidade à margem da BR-230, frequentavam a igreja aos domingos. Crianças daqui brincavam com as crianças de lá. Opção preferencial dos menos pobres pelos mais pobres. O resgate de Fernanda começara antes do seu nascimento.
    Dia feliz. Bebê passado de mão em mão, como uma bandeja de doces. Família festejava na pequena sala da casa modesta. Sentada diante da televisão, a mãe comia distraidamente. Partiram no fim da tarde. Voltavam sempre no final da semana. Passaram-se meses assim. A família demandou uma decisão. Finalmente entregaram a criança para a guarda da família substituta, sem formalizar a adoção. As visitas tornaram-se infrequentes, mesmo aos domingos. A mãe evitava o tópico da legalidade, quando entabulado.
   Mulher idosa apareceu no portão, avó materna da criança. Estava satisfeita com o zelo com que tratavam a neta, porém precisava do dinheiro da bolsa família. Queria a menina de volta, sua filha deixara de contribuir para o orçamento doméstico. Propensão marginal para o consumo diário, mais uma vez, determinada pelas prioridades dos adultos. Ciclo da pobreza intergeracional permaneceria inquebrável na casa de Fernanda.  Partiram.
    Duas crianças sentadas na calçada, no outro lado da rua. Fernanda! Um grito de reconhecimento. Duas mulheres jovens mal continham o entusiasmo. Pediram que se aproximassem ao portão. Algo havia mudado, notaram imediatamente. Embrulhadas precariamente, seus modestos pertences diziam tudo. Fariam os trâmites requeridos depois, prometera a mãe. Fernanda estava de volta, desta vez para ficar, ainda que sem a desejada adoção. Quatro anos passaram-se...
   Parentes de Fernanda circulam na comunidade. Seu tio, um adolescente que brincava com suas irmãs adotivas, abandonou a escola e a convivência social. Assaltante e traficante de crack, aterrorizando pares e vizinhos indiscriminadamente. Alcoolismo e outros flagelos da mente e da pobreza escravizam quase todos os adultos da família. Cane mangia cane...
   Criança tímida, problemas com o desempenho escolar e socialização. Herança maldita da disfuncionalidade e pobreza da família em que nasceu. Experimentando dificuldades em ajustar-se à nova realidade. A mãe biológica, visita esporadicamente. Precisa de subsídios para justificar a bolsa família. Coleta informações sobre frequência escolar, saúde preventiva e outros requerimentos. Parte sem dizer quando volta, talvez um dia nunca volte.
   O resgate de Fernanda continuará...

     Palmarí H. de Lucena                                                  palmari@gmail.com

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Cigarros e carabinas Kalashnikov

    Noite de verão no Cabo Branco. Céu limpo, lua cheia, plantas aguadas. Brisa do oceano tocando acordes de ¨Amazing Grace¨ nos sininhos da cobertura. Tigela cheia d´agua com pedrinhas de gelo refrescavam frutas diversas. Boa garrafa de Sancerre, temperatura perfeita.  Django, Grapelli, MJQ, Miles: presentes! Conversa ab libitum, sem nenhuma pressa ou seriedade. Manuseávamos nervosamente um cigarro, o último da carteira.  ¨[...] nicotina faz mal à saúde, por que você ainda fuma?[...] falta de compromisso com você mesmo.¨  Silenciamos. Cigarros nos salvaram a vida várias vezes, comentamos distraidamente.
   Tensão na pequena sala de conferências, nuvem de fumo acinzentava ainda mais o ambiente. Responsáveis pela ajuda humanitária tinham dois problemas: a fome que se alastrava pelo país e a apreensão arbitrária por soldados e paramilitares de alimentos e medicamentos doados. Os últimos a chegar, um sargento revolucionário comandando quatro oficiais e um soldado. Depositaram suas carabinas de assalto AK-47 sobre a mesa. Tinham pressa. Ouviram-nos impacientemente. ¨[...] a justiça revolucionária punirá energicamente saqueadores de carga humanitária.¨ Levantaram-se, reunião concluída. Partiram em fila indiana, armas nas mãos.  Decidimos não mencionar um incidente com outros soldados que confiscaram nossos pertences na estrada entre Gana e Togo.  Terminou sem violência, apesar de ameaças com armas de fogo.  Nossos cigarros Marlboro se converteram em cachimbo da paz. 
   Viajávamos pelas estradas precárias do Distrito de Chokwe, Moçambique. Rebeldes haviam saqueado um leprosário católico, estuprado pacientes e ameaçado as religiosas. Anoitecia. As péssimas condições e os perigos da estrada aumentavam. Chegamos a um pontilhão improvisado, paramos para fazer  um reconhecimento antes de atravessar. Ouvimos uma voz na escuridão. A única palavra que entendemos foi “muzungo”: homem branco. Apareceu a figura de um adolescente empunhando uma carabina AK-47 apontada acintosamente na nossa direção. Demandou que virássemos de costas, com as palmas das mãos voltadas para o ar. Aproximou-se. Sentimos o  cano da arma na nuca. Perguntou se  fumávamos, respondemos que sim.  Percebemos sua satisfação quando apressadamente, confiscou nossos cigarros.  “Kanimambo!”: obrigado. Pareceu-nos que ia partir. Esperamos em inconfortável silêncio. Aventuramos um olhar de soslaio.  Confirmamos que estávamos sós. Prosseguimos nossa viagem, sofrendo uma semana de abstinência de  nicotina. Sobrevivemos.
   Relembramos outros momentos de perigo. Mundo povoados por clones de crianças- soldados. Armados com uma AK-47, cigarro entre os lábios e inocência perdida nos olhos. Passaportes para uma morte instantânea ou dolorosamente longa. Sobreviventes de conflitos armados vivendo em pobreza abjeta. Pensamentos distantes. 
    Retornamos à nossa adolescência. O dia em que fumamos nosso primeiro cigarro, marca Astoria. Fazendo pose de adulto, cigarro entre os dedos indicador e médio da mão direita. Gesto elegante. Soltando a fumaça e gingando rua afora. Quatorze anos de idade, costas franzinas carregando o peso insolente da adolescência. Propulsionando nossa marcha, vapores nocivos e aroma agradável. Desatentos aos perigos da jornada.
   Voltamos ao presente. Odor desagradável de tabaco e filtros queimados invadia a sensibilidade dos nossos olhos e narinas.  Repugnados pela transformação; ofendidos por nossa própria estupidez. Tentaríamos deixar de fumar, pela enésima vez. ¨É preciso demonstrar compromisso com você mesmo cuidando da sua saúde [...] antes de demandar o compromisso de outras pessoas com você [...]¨. A frase nos perseguia acintosamente... Deixamos de fumar naquela noite. Cigarros nos salvaram a vida muitas vezes, havia chegado a hora de preservá-la.  
   Sobrevivemos. E as crianças-soldados? Desapareceram como fumaça?  
Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 18 de setembro de 2011

A doce música mecânica

    Misturando-se sempre no Varadouro, fieis e prostitutas desfrutando o ensolarado dia de descanso. Sempre e nunca aos domingos. Nossa missão: fotografar o Hotel Globo, prédios e casas antigas ao largo da Praça Antenor Navarro e da Rua da Areia. Primeiro projeto do curso de fotografia.  Click, click, click. Uma fotografia é muito diferente do que você pensa que fotografou, repetia nosso professor ad nauseam.  Seguíamos zelosamente sua orientação. 

   Paramos diante da antiga fábrica de refrigerantes Doré, na Rua da Areia. Fios elétricos, casas em péssimo estado de conservação, carros estacionados. Cenário pouco propício para uma fotografia de qualidade. Continuamos nossa caminhada na direção do topo da ladeira. Decadência social, cultural e patrimonial nos cercava. Museu ao ar livre, exibição permanente sobre a vida e a morte de uma das áreas mais exclusivas da cidade. Peças e vestígios de abandono e desprezo... entrada franca!

   Observamos um objeto metálico e de bom tamanho na calçada de uma casa antiga, próxima ao nosso destino. Decidimos examiná-lo através da teleobjetiva. Miragem urbana, uma linotipo. Fria, enferrujada, velha, abandonada.  Fotografias antigas, todas em preto e banco apareceram na memória. Cheiro de tinta e vapores de chumbo no ar. Poucos tinham ideia de para quê servia a geringonça, uma relíquia sem grande importância no mundo globalizado.

    Mal lembrávamos que a linotipo fora inventada em 1884 por Ottmar Mergenthaler. Revolucionou o ramo de publicações e a educação. Composição tipográfica rápida e a baixo custo alavancou o crescimento da grande imprensa mundial. Lamentavelmente, também causou o desemprego de mais de trinta e seis mil tipógrafos nos Estados Unidos, em seus primeiros quinze anos. Assim nasceu a profissão de linotipista.  Sentados diante de fornalhas, homens suados, olhos fixos em textos, mãos navegando as corredeiras e os perigos do teclado.

   Boletim escolar aberto sobre a mesa, anotações revisadas pausadamente. Havíamos chegado a uma junção da adolescência, que tanto temêramos. A hora da verdade: Reprovado. Suor e a vermelhidão no rosto do leitor. Antecipávamos um ano escolar cheio de restrições e vergonha. Frequentaríamos a mesma classe com alunos mais jovens, aqueles que antes menosprezávamos por conta de um ano de diferença de idade. O pior estava por ser anunciado. Trabalharíamos a noite para aprender um oficio, caso nosso desempenho escolar nos levasse ao fracasso acadêmico. Estávamos em plena década dos 50s.

   Começamos no jornal como office boy. Entregando textos, fazendo mandados para os redatores e servindo cafezinho. Outro rapaz chamado Biu Ramos, havia sido contratado como datilógrafo da redação. Éramos de Jaguaribe. Datilógrafo! Palavra senha. Biu datilografava textos ditados por redatores. Ouvíamos interruptamente o barulho de metralhadora da máquina Underwood. Cafezinho! Mensageiro! Alguém chamava, sempre alguém. Levava ou trazia algo para os linotipistas. Lembramo-nos quando entramos na sala pela primeira vez. Máquinas vomitando blocos de texto, calor infernal, mesmerizavam-nos. Pura magia. Tabletes de uma nova Babilônia, gravados em metal quente. Passávamos horas na sala das linotipos, seduzidos irremediavelmente pela doce música mecânica...

   E a linotipo na calçada? Quantos livros, poemas, crônicas foram produzidas por ela?  Seria a mesma que despertou a nossa paixão?

Palmarí H. de Lucena                                             palmari@gmail.com

domingo, 4 de setembro de 2011

Tenente Lucena no maracatu de Gaddafi

    Folclore, palavra mágica na concha acústica que chamávamos de nossa casa. Cantavam, dançavam, declamavam. Dentro de alpargatas, marcando o ritmo, pés calejados e precariamente espremidos. Menestréis de rua; índios africanos, cangaceiros e marinheiros da nau. Conviviam juntos, o audacioso, o imaginário e o absurdo. Poetas loucos; loucos poetas.  Todos bem embrulhados e atados com o barbante da cultura do povo. A realidade se perdia entre nuvens movidas por cânticos e lamentos de terras distantes. Fragrâncias da África misturando-se com o cheiro de terra úmida da Mata Atlântica.

   Partimos, voltamos, partimos.  Moto perpétuo. Vida girando ao redor de si própria, diminuindo em cada giro. Convergindo no infinito possível das nossas imaginações, pai e filho desfrutando suas vidas assimétricas. Passaram-se os anos. Cada visita, novas descobertas. [...]Quero saber o que seus olhos viram desta vez, começávamos assim. Instalado confortavelmente numa cadeira de balanço, mãos cruzadas sobrea a barriga. Olhos semiabertos, duas réstias de luz brilhando intensamente. O mundo ficava pequeno.  

   Tenente Lucena, Grand Vizir do pequeno terraço. Guardião da porta, Sublime Porta do popular e do genérico. Artistas, ex-presidiários, meninos de rua, músicos folclóricos e de bandas de música, torcedores do Flamengo, cegos, surdos e mudos. Seu Belarmino, negro, pobre e doente, factótum, por falta de melhor designação, testemunhava as histórias com respeitosa distância.

   Algo havia mudado. Rosto e corpo mostravam a verdade. A verdade que ninguém queria aceitar. A sigla CA, duas letras do bê-á-bá explicavam tudo, sem a cadência melódica de vozes infantis. Conversamos sobre as sutilezas, malefícios e limitações impostas pela doença. Ira e tristeza superavam outros sentimentos.  Mudança brusca de tópico: [...] E a África, meu filho? Conversamos sobre nosso primeiro ano em Gana. Animado, solfejando baixinho, sons da nossa herança musical africana. [...] No próximo ano em Acra!  Prometemos.

   Finalmente a África. Música senegalesa tocada soberbamente em um instrumento de cordas, chamado de korá, enchia a noite. Orgulhava-se de ser músico, poder comunicar-se com pessoas de todas as raças e lugares. O pentagrama de Guido d'Arezzo não precisava de dicionário ou intérpretes. Estávamos em Lomé, Togo. Hospedados no Hotel 2 du Février, suítes presidenciais luxuosas. Eyadéma, o ditador, construiu o hotel na esperança de que Lomé fosse designada a sede da OAU. Escolheram outra cidade. Sentíamo-nos presidenciáveis à cinquenta dólares por dia.

   Telefonema urgente da segurança do hotel. Detiveram um homem branco agindo suspeitosamente no centro de convenções. Tinha o nosso sobrenome, Lucena. Penetrou indevidamente à conferência de um grupo de árabes e africanos, que compunham uma frente de vigilância e confrontação contra o colonialismo, o imperialismo, o capitalismo, o racismo e outros males. Gaddafi, proeminente entre os participantes. 

   Chegamos ao lobby, o rosto pálido do Tenente Lucena perdido em uma floresta de óculos escuros.  Mulheres em camuflagem, metralhadoras a tiracolo. Guarda-costas de todos os tamanhos e indumentários. O homem em comando exigiu uma explicação. [...] Assumi que o evento era um maracatu. Música alegre.  Entrei na sala, pareciam ocupados. Homem vestido em um robe e turbante discursava. Provavelmente alguém importante. Repleto de africanos vestidos em trajes coloridos [,,,]. Ouvimos cuidadosamente, decidimos não traduzir. Improvisamos algo como senilidade do suspeito; falta de conhecimento do idioma. Tentando mitigar sua indiscrição. Desculpa aceita com desconfiança. Liberado sob a nossa tutela, proibido de transitar pelo lobby sem acompanhante.

   Cenas frenéticas da libertação de Trípoli. Pessoas de todos os gêneros, tamanhos e idades comemorando o fim da ditadura. Tenente Lucena, o maracatu de Gaddafi terminou...

 João Pessoa 2011                                         palmari@gmail.com


domingo, 28 de agosto de 2011

A inconfortável informalidade dos flanelinhas

    Pilhas de escombros bloqueavam ruas do centro da Cidade do México. Procurávamos desesperadamente um lugar seguro para estacionar na Calle Rio Lerma. Choques secundários continuavam, dois dias após o terremoto. Penumbra e poeira dificultavam a busca.  Imagem de um homem apareceu no retrovisor. Porte baixo, pobremente vestido, empoeirado. Perdido na imensidão da catástrofe ao seu redor. Repetindo continuadamente a expressão viene-viene, enquanto acenava um pano vermelho, nos dirigiu na direção de uma das poucas vagas ainda disponíveis. Concluída a manobra, estendeu a mão para receber a presumida gorjeta. Caminhou na direção da esquina. Guardião do seu ponto, a única coisa que restou depois da tragédia.

   Guardadores e lavadores de carro proliferando nas ruas e lugares públicos de praticamente todas as cidades do mundo. Cronicamente desempregados ou subempregados, refugiados e deslocados de guerra, sem as qualificações mínimas para competir no mercado de trabalho formal. Os gorrillas da Espanha, parcheggiatores da Itália, viene-vienes do México ou flanelinhas do Brasil. Temidos e discriminados: a marca dos excluídos. Temor do motorista em ter seu patrimônio danificado ou integridade física atingida, mesmo quando infundado, superando sentimentos latentes de aversão social e ceticismo. Pagam suas gorjetas automaticamente, parte das pestilências da vida urbana. Mendicância agressiva, serviço ao público ou chantagem social?

   Como começaram no Brasil? Getúlio Vargas criou a atividade de guardador de carro como uma fonte de emprego para os ex-pracinhas da FEB. Decisão populista típica do pai dos pobres. A Lei n° 6.242 de 1975 e o Decreto 79.797 de 1977 regulamentaram a profissão, estabelecendo procedimentos para o registro dos trabalhadores informais na Delegacia Regional do Trabalho e certas exigências formais, como documentação pessoal, atestado de bons antecedentes e certidão negativa pelos cartórios. Aqui encontramos um obstáculo que muitos desses trabalhadores informais terão que enfrentar.

   Cadastramento de flanelinhas, provisão de uniformes, crachás e outros acessórios profissionais, sem registrar-se como determina a lei, parece ser a principal vertente da maioria dos projetos criados por municipalidades como Natal, Rio de Janeiro, Maringá, Juiz de Fora, Fortaleza, Brasília, Aracaju, Belo Horizonte e São Paulo. Muitos tentaram capacitá-los em profissões alternativas, com salários inferiores à renda mensal obtida com gorjetas. Desconsideraram também o valor financeiro dos pontos de trabalho. Nenhum dos projetos obteve os resultados esperados, muitos foram descontinuados ou abandonados.   

   Começamos um projeto cidadão com flanelinhas do Baixo Tambaú, há um ano. Selecionamos os primeiros quatro trabalhadores, reputados como os mais experientes e confiáveis da área. Escolheram gradualmente outros catorze participantes, incluindo três mulheres, com similares qualificações. Desenvolvemos ideias para melhorar a autoestima e a conduta dos trabalhadores. Entre elas, a criação da brand consultores de estacionamento e o uso de cor de laranja identificando os seus membros. Auto-gestionado e funcionando informalmente, são hoje reconhecidos positivamente pelo público, comerciantes e membros da mídia.

   Experiência sugere que qualquer projeto envolvendo flanelinhas deve contar com a participação ativa dos trabalhadores e da comunidade. Elementos essenciais para o sucesso incluem: cadastramento dos trabalhadores e seus pontos de trabalho; registro profissional na Delegacia Regional do Trabalho; código de conduta e termos de referência com provisões de contrapartida social. Deve-se formar parcerias com órgãos governamentais responsáveis pelo ordenamento urbano, pelo cumprimento de leis regulando o uso das vias públicas, calçadas e o comércio ambulante.

   Outra dimensão importante é a percepção de que a maioria dos flanelinhas é delinquente ou está engajada em atividades ilegais. Policiamento presencial orientado à melhoria da qualidade de vida é necessário para separar o trigo do joio, sem prejudicar o direito das pessoas condenadas por crimes a voltar a possuir uma vida normal. A grande parte, infelizmente, desconhece a possibilidade de reaver sua capacidade para exercer cargos, profissões e de resgatar sua dignidade humana. Apoio jurídico para habilitá-los, registrá-los profissionalmente, facilitaria o retorno desses trabalhadores à legalidade e à cidadania plena. Flanelinhas legais, sem o desconforto da informalidade.

   João Pessoa 2011                                                                     palmari@gmail.com

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O vinho da casa de Amy Winehouse

   Notícia da morte da cantora. Mídia global prestando tributo ao seu talento, apesar da sua vida errática, tão errática quanto a sua genialidade. Voz acerbamente lasciva, lima grossa burilando camurça. Soul encontrando rap e se perdendo na melancolia do blues. Rendez-vous de todas as dores e queixas. Cotejo midiático, tocando incessantemente a canção Rehab, réquiem bizarro de uma vida esperando a morte acontecer. Recusando aceitar tratamento para a sua dependência química e alcoolismo em um centro de reabilitação...


    [...] Tentaram me mandar pra reabilitação.
   Eu disse “não, não, não [...]¨

   Amy Winehouse nos deixou aos 27 anos. Causa ainda desconhecida. Abuso de drogas e álcool, prováveis coadjuvantes na tragédia da sua vida.  Era só uma questão de tempo, declarou sua mãe ao jornal Sunday Mirror, após inteirar-se da sua morte. Depressão, mudanças violentas de ânimo e frustradas tentativas de desintoxicar-se. Arautos da miséria e do inferno particular escondido na névoa escura da sua notoriedade. Todos nós sabíamos, poucos esperavam tão súbito dénouement.

   A humanidade põe pessoas celebres em patamares mais altos do que a própria morte. Mundo acostumado aos transtornos e retornos de atletas, artistas, cantores, músicos e políticos. Transitando pelas portas giratórias dos centros de reabilitação. Carreiras lucrativas, endossando produtos e mantendo a aura de sucesso cobiçada pelos magos do marketing. Robin Williams,  Boy George, Keith Richards, Elton John, Ray Charles, Whitney Houston, Demi Moore, Britney Spears, Truman Capote, Liza Minnelli e muitos outros sobreviveram. Administraram suas vidas e carreiras, embora precariamente em certas junções do pessoal com o profissional. Por que outros, como Amy Winehouse, sucumbiram?  Os cientistas ainda procuram uma resposta...

   Nos Estados Unidos, o uso ilícito de drogas é tão americano como torta de maçã, beisebol e patriotismo. Parte importante do ritual da adolescência. Estudo nacional realizado em 2008, 46% dos americanos experimentaram uma droga ilícita em algum ponto da sua vida. Somente 8% admitiram haver usando drogas nos últimos trinta dias, entretanto, mais de 51% havia consumido bebidas alcóolicas durante o mesmo período. Aparentemente, a maioria das pessoas que experimentam drogas, não se transforma em dependentes químicos. Por quê?

   Estudos sugerem que pessoas com certos tipos de doenças psiquiátricas, como ansiedade, mudanças de estado de ânimo, transtornos de comportamento e personalidade, são mais propensas a tornarem-se dependentes químicos. Outros mostram que a maioria com abuso de drogas, também sofre de alguma forma de distúrbio mental. Qual problema precede ao outro, o grande enigma.

   Desordens mentais não somente aumentam a possibilidade de abuso intermitente das drogas, como também o risco de dependência química e os efeitos nocivos dos males associados à adição. Usuários de drogas, como meninos de rua, experimentam prazer intenso e efêmero sob a influência do crack e de carburantes. Automedicação para acalmar os demônios que torturam as suas mentes e incubam a miséria e o desespero nas suas vidas.  Bebendo o mesmo vinho da casa de Amy Winehouse?

João Pessoa 2011                                              palmari@gmail.com

domingo, 14 de agosto de 2011

Drogas e déjà vu

   Tensão na sala de conferências da secretaria municipal de serviços para dependentes químicos. Pairando sobre a mesa decorada com restos de fatias de pizza e copos de isopor, uma forte flagrância de tabaco. Cinzeiros transbordando. Grupo diverso de funcionários e experts, membro da força tarefa intergovernamental encarregada de enfrentar o crescente problema de adição à heroína na Cidade de Nova Iorque.

    Primeira reunião como subsecretário responsável pela dotação de recursos, não prometia um alvissareiro ou tranquilo ano de 1974. Determinar jurisdição e responsabilidade pelos diferentes componentes de tratamento, prevenção e fontes de financiamento. A cidade estava praticamente quebrada, os governos estadual e federal demandavam contrapartida financeira e participação intrusiva em todos os aspectos do programa. Argumentos, posições inflexíveis e hostilidade aberta entre os participantes. Cansados, encurralados em uma viela burocrática, tínhamos que encontrar uma saída. Por que estamos brigando? Ponderou alguém em voz alta, respondendo sua pergunta em seguida: [...] quase 250 mil viciados na cidade, é só dividir as fatias do pastelão de acordo com a proximidade politica e as necessidades de cada jurisdição. Temos viciados de sobra, bastante para todos nós. Palavras sábias, cinismo pragmático. Guerra contra as drogas, companheiros de luta na outra guerra americana, bem longe do Sudeste da Ásia.

   O clima de insegurança e a decadência da cidade conspiravam contra investimentos massivos em programas de prevenção e tratamento. O povo queria resultados: redução em todas as atividades antissociais e criminosas, associadas com a chamada epidemia de heroína. Comunidades terapêuticas e clínicas de metadona competiam, com fervor quase religioso, para demonstrar que sua modalidade de tratamento era uma opção mais eficaz a longo prazo, mais econômica do que internação compulsória para pessoas flagradas com certas porções ou cometendo crimes sob a influência dela. 

   Primeira eleição pós-Watergate se aproximava. Os republicanos ocupavam a Casa Branca e o governo do Estado de Nova Iorque. Pressão popular pelo endurecimento das leis antinarcóticos atendida. Criou-se leis que previam quinze anos de prisão para qualquer pessoa em posse de 115 gramas de narcóticos, a mesma pena aplicada para homicídio em segundo grau, que no Brasil corresponde a crime doloso. Aumento dramático no número de encarcerados, sem reduções significativas na criminalidade ou adição a narcóticos. Modificaram as leis, vinte anos depois, com redução de centenas de milhões de dólares em gastos penitenciários e aumento de investimentos em tratamento e reabilitação.

   Argumentos similares àqueles propostos por políticos e mídia norte-americana no século passado começam a ressonar na nossa sociedade e legislativo. Pronunciamentos em audiência pública e na imprensa demandam maior rigidez na culminação legal de penas para crimes cometidos sob a influência de drogas, principalmente crack, e tratamento compulsório para a reabilitação do dependente.

   Crack tornou-se a bucha para o canhão da opinião pública, cansada de insegurança e rebaixamento da qualidade de vida. Veias abertas da miséria humana ofendendo nosso sentimento de progresso e bem estar material. Precisamos nos tornar mais humanos e criativos para enfrentar a expansão e os efeitos de crack na nossa juventude. Podemos até argumentar que se a droga fosse usada pelas classes média ou alta, não estaríamos dizendo que é impossível tratá-la como qualquer doença.

    As complexidades do tratamento de dependência química ao crack são mais influenciadas pelo contexto e circunstância social do usuário, do que a reação bioquímica. Foi o que aprendemos na experiência de Nova Iorque.  Essa descoberta nos deu um raio de esperança para situações de desespero que destruíam famílias e comunidades. Narrativas populistas propondo medidas draconianas sobre o problema aumentaram o capital politico dos proponentes e atraem a atenção da mídia alarmista, sem contribuir positivamente para a sua solução.  Confundem os perpetuadores do crime com as suas vítimas...

   Nossas prisões não precisam de mais residentes nem nossos necrotérios de mais cadáveres.  O caminho a seguir é a desintoxicação hospitalar, apoio psicológico combinado com habilitação e capacitação vocacional, reintegração em famílias e comunidades, das pessoas que estão morrendo nas ruas, nas páginas dos tabloides e na indiferença pública. Déjà vu ou realidade, o importante é fazer algo certo...

João Pessoa 2011

sábado, 30 de julho de 2011

O trigo dos outros...

   Dor eloquente de um pai, uma filha já não existe. Perdão minha filha, porque apesar de ter lhe feito acreditar que o mundo é dotado de mais trigo do que joio, no nosso Brasil, muitas vezes os trabalhadores responsáveis pela retirada do joio do meio do trigo falham, e, consequentemente, o bom e saudável trigo é injustamente destruído. Palavras sábias de uma pessoa que valoriza a vida e o poder do perdão. A irracionalidade do perdão confrontada à racionalidade da vingança. Quando vamos aprender a separar o trigo do joio? Quando vamos assumir que o nosso silêncio é o maior cumplice nas mortes prematuras causadas por pessoas embriagadas? Somos copilotos...

   Vivemos com as tragédias humanas e a dor que se espalha exponencialmente pelas nossas ruas. Consciência comum entorpecida. Temos que chegar em primeiro lugar, seja qual for o custo. Os demais, que esperem. Permitimos que a nossa avenida principal, decorada por árvores plantadas nos dias tranquilos de alhures, se transforme em via dolorosa. Pessoas inocentes enterradas em sepulcros imaginários, vítimas da nossa indiferença. Turismo macabro. Aqui morreu fulano, acolá morreu sicrano. Só nos falta a presença das cruzes de beira de estrada. Os carros passam...

   Motorista supostamente embriagado causou a morte de dois jovens, em uma das principais encruzilhadas da cidade. A mídia e os tabloides dedicados à difusão das tragédias do picadeiro das nossas ruas demandaram justiça imediata. Políticos de todos os matizes e tendências expressaram alarde, mais uma vez, sobre o que está acontecendo.

   Dia cinzento. Barulho confortante dos pingos de chuva. Embarcamos no tapete mágico, revisitando lugares e estações. Buscando respostas para os que perderam tragicamente seus parentes e filhos. Encontramos uma resposta na Califórnia, ano 1980.

   Adolescente morta, bebê tetraplégico, a mais jovem dos Estados Unidos. Mais vítimas de motoristas embriagados. Mulher chamada Candy Lightner, a mãe da adolescente, tenta obter detalhes sobre a morte da filha. Respostas ambivalentes das autoridades. Fatos generalizados sobre o acidente. Omissão sobre o recidivíssimo, autor preso três vezes por dirigir sob a influência do álcool. Decidiu naquele momento formar uma organização para combater ao problema. Desta forma nasceu MADD (mães contra dirigir embriagado), nome pronunciado mad, que significa irado. Traduzia bem o que sentia no momento...

   Candy embarcou em uma campanha nacional propagando sua ideia e motivando a outras mães. Conheceu em Cindy Lamb, a mãe do bebê tetraplégica, em uma das reuniões. Converteu-se em sua fiel aliada. Criaram uma das mais eficientes e respeitadas organizações sociais dos Estados Unidas. Campanhas e lobby pela aprovação de legislação aumentando a idade legal para o uso de bebida acima de 21 anos. Uso de bafômetros que travam a ignição dos carros de pessoas condenadas por dirigir embriagadas; responsabilidade legal de estabelecimentos ou pessoas que servem bebida a menores de 21 anos ou a pessoas visivelmente embriagadas. Estima-se que tais medidas são responsáveis por poupar mais de 300.000 vidas desde a sua fundação.

   A MADD mobiliza a sociedade em campanhas para a prevenção e educação de pais e filhos sobre as consequências de dirigir embriagado. Apoio às autoridades responsáveis pelo policiamento das ruas e estradas. As vítimas e suas famílias recebem cuidados profissionais.

   Trinta anos de luta e ainda restam dois milhões de motoristas que dirigem embriagados nas estradas americanas. Sabemos quantos no Brasil? Onde está a nossa ira?

   Ouvimos pais falando orgulhosamente sobre filhos que bebem mais que eles e ainda conseguem rebocá-los. Outros riem enquanto motociclista visivelmente embriagado transita entre a calçada e a ciclovia do Cabo Branco. O trigo dos outros e o joio de muitos pais...

Palmarí H de Lucena palmari@gmail.com

sábado, 23 de julho de 2011

As noivas do verão

   Desfrutando o fim da tarde, pessoas sentadas às mesas dos cafés, caminhando pausadamente ou participando de alguma atividade na Plaza Mayor de Salamanca. Conversas em todos os dialetos, quebrando a monotonia do ruído irritante das rodinhas das malas dos transeuntes. Tudo se movendo, nada mudando. Localizamos uma mesa no nosso café favorito, Manor Cervantes, na área do Pavilhão Real. Visão privilegiada dentro do retângulo dourado construído em pedra de Villamayor. Cercado por arcos simétricos e funcionais, sobre os quais se apresentam três filas de varandas coroadas por uma balaustrada de pedra em pináculos. A praça é o centro do universo provincial. Castelhana em sua concepção e multiplicidade de usos: um mercado de ideias, lugar de divertimento ou cenário para a celebração de espetáculos.

   Casal de turistas ingleses. Livro aberto na mesa, compartilhavam detalhes sobre a monumental estrutura, pausando ocasionalmente para observar nuances ou projeções causadas pelos últimos suspiros da luz solar. Repentinamente, apontaram em direção a um dos balcões. Jovem vestida de noiva, soberbamente em branco, contemplava a praça. Bela, efêmera, distante. Sonhos de uma noite de verão. Shakespeare em terras de Cervantes.

   Recordamos ao nome Dolores Sierra, um truque perverso da mente. Mulher popularizada pelas rádios e difusoras dos anos 50. História triste de um lugar distante. Quem não se lembra dos versos da canção?

Nasceu em Salamanca
Seu pai lavrador, veio a maioridade
Pois quem nasce na roça
Tem sempre a ilusão de viver na cidade

   Três grupos de mulheres, concentradas no centro da praça, chamaram nossa atenção. Fantasiadas, alegres, festivas. Despedidas de solteira, ritual do verão espanhol. Noivas, noivas e mais noivas, sob a mirada feliz da mulher no balcão. Longe do destino das Dolores Sierra de hoje, vindas de terras estrangeiras, filhas das mães que choraram no dia de suas partidas...

   As imagens das noivas de Salamanca nos levaram de volta a uma noite mágica no El Albaynzín, o bairro árabe de Granada. Descemos a colina da fortaleza do Alhambra, atravessando ruas estreitas e sinuosas. Casa com jardins granadinos, cornucópia de flores e fragrâncias. Sons distantes, guturais, de cantores de flamenco nas caves e bares. Gente jovem pelas ruas, estudantes de todas as partes do mundo.

   Mulher montada em um jumento e seguida por um pelotão de companheiras. Vestidas em roupas púrpuras, usando perucas sintéticas da mesma cor. Canções alegres, cheias de picardia e bom humor. Alguém explicou: Despedida de solteira. Duas mulheres maduras tentavam acompanha-las inutilmente. Outros grupos aparecerem na rua. Trajes típicos, trajes modernos. Jovem energética comandava os movimentos de um deles, todas vestidas em trajes de malhar. Corriam até a próxima esquina, paravam, recomeçavam prontamente ao som do apito. Gincana de emoções pelas ruas mouriscas. As calçadas e os bares respondiam alegremente, longe das angústias, devaneios e solidões do cotidiano da crise econômica.

   Jovem doutoranda brasileira vibra, vive a felicidade das noivas. Quando encontrar o homem da minha vida, quero despedir-me de solteira em Granada, revela com um suspiro de paixão antecipada. Vivemos seu momento. Consideramos possibilidades de realizar o evento pelas ruas da nossa cidade e por nossa Plaza Mayor tão esquecida, o Ponto de Cem Reis... Não chegamos a uma conclusão, só muitas gargalhadas... 

   Subimos a colina de volta ao hotel. A Fortaleza do Alhambra visível na noite clara, noite cheia de beleza, brisa e esperança, como as noivas do verão...

Espanha 2011