NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Passeio no mundo mágico de Cartagena

   Caminhávamos pausadamente, degustando os mistérios escondidos atrás das fachadas e das janelas fechadas. Trepadeiras e buganvílias estendiam-se entre as casas para ambos os lados da rua, formando canópias multicoloridas. Abrigos contra o calor asfixiante. Mão invisível nos guiava pelas ruas de Cartagena, buscando o real no imaginário. Mágica cortesia de Gabriel Garcia Marquez, o Gabo de Cartagena.

   Estávamos diante da mansão vermelha do grande escritor. Construção contrastando com a beleza austera do prédio localizado na esquina oposta, o antigo convento de Santa Clara. Comunhão inconfortável. Muralhas construídas com pedra e coral separam a casa das águas cristalinas do mar do Caribe, sem ofuscar a vista panorâmica do seu escritório. Lugar perfeito, próximo ao mar, um ou outro sempre perfeito. Cidade-forte de outrora. Religiosa, supersticiosa, muitas vezes, cruel. Receptáculo de uma poção diabólica de extremismo religioso misturado com a tristeza opressora das vítimas da escravidão. Fantasmas sonâmbulos tagarelando incansavelmente na imaginação daqueles que, como Gabo, ousavam desvendar os mistérios nas tragédias e estórias presas nos labirintos da cidade.

   Paramos na esquina, contemplando o Convento de Santa Clara, hoje transformado em hotel. A redação do “El Universal” pediu a Gabo para fazer uma reportagem sobre a abertura das criptas funerárias do convento, em outubro de 1949. Farejou a verdadeira notícia em uma lápide aberta no terceiro nicho do altar-mor, cripta de uma adolescente. Cabeleira longa, impetuosamente cor de cobre, transbordava o espaço funerário que a confinara. Tinha mais de vinte e cinco metros de comprimento. O túmulo da Sierva Maria de Los Angeles. Vítima de preconceitos exacerbados pela intolerância, conflitos religiosos e o desprezo dos seus pais, que a obrigaram a viver com os escravos africanos até a idade da sua morte. Lembrança de uma antiga lenda de uma marquesinha venerada no Caribe por seus milagres. Foi aqui que o livro “Do Amor e Outros Demônios” nasceu.

   Parque Fernández de Madrid, onde Florentino "a partir das sete da manhã" via Fermina passar, sentado "no banco menos visível". Sobrado branco, balcões adornados com trepadeiras e flores. Antiga residência de um judeu português, que havia sido condenado injustamente pela Inquisição, a casa fictícia de Fermina Daza e seu pai, na novela “O Amor nos Tempos do Cólera”. Seguimos à procura dos amantes. “Torre del Reloj”, “Portal de los Dulces”, o local onde os personagens Florentino Ariza e Fermina se encontraram pela primeira vez. Vivemos o grande romance...

   Cartagena não é Macondo. Bacias de frutas equilibradas precariamente na cabeça, mulheres e seios fartos pedem passagem; homens raquíticos empurram carroças, totalmente oblívios às buzinas dos carros; vendedores de esmeraldas competem com seus homólogos vendendo réplicas de “La Gorda” de Botero; homens suados, chapéu de palha escondendo os olhos, procuram romance nos olhos das turistas estrangeiras. Cartagena é Gabo...

   E, se “aprender é lembrar”, como ele platonicamente disse, esta é a nossa lembrança de um passeio pelo mundo mágico que ele criou aprendendo a magia esquecida de sua terra...

Palmari@gmail.com

  

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Tempos modernos, velhos tempos...

   Beco estreito entre o mercado de frutas e a venda de galetos. Linha de estátuas: mulheres com bacias de plástico no colo. Fardos de vagens de feijão verde e caixas de frutas empilhadas ao redor. Olhos fixos nos mostruários. Mãos movendo-se mecanicamente, sem nenhuma variação ou pausa. Mães das feirantes, avós das crianças, que as ajudavam. Vítimas de uma distribuição social do trabalho infame, todas. Tempos modernos que ainda são os velhos tempos. Sempre sorrindo...

   “Se você sorri/Com seu medo e tristeza/Sorria e talvez amanhã/Você descobrirá que a vida ainda vale a pena/Se você apenas Sorrir”...

   Manhã cinzenta. Estrutura metálica do mercado pobremente mantida. Goteiras no teto de zinco aumentando a sensação de fragilidade. Chuva escoando pela pequena vala no centro do beco, acompanhada pela fetidez da água do abatedouro. Pausa temporária, conversa animada sobre as Festas. Multicoloridas frutas e hortaliças completava a mise-en-scène. Mulheres prisioneiras dos frutos da terra. Mãe Terra.

   Mulher de meia idade, pele curtida pelo sol, rugas prematuras, conversando animadamente com o comprador de amendoim cozinhado. Mãe de três filhos, todos “flanelinhas” nas imediações do mercado. “São homens trabalhadores, honestos”, confidenciou. Orgulho maternal tão grande quanto o sorriso iluminando seu rosto. Trocamos mensagens de Boas Festas.

   Voz infantil nos chamou. Filha de uma das feirantes. Moveu-se em nossa direção. Saltitando, como se brincando virtualmente de academia. Agradeceu o nosso presente de Natal: um vestido cor de rosa. Olhos inteligentes. Comunicou prontamente, antes que perguntássemos os resultados das provas finais, como se justificando nossa generosidade. Quer ser uma “artista” quando crescer, nos informou. Apoiando e desaprovando ao mesmo tempo, a mãe sorriu. “Ela está se dando bem na escola”, comentou. Voltou aos seus sonhos e livros de desenho, junto com a sua melhor amiga.

   Lembranças da África: avós instaladas em quiosques, vendendo frutas e vegetais. Filhas e netas ajudando a acumular patrimônio para usar como dote, quando chegassem à idade de casamento, na adolescência. Rodeadas pela pobreza opressora e pouca expectativa de uma longa vida. Progresso parecia ser algo inaccessível. Lugar distante, contexto diferente, mesmo gênero.

   Final do mercado. Gôndolas bem sortidas, prontas para a época natalina. Grupo de mulheres jovens e crianças organizando os mostradores. Sentadas em tamboretes nos corredores, mulheres de meia-idade empacotam espigas de milho em bandejas de isopor, descaroçam jaca e organizam macaxeiras em pequenas embalagens, todas trabalhando.

   Homens entram e saem com caixotes. Mulher jovem conversando animadamente com dois clientes. Conhecida por todos pelo seu apelido de infância. Era uma criança tagarela, explicou justificando o cognome, quando perguntamos sua origem. Ambiciosa e organizada, seus pais haviam iniciado o negócio, sempre em expansão. Equidade social gerada pela iniciativa e competência de uma família concêntrica, bem liderada.

   Lembranças da nossa infância: a vendedora de coentro e cebolinha de porta em porta pelas ruas do bairro; mulher negra, obesa, carregando um balaio de bananas equilibrado precariamente em uma rodilha na cabeça; parecendo sempre triste, outra mulher vendia suspiros na esquina da rua; moenda de cana, líquido verde escorrendo sedutoramente pela calha. Copos sempre lavados e enxugados com zelo. Como terminaram seus dias? E as meninas que as acompanhavam?

   Meninos de rua passam entre os boxes. Desobediência e desdém partem do solado inadequado das sandálias em seus pés. Gingado do malfeitor. Olhares furtivos, inseguros. Tensão. Passando às vezes sem deixar rastro.

   A chuva cessou. O mercado voltou ao normal, como se alguém houvesse ligado uma turbina. Fábrica sem apito. Todos sorriam antecipando as vendas do dia. Sorria e talvez amanhã..

João Pessoa, 05 de Janeiro de 2011