NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Entre a cruz e Emerson Fitipaldi

   Silêncio pairou sobre as arquibancadas e a pista de corrida. Estávamos próximo ao inicio da Indy 500, realizada tradicionalmente no fim de semana do Memorial Day, na cidade de Indianápolis. Homens e mulheres que perderam a vida a serviço da pátria, homenageados por quase meio milhão de pessoas. Contrastava a atmosfera de reverência e tristeza com as cores alegres dos trinta e três carros na pista. Muitas guerras, muitos heróis.

   Momento da benção. Distorcida pelo sistema de som, as palavras do arcebispo de Indianapolis ressoavam incompreensivelmente pela vastidão da pista oval. Pilotos e mecânicos prontos para competir. Patriotismo e religiosidade americana vestindo um evento esportivo. Salva de palmas para os heróis no céu, heróis na pista. Gentlemen, start your engines, liguem seus motores. Finalmente o anúncio que esperávamos. Barulho infernal, a corrida começou...

   As labaredas na lareira morriam rapidamente, já não aqueciam a sala. Em Harare, capital do Zimbabué, a temperatura havia alcançado níveis próximos a 0ºC. Desligamos a televisão e retiramo-nos para a área da casa com calefação a gás. Dormimos sem esperar o final da prova. Noticiário matinal: Emerson Fitipaldi vencedor da Indy 500 de 1989. Pela primeira vez, um brasileiro.

   Aeroporto de Luanda, Angola, dois anos depois. Aguardávamos uma delegação de cinco bispos norte americanos, representantes do programa de ajuda humanitária da conferência episcopal liderado pelo Reverendo Edward O‘Meara, Arcebispo de Indianápolis. A visita coincidia com a assinatura dos chamados Acordos de Bicesse. Paz duradoura parecia iminente; as calamidades trazidas pela guerra apresentavam um contraponto real e assustador. Seguiriam depois para a África do Sul.

   Alto, obeso e ofegante, o arcebispo desembarcou primeiro. Tínhamos um programa extenso: três dias visitando enfermarias de pacientes aidéticos, acampamentos de famílias desabrigadas pela guerra e projetos de ajuda humanitária, na província de Benguela.

   Você conhece Emerson Fitipaldi? Perguntou o arcebispo enquanto visitávamos um grupo de aidéticos. Não esperou a resposta. Continuou sua narrativa entusiasticamente. Conhecia todos os pilotos da Indy 500, muitos haviam recebido sua benção. Olhos tristes e suplicantes, de pessoas esperando morte lenta e gradativa, observavam-nos.

   Partimos para a África do Sul. Nelson Mandela havia sido libertado da prisão de Robben Island, depois de vinte e sete anos de encarceramento. O sistema de supremacia racial e racismo institucionalizado estavam vivendo por pura inércia.

   Deparamo-nos, na nossa primeira visita, com um enfrentamento entre as forças de segurança e um grupo de jovens. Pedras e coquetéis Molotov contra soldados protegidos pela armadura de transportes blindados, conhecidos no Brasil como caveirões. Invenção sul-africana usada na repressão da população negra desde 1948. Protagonista em batalhas assimétricas. Feridos e mortos misturados com a poeira e águas negras dos esgotos abertos.

   O arcebispo foi convidado para celebrar a missa dominical na igreja da comunidade. Mulher jovem ofereceu-se como intérprete. O tema escolhido: Direitos Humanos. Gradualmente, a congregação parecia agitada com as palavras do clérigo. Agrupados no centro da igreja, começaram o toi-toi, a dança de protesto da população negra. Slogans revolucionários, punhos fechados no ar. Gritavam: Amandla! Amandla! Poder [...] para o povo.

   Braços cruzados, olhando incompreensivelmente para a cena, o arcebispo parecia perdido no altar. Amandla! Repetiu a palavra várias vezes, sem saber exatamente o significado. Os fieis respondiam entusiasticamente.

   Soubemos depois o que havia acontecido. A intérprete era uma militante da luta contra o apartheid. Havia apimentado a tradução da homilia com slogans revolucionários. Nunca pensei em ser um revolucionário, mas sempre existe uma primeira vez, comentou o arcebispo. Um ardente defensor do humanitarismo morreu em 1992, na pole position da corrida contra a miséria e a opressão dos povos da África...

África do Sul 1991

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Viva o povo das calçadas...

    “Tenho certeza que o doutor vai acertar na mega do sábado”, profetizou Toinho, o lavador de carros. Guardando a gorjeta na mão esquerda, enquanto nos ajudava a sair do estacionamento. Movimentos precisos. Competência e alacridade. Discreto “léger de main”, vaga disponível para o novo cliente. BMW conversível, cheirando a dinheiro. Próxima parada: casa lotérica, duplicaríamos nossa aposta nas seis dezenas de sempre.

   Totem da tribo da calçada, entre as portas da casa lotérica. Mendicância passiva, mão semiaberta em súplica, quase permanente. Cego, negro, rosto deformado sugestivo da síndrome do Homem Elefante. Mistura de rejeição e piedade, causada pela aparência física. Protegido das vicissitudes dos elementos e das mãos rápidas dos meninos de rua, reconhece facilmente as vozes e os problemas dos habitantes do pequeno mundo ao seu redor. Metafísico muro das lamentações urbanas. Conhecido como Tony.

   Guichês da entrada abertos. Suênia Karinne, cabelos cor cereja búlgara, bem cereja, desafiando a discrição imposta pelo vidro embaçado. Sorriso charmoso misturando-se com o reflexo do nosso rosto. Entregamos o formulário com os números da aposta. Lendo e digitando as seis dezenas cuidadosamente; lábios movendo como uma monja em oração. Transação concluída: “Boa sorte”. Prometemos uma motocicleta Bis, cor de rosa, caso acertássemos no sábado. “O senhor vai ganhar desta vez.” Promessas, promessas e promessas... Thamires Michelle, sua colega, tocou repetidamente na janela, chamando nossa atenção para a “Caixinha dos funcionários”. Inserimos nossa contribuição. Caminhamos em direção ao mercado de frutas e vegetais.

   Kombi-quiosques vendendo CDs e DVDs, tocando em bom tom, ofertas musicais para todos os gostos. Forró pé de serra e coletânea de músicas da boemia, competindo pela atenção dos clientes. Congregados em frente dos televisores, pequenos grupos assistem pela enésima vez mais uma versão de Tropa de Elite. Pausadamente, policiais em uniforme caminham entre os dois pontos de venda, símbolo vivo de lei e ordem. Meandramos entre debulhadoras de feijão verde, motocicletas estacionadas, pedintes agressivos, esgoto a céu aberto e entramos no mercado. Finalmente, cheiro de fruta madura...

   Atmosfera festiva. Clima natalino temperado com a colagem das cores vibrantes das frutas recém-chegadas. Homens sentados em tamboretes ao redor do bar saboreavam bode guisado, acompanhado de doses robustas de aguardente. O assunto do dia é sempre futebol, em todas as suas variações, desde as eleições passadas. Discussões acirradas, às vezes cômicas, sem a paixão intimidante do partidarismo. Estamos a uma semana do Natal. Paz na terra... pelo menos no bar. Escolhemos nossas frutas e vegetais. Pequena parada no açougue “Dois Irmãos”. Compras concluídas. Voltamos à calçada.

   Dois homens vestidos com camisas idênticas, de cor negra com a inscrição em verde néon: “Consultor de Estacionamento”. Conversamos sobre o nosso projeto. Primeiro o tópico do dia: a “situação”, sempre o sabor do dia na mesa parca dos excluídos. Temiam mudanças pós-eleitorais, sem um sindicato ou cooperativa para defendê-los. Carteira assinada, plano de saúde, teto ou conta bancária não faz parte do mundo das calçadas. Fato novo. As camisas e o status de consultor estavam provocando reações positivas e inveja ao mesmo tempo. Posando com turistas, gorjetas mais gererosas.  Celebridades instantâneas. Chamados de “criativos”, por conceituado cronista do Estado de São Paulo. “Estão dando sorte, doutor...”

   O grupo de consultores estava crescendo, vários flanelinhas queriam associar-se. Aspiravam formar uma pequena organização, quando alcançassem a massa critica de dez membros. Doaríamos camisas para os novos membros, até então.

   “Ó Fortuna,/tal a lua,/uma forma variável!/Sempre enchendo/ou encolhendo:/ó que vida execrável!/Pouco duras,/quando curas/de nossa mente as mazelas/a pobreza, a riqueza, tu derretes ou congelas”.

   Ó Fortuna! “Imperatriz do mundo” caminhe com o povo das calçadas. Desta vez, desta verde vez...

Homens pequenos com armas grandes...

   Doutor Humberto Fuentes estava prestes a aposentar-se como professor de medicina. Motivava seus estudantes a prestar serviços a comunidades indígenas no interior do país. Mantendo-se convenientemente alheio aos eventos políticos. Cético sobre os rumores de que seus ex-estudantes haviam desaparecido possivelmente assassinados. Contra os conselhos dos seus filhos, decidiu embarcar em uma jornada em busca da verdade. Chegando ao interior do país, logo descobriu que “homens armados” usavam ameaças ou assassinatos para intimidar o povo. Violando direitos humanos, cometendo atos de violência contra a população indígena e pessoas que os ajudavam. Terror imperava no campo...

   Pequeno grupo de pessoas, olhos colados na tela de uma televisão observavam os minutos finais de um vídeo. Silêncio glacial. O filme, “Hombres Armados”, dirigido por John Sayles. Descrevia acontecimentos em um país anônimo. Para nós, a Guatemala, onde estávamos. Momento déjà-vu... Ecos das palavras do Doutor Fuentes aos seus estudantes ressoavam na sala. “Nunca podemos salvar uma vida. Podemos fazê-la mais longa ou melhor, mas nunca salvá-la. Todos morrem no fim”...

   Compartilhamos nossas experiências pessoais com a situação de violência na Guatemala. Caixa de Pandora aberta. Lembramos de um pedido inusitado, que havíamos recebido durante visitas a vários ambulatórios rurais da igreja católica. Necessitavam urgentemente capacitar novos técnicos de saúde, para substituir os que haviam desaparecido. Militares, guerrilheiros ou autônomos, homens armados, todos...

   Expectativa e tensão. Catarse nacional e coletiva. “A Guatemala Memória do Silêncio” – relatório produzido pela Comissão para o Esclarecimento Histórico – havia cumprido sua meta. Expondo as violações de direitos humanos e atos de violência, tentativa de genocídio contra o povo Maia, com objetividade, equidade e imparcialidade. Conhecimento da verdade. Reconhecimento dos fatos históricos. Base sólida para o processo de reconciliação nacional. Aprendendo lições, evitando a repetição de erros...

   Nuremberg, sentença do dia 1º de outubro de 1946. “Os crimes contra o direito internacional são cometidos por homens, não por entidades abstratas”. Homens armados, sempre. Guatemala havia quebrado o silencio cúmplice...

   Transformar o judiciário em um sistema eficaz e acessível, para promover a confiança do público e melhorar a coerência e a equidade na aplicação da lei, se fez necessário. Criando condições para a reconstrução social e fortalecimento do país, nos termos do Acordo de Paz. A Corte Suprema da Guatemala, com um programa de reforma de trinta e cinco milhões de dólares, financiado pelo Banco Mundial, nos convidou para servir de gestor como representantes da ONU.

   Recebemos reivindicações de organismos da sociedade civil e do povo Maia, a respeito do desenho arquitetônico e da localização das salas de audiência dos tribunais. Propuseram desenhos representativos da cultura Maia. Edifícios de mármore com colunas greco-romanas e características de palácio europeu, valorizavam a cultura do colonizador. A estátua da Justiça era cega, cega porque nunca os havia visto como iguais. As leis serviam para oprimi-los, proteger seus opressores. Queriam uma demonstração de que o estado guatemalteco estava preparado para tratar a todos como cidadãos...

   Tribunais redesenhados e construídos. Os homens armados ainda não haviam desaparecido totalmente. Crimes não ficariam impunes. A verdade curando a cegueira da Justiça...

   Doutor Humberto Fuentes chegou a um vilarejo indígena, precisavam de um novo médico. Homens armados haviam assassinado o Doutor Cienfuegos. Perguntou ao informante, se havia visto a ocorrência. “Não, sou cego... Sabemos de tudo que se passa por aqui”, respondeu o homem.

Guatemala 1999