NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sábado, 19 de março de 2011

Dona Neusa e o poeta

   Removendo os pés do pufe, a mulher tocou levemente no assento. Gesto elegante, um convite: Sente aqui, meu filho. Em seguida, ofereceu um lanche, como parte do ritual. Resenha dos acontecimentos familiares. Filhos, netos, bisnetos, viagens, triunfos. Boletim da capitã do barco, sentada confortavelmente em sua poltrona no meio do quarto. Seu nome é dona Neusa, eu a chamo de mãe.

   Voltamos às nossas lembranças, de tempos passados. Dias confortáveis vividos em bairros acolhedores. Famílias nas calçadas, olhos no céu seguindo a trajetória do Sputnik. Crianças brincando no tapete mágico da rua sem calçamento. Vizinhos ouvindo partidas do Mundial, gravadas em vinil, pela enésima vez. Tela do cinema do bairro mostrando a moda de inverno em Paris, em pleno verão paraibano. Saboreávamos memórias daqueles dias, quando as novidades não eram instantâneas. Mundinho de novidades ex post facto.

   Decidimos mudar-nos para a varanda, o calor estava insuportável. Voltamos a uma das lembranças da sua adolescência, um livro de poesias intitulado Emoções. Obra comovente e inesquecível do doutor Osório Paes, um dentista transformado em poeta. O bardo da rua da Areia havia presenteado à jovem admiradora um exemplar autografado. Desaparecido com o passar dos anos, tentamos encontrá-lo nos sebos e livrarias da cidade. O livro só existia na sua lembrança...

   Palidez era sua poesia favorita. Olhos fechados, cabeça inclinada para trás, buscando os versos no centro do cérebro. Recitou com uma voz firme, transbordando com a paixão imbuída em cada estrofe.

   [...] A palidez, imácula bendita
   A palidez serena do teu rosto
   Que me tem sido tanta vez
   maldita
   E que tem sido na vida
   meu desgosto...

   Procuramos pelo consultório do poeta na rua da Areia, a única pista que tínhamos sobre seus dias na cidade. Tentamos em vão. O mundo do poeta havia desaparecido, ofuscado por uma monstruosidade chamada de Via Expressa. Renovação urbana, tanta vez maldita, enterrou os últimos vestígios do lugar onde escrevera seus poemas. Agora apenas restavam os versos gravados na memória de dona Neusa, a adolescente que seguiu pela vida acalentada pelos versos do poeta.

   João Pessoa 2011