NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 26 de abril de 2011

Desafiando a lógica da vingança

   Lembramo-nos daquele dia fatídico no deserto de Chalbi, no Quênia, trinta anos atrás. Carcaça verde da nossa picape quebrando a monotonia bege que se estendia até o horizonte. Compartimos uma gargalhada sobre nossas reações ao ¨descobrirmos¨ que estávamos bem fisicamente. ¨ Dios es brasileño¨, afirmamos. Nosso companheiro de viagem, Padre Leonel, contestou: ¨Dios es colombiano¨. ¨Allahu Akbar¨, Deus é grande, murmurou o soldado, enquanto limpávamos suas feridas, a única vitima do acidente. Sobrevivemos, oito pessoas. Silêncio súbito, o Deus de todos nos havia protegido...

   Pequeno restaurante, bairro da Soledad em Bogotá. Uma eternidade havia passado desde o nosso acidente. Padre Leonel, mãos cruzadas, olhos semicerrados, lendo atentamente o texto da primeira crônica do nosso livro: ¨O rebanho do Padre Leonel¨. Terminada a leitura, observou: ¨A memória é o maior presente que alguém pode dar a outra pessoa. ¨

   ¨Revolución del perdon¨, o título do livro, atiçou-nos a curiosidade. Presente do autor, padre Leonel Narvaez. É preciso apagar os focos de rancor, ódio e vingança que cada um de nós leva no coração, para termos um futuro melhor – a premissa principal do seu trabalho na ¨Fundación para la reconciliación¨. Perdão no centro do universo humano. Fonte de todas as bondades, túmulo profundo das maldades. Lembrou-nos das palavras sábias do seu amigo Desmond Tutu: ¨Sem perdão, não há futuro. ¨

   Em outubro de 2009, mais de 54.000 insurgentes já haviam optado pela alternativa de paz e reconciliação, proposta pelo Governo Colombiano. Verdade, justiça/reparação e pactos de ¨nunca mais¨, geralmente aceitos como elementos básicos em qualquer processo de reconciliação. Decidiram também que a verdade teria precedência sobre a justiça punitiva que, possivelmente, levaria quase um século para adjudicar todos os casos pendentes.

   Perdão e reconciliação, duas palavras permanentes no cotidiano do padre Leonel, desde o tempo em que nos conhecemos no Quênia. O perdão, para ele, é uma virtude que serve para quebrar a irreversibilidade do passado, permitindo o retorno dos ofensores à comunidade. Um processo da catarse, de transformação da memória e de construção de novas narrativas. Perdão não significa esquecimento nem isentar os ofensores da lei. O perdão é, portanto, uma condição indispensável para a construção de uma atmosfera propícia à reconciliação sustentável.

   Lições aprendidas depois de anos de guerra e violência na Colômbia, sugerem que reconciliação, para ser sustentável, deve ser feita no âmbito interpessoal, na comunidade e na elite política. Os três níveis, segundo Padre Leonel, estão inexoravelmente ligados. Devem ser cuidados simultaneamente.

   Uma grande lição. É impossível ter um povo unido quando seus lideres tomam decisões e impõem soluções baseadas em rancor, ódio ou vingança pessoal, sem aceitar o perdão como o caminho mais curto para a reconciliação e o desenvolvimento. O povo colombiano está aprendendo esta verdade a um custo muito alto...

   Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasieira de Escritores