NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Livro nosso de cada dia...

 
Despretensiosa ao ponto de ser austera, a biblioteca de Monteiro situava-se em uma esquina da rua principal, com vista privilegiada à praça e à igreja matriz. A pessoa que não lê, mal fala, mal ouve, mal vê - frase escrita na parede externa do prédio. Ali reencontramos Malba Tahan, ídolo literário da nossa geração e o autor das sábias palavras. Beduíno imaginário made in Brazil, viajamos juntos por terras árabes e persas, ziguezagueando entre fantasias e o mundo maravilhoso da ciência.  O homem que calculava guiava seus pupilos até o oásis da sabedoria.

Encontramos uma pequena biblioteca pública, enquanto caminhávamos pelas ruas da cidade de Alagoa Grande. Bom lugar para acessar a internet. Sentamos próximo a dois pequenos grupos de adolescentes em mesas contíguas. Liam páginas de um livro em voz alta; uns tantos faziam observações ou escreviam notas em cadernos escolares. [...] O senhor pode buscar algo na internet?  Estudavam cultura popular, explicou nossa interlocutora, compartilhavam o único livro disponível. Ditos e provérbios, adivinhações, charadas, simpatias, cantigas de roda, queriam exemplos para o projeto, sem saber ou entender o significado exato de cada palavra ou atividade.

Estudantes sentados em semicírculo, ombro a ombro, no espaço entre os estandes da Primeira Feira do Livro de Jaboatão dos Montes Guararapes. Mosaico bonito das raças que conquistaram as alturas em que estávamos. Conversa com o autor do livro Nem aqui, nem ali, nem acolá, a última atividade de um dia cheio de expectativas e descobertas. Estavam entre os estudantes que haviam recebido 25 reais em cupons para comprar livros na feira. Duas mil crianças experimentando, muitos pela primeira vez, o prazer de escolher e comprar um livro, cortesia da prefeitura municipal.

[...] Como se escreve um livro? Pode falar de suas viagens? Quantos países já visitou? Já esteve em uma guerra? Tem alguma história engraçada no livro? [...] Perguntas, perguntas e mais perguntas. Respondemos a todas, curiosidade imediata saciada. Conversamos um pouco mais sobre os temas apresentados. [...] Gostaríamos que o senhor visitasse nossa escola para continuarmos a conversa [...]. Queriam saber mais sobre o livro. Convite feito, convite aceito...

Semana seguinte, escreveu-nos o professor que acompanhou o grupo: [...] a experiência de alguns alunos da Escola Municipal Poeta Castro Alves na feira literária foi o comentário da semana na escola, eles falaram para os outros amigos que tinham conhecido um autor de verdade, e queriam mostrar o livro, com a dedicatória. Falaram com algumas professoras que elas tinham que ler rápido para poder contar a eles as histórias, pois o autor [...] iria vir aqui na escola e eles precisavam saber as histórias do livro. Estão todos super entusiasmados [...]¨.

Viajamos de volta à sala de aula, ano de 1954. A placidez dos dias de ipês dourados e a beleza das palavras misturavam-se com os hormônios da adolescência. Boca manchada de batom, emoções incontroláveis espalhavam-se pelas rugas e veias da velhice desafiada; a professora recitava versos do Navio Negreiro de Castro Alves: o tópico do dia.

[...] Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta...

Continuamos nossa viagem por mares que imaginávamos nunca dantes navegados. Agora é a nossa vez de capitanear a nave do saber, para que outros possam falar, ouvir e ver...

João Pessoa 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Bin Laden e as torres da vida

   Destruíram nossas torres, anunciou o jovem ao chegar à porta. Chorava incontrolavelmente. Terça feira, 11 de setembro de 2001. Pearl Harbour no asfalto. Ninguém queria comentar sobre o evento, jantamos em silêncio. Memórias do nosso escritório, por cinco anos, na década de 70, andar 69 da torre gêmea II do World Trade Center...

   O dia começou bonito, brilhante. Manhattan ainda não havia voltado ao normal, oito dias depois do tradicional weekend do Dia do Trabalho. Fim do verão de 2001. O motorista paquistanês nos conduzia lentamente ao longo da 5ª avenida. Passamos por grupos de pessoas na calçada da Tiffany. Movimentos frenéticos em direção à fumaça negra. Labaredas visíveis à distância. Parece ser um grande incêndio perto da Macy’s, comentário non-challant de um taxista nova-iorquino. A sonoridade melódica da música cantada em Urdú nos isolava da balbúrdia que se espalhava pelas calçadas ao largo do caminho. Continuamos nossa jornada, olhos semicerrados até chegar ao Edifício Chrysler, esquina da Rua 42 com a Avenida Lexington.

   Atacaram os Estados Unidos [...] as torres gêmeas foram destruídas, alertou-nos o guarda da ONU no 15º andar. Caminhamos rapidamente em direção ao nosso gabinete. Calma inconfortável, corredores vazios... Ouvimos alguém chorando. Decidimos investigar. Casal jovem abraçado, ombros molhados por lágrimas misturadas com o suor da emoção do momento. Destruíram nossas torres, o mantra do dia. Pediram nossa atenção, tinham algo importante para dizer. Breve anúncio non sequitur: Decidimos casar. Voz metálica ressoando pelos corredores: Por favor, evacuem o prédio pelas escadarias.

   Bin Laden está morto, anunciou um correspondente sênior da Cadeia CNN. Refinamentos e nuances da operação analisados e explicados em seguida por comentaristas versados na arte da guerra. Morreu líder absoluto do sistema de comando e controle da central terrorista que havia criado. Déspota solitário, tentando derrubar os soberanos antidemocráticos do mundo árabe e as democracias do Ocidente. Cercado por movimentos populares, propondo alternativas democráticas nas ruas do Cairo, Manama, Túnis, Sana, Damasco, Trípoli enquanto caminhava para sua eventual obsolescência, dentro do casulo milionário em que vivia.

   Lembranças daquele dia em Manhattan. Foto da Ponte do Brooklyn sobreposta às torres gêmeas. Capa do livro Columbia Guide to New York, editado por Alexander; design gráfico de Paul. Nossos filhos. Retrato de Emma, fruto da união dos colegas que descobriram que se amavam na escuridão de um mundo cheio de ódio, desespero e desejo de retaliação.

   As torres da vida não caíram no dia 11 de setembro de 2001.


   João Pessoa 2011


domingo, 1 de maio de 2011

Memórias das bandas que passaram...

   Mostruários e prateleiras bem abastecidos. Secos e molhados, sempre bem observados e cuidados por seu Quirino, formavam uma barricada alimentícia separando o balcão e o freguês. Coexistiam em um lugar privilegiado da comunidade a mercearia e a residência do proprietário. Ilha do Bispo, assentamento humano fundado pelos portugueses em 1585, sem a menor atenção ou respeito ao meio ambiente. A aldeia de Piragibe, o cacique dos Tabajaras, não era mais. História aterrada nas margens dos rios e manguezais que a cercam, hoje uma das áreas mais carentes da cidade. Sempre esquecida.

   Comemoração de aniversário, até nos esquecemos de quem. Memória limitada de criança, amnésia calórica provocada por bolo e guaraná ofuscou o nome do aniversariante. Perguntamos a familiares mais idosos. Decidimos que a festa era para a comadre Ana, dona Nana de seu Quirino. Nossa suspeita baseada no fato de que a parte musical havia sido organizada por seu irmão Quincas e o compadre Sargento Lucena, respectivamente mestre e trombonista da afinadíssima banda de música do 15º RI. O coral do Abrigo de Menores juntou-se ao programa cantando canções folclóricas nordestinas. Dia inesquecível, o bolo então... Voltamos muitas vezes à Ilha do Bispo dos Quirinos.

   Qualquer ano da nossa infância, dia sete de setembro. Palanque recheado de autoridades civis, militares e eclesiásticas. Banda militar marchando, saltos dos coturnos ressoando em cadência rítmica. Rostos suados e instrumentos de metal brilhando à distancia. Massa humana cheirando a patriotismo. Acordes de um dobrado militar ecoando no corredor estreito da rua Duque de Caxias em direção à praça João Pessoa. Estuário do poder, repositório das águas de todos os rios. Liderando sua banda briosamente, o maestro Quincas, sargento Joaquim Pereira, para o Exército. Rosto gentil, porte militar. Gesto elegante de continência. As mãos delicadas de um artista não carregavam as marcas de uma juventude dura, aprendiz de carpinteiro em Caiçara. A banda passou...

   Músicos tocando seus instrumentos... Travanquinha, Usura, Deco, Capote, Assis, Zica, Lucena e seus companheiros preparavam-se para o último ensaio sob a batuta do Mestre Quincas. Promovido a tenente e nomeado para dirigir a banda militar da Academia de Agulhas Negras. Partiu a caminho do Sul, carregando na sua bagagem de nordestino o dobrado ¨Os Flagelados¨. A música, seguindo seu criador, espalhou-se pelo mundo. Música para os excluídos. A banda continuou tocando...

   Anos depois. A banda ¨Cinco de Agosto¨, da Prefeitura Municipal de João Pessoa, marchava tocando ¨Os Flagelados¨, do Mestre Quincas, sob a direção do Tenente Lucena. Membros da confraria de filhos de filarmônicas interioranas e bandas de música militares. Alguns fugiram da seca, flagelados musicais. Poucos ainda estão entre nós, muitos esquecidos.

    Suplementos culturais, crônicas e até pronunciamos de políticos lembram-nos ocasionalmente dos músicos da nossa terra. Dobrados, valsinhas e canções que fizeram nossas praças mais humanas. Tentam libertá-las das garras dos viciados, delinquentes e assaltantes. Lógica estranha: cuidando da memória enquanto estamos prestes a perdê-la. Propõe-se o resgate de nossa herança cultural, música, folclore. E os que passaram? Carpinteiros, açougueiros, balaieiros, caiadores, mecânicos e outros que se transformaram em músicos, criadores de nossa memória musical. Serão respeitados, valorizados, preservados? Eles nos ensinaram sobre as possibilidades que começaram como sonhos. Joaquim Pereira, o Quincas das valsinhas inocentes, como um ósculo de mãe; o retratista musical da miséria dos flagelados; o carpinteiro que converteu sua régua de prumo em uma batuta de maestro. Será que vamos esquecê-lo?

João Pessoa 2011