NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Epitáfio de um vendedor

   Chovia torrencialmente, entupindo os esgotos, alagando as ruas. Prelúdio de um dia pouco promissor. Mais um agravante: estávamos na última semana do mês, pouco dinheiro na praça. Dois feirantes conversavam na calçada. Só compraram meia lata até agora, o dia está péssimo, comentou a mulher enquanto debulhava feijão-verde. Um saco de 34 quilos de vagens só deu nove quilos de feijão. Comiserando-se sobre a qualidade inferior do produto com o vendedor de alho. Encolhendo os ombros em atitude de desânimo, o homem concentrou-se em comer seu lanche. Parecia ter fome.

   Dezoito anos, o mesmo ritual. Retirou de uma caixa de papelão cabeças de alho de todos os tipos e tamanhos a serem vendidas em pequenos sacos plásticos. Organizou o produto em fileiras no seu tabuleiro de ambulante. Pronto para as suas rondas diárias pelo mercado e ruas da vizinhança, por duas horas. Olhou o relógio na parede da banca do bicho; estava atrasado devido à chuva.

   Primeira venda do dia, pagamos quatro reais por seis alhos. Mais chuva. Abrigou-se embaixo da marquise do mercadinho de galetos. Éramos seu freguês há muitos anos. Foi direto ao assunto: O negócio tá ruim, doutor. Prótese mal ajustada dificultava a dicção. Parecia cansado. Desânimo e frustração nos olhos. O pessimismo tomava conta da sua face...

   Começou aos oito anos sua carreira de feirante, no mercado popular de Santa Rita. Vendia molhos de coentro enquanto seu pai trabalhava em uma tarimba de carne verde. Comerciou praticamente todo tipo de verdura em feiras da região metropolitana. Mudou-se para o mercado de Tambaú, adotando o alho como seu único e então lucrativo comércio. As coisas haviam mudado. Trinta e três anos, vida de miscelânea sem nenhum benefício social ou progresso. Comprava alho, vendia alho... Rosa fétida e curativa desde a antiguidade. Comprava alho, vendia alho...

   Descascava as cabeças de alho antes de dormir. Acordava cedo, tomava café e preparava uma marmita. Santa Rita rumo à praia de Tambaú. Bicicleta feminina obsoleta, todos os dias às 5 horas da manhã. Enfrentando os perigos da Avenida Liberdade e das ruas movimentadas da capital, mais de vinte quilômetros de distância. Começava as vendas cerca de 8 horas da manhã, uma média diária de 20 reais. Dizia-se satisfeito com a vida e orgulhoso de sua filha, que faltava um ano para terminar o científico. O filho, que o ajudava periodicamente, estava atrasado. Namorando demais nos últimos dois anos, culpava as garotas pelo desempenho desastroso. Morava só, assim, brigava muito com a mulher.

   Voltamos ao mercado uma semana depois, procuramos pelo vendedor de alho. Perguntamos a uma feirante. Não respondeu prontamente, olhando para o chão como se estivesse ensaiando algo para nos dizer. Algo confidencial, talvez trágico. Finalmente: Foi assassinado na sexta-feira em casa, nove balas. Alguém o alvejou pela janela, enquanto descascava alho. Nenhuma teoria sobre a motivação. Era um homem bom, sem vícios ou inimigos. Nunca falou que tinha problemas. Morreu por razões desconhecidas, assassinado por pessoa ou pessoas desconhecidas. Anônimo e miscelânea. Silêncio no mercado. Ninguém chorou...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O ratinho que gostava de chocolate...


   Junior Ratinho observava o tráfego do meio-dia, pés plantados firmemente na linha divisória das duas faixas da avenida. Proteção fumê obliterava parcialmente as fisionomias das pessoas nos carros. Camafeus urbanos esperando impacientemente a troca de luzes no semáforo. Súplicas bem ensaiadas não estavam tendo o efeito desejado. Ninguém notava sua presença. Chovia copiosamente. Pedras de metralha, moeda de 25 centavos, garrafa de plástico e um ovo de páscoa. Patrimônio portátil. Sentia-se cansado, sonolento, deprimido. Ondas de angústia invadiam seu corpo de menino-homem. A capilaridade da miséria humana. Abstinência forçada por uma dívida com o vendedor de crack, que andava à sua procura na praia. Decidiu cheirar thinner ou éter. Chocolate, só depois... 

   Rumou em direção à loja de conveniência do posto de gasolina mais próximo. Descalço, caminhando apressadamente, propulsionado pela agonia quase intolerável da ausência da droga. Cabelos finos e ralos, cor laranja-claro de má nutrição. Corpo raquítico coberto do pescoço aos joelhos por uma camiseta GG, tamanho adulto. Miséria camuflada pela caridade de um freguês da casa lotérica.

   Chegou ao destino. Sorriso tímido escondendo a amargura da inocência perdida. Mãos estendidas na direção dos clientes que entravam e saíam da loja. O cheiro de carburante agradava as narinas inflamadas. Necessitava urgentemente comprar o thinner. Conseguiu o que queria em meia hora. Fim de mês, dinheiro na praça.

   Sentado na calçada, contava moedas. Outro adolescente se aproximou. Transação realizada. Seguiram juntos em direção à beira-mar. Junior Ratinho instalou-se confortavelmente sobre papelões à sombra de uma árvore. Cobriu o nariz com o colarinho, inalou repetidamente os vapores do solvente. Dormiu tranquilo. Cansaço, fome e medo haviam desaparecido. Espalhados na areia, pedaços de ovo de páscoa. Migalhas. Aproveitando o sono do amigo, seu companheiro roubou o que restara do thinner. 

   Passaram-se dias, reapareceu. Dizendo-se armado e ameaçando a pessoas. Errático e irracional. O menino gentil e risonho havia desaparecido no nevoeiro do carburante. Tinha medo. Outro adolescente tentou violá-lo; defendeu-se com uma arma branca ferindo o seu algoz. Temia retaliação. Doze anos de idade, dois inimigos letais no seu rastro para ajuste de contas.

   Rumores circulavam sobre o desaparecimento ou a morte de Junior Ratinho. Pessoas na area estavam preocupadas. Surgiram outras teorias: estaria em um abrigo ou teria voltado para Campina Grande. Logo depois foi visto em uma esquina frequentada por meninos de rua. Pelo menos está vivo, suspirou uma das suas benfeitoras. Um saco de roupas usadas, tamanho infantil, esperava o seu retorno.

   Notaram a ausência dele no mercado de frutas. Dedé, o flanelinha, desmentia o boato da morte do menino. Visto na rua três dias antes. Parecia tudo normal. O feirante, conhecido como Cristóvão Pintor, estava feliz com a notícia. Costumava dar-lhe dinheiro para que ele comprasse pão e café. Voltava sempre para mostrar que havia usado o dinheiro em comida. É um menino bom [...] quando começou a frequentar o mercado era muito agressivo. Problema social [...] a polícia não pode fazer nada, comentou um policial, sem sugerir uma alternativa.

   Fim de tarde. Esquina da concessionária. Vulto diminuto movendo-se entre os carros, em sintonia com a troca de luzes do semáforo. Mão direita estendida, olhos suplicantes. Reconhecemos o sorriso. Gosto de chocolate recheado com o veneno das ruas. Junior Ratinho vive!

João Pessoa 2011                                                                  palmari@gmail.com