NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sábado, 30 de julho de 2011

O trigo dos outros...

   Dor eloquente de um pai, uma filha já não existe. Perdão minha filha, porque apesar de ter lhe feito acreditar que o mundo é dotado de mais trigo do que joio, no nosso Brasil, muitas vezes os trabalhadores responsáveis pela retirada do joio do meio do trigo falham, e, consequentemente, o bom e saudável trigo é injustamente destruído. Palavras sábias de uma pessoa que valoriza a vida e o poder do perdão. A irracionalidade do perdão confrontada à racionalidade da vingança. Quando vamos aprender a separar o trigo do joio? Quando vamos assumir que o nosso silêncio é o maior cumplice nas mortes prematuras causadas por pessoas embriagadas? Somos copilotos...

   Vivemos com as tragédias humanas e a dor que se espalha exponencialmente pelas nossas ruas. Consciência comum entorpecida. Temos que chegar em primeiro lugar, seja qual for o custo. Os demais, que esperem. Permitimos que a nossa avenida principal, decorada por árvores plantadas nos dias tranquilos de alhures, se transforme em via dolorosa. Pessoas inocentes enterradas em sepulcros imaginários, vítimas da nossa indiferença. Turismo macabro. Aqui morreu fulano, acolá morreu sicrano. Só nos falta a presença das cruzes de beira de estrada. Os carros passam...

   Motorista supostamente embriagado causou a morte de dois jovens, em uma das principais encruzilhadas da cidade. A mídia e os tabloides dedicados à difusão das tragédias do picadeiro das nossas ruas demandaram justiça imediata. Políticos de todos os matizes e tendências expressaram alarde, mais uma vez, sobre o que está acontecendo.

   Dia cinzento. Barulho confortante dos pingos de chuva. Embarcamos no tapete mágico, revisitando lugares e estações. Buscando respostas para os que perderam tragicamente seus parentes e filhos. Encontramos uma resposta na Califórnia, ano 1980.

   Adolescente morta, bebê tetraplégico, a mais jovem dos Estados Unidos. Mais vítimas de motoristas embriagados. Mulher chamada Candy Lightner, a mãe da adolescente, tenta obter detalhes sobre a morte da filha. Respostas ambivalentes das autoridades. Fatos generalizados sobre o acidente. Omissão sobre o recidivíssimo, autor preso três vezes por dirigir sob a influência do álcool. Decidiu naquele momento formar uma organização para combater ao problema. Desta forma nasceu MADD (mães contra dirigir embriagado), nome pronunciado mad, que significa irado. Traduzia bem o que sentia no momento...

   Candy embarcou em uma campanha nacional propagando sua ideia e motivando a outras mães. Conheceu em Cindy Lamb, a mãe do bebê tetraplégica, em uma das reuniões. Converteu-se em sua fiel aliada. Criaram uma das mais eficientes e respeitadas organizações sociais dos Estados Unidas. Campanhas e lobby pela aprovação de legislação aumentando a idade legal para o uso de bebida acima de 21 anos. Uso de bafômetros que travam a ignição dos carros de pessoas condenadas por dirigir embriagadas; responsabilidade legal de estabelecimentos ou pessoas que servem bebida a menores de 21 anos ou a pessoas visivelmente embriagadas. Estima-se que tais medidas são responsáveis por poupar mais de 300.000 vidas desde a sua fundação.

   A MADD mobiliza a sociedade em campanhas para a prevenção e educação de pais e filhos sobre as consequências de dirigir embriagado. Apoio às autoridades responsáveis pelo policiamento das ruas e estradas. As vítimas e suas famílias recebem cuidados profissionais.

   Trinta anos de luta e ainda restam dois milhões de motoristas que dirigem embriagados nas estradas americanas. Sabemos quantos no Brasil? Onde está a nossa ira?

   Ouvimos pais falando orgulhosamente sobre filhos que bebem mais que eles e ainda conseguem rebocá-los. Outros riem enquanto motociclista visivelmente embriagado transita entre a calçada e a ciclovia do Cabo Branco. O trigo dos outros e o joio de muitos pais...

Palmarí H de Lucena palmari@gmail.com

sábado, 23 de julho de 2011

As noivas do verão

   Desfrutando o fim da tarde, pessoas sentadas às mesas dos cafés, caminhando pausadamente ou participando de alguma atividade na Plaza Mayor de Salamanca. Conversas em todos os dialetos, quebrando a monotonia do ruído irritante das rodinhas das malas dos transeuntes. Tudo se movendo, nada mudando. Localizamos uma mesa no nosso café favorito, Manor Cervantes, na área do Pavilhão Real. Visão privilegiada dentro do retângulo dourado construído em pedra de Villamayor. Cercado por arcos simétricos e funcionais, sobre os quais se apresentam três filas de varandas coroadas por uma balaustrada de pedra em pináculos. A praça é o centro do universo provincial. Castelhana em sua concepção e multiplicidade de usos: um mercado de ideias, lugar de divertimento ou cenário para a celebração de espetáculos.

   Casal de turistas ingleses. Livro aberto na mesa, compartilhavam detalhes sobre a monumental estrutura, pausando ocasionalmente para observar nuances ou projeções causadas pelos últimos suspiros da luz solar. Repentinamente, apontaram em direção a um dos balcões. Jovem vestida de noiva, soberbamente em branco, contemplava a praça. Bela, efêmera, distante. Sonhos de uma noite de verão. Shakespeare em terras de Cervantes.

   Recordamos ao nome Dolores Sierra, um truque perverso da mente. Mulher popularizada pelas rádios e difusoras dos anos 50. História triste de um lugar distante. Quem não se lembra dos versos da canção?

Nasceu em Salamanca
Seu pai lavrador, veio a maioridade
Pois quem nasce na roça
Tem sempre a ilusão de viver na cidade

   Três grupos de mulheres, concentradas no centro da praça, chamaram nossa atenção. Fantasiadas, alegres, festivas. Despedidas de solteira, ritual do verão espanhol. Noivas, noivas e mais noivas, sob a mirada feliz da mulher no balcão. Longe do destino das Dolores Sierra de hoje, vindas de terras estrangeiras, filhas das mães que choraram no dia de suas partidas...

   As imagens das noivas de Salamanca nos levaram de volta a uma noite mágica no El Albaynzín, o bairro árabe de Granada. Descemos a colina da fortaleza do Alhambra, atravessando ruas estreitas e sinuosas. Casa com jardins granadinos, cornucópia de flores e fragrâncias. Sons distantes, guturais, de cantores de flamenco nas caves e bares. Gente jovem pelas ruas, estudantes de todas as partes do mundo.

   Mulher montada em um jumento e seguida por um pelotão de companheiras. Vestidas em roupas púrpuras, usando perucas sintéticas da mesma cor. Canções alegres, cheias de picardia e bom humor. Alguém explicou: Despedida de solteira. Duas mulheres maduras tentavam acompanha-las inutilmente. Outros grupos aparecerem na rua. Trajes típicos, trajes modernos. Jovem energética comandava os movimentos de um deles, todas vestidas em trajes de malhar. Corriam até a próxima esquina, paravam, recomeçavam prontamente ao som do apito. Gincana de emoções pelas ruas mouriscas. As calçadas e os bares respondiam alegremente, longe das angústias, devaneios e solidões do cotidiano da crise econômica.

   Jovem doutoranda brasileira vibra, vive a felicidade das noivas. Quando encontrar o homem da minha vida, quero despedir-me de solteira em Granada, revela com um suspiro de paixão antecipada. Vivemos seu momento. Consideramos possibilidades de realizar o evento pelas ruas da nossa cidade e por nossa Plaza Mayor tão esquecida, o Ponto de Cem Reis... Não chegamos a uma conclusão, só muitas gargalhadas... 

   Subimos a colina de volta ao hotel. A Fortaleza do Alhambra visível na noite clara, noite cheia de beleza, brisa e esperança, como as noivas do verão...

Espanha 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Nostalgia em noite “madrileña”

   Desafiando o anoitecer, persistia o calor do verão madrileno. Pessoas caminhando em todas as direções. Languidamente, movíamo-nos na Calle Atocha em direção à Plaza Mayor, ponto de encontro entre o passado e o presente. O coração da cidade, desde o tempo em que o Brasil só existia na imaginação de intrépidos navegadores; em alucinações de bruxos ou nas fantasias paranoicas dos monges da Inquisição. Lugar perigoso e sedutor, por muitos séculos. Protagonistas e punguistas coabitando com visitantes de terras distantes. Zoológico da espécie humana sem jaulas ou domadores. Todos avulsos, em um lugar que nunca foi avulso.

   Chegamos à Puerta del Sol. Quilômetro zero de todas as estradas de Madri. Estátua viva de Cristo move-se repentinamente. Retira a cruz do ombro, pausando temporariamente o seu calvário. Acende um cigarro e conversa animadamente com outra estátua, John Rambo. Pronto para o combate urbano. O primeiro sangue hollywoodiano convivendo com o sangue de Cristo. Protestadores de um movimento esquerdista gritam slogans e impropérios na direção de policiais no lado oposto da praça. Mulher jovem vestida de jeans e camiseta vermelha com a frase No pasarán, explode em ira proletária contra o motorista de um BWM conversível. La Pasionária moderna, com tênis da grife Adidas.

   Emigrantes africanos ocupam espaços nas calçadas pregoando bolsas Louis Vuitton, made in China. Turistas de países emergentes barganham ruidosamente... Os povos dos mares nunca dantes navegados, mais uma vez trazendo prata e ouro para salvá-los da crise econômica...

   Plaza Mayor, finalmente. Versões caprinas de bumba-meu-boi tentam atrair transeuntes, sem grande sucesso. Banda metálica multinacional regala à audiência com uma mistura de música andina, polcas e rumba catalã. Ensaiando passos de balé clássico, duas mulheres jovens. Turistas, turistas e turistas. Bandeiras com as cores do arco íris em lojas de souvenires anunciam promoções. O orgulho gay chegou à Espanha.

   Atravessamos a praça. Mais estátuas vivas. Homem sem cabeça posa para turistas chineses. Mulher de feições andinas dorme com sua máscara de caprino ao lado. Clima de festa, cheiro de carne assada. Centro do império, agora um grande mercado global... como sempre foi.

   Descemos por uma antiga escadaria até a Calle Cuchilleros. Prédios antigos, pintados de amarelo, pequenos balcões e esquadrias verdes. Testemunhas da história, mudanças. Rostos castelhanos, enrugados, vestidos em cores sóbrias. Cartazes anunciando as touradas de alhures. Vendedores árabes, africanos, latino-americanos, substituem os braços cansados dos conquistadores. Tudo mudou, menos a rua.

   Sentimo-nos nostálgicos, desesperadamente nostálgicos procurando qualquer coisa do passado, do passado que havíamos vivido. Concha Buica nos acompanhava. Voz rouca, mistura de tabaco e xerez. Afrodescendente andaluz cantando Volver, um tango de Carlos Gardel. A Espanha que descobriu o mundo, agora globalizada pelo mundo. Os versos da canção diziam tudo:

Pero el viajero que huye
tarde o temprano detiene su andar...
Y aunque el olvido, que todo destruye,
haya matado mi vieja ilusión

   Paramos no El Botín, o restaurante mais velho do mundo. Hemingway e Goya estiveram aqui, talvez a Maja Desnuda também. Agora, era a nossa vez de volver...

Madri 2011