NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Resgatando Fernanda

   Policiais conversando animadamente. Taças de cafés e fatias de bolo decoravam o balcão de fórmica. Lanche no meio da tarde, momento de descontração. Motocicletas estacionadas na calçada do estabelecimento. Padaria na periferia da cidade. Bandidos, policiais e famílias compartilhavam o mesmo espaço. Cresceram juntos; caminhos diferentes...

   Bamboleando na calçada estreita, uma menina segurando a mão de uma jovem mulher, sua irmã por adoção. Repetindo a palavra chocolate, como se fosse um mantra. Chegaram à porta. Policial sorriu em direção ao par, o sorriso da criança desapareceu subitamente. Sentia medo, falou em tom confidencial: ¨[...] vamos simbóra, aqueles homens quebram as portas das casas e mata os pais da gente, quero voltar pra casa!¨ Soltou a mão e correu na direção oposta. Sentou-se no meio fio, chorava incontrolavelmente. A irmã tentou assegurá-la de que não estavam em perigo, ¨[...] policiais só matam os bandidos¨. Pânico súbito, o pai da menina estava na prisão por homicídio e tráfico de drogas.  Desconexão entre sua própria realidade e a verdade dos fatos. Surrealismo cruel. Voltaram à padaria. Os policiais partiram. Sirenes estridentes ofendiam os ouvidos. Bandidos, bandidos, bandidos...
   Mulher grávida acompanhada do irmão e de uma filha menor. Abraçou timidamente a coordenadora da pastoral da igreja. Os olhos tristes diziam tudo, carecia de ajuda. Conheciam-se há anos, desde a outra gravidez. Pessoas da comunidade à margem da BR-230, frequentavam a igreja aos domingos. Crianças daqui brincavam com as crianças de lá. Opção preferencial dos menos pobres pelos mais pobres. O resgate de Fernanda começara antes do seu nascimento.
    Dia feliz. Bebê passado de mão em mão, como uma bandeja de doces. Família festejava na pequena sala da casa modesta. Sentada diante da televisão, a mãe comia distraidamente. Partiram no fim da tarde. Voltavam sempre no final da semana. Passaram-se meses assim. A família demandou uma decisão. Finalmente entregaram a criança para a guarda da família substituta, sem formalizar a adoção. As visitas tornaram-se infrequentes, mesmo aos domingos. A mãe evitava o tópico da legalidade, quando entabulado.
   Mulher idosa apareceu no portão, avó materna da criança. Estava satisfeita com o zelo com que tratavam a neta, porém precisava do dinheiro da bolsa família. Queria a menina de volta, sua filha deixara de contribuir para o orçamento doméstico. Propensão marginal para o consumo diário, mais uma vez, determinada pelas prioridades dos adultos. Ciclo da pobreza intergeracional permaneceria inquebrável na casa de Fernanda.  Partiram.
    Duas crianças sentadas na calçada, no outro lado da rua. Fernanda! Um grito de reconhecimento. Duas mulheres jovens mal continham o entusiasmo. Pediram que se aproximassem ao portão. Algo havia mudado, notaram imediatamente. Embrulhadas precariamente, seus modestos pertences diziam tudo. Fariam os trâmites requeridos depois, prometera a mãe. Fernanda estava de volta, desta vez para ficar, ainda que sem a desejada adoção. Quatro anos passaram-se...
   Parentes de Fernanda circulam na comunidade. Seu tio, um adolescente que brincava com suas irmãs adotivas, abandonou a escola e a convivência social. Assaltante e traficante de crack, aterrorizando pares e vizinhos indiscriminadamente. Alcoolismo e outros flagelos da mente e da pobreza escravizam quase todos os adultos da família. Cane mangia cane...
   Criança tímida, problemas com o desempenho escolar e socialização. Herança maldita da disfuncionalidade e pobreza da família em que nasceu. Experimentando dificuldades em ajustar-se à nova realidade. A mãe biológica, visita esporadicamente. Precisa de subsídios para justificar a bolsa família. Coleta informações sobre frequência escolar, saúde preventiva e outros requerimentos. Parte sem dizer quando volta, talvez um dia nunca volte.
   O resgate de Fernanda continuará...

     Palmarí H. de Lucena                                                  palmari@gmail.com

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Cigarros e carabinas Kalashnikov

    Noite de verão no Cabo Branco. Céu limpo, lua cheia, plantas aguadas. Brisa do oceano tocando acordes de ¨Amazing Grace¨ nos sininhos da cobertura. Tigela cheia d´agua com pedrinhas de gelo refrescavam frutas diversas. Boa garrafa de Sancerre, temperatura perfeita.  Django, Grapelli, MJQ, Miles: presentes! Conversa ab libitum, sem nenhuma pressa ou seriedade. Manuseávamos nervosamente um cigarro, o último da carteira.  ¨[...] nicotina faz mal à saúde, por que você ainda fuma?[...] falta de compromisso com você mesmo.¨  Silenciamos. Cigarros nos salvaram a vida várias vezes, comentamos distraidamente.
   Tensão na pequena sala de conferências, nuvem de fumo acinzentava ainda mais o ambiente. Responsáveis pela ajuda humanitária tinham dois problemas: a fome que se alastrava pelo país e a apreensão arbitrária por soldados e paramilitares de alimentos e medicamentos doados. Os últimos a chegar, um sargento revolucionário comandando quatro oficiais e um soldado. Depositaram suas carabinas de assalto AK-47 sobre a mesa. Tinham pressa. Ouviram-nos impacientemente. ¨[...] a justiça revolucionária punirá energicamente saqueadores de carga humanitária.¨ Levantaram-se, reunião concluída. Partiram em fila indiana, armas nas mãos.  Decidimos não mencionar um incidente com outros soldados que confiscaram nossos pertences na estrada entre Gana e Togo.  Terminou sem violência, apesar de ameaças com armas de fogo.  Nossos cigarros Marlboro se converteram em cachimbo da paz. 
   Viajávamos pelas estradas precárias do Distrito de Chokwe, Moçambique. Rebeldes haviam saqueado um leprosário católico, estuprado pacientes e ameaçado as religiosas. Anoitecia. As péssimas condições e os perigos da estrada aumentavam. Chegamos a um pontilhão improvisado, paramos para fazer  um reconhecimento antes de atravessar. Ouvimos uma voz na escuridão. A única palavra que entendemos foi “muzungo”: homem branco. Apareceu a figura de um adolescente empunhando uma carabina AK-47 apontada acintosamente na nossa direção. Demandou que virássemos de costas, com as palmas das mãos voltadas para o ar. Aproximou-se. Sentimos o  cano da arma na nuca. Perguntou se  fumávamos, respondemos que sim.  Percebemos sua satisfação quando apressadamente, confiscou nossos cigarros.  “Kanimambo!”: obrigado. Pareceu-nos que ia partir. Esperamos em inconfortável silêncio. Aventuramos um olhar de soslaio.  Confirmamos que estávamos sós. Prosseguimos nossa viagem, sofrendo uma semana de abstinência de  nicotina. Sobrevivemos.
   Relembramos outros momentos de perigo. Mundo povoados por clones de crianças- soldados. Armados com uma AK-47, cigarro entre os lábios e inocência perdida nos olhos. Passaportes para uma morte instantânea ou dolorosamente longa. Sobreviventes de conflitos armados vivendo em pobreza abjeta. Pensamentos distantes. 
    Retornamos à nossa adolescência. O dia em que fumamos nosso primeiro cigarro, marca Astoria. Fazendo pose de adulto, cigarro entre os dedos indicador e médio da mão direita. Gesto elegante. Soltando a fumaça e gingando rua afora. Quatorze anos de idade, costas franzinas carregando o peso insolente da adolescência. Propulsionando nossa marcha, vapores nocivos e aroma agradável. Desatentos aos perigos da jornada.
   Voltamos ao presente. Odor desagradável de tabaco e filtros queimados invadia a sensibilidade dos nossos olhos e narinas.  Repugnados pela transformação; ofendidos por nossa própria estupidez. Tentaríamos deixar de fumar, pela enésima vez. ¨É preciso demonstrar compromisso com você mesmo cuidando da sua saúde [...] antes de demandar o compromisso de outras pessoas com você [...]¨. A frase nos perseguia acintosamente... Deixamos de fumar naquela noite. Cigarros nos salvaram a vida muitas vezes, havia chegado a hora de preservá-la.  
   Sobrevivemos. E as crianças-soldados? Desapareceram como fumaça?  
Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 18 de setembro de 2011

A doce música mecânica

    Misturando-se sempre no Varadouro, fieis e prostitutas desfrutando o ensolarado dia de descanso. Sempre e nunca aos domingos. Nossa missão: fotografar o Hotel Globo, prédios e casas antigas ao largo da Praça Antenor Navarro e da Rua da Areia. Primeiro projeto do curso de fotografia.  Click, click, click. Uma fotografia é muito diferente do que você pensa que fotografou, repetia nosso professor ad nauseam.  Seguíamos zelosamente sua orientação. 

   Paramos diante da antiga fábrica de refrigerantes Doré, na Rua da Areia. Fios elétricos, casas em péssimo estado de conservação, carros estacionados. Cenário pouco propício para uma fotografia de qualidade. Continuamos nossa caminhada na direção do topo da ladeira. Decadência social, cultural e patrimonial nos cercava. Museu ao ar livre, exibição permanente sobre a vida e a morte de uma das áreas mais exclusivas da cidade. Peças e vestígios de abandono e desprezo... entrada franca!

   Observamos um objeto metálico e de bom tamanho na calçada de uma casa antiga, próxima ao nosso destino. Decidimos examiná-lo através da teleobjetiva. Miragem urbana, uma linotipo. Fria, enferrujada, velha, abandonada.  Fotografias antigas, todas em preto e banco apareceram na memória. Cheiro de tinta e vapores de chumbo no ar. Poucos tinham ideia de para quê servia a geringonça, uma relíquia sem grande importância no mundo globalizado.

    Mal lembrávamos que a linotipo fora inventada em 1884 por Ottmar Mergenthaler. Revolucionou o ramo de publicações e a educação. Composição tipográfica rápida e a baixo custo alavancou o crescimento da grande imprensa mundial. Lamentavelmente, também causou o desemprego de mais de trinta e seis mil tipógrafos nos Estados Unidos, em seus primeiros quinze anos. Assim nasceu a profissão de linotipista.  Sentados diante de fornalhas, homens suados, olhos fixos em textos, mãos navegando as corredeiras e os perigos do teclado.

   Boletim escolar aberto sobre a mesa, anotações revisadas pausadamente. Havíamos chegado a uma junção da adolescência, que tanto temêramos. A hora da verdade: Reprovado. Suor e a vermelhidão no rosto do leitor. Antecipávamos um ano escolar cheio de restrições e vergonha. Frequentaríamos a mesma classe com alunos mais jovens, aqueles que antes menosprezávamos por conta de um ano de diferença de idade. O pior estava por ser anunciado. Trabalharíamos a noite para aprender um oficio, caso nosso desempenho escolar nos levasse ao fracasso acadêmico. Estávamos em plena década dos 50s.

   Começamos no jornal como office boy. Entregando textos, fazendo mandados para os redatores e servindo cafezinho. Outro rapaz chamado Biu Ramos, havia sido contratado como datilógrafo da redação. Éramos de Jaguaribe. Datilógrafo! Palavra senha. Biu datilografava textos ditados por redatores. Ouvíamos interruptamente o barulho de metralhadora da máquina Underwood. Cafezinho! Mensageiro! Alguém chamava, sempre alguém. Levava ou trazia algo para os linotipistas. Lembramo-nos quando entramos na sala pela primeira vez. Máquinas vomitando blocos de texto, calor infernal, mesmerizavam-nos. Pura magia. Tabletes de uma nova Babilônia, gravados em metal quente. Passávamos horas na sala das linotipos, seduzidos irremediavelmente pela doce música mecânica...

   E a linotipo na calçada? Quantos livros, poemas, crônicas foram produzidas por ela?  Seria a mesma que despertou a nossa paixão?

Palmarí H. de Lucena                                             palmari@gmail.com

domingo, 4 de setembro de 2011

Tenente Lucena no maracatu de Gaddafi

    Folclore, palavra mágica na concha acústica que chamávamos de nossa casa. Cantavam, dançavam, declamavam. Dentro de alpargatas, marcando o ritmo, pés calejados e precariamente espremidos. Menestréis de rua; índios africanos, cangaceiros e marinheiros da nau. Conviviam juntos, o audacioso, o imaginário e o absurdo. Poetas loucos; loucos poetas.  Todos bem embrulhados e atados com o barbante da cultura do povo. A realidade se perdia entre nuvens movidas por cânticos e lamentos de terras distantes. Fragrâncias da África misturando-se com o cheiro de terra úmida da Mata Atlântica.

   Partimos, voltamos, partimos.  Moto perpétuo. Vida girando ao redor de si própria, diminuindo em cada giro. Convergindo no infinito possível das nossas imaginações, pai e filho desfrutando suas vidas assimétricas. Passaram-se os anos. Cada visita, novas descobertas. [...]Quero saber o que seus olhos viram desta vez, começávamos assim. Instalado confortavelmente numa cadeira de balanço, mãos cruzadas sobrea a barriga. Olhos semiabertos, duas réstias de luz brilhando intensamente. O mundo ficava pequeno.  

   Tenente Lucena, Grand Vizir do pequeno terraço. Guardião da porta, Sublime Porta do popular e do genérico. Artistas, ex-presidiários, meninos de rua, músicos folclóricos e de bandas de música, torcedores do Flamengo, cegos, surdos e mudos. Seu Belarmino, negro, pobre e doente, factótum, por falta de melhor designação, testemunhava as histórias com respeitosa distância.

   Algo havia mudado. Rosto e corpo mostravam a verdade. A verdade que ninguém queria aceitar. A sigla CA, duas letras do bê-á-bá explicavam tudo, sem a cadência melódica de vozes infantis. Conversamos sobre as sutilezas, malefícios e limitações impostas pela doença. Ira e tristeza superavam outros sentimentos.  Mudança brusca de tópico: [...] E a África, meu filho? Conversamos sobre nosso primeiro ano em Gana. Animado, solfejando baixinho, sons da nossa herança musical africana. [...] No próximo ano em Acra!  Prometemos.

   Finalmente a África. Música senegalesa tocada soberbamente em um instrumento de cordas, chamado de korá, enchia a noite. Orgulhava-se de ser músico, poder comunicar-se com pessoas de todas as raças e lugares. O pentagrama de Guido d'Arezzo não precisava de dicionário ou intérpretes. Estávamos em Lomé, Togo. Hospedados no Hotel 2 du Février, suítes presidenciais luxuosas. Eyadéma, o ditador, construiu o hotel na esperança de que Lomé fosse designada a sede da OAU. Escolheram outra cidade. Sentíamo-nos presidenciáveis à cinquenta dólares por dia.

   Telefonema urgente da segurança do hotel. Detiveram um homem branco agindo suspeitosamente no centro de convenções. Tinha o nosso sobrenome, Lucena. Penetrou indevidamente à conferência de um grupo de árabes e africanos, que compunham uma frente de vigilância e confrontação contra o colonialismo, o imperialismo, o capitalismo, o racismo e outros males. Gaddafi, proeminente entre os participantes. 

   Chegamos ao lobby, o rosto pálido do Tenente Lucena perdido em uma floresta de óculos escuros.  Mulheres em camuflagem, metralhadoras a tiracolo. Guarda-costas de todos os tamanhos e indumentários. O homem em comando exigiu uma explicação. [...] Assumi que o evento era um maracatu. Música alegre.  Entrei na sala, pareciam ocupados. Homem vestido em um robe e turbante discursava. Provavelmente alguém importante. Repleto de africanos vestidos em trajes coloridos [,,,]. Ouvimos cuidadosamente, decidimos não traduzir. Improvisamos algo como senilidade do suspeito; falta de conhecimento do idioma. Tentando mitigar sua indiscrição. Desculpa aceita com desconfiança. Liberado sob a nossa tutela, proibido de transitar pelo lobby sem acompanhante.

   Cenas frenéticas da libertação de Trípoli. Pessoas de todos os gêneros, tamanhos e idades comemorando o fim da ditadura. Tenente Lucena, o maracatu de Gaddafi terminou...

 João Pessoa 2011                                         palmari@gmail.com