NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Pura vida!

   Costa Rica, pequena e pacífica.  Esquina tranquila.  Imune às guerras civis que punham em risco o  futuro da região. Lugar básico, sem grandes complexidades ou desafios. Terra do diminutivo.  Expressavam-se nos chamados tiquismos - sempre um “poquitito” ou um “minutito” de algo ou de alguém. A narrativa só mudava quando o assunto era a democracia. Venerada e defendida energicamente, sempre com superlativos e hipérboles.  A expressão “pura vida”, repetida constantemente,  unia-se a todos os sentimentos de orgulho cívico e patriotismo costarriquense.

  Terra de contradições. O exercito foi abolido em 1948, pelo presidente da junta revolucionário estabelecida pelos vencedores de uma sangrenta guerra civil.  A guarda nacional e a rural são as únicas forças uniformizadas. Os membros do legislativo unicameral são eleitos por um termo de quatro anos. Dois partidos políticos; Liberação Nacional e a Democracia Cristã comandam mais de 95% dos votos. Os revolucionários haviam criado uma cultura de civismo e comportamento democrático, sem usar a força do fuzil.

   Chegamos durante o período eleitoral de 1985.  As campanhas partidárias lembravam-nos  de torcidas organizadas. Voluntários aglomerados nas esquinas e ruas distribuíam propaganda politica, acenavam bandeiras, cantavam. Vestidos em verde e branco ou em vermelho e azul. Todos os membros da família participam. Disneylândia democrática. Depois das eleições, o povo se retiraria às suas casas. Tudo voltaria ao normal. Deixariam os eleitos governar, sem animosidade pessoal entre os vencedores e os derrotados. O importante era preservar a democracia.

   Milton Nascimento referiu-se a Costa Rica, como a terra do coração civil. Desejando o mesmo para o  Brasil. “[...] Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço [...]”.

    A Costa Rica, democrática e desarmada, corria o risco de ser dragada pela escalada dos conflitos militares e pela instabilidade política na região. Oscar Arias Sanchez assumiu a presidência de Costa Rica, em 1986, propondo Imediatamente uma solução pacífica para os conflitos. O Plano de Paz Arias de 1987 criou um marco contextual para negociações, democratização, desmilitarização e reconciliação. Recebeu o  Prêmio Nobel da Paz de 1987.

   Precisávamos mobilizar o apoio dos bispos católicos norte-americanos, em contrapeso às políticas intervencionistas do governo do Presidente Reagan. Movemos rápido. Delegação da agencia de ajuda humanitária católica, apoiou explicitamente o processo de paz e comprometeram-se a dar apoio financeiro e logístico às comissões de paz e reconciliação nacional, presididas pela Igreja Católica.  Éramos parceiros na busca pela paz.

   Partimos em 1989, o processo de paz estava engatilhado. Os fuzis silenciaram anos depois. A paz e a civilidade venceram. “Pura vida!”

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Passagens por Moçambique

   Estávamos mais uma vez preparando-nos para deixar Moçambique. Rituais de partida. Decidimos caminhar ao redor da quadra em que vivêramos na Rua Francisco Magumbwe.  Volta olímpica sem o troféu da vitória ou o bramido da multidão. Chegamos à esquina da Rua de Mukumbura, paramos diante do magnifico casarão dourado do Serviço Meteorológico. Sentinela desarmada, guardiã da história da cidade, não importava qual vestimenta: Lourenço Marques ou Maputo. Testemunhando os caprichos e as extravagâncias climatológicas da natureza, que nem sempre portavam as consequências benéficas almejadas pelo povo, cansado da guerra e das calamidades naturais. 

   ¨Ministério das Calamidades¨, anunciava a placa. Recebendo e distribuindo ajuda humanitária. Quarenta e três jipes novos de organismos internacionais estacionados no pátio dramatizavam a situação precária do país.  Lamentavelmente, os doadores permitiam  que Moçambique continuasse a guerra, sem condicionar a ajuda à resolução pacífica do conflito armado. Guerra, enchentes e o programa de ajustamento estrutural do FMI conspiravam para infligir miséria e desespero, indiscriminadamente. O amanhã era a única coisa palpável, sempre amanhã. Sobrevivência ofuscando a sapiência.  Melhor viver sem saber do que saber e morrer, parecia ser o refrão do coro grego da tragédia moçambicana.  O ano da nossa primeira visita, 1989.

   Voltamos várias vezes.  Chegávamos apreensivos, partíamos deprimidos.  Em uma das viagens, decidimos visitar nosso amigo, o escultor Alberto Chisano. Procuramos o único taxi disponível, em frente ao Hotel Polana. Taxista português: homem truculento e obtuso, cuja obsessão pessoal era polir continuadamente uma Mercedes-Benz antiquíssima. Levar-nos-ia à casa do artista no bairro da Matola, porém não esperaria, caso não estivéssemos ao portão da casa antes das 17 horas. Demandou pagamento adiantado, ida e volta. Clima de guerra: toque de recolher não anunciado às 18 horas. Penumbra e perigo compartilhavam o mesmo espaço. O país encontrava-se em curso de colisão frontal com o futuro. A única esperança era que um dia as perdas ficassem insuportáveis para ambos os lados do conflito. Cansaram de lutar em 1992, a guerra civil que durara dezesseis anos terminou. Não regressamos até os meados da primeira década do novo milênio.

   Acalentados pelo barulho das ondas do Índico, cogitávamos sobre o futuro.  O nosso e o de Moçambique.  Quebrando a linha do horizonte, pessoas em vestimentas de cores diversas, decoradas com símbolos como a cruz, as estrelas ou a lua. Cantavam e dançavam ao ritmo de tambores. Profecias, curas, tudo era possível. Repetiam o ritual todos os dias. Eles gritavam, nós olhávamos. A vista mudou um dia. Doze modelos sul-africanas, todas brancas, esbeltas e fúteis, invadiram as areias que nos separavam do mar e dos religiosos. Ensaio fotográfico para uma revista esportiva. Competição pacifica entre a cruz e a carne. Nenhuma das partes declarou-se vencedora.  O mar venceu...

   O artista Malangatana, homem da Renascença. Fazia tudo com a coragem do seu sobrenome e a humildade da sua origem. Conhecemo-nos em Harare há quinze anos. Nosso primeiro reencontro. Conversamos por horas sobre as novas possiblidades das artes moçambicanas, crentes do poder curativo da paz. Recomendou-nos uma exposição de arte, com esculturas criadas por jovens artistas com metal de carabinas AK 47s, minas de guerra e armas de mão. As obras expressavam a capacidade e a criatividade do ser humano de reconciliar-se com o passado. Um milhão de mortos. Muitas armas ainda matavam. Deparamo-nos ao sair com uma bandeira moçambicana.  Símbolos da nação: uma Ak-47, uma enxada e um livro aberto. A luta continua!

   Partíramos de Nova Iorque três meses antes. Mudamos para a casa da Rua Francisco Magumbwe, um sobrado colonial chamado Casa da Alegria, após uma breve estadia no hotel. Servira como câmara de descompressão antes de chegarmos à tona no Brasil, nosso destino final e porto seguro. ¨[...] O céu lá é mais azul... ¨, declarou o cozinheiro Vasco ao nos despedirmos.

Palmarí H. de Lucena                                            palmari@gmail.com