NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Amandla... awethu!

   Suntuoso prédio na Esquina da Rua Maude com a Rivonia, sede da Bolsa de Valores de Johannesburg, na exclusiva zona de Sandton. Marco zero dos investimentos e finanças da África do Sul.  Atmosfera tensa, lembranças das manifestações antiapartheid e da repressão violenta das forças de segurança do estado racista. Todos temiam o caos nas ruas, não queriam acordar os fantasmas do dos anos 70 e 80. Imagens de policiais reprimindo indiscriminadamente os protestos de jovens negros...

   Concertinas de arame farpado formavam barreiras de proteção nas calçadas. Carros da policia bloqueavam acessos a edifícios e ruas, controlando passivamente o progresso da marcha. Multidão multirracial acompanhava o evento com segurança, registrando os acontecimentos com câmeras digitais. Pétalas de jacarandá esmagadas pelos pés irados de jovens que carregavam cartazes de protesto multicoloridos. Cores do protesto pisoteando as cores da natureza. O líder gritava: ¨amandla¨.  Respondiam: ¨awethu¨. Poder para o povo!

   A vanguarda da marcha aguardava milhares de companheiros que convergiriam no local. Dançavam o ¨toi-toi¨, ritual de protesto usado nas manifestações contra o apatheid. Punhos irados contrastavam com o azul do céu e o lilás dos jacarandás em flor. Demandavam a divisão das riquezas da nação e mais oportunidades de trabalho.

   Os manifestantes pertenciam a Ala Jovem do CNA, o partido de Nelson Mandela no poder. Os policias e seus comandantes eram maioritariamente negros; os equipamentos policiais usados para controlar e proteger o trajeto da marcha excluía os Casspirs (caveirões) ou carabinas de calibre pesado. Usados outrora para reprimir demonstrações de desobediência civil contra o apartheid.  Os veículos haviam se convertido em produtos de exportação, para lugares distantes como o Brasil e o Iraq. O protesto terminou pacificamente.

   Chegamos ao Bairro do Soweto, à igreja Regina Mundi, refúgio de manifestantes e pessoas procuradas por resistência ao apartheid. Protagonista da luta pela equidade e justiça para a população negra. Nosso guia apontou em direção a um edifício de dimensões impressionantes, mesmo à distância. Igreja Brasileira! Igreja Universal, explicou. Continuamos a jornada sem nenhuma outra menção.

   Um ícone da luta antiapartheid in Soweto, o memorial Henry Piertson.  Adolescente morto em 1976 por soldados brancos em Casspirs blindados, converteu-se em uma das primeiras vitimas da repressão militar contra estudantes secundários negros. Protestavam contra a imposição do africâner, a língua do colono branco, nas escolas dos guetos raciais, conduzindo à morte de mais de cem estudantes desarmados. Fotografias e filmes dos embates galvanizaram a opinião pública mundial, seguido de um embargo econômico contra o regime racista. A memória do passado reforça a necessidade de manter um regime democrático e o direito de protestar pacificamente.

   A mobilização internacional contra o apartheid expôs os Casspirs nas grandes capitais do mundo, como símbolo maior da brutalidade e da repressão sul-africana. Depois de uma visita ao memorial Henry Piertson, é difícil entender ou explicar o uso dos caveirões, fabricados na África do Sul, nas favelas do Rio de Janeiro, como instrumentos de pacificação e como construtores de confiança da população excluída no estado brasileiro.  ¨Amandla... awethu¨. 

Palmarí H de Lucena                                                   palmari@gmail.com

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Nas curvas da savana


   Placa na curva da estrada: Malelane, Província de Mpumalanga. Anunciando nossa chegada ao refúgio mágico de um passado não tão distante. Chamado "lugar onde o sol nasce", simbolizando tudo que procuraríamos reencontrar na savana que ocupava a fronteira da África do Sul com Moçambique.  Animais selvagens percorrendo planícies intactas; pássaros multicoloridos e cantos diversos; rios e lagos, perigos e beleza. Sons do começo do dia, todos os dias. Polifonia selvagem anunciando mais uma surpresa. Sempre algo espetacular, na imprevisão e na espontaneidade de sua criação.

    Neblina escondendo os mistérios do Rio Crocodilo.  Penetravam a cortina cinzenta, pequenos fachos de luz tocando o capim novo, com leveza. Quinhentas espécies de pássaros anunciariam o amanhecer pela vastidão da savana. Pássaros brancos grasnam na margem oposta, anunciando a aproximação de hipopótamos ou qualquer outra espécie. Conhecidos pelo nome ¨tchiluanda¨, pousam no dorso do animal, que aceita a companhia na maior docilidade, não demonstrando nenhum desagrado. Aqueles que pousam, comem os parasitas que se inserem nas peles dos que comem o capim verde. Comensalismo, harmonia na savana.
  
   Partimos ao nascer do dia. Entraríamos no Kruger Park pelo ¨Malelane Gate¨, a oito quilômetros da River House Lodge, nosso lugar de hospedagem na margem do Rio Crocodilo. Completamos as formalidades. Apontamos nossa picape na direção da savana, sem saber exatamente o que poderia acontecer ou que animais estariam na área do nosso percurso, 200 quilômetros. Viajávamos em silêncio. Nosso guia sussurrou um alerta: “leopardo às 10 horas” - usando o mostrador do relógio como uma bússola. Sentado em um galho de uma arvore seca, uma espécie maravilhosa do predador. Garras enterradas firmemente no que restava da presa, um pequeno antílope. Parecia enfastiado com a nossa presença...

   Continuamos a jornada. Deparamo-nos com uma hiena deitada na estrada ao contornarmos uma pequena curva. Outras cinco cheiravam o chão farejando leões. O fedor de carniça, misturado com o hálito e as bocas ensanguentadas dos animais, sugeria que a noite havia sido proveitosa. Estavam bem alimentadas, mal notaram nosso veiculo a uma pequena distancia.

   Girafas, zebras, elefantes, gnus e antílopes. Aves exóticas, algumas ao borde da extinção. Notávamos e fotografávamos todos, alguns cursoriamente, sem ordem de precedência. Engolfados em matizes e víeis da natureza, penetrávamos os segredos da savana sentindo-nos confortavelmente humanos na presença dos perigos e tribulações da jornada.

   Outra curva. Casal de leões acasalados à sombra de uma árvore precariamente verde. Continuando o ciclo da vida. Continuando... Sequestrados em territórios cada vez menores, sobrevivendo à lógica do progresso humano nas curvas da savana.

   Palmarí H. de Lucena                                            palmari@gmail.com

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O pilão de Dona Josefina e outras mulheres

   Conversamos sobre coisas do passado, quase sempre o passado. Viajando a distância na estrada da memória, sem mapas nem guias. Lembranças de acontecimentos ou pessoas armazenadas virtualmente, sem nenhuma cronologia específica na cápsula de tempo. Mãe e filho e sete décadas de convivência. 
    
   Mera menção ao aroma de café batido em pilão.  Aroma forte, servido em um bule preto de fumaça. Recordando sua mãe Josefina. Pilando café com manjirioba no quintal. Café donzelo:  novo, quente e forte. A primeira xícara, servida a uma vizinha favorita ou a um visitante. Movendo os olhos na direção do topo da cabeça, como se procurando algo secreto, perdido há muitos anos. Mais lembranças surgiam...

   Ellen e sua prima pilando sorgo e milho no quintal. Batendo os grãos alternadamente, ao som de uma melopéia que dava ritmo aos movimentos. Parte do ritual do amanhecer na África. O ritmo e a cantoria traziam lembranças de um Brasil distante. As batidas nos seguiram por muitos anos. Algumas vezes deixaram de existir, o progresso havia chegado trocando o ritmo por ruído.
  
   Mulheres sentadas em um semicírculo em um pequeno vilarejo em Gana. Discursão animada sobre o motor diesel que haviam comprado com o lucro das vendas de bolsas, sutiãs reciclados como bolsas, haviam silenciado os pilões. Guardavam todos como relíquias em um quarto de despejo, ainda não estavam seguras do poder e da utilidade do motor. Depois viriam as bombas d’agua, mais progresso. Os dias seriam mais longos, mais tempo para fazer outras tarefas na casa e no campo.  Trabalho substituindo trabalho.  Estavam entusiasmadas, mesmo assim. Teriam eletricidade eventualmente, escola de alfabetização e creches. Tudo mudaria, até a ingrata divisão social de trabalho que oprimia as mulheres.

   Viajamos pela extensão do Mali, país em forma de uma borboleta. As batidas do pilão nos acompanhavam, sempre anunciando o amanhecer. O ritmo, invariável, era idêntico ao que ouvíamos nos quintais das nossas casas, no quintal de Dona Josefina. No futuro, mais progresso, teriam seus próprios motores, que chamavam de a nora que não fala.
   
   Jovem mulher moçambicana discutindo os preparativos para o seu casamento. Esperava ansiosamente pela conclusão das negociações sobre o valor do lobola (dote), a ser pago pela família do noivo. Firmariam a data do enlace após ser lobolada. Receberia um pilão, como ditava o costume, no dia seguinte ao casamento. Gargalhadas ao redor da mesa. A ideia de uma recém-formada em direito, pilando milho todas as manhãs, parecia algo hilário e distante.  Quanto ao dote, o senhor progresso ainda não havia encontrado um substituto.
   
    Voltamos às nossas lembranças... Massa para o cuscuz, bolo de milho ou xerem, batida no pilão. Café torrado pilado como o milho e a paçoca, sempre por duas mulheres trabalhando horas e horas no mesmo pilão, estilo caçula. As batidas do mundo globalizado de alhures, pilões trazidos da África pelos navegadores portugueses e postos em uso por índios e negros, silenciados pelo progresso. O aroma e os amanheceres nunca mais seriam os mesmos...

Palmari H de Lucena                                                         palmari@gmail.com