NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ai que sodade de Cesária

   Parcialmente escondido pela nevada que castigava Istambul, um solitário bistrô com poucas mesas ocupadas. Lugar ideal para absorver a história e a arte que tanto nos mesmerizara enquanto visitávamos a Mesquita Azul e a Basílica de Hagia Sofia. Música da Anatólia tocada discretamente no sistema de som, contribuía para nossa sensação de devaneio. O repertório musical mudou tempestivamente. ¨Cesária Évora¨, anunciou o gerente com um sorriso tímido, quase apologético, e um gesto dramático, a mão direita sobre o coração. ¨Miss Perfumado¨ havia conquistado o mundo com sua melancolia e a sodade de um mar azul bem distante... bem longe de São Tomé.

   Desoladas e castigadas pelas ventanias fortes e por séculos de opressão colonial portuguesa, as ilhas do arquipélago de Cabo Verde sofreram um empobrecimento tão profundo, que mais de um terço de sua população emigrou para o exterior. As mornas que Cesária Évora cantava serviam de testemunhas e ao mesmo tempo de protesto contra a pobreza do seu povo. Rosto severo como se enfadada com as coisas do mundo ao seu redor, sempre enfocada em sua missão.  A inimitável simplicidade de sua música confundia a muitos e agradava a todos ao mesmo tempo. Uma diva com os pés no chão – literalmente sem glamour, choques ou fricotes.  

   Ironicamente a diáspora cabo-verdiana, descendentes daqueles que o escritor Manuel Lopes chamou de ¨flagelados do vento leste¨, foram os primeiros a projetá-la na Europa.  Espalhando a mensagem sobre povos vitimados pela miséria causada pela escassez de chuva e cantando as belezas do seu país. Cabo Verde era para Cesária ¨[...] uma árvore frondosa sumida no meio do Atlântico, seus galhos espalhando-se pelo mundo [...]¨.  Foram eles que a levaram aos quatros cantos da terra.

   Cidade de Nova Iorque, Beacon Theatre, Novembro de 2001. Ainda traumatizados pelo 11 de Setembro, a plateia aguardava ansiosamente o inicio da apresentação de Cesária Évora.  Entrou sutilmente, começou a cantar quase despercebida, indumentária simples e aparência austera. Estendendo as mãos acariciantes das mornas sobre sofrimento, decepções e amor pela sua terra. Colo musical para uma cidade ainda vivendo a catarse de sua tragédia.  Quase total silêncio.

   Repentinamente, sentou-se a uma pequena mesa, tomou dois goles de café e acendeu um cigarro, como se estivesse em sua sala de estar. Permaneceu em silêncio por quase dez minutos, alheia ao mundo ao seu redor, ouvindo a banda tocar. Recomeçou... Finalizou com uma canção mais cubana do que uma morna tradicional. Público aplaudindo de pé, a diva aceitando o reconhecimento sem mudar de expressão ou fazer gestos de agradecimento. Deixou escapar um quase sorriso no canto da boca. . ¨Obrigada. Terminou. Obrigada¨.   Caminhou pausadamente em direção aos bastidores.  Ai que sodade de Cesária...

palmari@gmail.com

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Além do portal mágico da Serra do Moura

   Bananeiras é uma cidade privilegiada por um clima ameno, relevo europeu e uma rica história ligada intrinsecamente aos ciclos econômicos da região e à religiosidade do seu povo. Caminhando pelas suas ruas estreitas, cheias de casarões antigos ou por trilhas ecológicas, respirando o ar puro da sua natureza verde, o visitante se sente em comunhão com um passado que faz o presente tão atraente.

   Nosso amigo, um bananeirense convicto, imagina o corte rochoso no topo da Serra do Moura como uma espécie de portal virtual - um lugar mágico. Ponto de partida para seus vôos de imaginação pelos meandros e mistérios da adolescência. Narrativas mágicas que deleitam e enriquecem nossas imaginações. Sentimo-nos na companhia das musas de Bananeiras, verdes sempre verdes, guiando-nos pelas lendas das ruas, praças e veredas escondidas pelo nevoeiro ou perdidas nas falhas da memória.   

   O Cine Excelsior, um pequeno cinema na praça central, e um coreto construído sobre o canal que cruza a cidade criam o recanto fantasiástico por onde todas as suas histórias começam ou convergem. Foi lá que nasceu a sua paixão pela sétima arte. Doublé de censor e proprietário da casa, Padre José, assistia sozinho todos os filmes antes de serem exibidos ao público.  Munido de instruções precisas e religiosamente corretas, Zé do Padre, um projecionista de mão ossuda e nodosa obstruía todas as cenas que não haviam passado pelo crivo austero do seu mentor. Beijos, abraços, cenas de boudoir, às vezes uma mera troca de olhares entre um homem e uma mulher, eram bloqueados sem nenhum respeito à criação artística ou ao roteiro do filme. Hollywood sem sexo e sem sensualidade.

   Leques perfumados, acessórios de rigueur do público feminino, socializavam flagrâncias francesas com movimentos sutis, muitas vezes comunicando paixões ou mensagens românticas. A linguagem expressada em cada movimento escapava à censura do padre. Romance era possível em Bananeiras mesmo sem beijos, olhares ou abraços hollywoodianos.

   O filme ¨E o vento levou¨ mudou tudo. Acessórios femininos, mesmo aqueles perfumados, foram usados para ¨reservar¨ lugares para as senhoras da sociedade, madeira e tijolos marcaram assentos para os demais. O sistema causou grande confusão. Considerado  como favoritismo por muitos, o filme voltou a ser exibido ¨sem reserva de lugares¨.  O vento não passou em vão na Serra do Moura ...
palmari@gmail.com

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A morte do campo santo

   Pessoas vestidas em negro de pé sobre um monte de areia de uma cova recém-cavada. Cheiro de terra fresca misturado com o aroma pungente das flores das coroas fúnebres. Tristeza viajando com a brisa, cantos tímidos dos pássaros acomodando-se à lassidão do descanso eterno. Ruído de pás movendo terra, ocasionalmente um torrão de barro. Visão limitada pelas pernas dos adultos, um menino tentava observar a cena. O ataúde desapareceu, os coveiros partiram. Seu avô querido não era mais. Queria correr, desaparecer. Notou frutos das castanheiras no chão. Chutou alguns distraidamente. Os adultos caminhavam juntos, bem juntos, como se colados pela tristeza. Dor comum ofuscando a beleza e a exuberância dos mausoléus da alameda central. Chegaram ao portal do Cemitério do Senhor da Boa Sentença. Abraços. Partiram sem nunca olhar para trás.

   Quaro décadas após o enterro, voltamos. Carro estacionado próximo à Praça da Pedra, seguimos pela Rua São Miguel em direção ao cemitério. Lembranças de uma frase pichada com letras e cores iradas do protesto: Pão, paz, terra e liberdade. Paramos diante do que restara do nosso cinema favorito. Imaginamos em silêncio os sinos da Igreja da Conceição anunciando a passagem dos cortejos fúnebres. Sentindo a fragrância enfadonha de incenso permeando a procissão com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Tudo havia mudado.

   Estávamos no palco central de uma tragédia urbana, a morte prematura da cidade antiga. Progresso desordenado, indiferente à nossa herança histórica, conspirava incontrolavelmente. Tudo e todos os vivos seguiam como uma enxurrada em direção ao mar. ¨[...] A praia vai matar a cidade, é uma questão de tempo [...]¨, nos dizia profeticamente o Tenente Lucena - recordação súbita diante do seu mausoléu. Argola e artefatos de bronze haviam sido removidos por usurpadores. Vandalismo, abandono e lixo - garras implacáveis esculpidas nos caminhos e nas alamedas. O cemitério havia se transformado no corpo e na sombra da moribunda cidade, vivos e mortos morrendo juntos.

   Com o advento das perdas biológicas de outros entes queridos, as visitas ao cemitério tornaram-se mais frequentes. Os tempos que havíamos compartilhado e a aproximação cultural das nossas faixas etárias renovavam a urgência de mantê-los vivos nas nossas memórias e tradições. O cemitério havia se transformado em uma enorme terra sem dono, nossos antepassados a mercê de pessoas indiferentes. Os mausoléus, prendas fáceis da luta de classe que continua após a morte.

   Cenas na televisão e crônicas recentes denunciaram o abandono e a corrupção que impera no Cemitério do Senhor da Boa Sentença.  A criminalidade que engolfou o pequeno cortejo fúnebre no sepultamento de uma ilustre paraibana expôs a triste verdade que gostaríamos de esquecer ou negar.  Lugar de descanso dos nossos antepassados e repositório da nossa história, o campo santo está morrendo, vítima do apetite insaciável de tudo aquilo que desafia ou subestima os princípios básicos da nossa tradição e cultura. Os atos de vandalismo e corrupção que ocorrem no cemitério são crimes, ferem os princípios de inviolabilidade do cadáver e a Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos remetem a uma atemporal Antígona que, desde a antiguidade clássica e em nome de leis superiores e não escritas, luta por dar digna sepultura aos membros da sua família...

palmari@gmail.com