NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Peque seu dinheiro e corra

   ¨Pior¨ parece ser a palavra mais usada na Espanha. Possibilidade de uma retirada abrupta da Zona do Euro e retorno à peseta são ameaças distantes, mas crescentes na medida em que a economia permaneça em descenso. Ceticismo e ansiedade sobre a viabilidade da economia, sem uma infusão de ajuda financeira a la Grécia,  fomentam uma atitude de ¨pegue seu dinheiro e corra¨. Empresas e pessoas diferenciadas, principalmente aquelas que podem transferir fundos ou mesmo mudar-se para o exterior seguem em uma tendência alarmante, potencialmente desestabilizadora. Saques em bancos espanhóis alcançaram 94 bilhões de dólares no mês de Julho.

   Evasão de capital humano, principalmente de profissionais liberais e pessoas com vocação empresarial, é outro aspecto preocupante da crise econômica da Espanha.  Limitadas oportunidades de emprego, onde o desemprego já alcança quase 25%, é obviamente o grande motivador para a emigração de 30.000 espanhóis que se registraram para empregos na Inglaterra no ano passado.  Economias emergentes, principalmente o Brasil e ex-colônias espanholas na América Latina, também estão atraindo mão de obra especializada.

   O Tesouro Espanhol anunciou recentemente que vai injetar 6.0 bilhões de euros no fundo de resgate bancário para ajudar o setor, depois de ter recapitalizado o Bankia, o quarto maior banco do país, com 4,5 bilhões de euros. Nacionalizado em maio, o banco, registrou um prejuízo semestral de 4.45 bilhões de euros.

   O resgate do Bankia em vez de acalmar os ânimos, gerou comparações com a Argentina em 2001, quando as contas de pesos denominadas em dólares foram congeladas para evitar a evasão de divisas do país. A decisão, conhecida como ¨corralito¨, é hoje parte das discursões públicas sobre possíveis desenlaces da crise espanhola.  Histórias das dificuldades legais e perdas de poupanças contadas por membros da diáspora argentina,  legitimam o medo de que a mesma situação possa acontecer na Espanha. Resgates de bancos e austeridade econômica parecem não surtir o efeito desejado pelo Governo na psique do povo, que continua morbidamente pessimista. O gluglu acabou, agora tudo parece sempre ser ¨pió-pió¨.

   Palmarí de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 26 de agosto de 2012

Istambul e seus tapetes

    Istambul é um dos lugares mais fascinantes para comprar tapetes. Grandes ou pequenas, as lojas são localizadas em becos, mercados públicos e em shoppings sofisticados. Qualidade, desenho e preço variam tanto como os locais de venda. As opções são múltiplas: hereke e kayseris da Turquia, pilhas de tapetes persas; bokharas e khotans do Turquemenistão.

   Bem treinadas pontas das unhas, acariciando o avesso dos tapetes. Explicações eloquentes sobre os desenhos, cores, e histórias. Gestos dramáticos. Olhares penetrantes cheios de súplica e ensaiada sinceridade antecedem a oferta. Café turco servido em pequenas taças sugerindo uma aparente falta de pressa em concluir a transação, gesto desinteressado. Repetindo palavras de louvor e suspiros de admiração enquanto auxiliares formam pilhas de tapetes. Sentimo-nos sonolentos com o ritmo contínuo e o aroma do café. O ambiente nos mesmeriza. Éramos os primeiros clientes do dia, nos oferecem um tapete hereke. Preço irrecusável.  Contraproposta feita e aceita. Partimos felizes com o nosso excesso de bagagem.

   Cercada de edifícios magistrais do Império Otomano, Istambul e a magia dos seus tapetes. As palavras de Orhan Pamuk nos transportam a uma visão maravilhosa do Bósforo, apetitosamente turca. ¨[...] Impelido por suas fortes correntezas, revigorado pelos ares marinhos que não guardam nenhum vestígio da sujeira, fumaça e do barulho da cidade movimentada que o cerca, o viajante começa a sentir que, a despeito de tudo, aquele ainda é um lugar onde ele pode gozar a solidão e encontrar a liberdade [...]¨. 

   Tentar comprar um tapete como investimento, é geralmente um erro. Escolha se gostar do desenho e das cores, se o preço for dentro de seu orçamento e se couber naquele lugarzinho da sua casa. Mas a melhor regra é não solicitar uma avaliação profissional depois de comprado, pode decepcionar-se.  O valor afetivo nos remete aos contos das Mil e uma Noites. E sempre trará boas memórias e um pouco da magia de Istambul para dentro da sua vida.

Palmarí de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Por que são órfãos nossos super-heróis?

   A maioria dos filmes que ressoam nas nossas imaginações são aqueles que contam histórias com significados mais profundos do que conscientemente podemos detectar. Cheios de simbolismo, metáforas e arquétipos que são incorporados nas vidas dos protagonistas, eventualmente nas nossas também. Empoderados, sentimo-nos capazes de suceder aos mesmos desafios. É parte da magia, eles nos inspiram. Deixam impressões profundas na nossa juventude, quando a grande parte das pessoas ainda não atingiu a condição de órfão, status geralmente alcançado por nossos heróis. Por que então são órfãos nossos super-heróis?

   Procuramos a origem da mitologia dicotômica: órfão/super-herói, em vários textos e estudos. Quase todos nos dirigiram à Bíblia. Moisés é um dos grandes heróis da Bíblia Hebráica, talvez o primeiro super-herói. Tinha o poder de falar com Deus; agir como Seu mensageiro e até de dividir o Mar Vermelho. Também ele era um órfão. Abandonado e posto à deriva em um cesto pela mãe, para salvá-lo de um decreto do Faraó que condenava à morte todos recém-nascidos do sexo masculino. Foi salvo por uma filha do potentado, que o criou nos confins da realeza. Após descobrir sua verdadeira identidade, Moisés se rebelou contra os egípcios e liderou os judeus escravizados à liberdade. 


   O filme ¨Superman, o retorno¨, estabelece uma conexão óbvia entre a história de Jesus e a saga do órfão Kal-El, o Clark Kent dos terrestres. A voz retumbante do seu pai, Jor-El, anuncia: [...] Apesar de ser criado como um ser humano, você não é um deles [...] eles poderiam ser um grande povo [...], porém precisam de uma luz para iluminar o caminho [...].  Palavras ditas antes de mandar seu único filho para a terra. Em Hebreu, o nome Jor-El pode ser traduzido como ¨Luz de Deus¨, enquanto o do seu filho  como ¨Voz de Deus¨. É assim que começa a sua jornada.


   Superman é uma versão moderna de verdade metafisica. Liderar o mundo na direção da luz é sua principal missão. É a sua mensagem que nos permite saber o que somos ou o que deveríamos ser.  O que a mensagem não nos diz é de que maneira, e é aqui que a outra parte do mito aparece. Voltamos a Bíblia...


   Deus disse a Abraão para deixar sua pátria e família e embarcar na sua jornada.  Mensagem clara: nossa missão na terra não pode ser completada até partirmos em busca do conhecimento e do nosso destino. Aprender que para convencer a outras pessoas é necessário estarmos preparados à aceitar as mudanças que o conhecimento nos traz. Independentemente da origem do mito do super-herói, esta é a mensagem que nos transmitem todos eles, seja Superman, Spiderman ou Batman...


Palmari de Lucena é membro da UBE


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A flanela do povo

   Desempregados ou subempregados, sem as qualificações mínimas para competir no mercado de trabalho formal. Guardadores e lavadores de carro informais, conhecidos como flanelinhas, atuam praticamente em todas as cidades do mundo. Temerosos de ter seus veículos danificados ou integridade física atingida, muitos motoristas simplesmente pagam gorjetas, suprimindo sentimentos latentes de aversão social e preconceito. Mendicância agressiva, serviço ao público ou chantagem social, a natureza da transação é sempre questionada, nunca definida ou diferenciada.  Pestilência urbana.
 
   O ofício é regulamentado há 36 anos em nível nacional. Entretanto, não existe o registro dos trabalhadores no Ministério do Trabalho e Emprego e os trabalhadores autônomos ainda aguardam uma regularização dos seus serviços. A Lei n° 6.242 de 1975 e o Decreto 79.797 de 1977 regulamentaram a profissão, estabelecendo procedimentos para o registro dos trabalhadores informais na Delegacia Regional do Trabalho e certas exigências formais, como documentação pessoal, atestado de bons antecedentes e certidão negativa pelos cartórios. Identificamos aqui um obstáculo importante para o cadastramento e ordenação da atividade nas ruas da cidade. É necessário que um convênio seja estabelecido entre a Prefeitura e a Delegacia Regional do Trabalho, cuja finalidade seria de estabelecer as áreas, condições e modalidades para o exercício da profissão em áreas públicas.

   Cadastramento de flanelinhas, provisão de uniformes, crachás e outros acessórios profissionais, sem registrar-se como determina a lei, parece ser a principal vertente da maioria dos projetos criados por municipalidades como Natal, Rio de Janeiro, Maringá, Juiz de Fora, Fortaleza, Brasília, Aracaju, Belo Horizonte e São Paulo. Muitos tentaram capacitá-los em profissões alternativas, com salários inferiores à renda mensal obtida com gorjetas. Nenhum dos projetos obteve os resultados esperados, muitos foram descontinuados ou abandonados.

   Experiência sugere que qualquer projeto envolvendo flanelinhas deve contar com a participação ativa dos trabalhadores, da comunidade e da Prefeitura.  Cadastramento dos trabalhadores e delimitação dos seus pontos de trabalho; formação de sindicatos ou cooperativas; registro profissional; código de conduta e termos de referência com provisões de contrapartida social são elementos essenciais para a resolução do problema. Vamos dar uma escutadinha aí dotô, nas propostas dos candidatos a prefeito...

Palmari de Lucena é membro da UBE

domingo, 1 de julho de 2012

Cargo de confiança?

Recebemos a chamada do secretário de nomeações do recém-eleito Prefeito de Nova Iorque, Abraham Beame, logo após as eleições municipais. Organizações dedicadas à prevenção e ao tratamento de droga adição haviam submetido meu nome e informações profissionais para um dos cargos de gestor na nova administração. Assumiríamos o cargo em um momento de muita tensão na cidade, rumores e a ameaça da crise financeira dos anos 70 dominavam a mídia.

Comitê da Transição Municipal, subsolo da Prefeitura. Fileira de guichês de aparência temporária e poucos gabinetes. Confirmado nosso interesse, preenchemos um questionário detalhado sobre nossa experiência profissional e fornecemos exemplos específicos dos nossos desafios e sucessos como gestor. Lista completa do nosso portfólio de investimentos e cinco anos de declarações de imposto de renda. Comunicaram-nos que estávamos na lista tríplice para o cargo de Comissário Adjunto (Subsecretário) na Addicion Services Agency, completados os requerimentos. Administraríamos uma dotação orçamentária de 150 milhões de dólares, designado a projetos de organizações não governamentais e fundações.

Semanas depois, fomos informados, havíamos sido nomeados temporariamente enquanto aguardavam a conclusão do relatório da Comissão de Investigações. Avaliavam nossa competência, antecedentes pessoais e outros elementos que pudessem impedir que fôssemos afiançados pelo Governo. Requisito final: carta de renúncia, sem data. Permanecer na administração da cidade, a partir do momento da contratação, estaria estritamente relacionado ao nosso desempenho, conduta profissional e pessoal, bem como disponibilidade de recursos orçamentários.

A expressão cargo de confiança nunca foi usada ou inferida no processo que culminou com a nossa nomeação como gestor sênior no governo municipal de Nova Iorque. O conceito é considerado anacrônico e contraditório aos preceitos modernos de administração pública e boa governança, ou seja, total e irrestrita competência é a norma. Verificaram antes de confiar que nossa capacidade de gestão, experiência profissional e nomeação não causariam sugestões de conflito de interesse ou acusações de nepotismo. Confiança? Sim, na competência.

palmari@gmail.com

terça-feira, 26 de junho de 2012

O bafo de onça do dragão

   Exportar barato e importar caro é o  binômio do sucesso da economia chinesa, combinando salários baixos e uma moeda subvalorizada para alcançar uma taxa de crescimento espetacular. Aumentando linearmente suas exportações e ao mesmo tempo usando seu enorme mercado doméstico como uma isca para atrair ou pressionar companhias estrangeiras a transferir tecnologia de ponta para o país.

   A China investe robustamente para manter sua moeda subvalorizada, criando assim inflação, uma preocupante inflação doméstica, uma crescente bolha imobiliária e reduzindo gradativamente sua competitividade. Companhias estrangeiras reclamam constantemente das restrições impostas ao investimento e comércio,  que incluem demanda de transferência de tecnologia  e fabricas.  Politicas estas com impactos negativos a economia mundial e têm nutrido reações negativas nos parlamentos dos países industrializados e alguns emergentes. Analistas creem que estamos à borda de uma guerra de comércio, como uma consequência da adoção de medidas e procedimentos protecionistas. Temem os resultados contraproducentes, que indubitavelmente afetarão o crescimento da econômica mundial e o  livre comércio entre blocos econômicos.
 
   O  grande desafio para o Brasil  é como adequar seu mercado de trabalho a simultânea  intensificação da economia globalizada e a revolução da tecnologia da informação. Fenômeno evidenciado pela produção de componentes  e peças anteriormente made in Brazil em diversas partes do mundo e o aumento da criação e produção de  produtos e serviços por máquinas e software. A transferência de fábricas brasileiras de calçados para  a China, é algo que evidencia esta tendência. O povo brasileiro se ressente, com certa razão, que a perda de empregos para a China afetará negativamente a nossa crescente classe média.
 
   Investimento na infraestrutura e equipamentos turísticos é, portanto uma alternativa viável e extremamente lucrativa para a nossa economia. Muitas vezes acontece que o governo argumenta  que não tem recursos financeiros para adequar-se as novas realidades. Países, incluindo a China, usam a modalidade BOT {(construir, operar e transferir) para  atrair financiamentos  para  operação de aeroportos, portos e parques de recreação e lazer.
 
   Durante nossas viagens a China, investidores demonstraram interesses em explorar parcerias para o treinamento massivo de jovens chineses em futebol e outros esportes. A presença de atletas de nível olímpico, no caso do voleibol de praia, poderia ser uma atividade extremamente rentável para a Paraíba, se disponibilizássemos de facilidades e serviços para turismo esportivo. O importante não é jogar dinheiro público em todas as ideais que se apresentem, inusitado que sejam, mas apoiar aquelas passiveis de parcerias com o setor privado  e eventualmente autossustentáveis.  
 
   Novas tarifas ou retaliações não trarão de volta as fabricas ou empregos perdidos para a China. O mais importante é direcionar nossos recursos técnicos e acadêmicos a serviço da inovação, transformação e competitividade da nossa força laboral no mundo globalizado.  Devemos deixar de ser como fantasminha Pluft. Relutante, medroso, sempre procurando novos parceiros para proteger-nos das economias do mundo ocidental. Viveremos sempre debaixo do bafo de um dragão, não importa a nacionalidade ou o cheiro, se não nos transformarmos.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Espanha agoniza...

   Excitante, a única palavra que encontramos para descrever a silhueta de Salamanca. Atravessamos lentamente a ponte romana sobre o Rio Tormes, catedrais e igrejas surgiram repentinamente nas três colinas da cidade. Bela e efêmera miragem no final de uma jornada irritante pelos campos áridos de Castela. Elegância banhada delicadamente pelos raios de sol do final da tarde, justaposta com a homogenia dourada das pedras de suas magnificas construções. Que inveja daqueles que passam anos, mesmo alguns meses, no meio de tanta beleza. Nosso romance com Salamanca começou naquele dia, nossa primeira visita.

   Voltamos várias vezes. Caminhamos pelo labirinto de ruas estreitas e pequenas praças que nos remetiam aos conventos e mosteiros a séculos quase imemoriáveis. Sempre na direção da Plaza Mayor, o picadeiro de todas as emoções e contradições da historia da Espanha. Mistura inconsútil do presente com o passado. Jovens vestidos em trajes da moda contemporânea, que enfatizavam estilos anti-têndencia, ziguezagueavam distraidamente pelas esquinas e o quadrilátero central. Congregados na sombra das arcadas, grupos de idosos e aposentados sussurravam apreensivamente sobre a situação da Espanha. Temerosos pela crise econômica desentranhando os poucos vestígios do progresso e da Euro-abundancia que prometia um futuro melhor para todos. Mesas dos cafés vazias formavam uma visão preocupante das incertezas do momento. Espanha agoniza...

   Seguimos nosso roteiro habitual pela Calle Libreros em direção à Universidade de Salamanca, reputada como a  mais antiga da Espanha. Chegamos a ¨Praça da Escolas¨, um logradouro tranquilo dominada pela estátua do grande poeta espanhol do século XVI, o Frade Luís de Leon, também um professor da universidade. Contam que o religioso-poeta resumiu suas lições após ser emprisionado por anos pela Inquisição com as palavras: ¨[...] como estávamos dizendo antes de ser interrompidos”.  Tudo nos leva ao passado em Salamanca.

   Hoje visitamos outro lado de Salamanca: medo do futuro e desorientação. O ar rarefeito do campus não os imuniza contra os males e as dúvidas do presente, nem parece prepará-los para o elusivo futuro. Chamados de ¨nimileuristas¨, uma geração condenada a trabalhar por salários que nem alcançam mil Euros por mês, um pouco mais do que o mínimo, independente do conhecimento, grau de escolaridade e uma ilustre passagem pelas salas da universidade. Muitos pensam em emigrar para países emergentes em busca de trabalho, outros simplesmente desaparecem nas filas de benefícios sociais ou desemprego. Quem sabe, talvez voltem um dia para continuar suas classes, retomar suas vidas como antes de serem interrompidos em seu passado de glória...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

As cores da arte de rua

   Curvados sobre mesas de cafés, jovens mostram sinais de fadiga e frustação. Escrevendo em pequenos cadernos, tocando um instrumento imaginário na superfície da mesa ou lendo páginas de classificados de jornais de dias anteriores. Ennui do desemprego. Antepassados seus enfrentaram os mistérios do mar e as vicissitudes de longas viagens em busca de um sonho. Jovens de hoje tentam escapar do pesadelo da crise econômica que ameaça seus futuros. Aquartelados involuntariamente em pedaços do mosaico urbano maculados pelos rigores da decadência.
           
   As estatísticas são estarrecedoras. O desemprego de jovens é superior ao  dobro da taxa nacional. Devido a sua precária situação, o país entrou na sua mais profunda recessão desde a transição democrática dos anos 70. Qualquer possibilidade de uma reviravolta na situação de desemprego parece tão distante como os lugares com possibilidades de trabalho nas ex-colônias ultramarinas

   Optando por alternativas pacíficas e soluções criativas, grupos de jovens portugueses canalizam suas ansiedades e frustações em atividades culturais e econômicas, parte de um crescente movimento ¨do-it-yourself¨ (faça por si mesmo). A dissolução do Ministério de Cultura, como parte dos cortes orçamentários, imbuiu um novo espírito empreendedor e criatividade na juventude desempregada.
           
   Lisboa tinha mais de 4,000 prédios abandonadas em 2008, incubadoras de todos os tipos de atividades antissociais e incluindo a destruição do patrimônio histórico. Rabiscos irados quebravam a monotonia exuberante de muros e paredes de prédios milenares. Paradoxalmente, um grupo de artistas de rua propôs revitalizar edifícios próximos ao centro da cidade, daí surgiu o Projeto Crono. Um grande mural: um jacaré de quatro andares de altura, um corvo com aparência doentia, a sombra de um ladrão à la Matisse e a figura de um humanoide de olhos esbugalhados, usando uma coroa com o logotipo de várias companhias de petróleo. Em Portugal, as tintas da ira se converteram em arte de rua; desta vez, a inspiração é definitivamente o Brazilian Grafitti do Ultramar.

Palmari@gmail.com

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mil e um ais da Serra de Sintra

Tínhamos uma vista privilegiada do jardim. Matizes de verde e marrom; grama e arbustos manicurados em perfeitas formas e simetria, seguidos de bosques castigados pelos rigores do inverno. Toque de solidão e devaneio no anoitecer de um dia cinzento que desafiara toda e qualquer possibilidade de quebrar a monotonia da paisagem diante de nós. Longe, bem longe, no cume da serra coroada pelo Palácio da Pena, suas magnificas cúpulas brilhavam timidamente com o toque dos raios de um sol moribundo. Sentinelas solitárias na paisagem melancólica e majestade serena da Serra de Sintra.

Reminiscências do passado glorioso do Palácio dos Seteais. Interiores revestidos de seda e mobiliário clássico, decorados com afrescos, gravuras antigas e objetos de arte. Salas e aposentos nos levavam a uma cápsula de tempo imaginária que abrigava suas belezas e segredos. Sentíamo-nos como hóspedes da História; o check-in na chegada ao hotel, uma mera distração. 

Arco triunfal decorado com um medalhão com os bustos de Dom João VI e Dona Carlota Joaquina e troféus da época, comemorativos da visita do então Regente, unem os dois nichos do Palácio.

Mistério, melancolia e poesia, permeiam a atmosfera ao redor do Palácio. O Penedo da Saudade e a bela vista ao seu redor, lembraram-nos das lendas de jovens mouras e cruzados. Lenda que deu origem ao nome do lugar discorre sobre o martírio de uma formosa princesa moura, que esteva cativa no Palácio e lá morreu de muito penar. Os sete ais muito sentidos e profundos que deu antes de expirar, foram fundidos através dos anos para formar o nome Seteais.

No livro ¨Os Maias¨, Eça de Queiroz narra o encontro do personagem Carlos Maia com Alencar, poeta ultrarromântico, que prontamente recita uma estrofe que havia escrito sobre o Penedo da Saudade: ¨ [...] Quantos luares eu lá vi? Que doces manhãs d´Abril? E os ais que soltei ali. Não foram sete mas mil!¨.

Subimos a rampa até o mirador, após cruzar o arco. Belos jardins em forma de labirinto, casas brancas a distância, campos cultivados e um mar bem longe de onde estávamos. Grupos de estudantes ouviam atentamente aos seus professores. Estudavam o oitavo capítulo de ¨Os Maias¨, falavam sobre a história do Palácio dos Seteais.  Enquanto contemplávamos o Penedo da Saudade, acreditamos ter ouvido um longo ai ecoando entre as colinas, juntando-se aos ais do poeta, da princesa e a todos os demais...

palmari@gmail.com

terça-feira, 27 de março de 2012

Hemingway comeu aqui

  Sentaram-nos prontamente em uma mesa de três, jantar em família. Ambiente alegre. Sentíamo-nos imunes ao barulho das gargalhadas dos clientes. Vapores de Rioja alto escapando dos hálitos do mais inebriados. Nossa primeira noite em Madri. Nada nos distraia, nem mesmo o ruído metálico e sutil de talheres destrinchando generosas porções de leitão assado. Estávamos no andar superior do Restaurante Botín.


   Turistas sentados à mesa próxima a nossa. Casal português e um amigo brasileiro. Voz alta, sotaque do interior paulista bombardeando os demais com platitudes sobre filosofia antiga, neurônios, a Bíblia e as belezas de Madri. A poiiita do sol é um lugar maravilhoso, revelou entusiasticamente. Mudou de assunto repentinamente. Dicas sobre as rebajas, promoções, nas lojas da área.  Aspirante a Homem da Renascença. Notaram que éramos brasileiros.  Conversa miúda sobre estados e cidade de origem, geografia de turista brasileiro. Ah, mais uma dica, comentou com um piscar de olho, as bolsas da Louis Vitton estão baratíssimas...


   Música alegre próximo à escadaria, tínhamos a companhia de uma agrupação musical, uma tuna universitária. Guitarras, aludes e pandeiros. Apareceram no lado oposto da sala. Vozes firmes, afinadas, cantavam o refrão de Guadalajara, Guadalajara, canção popularizada pelo mundo afora por grupos de mariachis mexicanos. Versão estilo rumba catalã de Tico Tico no Fubá, na sequencia. Resposta entusiástica da audiência. Cesta de vime recheada de notas de 10 e 20 Euros sugerindo propinas, diminuiu o entusiasmo dos nossos vizinhos. Concluíram com uma canção espanhola: Valencia, cantada por um dueto de estudantes de medicina, ambos africanos.


   Scott Fitzgerald, James A. Michener, Graham Greene e Ernest Hemingway estiveram aqui, comentou o maître casualmente enquanto discutíamos nossas opções gastronômicas. Chegamos a um consenso, escolhemos o cardápio prix-fixe noventa e cinco reais por pessoa: cesta de pães, sopa de grão de bico, leitãozinho assado, sobremesa e meia garrafa de vinho Rioja. O homem fez um pequeno som de satisfação e partiu em direção a cozinha.


   Próximo ao final do livro O Sol também se levanta de Ernest Hemingway, os personagens Brett e Jake desfrutavam uma refeição no restaurante. Reações típicas de qualquer visitante. Almoçamos no andar de cima do Botin. É um dos melhores restaurantes do mundo. Comemos leitão assado e bebemos Ríoja alta. Brett não comeu muito. Nunca comia muito. Eu comi pra valer e bebi três garrafas de Ríoja alta. Decidiram partir, a narrativa continua: No fim da escada, saímos para a rua pela sala de jantar do primeiro piso. Um empregado foi buscar um táxi [...] em um pequeno largo arborizado e arrelvado... 


    Terminamos a refeição. Não havíamos comido ou bebido tanto como o Jake, mas sentíamos a necessidade de explorar as ruas e praças da área.  Aparentemente, todos os bares da Cale Cuchilleros anunciam a presença oficial de Hemingway e outras celebridades, até o cantor Nelson Ned do Brasil. Só o Botín oferece comprovação através de artigos e os livros dos seus ilustres frequentadores. Vizinho ao Botín, o Restaurante El Coche, anuncia em letras garrafais na entrada: HEMINGWAY NUNCA COMEU AQUI. Outros comeram... 


   Rumamos em direção a Calle Cava Baja.  Noite clara de verão nos motivava a caminhar pelas calçadas estreitas. Forçados após caminhar cem metros a procurar abrigo, entramos em um lugar que nos chamou a atenção: Posada de la Villa, construída originalmente em 1642 e restaurada como um restaurante em 1980. Madeira, pedra e vitrais criam um ambiente luxuoso sem exagero ou pretensão de grandeza. Não registram nenhum texto literário sobre o local, só os nomes de celebridades que por ali passaram em discretas placas de bronze. Logo descobrimos que Janet Jackson havia usadas umas das cadeiras na nossa mesa.  Teríamos preferido uma mesa com manchas de vinho Ríoja alta. HEMINGWAY TOMOU UM PORRE AQUI!


   Voltamos no dia seguinte, um jantar inesquecível...


Palmari H de Lucena é membro da UBE

segunda-feira, 5 de março de 2012

República do Déjà-vu

   O Haiti não era[...] uma exceção num mundo sadio: era uma pequena fatia do dia a dia tomada ao acaso [...]”, afirmara um dos protagonistas da novela ¨Os Farsantes¨, de Graham Greene.

   Papa Doc Duvalier, médico tímido e gentil, transformou-se em um ditador ao chegar à presidência nos fins da década de 50. Era o grande vilão de Greene. Oprimiu o povo por quase duas décadas, com seus temidos ¨tontons macoutes¨ e a manipulação das crenças e superstições do Vodu. Baby Doc, 20 anos de idade, assumiu o poder após a morte do pai, governou ao mesmo estilo até os meados dos anos 80. Anos de golpes e contra golpes se seguiram. Finalmente elegeram um presidente, deposto antes de terminar seu mandato.

   O poderio militar dos norte-americanos e a comunidade internacional coadjuvante estabelecendo uma nova ordem politica, mais uma vez. Bertand Aristide, o primeiro presidente eleito democraticamente no Haiti, retornou para completar os dois últimos anos do seu mandato.

   O presidente promulgou um decreto estabelecendo a Comissão Nacional de Verdade e Justiça, meses depois de retomar seu mandato. A medida atendia às reinvindicações da comunidade internacional e do povo haitiano. Nosso escritório nas Nações Unidas serviria como o gestor dos recursos e da implantação das atividades relevantes aos trabalhos da comissão. Quase cinco décadas de desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais, prisões arbitrárias e outras violações graves dos direitos humanos.

   Grandes obstáculos surgiram na realização das investigações. Falta de vontade política; perda de interesse e financiamento externo; confusão sobre o mandato da comissão; inexperiência do pessoal haitiano e temor pela segurança dos investigadores entorpeceram qualquer possibilidade de elaborar um documento que se remetesse à investigação e adjudicação de processos ou à reconciliação nacional. Nenhum procurador foi nomeado para seguir os casos documentados pela comissão.

   Baby Doc voltou do exilio em Janeiro; Aristide também retornou, do seu segundo exílio político. Encontraram o país em crise devido às disputas sobre as eleições presidenciais. As peças retornaram aos seus lugares originais no tabuleiro da politica fraticida do Haiti. 

palmari@gmail.com

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A maré vermelha no paraiso

   Nairóbi não era um lugar predisposto a excessos climatológicos. Chamada a “cidade verde no sol”, temperatura amena quase todo o ano. Novembro e dezembro as únicas exceções, chuva com calor. Decidimos que era tempo de dar uma saída em direção às ilhas Seychelles no Oceano Índico.
   Sobrevoávamos contemplando a imensidão turquesa do Oceano Índico.  Perdidos no espaço a caminho do paraíso. Enorme mancha escura na superfície do oceano, aproximando-se rapidamente da ilha de Praslin, nosso destino.  “Maré vermelha”, fenômeno natural causado pelo crescimento excessivo de microalgas presentes no plâncton marinho, explicou didaticamente o piloto. Ameaçando mais de 1.000 espécies de peixes, caranguejos e uma das maiores colônias de aves marinhas do mundo.
   Areia branca. Mar tranquilo, nada de profundidade inesperada ou correntes traiçoeiras. A praia estava coberta por uma verdadeira colcha de retalhos de seios desnudos. Olhos alertas dos trabalhadores acompanhavam todos os movimentos dos banhistas, uma atenção generosa sem preconceitos ou desconfiança. Sentinelas no perímetro de um paraíso de seios europeus, atentos á crescente mancha vermelha que se avizinhava da praia.
   Anoiteceu. Ouvimos acordes de sanfona misturados com o som estridente de uma rabeca. Tocavam um ritmo chamado de Sega. Pares dançavam em quadrados, coreografia derivada da “quadrille” francesa. Atraídos pela música, caminhamos até um tablado rústico, em frente do hotel. Deparamo-nos com uma multitude de caranguejos, ao abrirmos a porta do bangalô. Impossível de avançar um metro, sem pisá-los ou ser ferido pelas patas hostis que exibiam. Removendo os crustáceos do caminho, três vigias nos acompanharam.
   Manhã seguinte. Nenhum vestígio dos caranguejos. Haviam voltado para seus buracos profundos, longe dos banhistas, que agora reocupavam a areia branca ao longo da orla.  Retornariam no final do dia, um verdadeiro banquete de frutas e restos de comida os esperava. As noites seriam mais tranquilas também, não estavam servindo caranguejo no jantar, devido à advertência de poluição da maré vermelha.
   Decidimos visitar o Vale de Maio, no interior da ilha. Lugar considerado como uma réplica do Jardim do Paraíso, tal como descrito no Gênesis. Festival de cores e fragrâncias. Canela misturada com cheiro de mar. Som confortante de águas cristalinas. Esquecemo-nos da maré vermelha, por uma instante apenas, ainda estávamos em um paraíso...
palmari@gmail.com

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Madrid siempre Madrid

   Hemingway costumava dizer que Madri era a mais espanhola das cidades. Pessoas vestidas convencionalmente; crianças ainda imunes às roupas de tendência; mulheres idosas em luto permanente caminham despreocupadamente no tablado inconsútil que mistura o histórico com a nova era do minimalismo. Velha e matreira, a capital política do Império comporta-se como uma solteirona observando com falso pudor e desconfiança as travessuras da jovem Barcelona, que há muito tempo tirou seu manto de virtude.

   Chegamos a Plaza de Chueca. Sentimos imediatamente como se estivéssemos interagindo com personagens de um filme de Almadôvar. Pessoas em abrigos de lã carregando o peso dos anos nas costas curvadas; outras vestidas em trajes que obliteram qualquer tentativa de identificação biométrica ou status social, jovens cruzando a praça em todas as direções, mãos sempre ocupadas com pequenas sacolas, instrumentos musicais ou um simples cigarro entre os dedos. Observávamos da nossa ¨position avantageuse¨ em um pequeno bar, sem engajarmos nos matizes coreográficos do balé urbano ou as reações dos seus espectadores.

   Calle Cava Baja, nosso próximo destino. Estreita e incomumente curvada, abrigando complexas mudanças históricas e absorvendo as imprevisíveis mutações nos microssistemas culturais da grande cidade. Outrora parte de um sistema de fossos construídos no exterior da muralha da cidade, para protegê-la de assaltos de surpresa. As covas permitiam o acesso de soldados ou habitantes, mesmo se as portas estivessem fechadas. Ironicamente, os fossos podem ter sido usados como uma rota de escape dos ocupantes árabes, quando o Rei Afonso VI reconquistou Madri.

   Começando na Plaza de Puerta Cerrada, a Calle Cava Baja se estende até a Plaza de Humilladero. Hospedarias, tabernas e pousadas alojavam os viajantes que chegavam de Castela para comercializar seus produtos nos mercados de Cebada ou de San Miguel. Tiveram inicio no século XVII e fomentaram a proliferação de oficinas de artesões que fabricavam objetos de metal e couro para o uso dos visitantes. Quatro das antigas pousadas foram modernizadas e uma delas, a Posada de la Villa, convertida em restaurante.

   Tapas são uma instituição madrilena servida em praticamente todo bar ou restaurante a preços acessíveis e para qualquer paladar, mesmo àqueles limitados por melindres gastronômicos. Apesar da popularidade de bares de tapas em todos os bairros da cidade, os localizados na Cava Baja ainda são os mais famosos e frequentados por sua tradição e requinte. Barulhentos, muitas vezes lotados, estes incômodos são facilmente superados pelo espirito de aventura e pelo élan da noite.

   Optamos pela Casa Lúcio, o restaurante favorito da família real espanhola por mais de três décadas. A aparência tradicional confunde aos visitantes, que descobrem ao entrar que a elegância e energia do ambiente, são encharcadas de sabores e aromas da espanholidade madrilena.

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A primavera de Pedro

   Picadeiro de todas as emoções da cidade, pequena praça na junção de três ruas. Decorada suntuosamente por flamboaiãs e acácias em flor. Moças vestidas em trajes domingueiros de missa, com a tendência do momento funcionalmente adaptadas a interesses românticos e caprichos da adolescência. Caminhando alegremente no sentido dos ponteiros do relógio. Observadas complacentemente por rapazes, alguns em pequenos grupos, posições estáticas nas esquinas, mãos enfiadas nos bolsos das calças, cigarros precariamente colados no canto da boca. O diálogo entre sexos opostos nutrido por trocas de olhares e gestos sutis, ocasionalmente um recado transmitido por uma amiga. Sempre vigilante, o pároco registrava anotações mentais sobre qualquer desvio na conduta dos jovens protagonistas, mesmo um piscar de olho considerado malicioso. A cidade era um lugar hostil às paixões extemporâneas.
          
  Alguns jovens conversando em tom confidencial, desatentos à movimentação ao redor da praça. Liderando a conversa com gestos animados, um rapaz de estatura mediana, trajado atipicamente em mescla e calçando botas de vaqueiro. Decorando seu rosto redondo, carente de outros atributos notáveis, um par de olhos matreiros e boca debochada. Exímio contador de piadas e lorotas, possuidor de um inesgotável estoque de vícios de linguagem, o estudante era conhecido por todos como Pedro, o filho da lavadeira. Picardia e progresso acadêmico facilitavam seu convívio com colegas de todas as classes nos campos de futebol, bandinhas e batucadas estudantis.  A única e mais flagrante exceção, acesso ao clube social da cidade.
            
   Malandros da Serra, a escola de samba dos jovens da cidade, recebeu um convite inusitado para uma apresentação no clube social. Avant-première no seio da sociedade local, nunca sido untada com tamanha honraria. Durante o último ensaio, Pedro confirmou o segredo mais conhecido da cidade, permissão para ele entrar no clube seria negada. Pediu que participassem mesmo assim, era Carnaval.
            
   A escola de samba desfilou diante do palanque das autoridades em silêncio absoluto, cabisbaixos, mãos cruzadas para trás. Pasmados com o ocorrido pediram uma explicação ao chegarem à praça.  O grupo havia decidido por unanimidade não entrar ou tocar em nenhum lugar que não permitisse a entrada de um dos seus membros.  Diante do impasse, o presidente do clube autorizou que todos participassem na apresentação. Pedro filosofou jocosamente ao saber da decisão: ¨agora posso tirar a palavra pobre do meu dicionário. O verão da serra virou primavera. Comemorado entusiasticamente com uma interpretação carnavalesca do samba Acender as Velas...

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O barco nergro da mãe preta

        Grupo de emigrantes brasileiros celebrando uma ocasião especial. Mesa improvisada, decorada sem grande requinte ou funcionalidade. Aroma de feijoada invadia as narinas e todos os recantos do pequeno apartamento. 


Cantora gaúcha desconhecida no Brasil chegou atrasada. Acompanhada por um homem negro de meia idade apresentado prontamente como Caco Velho, o Sambista Infernal. Recordamos uma chanchada dos anos 50, ¨Carnaval na Atlântica¨, no qual participara com números musicais. Assumiu comando da secção de ritmos imediatamente ― avulsos e contagiantes. A parada de sucessos musicais, terminou abruptamente. Queixa dos vizinhos.

O sambista nos contou que procurara trabalhou sem grande êxito. Reclamava que a bossa nova, em êxito total nos Estados Unidos, não abria espaços para sambistas tradicionais. Tentamos vários contatos. Bar italiano no centro de São Francisco concordou em abrir o pequeno palco à Caco Velho. Sucesso imediato, casa cheia de emigrantes brasileiros, dançando entre as mesas ou no palco. Temeroso de uma intervenção do sindicato dos músicos ou das autoridades municipais, o dono cancelou os shows abruptamente. Desencorajado e praticamente sem dinheiro, partiu para o Sul da Califórnia. Soubemos décadas depois que havia falecido no Brasil em1971.

Fugiam de Caco Velho, fama e sucesso. Mãe Preta, uma de suas mais notórias composições, possivelmente a melhor, foi relegada ao insucesso comercial. Encontrava-se na contramão da história das relações entre brancos e afrodescendentes nas Américas. Imagens de mães negras servis cuidando de bebês brancos na casa grande, enquanto seus homens apanhavam na senzala, condenou a bela canção ao desdém e à obscuridade. Ingenuamente, seu compositor esperava que fosse um sucesso nos Estados Unidos. Estávamos na década de 60, enfrentamentos raciais e busca de identidade étnica e  autodeterminação era a norma.

Amália Rodrigues lançou Mãe Preta como um fado sob o curioso nome de Barco Negro e uma letra romântica sobre a partida de um ente amado. A moçambicana Marisa, a mais nova diva do fado, relançou com grande sucesso mundial. A Mãe Preta do Barco Negro continua vivendo na obscuridade.