NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A primavera de Pedro

   Picadeiro de todas as emoções da cidade, pequena praça na junção de três ruas. Decorada suntuosamente por flamboaiãs e acácias em flor. Moças vestidas em trajes domingueiros de missa, com a tendência do momento funcionalmente adaptadas a interesses românticos e caprichos da adolescência. Caminhando alegremente no sentido dos ponteiros do relógio. Observadas complacentemente por rapazes, alguns em pequenos grupos, posições estáticas nas esquinas, mãos enfiadas nos bolsos das calças, cigarros precariamente colados no canto da boca. O diálogo entre sexos opostos nutrido por trocas de olhares e gestos sutis, ocasionalmente um recado transmitido por uma amiga. Sempre vigilante, o pároco registrava anotações mentais sobre qualquer desvio na conduta dos jovens protagonistas, mesmo um piscar de olho considerado malicioso. A cidade era um lugar hostil às paixões extemporâneas.
          
  Alguns jovens conversando em tom confidencial, desatentos à movimentação ao redor da praça. Liderando a conversa com gestos animados, um rapaz de estatura mediana, trajado atipicamente em mescla e calçando botas de vaqueiro. Decorando seu rosto redondo, carente de outros atributos notáveis, um par de olhos matreiros e boca debochada. Exímio contador de piadas e lorotas, possuidor de um inesgotável estoque de vícios de linguagem, o estudante era conhecido por todos como Pedro, o filho da lavadeira. Picardia e progresso acadêmico facilitavam seu convívio com colegas de todas as classes nos campos de futebol, bandinhas e batucadas estudantis.  A única e mais flagrante exceção, acesso ao clube social da cidade.
            
   Malandros da Serra, a escola de samba dos jovens da cidade, recebeu um convite inusitado para uma apresentação no clube social. Avant-première no seio da sociedade local, nunca sido untada com tamanha honraria. Durante o último ensaio, Pedro confirmou o segredo mais conhecido da cidade, permissão para ele entrar no clube seria negada. Pediu que participassem mesmo assim, era Carnaval.
            
   A escola de samba desfilou diante do palanque das autoridades em silêncio absoluto, cabisbaixos, mãos cruzadas para trás. Pasmados com o ocorrido pediram uma explicação ao chegarem à praça.  O grupo havia decidido por unanimidade não entrar ou tocar em nenhum lugar que não permitisse a entrada de um dos seus membros.  Diante do impasse, o presidente do clube autorizou que todos participassem na apresentação. Pedro filosofou jocosamente ao saber da decisão: ¨agora posso tirar a palavra pobre do meu dicionário. O verão da serra virou primavera. Comemorado entusiasticamente com uma interpretação carnavalesca do samba Acender as Velas...

palmari@gmail.com

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O barco nergro da mãe preta

        Grupo de emigrantes brasileiros celebrando uma ocasião especial. Mesa improvisada, decorada sem grande requinte ou funcionalidade. Aroma de feijoada invadia as narinas e todos os recantos do pequeno apartamento. 


Cantora gaúcha desconhecida no Brasil chegou atrasada. Acompanhada por um homem negro de meia idade apresentado prontamente como Caco Velho, o Sambista Infernal. Recordamos uma chanchada dos anos 50, ¨Carnaval na Atlântica¨, no qual participara com números musicais. Assumiu comando da secção de ritmos imediatamente ― avulsos e contagiantes. A parada de sucessos musicais, terminou abruptamente. Queixa dos vizinhos.

O sambista nos contou que procurara trabalhou sem grande êxito. Reclamava que a bossa nova, em êxito total nos Estados Unidos, não abria espaços para sambistas tradicionais. Tentamos vários contatos. Bar italiano no centro de São Francisco concordou em abrir o pequeno palco à Caco Velho. Sucesso imediato, casa cheia de emigrantes brasileiros, dançando entre as mesas ou no palco. Temeroso de uma intervenção do sindicato dos músicos ou das autoridades municipais, o dono cancelou os shows abruptamente. Desencorajado e praticamente sem dinheiro, partiu para o Sul da Califórnia. Soubemos décadas depois que havia falecido no Brasil em1971.

Fugiam de Caco Velho, fama e sucesso. Mãe Preta, uma de suas mais notórias composições, possivelmente a melhor, foi relegada ao insucesso comercial. Encontrava-se na contramão da história das relações entre brancos e afrodescendentes nas Américas. Imagens de mães negras servis cuidando de bebês brancos na casa grande, enquanto seus homens apanhavam na senzala, condenou a bela canção ao desdém e à obscuridade. Ingenuamente, seu compositor esperava que fosse um sucesso nos Estados Unidos. Estávamos na década de 60, enfrentamentos raciais e busca de identidade étnica e  autodeterminação era a norma.

Amália Rodrigues lançou Mãe Preta como um fado sob o curioso nome de Barco Negro e uma letra romântica sobre a partida de um ente amado. A moçambicana Marisa, a mais nova diva do fado, relançou com grande sucesso mundial. A Mãe Preta do Barco Negro continua vivendo na obscuridade.