NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A maré vermelha no paraiso

   Nairóbi não era um lugar predisposto a excessos climatológicos. Chamada a “cidade verde no sol”, temperatura amena quase todo o ano. Novembro e dezembro as únicas exceções, chuva com calor. Decidimos que era tempo de dar uma saída em direção às ilhas Seychelles no Oceano Índico.
   Sobrevoávamos contemplando a imensidão turquesa do Oceano Índico.  Perdidos no espaço a caminho do paraíso. Enorme mancha escura na superfície do oceano, aproximando-se rapidamente da ilha de Praslin, nosso destino.  “Maré vermelha”, fenômeno natural causado pelo crescimento excessivo de microalgas presentes no plâncton marinho, explicou didaticamente o piloto. Ameaçando mais de 1.000 espécies de peixes, caranguejos e uma das maiores colônias de aves marinhas do mundo.
   Areia branca. Mar tranquilo, nada de profundidade inesperada ou correntes traiçoeiras. A praia estava coberta por uma verdadeira colcha de retalhos de seios desnudos. Olhos alertas dos trabalhadores acompanhavam todos os movimentos dos banhistas, uma atenção generosa sem preconceitos ou desconfiança. Sentinelas no perímetro de um paraíso de seios europeus, atentos á crescente mancha vermelha que se avizinhava da praia.
   Anoiteceu. Ouvimos acordes de sanfona misturados com o som estridente de uma rabeca. Tocavam um ritmo chamado de Sega. Pares dançavam em quadrados, coreografia derivada da “quadrille” francesa. Atraídos pela música, caminhamos até um tablado rústico, em frente do hotel. Deparamo-nos com uma multitude de caranguejos, ao abrirmos a porta do bangalô. Impossível de avançar um metro, sem pisá-los ou ser ferido pelas patas hostis que exibiam. Removendo os crustáceos do caminho, três vigias nos acompanharam.
   Manhã seguinte. Nenhum vestígio dos caranguejos. Haviam voltado para seus buracos profundos, longe dos banhistas, que agora reocupavam a areia branca ao longo da orla.  Retornariam no final do dia, um verdadeiro banquete de frutas e restos de comida os esperava. As noites seriam mais tranquilas também, não estavam servindo caranguejo no jantar, devido à advertência de poluição da maré vermelha.
   Decidimos visitar o Vale de Maio, no interior da ilha. Lugar considerado como uma réplica do Jardim do Paraíso, tal como descrito no Gênesis. Festival de cores e fragrâncias. Canela misturada com cheiro de mar. Som confortante de águas cristalinas. Esquecemo-nos da maré vermelha, por uma instante apenas, ainda estávamos em um paraíso...
palmari@gmail.com

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Madrid siempre Madrid

   Hemingway costumava dizer que Madri era a mais espanhola das cidades. Pessoas vestidas convencionalmente; crianças ainda imunes às roupas de tendência; mulheres idosas em luto permanente caminham despreocupadamente no tablado inconsútil que mistura o histórico com a nova era do minimalismo. Velha e matreira, a capital política do Império comporta-se como uma solteirona observando com falso pudor e desconfiança as travessuras da jovem Barcelona, que há muito tempo tirou seu manto de virtude.

   Chegamos a Plaza de Chueca. Sentimos imediatamente como se estivéssemos interagindo com personagens de um filme de Almadôvar. Pessoas em abrigos de lã carregando o peso dos anos nas costas curvadas; outras vestidas em trajes que obliteram qualquer tentativa de identificação biométrica ou status social, jovens cruzando a praça em todas as direções, mãos sempre ocupadas com pequenas sacolas, instrumentos musicais ou um simples cigarro entre os dedos. Observávamos da nossa ¨position avantageuse¨ em um pequeno bar, sem engajarmos nos matizes coreográficos do balé urbano ou as reações dos seus espectadores.

   Calle Cava Baja, nosso próximo destino. Estreita e incomumente curvada, abrigando complexas mudanças históricas e absorvendo as imprevisíveis mutações nos microssistemas culturais da grande cidade. Outrora parte de um sistema de fossos construídos no exterior da muralha da cidade, para protegê-la de assaltos de surpresa. As covas permitiam o acesso de soldados ou habitantes, mesmo se as portas estivessem fechadas. Ironicamente, os fossos podem ter sido usados como uma rota de escape dos ocupantes árabes, quando o Rei Afonso VI reconquistou Madri.

   Começando na Plaza de Puerta Cerrada, a Calle Cava Baja se estende até a Plaza de Humilladero. Hospedarias, tabernas e pousadas alojavam os viajantes que chegavam de Castela para comercializar seus produtos nos mercados de Cebada ou de San Miguel. Tiveram inicio no século XVII e fomentaram a proliferação de oficinas de artesões que fabricavam objetos de metal e couro para o uso dos visitantes. Quatro das antigas pousadas foram modernizadas e uma delas, a Posada de la Villa, convertida em restaurante.

   Tapas são uma instituição madrilena servida em praticamente todo bar ou restaurante a preços acessíveis e para qualquer paladar, mesmo àqueles limitados por melindres gastronômicos. Apesar da popularidade de bares de tapas em todos os bairros da cidade, os localizados na Cava Baja ainda são os mais famosos e frequentados por sua tradição e requinte. Barulhentos, muitas vezes lotados, estes incômodos são facilmente superados pelo espirito de aventura e pelo élan da noite.

   Optamos pela Casa Lúcio, o restaurante favorito da família real espanhola por mais de três décadas. A aparência tradicional confunde aos visitantes, que descobrem ao entrar que a elegância e energia do ambiente, são encharcadas de sabores e aromas da espanholidade madrilena.

palmari@gmail.com