NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Espanha agoniza...

   Excitante, a única palavra que encontramos para descrever a silhueta de Salamanca. Atravessamos lentamente a ponte romana sobre o Rio Tormes, catedrais e igrejas surgiram repentinamente nas três colinas da cidade. Bela e efêmera miragem no final de uma jornada irritante pelos campos áridos de Castela. Elegância banhada delicadamente pelos raios de sol do final da tarde, justaposta com a homogenia dourada das pedras de suas magnificas construções. Que inveja daqueles que passam anos, mesmo alguns meses, no meio de tanta beleza. Nosso romance com Salamanca começou naquele dia, nossa primeira visita.

   Voltamos várias vezes. Caminhamos pelo labirinto de ruas estreitas e pequenas praças que nos remetiam aos conventos e mosteiros a séculos quase imemoriáveis. Sempre na direção da Plaza Mayor, o picadeiro de todas as emoções e contradições da historia da Espanha. Mistura inconsútil do presente com o passado. Jovens vestidos em trajes da moda contemporânea, que enfatizavam estilos anti-têndencia, ziguezagueavam distraidamente pelas esquinas e o quadrilátero central. Congregados na sombra das arcadas, grupos de idosos e aposentados sussurravam apreensivamente sobre a situação da Espanha. Temerosos pela crise econômica desentranhando os poucos vestígios do progresso e da Euro-abundancia que prometia um futuro melhor para todos. Mesas dos cafés vazias formavam uma visão preocupante das incertezas do momento. Espanha agoniza...

   Seguimos nosso roteiro habitual pela Calle Libreros em direção à Universidade de Salamanca, reputada como a  mais antiga da Espanha. Chegamos a ¨Praça da Escolas¨, um logradouro tranquilo dominada pela estátua do grande poeta espanhol do século XVI, o Frade Luís de Leon, também um professor da universidade. Contam que o religioso-poeta resumiu suas lições após ser emprisionado por anos pela Inquisição com as palavras: ¨[...] como estávamos dizendo antes de ser interrompidos”.  Tudo nos leva ao passado em Salamanca.

   Hoje visitamos outro lado de Salamanca: medo do futuro e desorientação. O ar rarefeito do campus não os imuniza contra os males e as dúvidas do presente, nem parece prepará-los para o elusivo futuro. Chamados de ¨nimileuristas¨, uma geração condenada a trabalhar por salários que nem alcançam mil Euros por mês, um pouco mais do que o mínimo, independente do conhecimento, grau de escolaridade e uma ilustre passagem pelas salas da universidade. Muitos pensam em emigrar para países emergentes em busca de trabalho, outros simplesmente desaparecem nas filas de benefícios sociais ou desemprego. Quem sabe, talvez voltem um dia para continuar suas classes, retomar suas vidas como antes de serem interrompidos em seu passado de glória...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

As cores da arte de rua

   Curvados sobre mesas de cafés, jovens mostram sinais de fadiga e frustação. Escrevendo em pequenos cadernos, tocando um instrumento imaginário na superfície da mesa ou lendo páginas de classificados de jornais de dias anteriores. Ennui do desemprego. Antepassados seus enfrentaram os mistérios do mar e as vicissitudes de longas viagens em busca de um sonho. Jovens de hoje tentam escapar do pesadelo da crise econômica que ameaça seus futuros. Aquartelados involuntariamente em pedaços do mosaico urbano maculados pelos rigores da decadência.
           
   As estatísticas são estarrecedoras. O desemprego de jovens é superior ao  dobro da taxa nacional. Devido a sua precária situação, o país entrou na sua mais profunda recessão desde a transição democrática dos anos 70. Qualquer possibilidade de uma reviravolta na situação de desemprego parece tão distante como os lugares com possibilidades de trabalho nas ex-colônias ultramarinas

   Optando por alternativas pacíficas e soluções criativas, grupos de jovens portugueses canalizam suas ansiedades e frustações em atividades culturais e econômicas, parte de um crescente movimento ¨do-it-yourself¨ (faça por si mesmo). A dissolução do Ministério de Cultura, como parte dos cortes orçamentários, imbuiu um novo espírito empreendedor e criatividade na juventude desempregada.
           
   Lisboa tinha mais de 4,000 prédios abandonadas em 2008, incubadoras de todos os tipos de atividades antissociais e incluindo a destruição do patrimônio histórico. Rabiscos irados quebravam a monotonia exuberante de muros e paredes de prédios milenares. Paradoxalmente, um grupo de artistas de rua propôs revitalizar edifícios próximos ao centro da cidade, daí surgiu o Projeto Crono. Um grande mural: um jacaré de quatro andares de altura, um corvo com aparência doentia, a sombra de um ladrão à la Matisse e a figura de um humanoide de olhos esbugalhados, usando uma coroa com o logotipo de várias companhias de petróleo. Em Portugal, as tintas da ira se converteram em arte de rua; desta vez, a inspiração é definitivamente o Brazilian Grafitti do Ultramar.

Palmari@gmail.com