NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 26 de agosto de 2012

Istambul e seus tapetes

    Istambul é um dos lugares mais fascinantes para comprar tapetes. Grandes ou pequenas, as lojas são localizadas em becos, mercados públicos e em shoppings sofisticados. Qualidade, desenho e preço variam tanto como os locais de venda. As opções são múltiplas: hereke e kayseris da Turquia, pilhas de tapetes persas; bokharas e khotans do Turquemenistão.

   Bem treinadas pontas das unhas, acariciando o avesso dos tapetes. Explicações eloquentes sobre os desenhos, cores, e histórias. Gestos dramáticos. Olhares penetrantes cheios de súplica e ensaiada sinceridade antecedem a oferta. Café turco servido em pequenas taças sugerindo uma aparente falta de pressa em concluir a transação, gesto desinteressado. Repetindo palavras de louvor e suspiros de admiração enquanto auxiliares formam pilhas de tapetes. Sentimo-nos sonolentos com o ritmo contínuo e o aroma do café. O ambiente nos mesmeriza. Éramos os primeiros clientes do dia, nos oferecem um tapete hereke. Preço irrecusável.  Contraproposta feita e aceita. Partimos felizes com o nosso excesso de bagagem.

   Cercada de edifícios magistrais do Império Otomano, Istambul e a magia dos seus tapetes. As palavras de Orhan Pamuk nos transportam a uma visão maravilhosa do Bósforo, apetitosamente turca. ¨[...] Impelido por suas fortes correntezas, revigorado pelos ares marinhos que não guardam nenhum vestígio da sujeira, fumaça e do barulho da cidade movimentada que o cerca, o viajante começa a sentir que, a despeito de tudo, aquele ainda é um lugar onde ele pode gozar a solidão e encontrar a liberdade [...]¨. 

   Tentar comprar um tapete como investimento, é geralmente um erro. Escolha se gostar do desenho e das cores, se o preço for dentro de seu orçamento e se couber naquele lugarzinho da sua casa. Mas a melhor regra é não solicitar uma avaliação profissional depois de comprado, pode decepcionar-se.  O valor afetivo nos remete aos contos das Mil e uma Noites. E sempre trará boas memórias e um pouco da magia de Istambul para dentro da sua vida.

Palmarí de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Por que são órfãos nossos super-heróis?

   A maioria dos filmes que ressoam nas nossas imaginações são aqueles que contam histórias com significados mais profundos do que conscientemente podemos detectar. Cheios de simbolismo, metáforas e arquétipos que são incorporados nas vidas dos protagonistas, eventualmente nas nossas também. Empoderados, sentimo-nos capazes de suceder aos mesmos desafios. É parte da magia, eles nos inspiram. Deixam impressões profundas na nossa juventude, quando a grande parte das pessoas ainda não atingiu a condição de órfão, status geralmente alcançado por nossos heróis. Por que então são órfãos nossos super-heróis?

   Procuramos a origem da mitologia dicotômica: órfão/super-herói, em vários textos e estudos. Quase todos nos dirigiram à Bíblia. Moisés é um dos grandes heróis da Bíblia Hebráica, talvez o primeiro super-herói. Tinha o poder de falar com Deus; agir como Seu mensageiro e até de dividir o Mar Vermelho. Também ele era um órfão. Abandonado e posto à deriva em um cesto pela mãe, para salvá-lo de um decreto do Faraó que condenava à morte todos recém-nascidos do sexo masculino. Foi salvo por uma filha do potentado, que o criou nos confins da realeza. Após descobrir sua verdadeira identidade, Moisés se rebelou contra os egípcios e liderou os judeus escravizados à liberdade. 


   O filme ¨Superman, o retorno¨, estabelece uma conexão óbvia entre a história de Jesus e a saga do órfão Kal-El, o Clark Kent dos terrestres. A voz retumbante do seu pai, Jor-El, anuncia: [...] Apesar de ser criado como um ser humano, você não é um deles [...] eles poderiam ser um grande povo [...], porém precisam de uma luz para iluminar o caminho [...].  Palavras ditas antes de mandar seu único filho para a terra. Em Hebreu, o nome Jor-El pode ser traduzido como ¨Luz de Deus¨, enquanto o do seu filho  como ¨Voz de Deus¨. É assim que começa a sua jornada.


   Superman é uma versão moderna de verdade metafisica. Liderar o mundo na direção da luz é sua principal missão. É a sua mensagem que nos permite saber o que somos ou o que deveríamos ser.  O que a mensagem não nos diz é de que maneira, e é aqui que a outra parte do mito aparece. Voltamos a Bíblia...


   Deus disse a Abraão para deixar sua pátria e família e embarcar na sua jornada.  Mensagem clara: nossa missão na terra não pode ser completada até partirmos em busca do conhecimento e do nosso destino. Aprender que para convencer a outras pessoas é necessário estarmos preparados à aceitar as mudanças que o conhecimento nos traz. Independentemente da origem do mito do super-herói, esta é a mensagem que nos transmitem todos eles, seja Superman, Spiderman ou Batman...


Palmari de Lucena é membro da UBE


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A flanela do povo

   Desempregados ou subempregados, sem as qualificações mínimas para competir no mercado de trabalho formal. Guardadores e lavadores de carro informais, conhecidos como flanelinhas, atuam praticamente em todas as cidades do mundo. Temerosos de ter seus veículos danificados ou integridade física atingida, muitos motoristas simplesmente pagam gorjetas, suprimindo sentimentos latentes de aversão social e preconceito. Mendicância agressiva, serviço ao público ou chantagem social, a natureza da transação é sempre questionada, nunca definida ou diferenciada.  Pestilência urbana.
 
   O ofício é regulamentado há 36 anos em nível nacional. Entretanto, não existe o registro dos trabalhadores no Ministério do Trabalho e Emprego e os trabalhadores autônomos ainda aguardam uma regularização dos seus serviços. A Lei n° 6.242 de 1975 e o Decreto 79.797 de 1977 regulamentaram a profissão, estabelecendo procedimentos para o registro dos trabalhadores informais na Delegacia Regional do Trabalho e certas exigências formais, como documentação pessoal, atestado de bons antecedentes e certidão negativa pelos cartórios. Identificamos aqui um obstáculo importante para o cadastramento e ordenação da atividade nas ruas da cidade. É necessário que um convênio seja estabelecido entre a Prefeitura e a Delegacia Regional do Trabalho, cuja finalidade seria de estabelecer as áreas, condições e modalidades para o exercício da profissão em áreas públicas.

   Cadastramento de flanelinhas, provisão de uniformes, crachás e outros acessórios profissionais, sem registrar-se como determina a lei, parece ser a principal vertente da maioria dos projetos criados por municipalidades como Natal, Rio de Janeiro, Maringá, Juiz de Fora, Fortaleza, Brasília, Aracaju, Belo Horizonte e São Paulo. Muitos tentaram capacitá-los em profissões alternativas, com salários inferiores à renda mensal obtida com gorjetas. Nenhum dos projetos obteve os resultados esperados, muitos foram descontinuados ou abandonados.

   Experiência sugere que qualquer projeto envolvendo flanelinhas deve contar com a participação ativa dos trabalhadores, da comunidade e da Prefeitura.  Cadastramento dos trabalhadores e delimitação dos seus pontos de trabalho; formação de sindicatos ou cooperativas; registro profissional; código de conduta e termos de referência com provisões de contrapartida social são elementos essenciais para a resolução do problema. Vamos dar uma escutadinha aí dotô, nas propostas dos candidatos a prefeito...

Palmari de Lucena é membro da UBE