NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Meandros da desigualdade

             Corações, peixes, dados, abstrações geométricas em cimento. Objetos fabricados com pigmentações de cores da terra, empilhados, artisticamente desorganizados. Mostruário à céu aberto, muro da pequena loja de material de construção. Desafiando a falta de imaginação, a pobreza de detalhes e o imediatismo da construção civil, a criatividade de um pequeno empreendedor. Estávamos na era do minimalismo eufórico, sem traços ou pretensões de lembranças duradouras. Abrindo espaços, fechando espaços, sem nenhuma consideração pelas comunidades horizontais removidas para lugares distantes. Palácios e guetos igualmente verticalizados, espantalhos no horizonte.
           
            Casebres modestos de famílias de pescadores. Progresso e status de cada habitante determinado pela presença de uma laje, pequenos veículos e a qualidade das cadeiras na porta de casa. Modesto quiosque anunciando a presença de um comércio de cerveja e galeto assado em um meio barril. Duas classes sociais  compartilhavam o logradouro, separados por uma cerca virtual. Bicicletas, motos e carros precariamente operacionais estacionados no lado oposto de caminhonetes e carros de luxo. Máquinas possantes, importadas. Pessoas passavam sem olhar, outras olhavam os que passavam. Luta de classe microcósmica, silenciosa, sem uma apoteótica vitória ou derrota. Desabrigados eventualmente pelos argonautas da nova ordem urbana, prospectando seus minúsculos terrenos em busca do Velocino de Ouro.  Futuro tão incerto quanto o mar turquesa que navegavam.

            Bolsão de miséria e desigualdade crescente na margem oeste do rio poluído, cercado por uma pujante floresta de jatobás de concreto. Fronteiras vivas separando o lumpesinato ribeirinho dos seus vizinhos diferenciados. Distantes e mutuamente incômodos. Disparos de armas, sirenes de carros da policia e gritos perdidos na noite desafiando a paz, o conforto e a segurança adquiridos à preços exorbitantes. Tutelados pela verticalização das relações do poder público com o povo, os menos abastados serão removidos para outros lugares, longe do caudal do rio, que continuará navegando as incertezas dos meandros da modernidade.

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Fofinho, o gladiador

            Homem vestido de preto. Pés levemente afastados, compleição hercúlea bem proporcionada, porte elegante. Olhos intensamente sonolentos e fixos na rua em frente ao restaurante. Um jacaré flutuando ao sabor da correnteza perigosa. Movia-se com passos sutis, desenhando gatafunhos na calçada. Gesto afável e sorriso tímido saudavam os clientes que se aproximavam. Sabíamos pouco sobre Júnior, um guarda de segurança tão genérico como o seu nome. Trocávamos poucas palavras: saudações e agradecimentos. 

            Pequeno momento de familiaridade. Antecipando-se a uma pergunta sobre o evidente hematoma facial, fez uma longa explicação sobre o que acontecera. Lutador profissional de artes marciais mistas, chamava-se de combatente esportivo. Atingido por um pé do adversário em um momento de desatenção, vencera a luta por nocaute, o adversário passou dois dias no Hospital de Emergência e Trauma. Riscos do oficio. Portas abertas para novos combates, alguns no exterior. Revelou então, que seu nome profissional era Fofinho, nome de guerra incomum para alguém que profissionalizara sua força física.

            Passaram-se meses, mais encontros com Fofinho. Rosto cansado, mostrando os rigores dos combates e de dois turnos de trabalho. Nocauteado depois de sua grande vitória, as viagens desapareceram dos planos. Preparava-se para futuras lutas, mantinha boa forma física. Gostava de falar sobre as peripécias e os triunfos dos grandes combatentes brasileiros da UFC: Pezão, Anderson, Antônio Silva, Wanderlei Silva e dos seus adversários estrangeiros. Comentários profissionais, sugerindo uma intimidade privilegiada com os colegas.

            Veio ao nosso encontro com um sorriso amplo, algo bom havia acontecido: Fofinho obtivera um lugar em uma serie de combates que estavam sendo organizados. Sonhando com novos combates, prometendo um DVD e parafernália das suas vitórias. Tínhamos diante de nós um gladiador, foi o nosso último encontro.

            Página de um blog mostrando um corpo junto a uma moto, o nome da vitima quase sempre despercebido. Fato comum na cidade, tão comum quanto sua morte. A frequência dos eventos, o anonimato escondido nos capacetes e a classe social das vítimas as transformam em meras estatísticas. Vítima da imprudência, da falta de proteção e do cansaço, Fofinho, o gladiador, não era mais...

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 6 de outubro de 2013

Mac Doctors: SOS SUS

           Rum e charutos de Cuba vendidos informalmente, moeda forte dos médicos cubanos que conhecíamos na África. Vivendo em condições precárias,  sujeitos a regras laborais draconianas, os internacionalistas usavam a renda extra para comprar amenidades, tornando o dia-a-dia menos oneroso e melhorando sua qualidade de vida

            Produção em massa de médicos, havia convertido a medicina cubana em uma commodity de exportação que, somada com as remessas monetárias de refugiados nos Estados Unidos, representam a maior fatia da renda e fonte de divisas do país. Vigas de sustentação de um sistema econômico obsoleto que seria totalmente inviável de outra maneira.

            Espelhada na experiência da Venezuela, a justificativa do nosso governo foi que a importação de médicos cubanos seria a maneira mais eficaz de resolver os problemas do SUS.  Afrouxamento das regras de aprovação de títulos, exames de proficiência profissional e idiomática com viés de acreditação rápida dos “Mac Doctors”,   permitiria o ingresso de médicos em comunidades carentes sem primeiro resolver as deficiências prevalentes na infraestrutura de policlínicas e hospitais naquelas áreas.    

            Estima-se que o Tesouro Nacional pagará R$ 1,5 bilhão nos próximo três anos.  O Governo de Cuba retém quase 70%, uma transferência massiva de renda do contribuinte brasileiro para um sistema de governo antidemocrático. Somos cúmplices também quando aceitamos restrições de liberdade de expressão, do direito à mobilidade e ao asilo, como  codificado na Declaração Universal de Direitos Humanos e sem o mínimo respeito às convenções da Organização Internacional do Trabalho. Um convênio com a Organização Panamericana de Saúde, serve de barriga de aluguel para a contratação dos profissionais com isenção de imposto de renda e outros privilégios extraterritoriais, cobrando uma taxa de custos indiretos de 5% por seus serviços de gestão.

            Preocupações legítimas e anseios da classe médica brasileira e oponentes do programa são demonizadas pelo governo e a mídia com uma postura exaltada e belicosa, muitas vezes expressada por uma retórica que instiga o conflito dialético entre raças, classes e profissionais  de saúde.  Alto preço para justificar nossa generosidade com um regime que representa a antítese da nossa vocação democrática.  


Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (U.B.E.)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A agonizante morte da história

            Comemorando a vida e a morte de um herói da república de 1817, placa histórica quase ilegível na esquina de um antigo armazém. Imóveis históricos, documentos de pedra e argamassa, sucumbindo ao descaso contemporâneo. Fedor penetrante do abandono atraindo os abutres do vandalismo. Aqui jaz a memória de Amaro Coutinho, patriota brasileiro morto e esquartejado pelo colonizador português.  Pessoas caminhando distraidamente, ignorando a placa e o aviso: PARE OLHE E ESCUTE. Trilhos de trem, dormentes cobertos pela vegetação escondem os perigos e o desgaste da ferrovia. Apitos distantes de trens infrequentes. 

            Fileiras de prédios antigos. Armazéns em estágios graduais de abandono, uns  tantos  transformados em madeireiras ou depósitos de materiais de construção. Símbolos do império que Amaro Coutinho tentara derrubar, a alfândega e o tesouro provincial, peças importantes do museu ao ar livre da inoperância do poder público republicano.  Entranhas abertas da terra cobertas por lonas enormes escondem a fragilidade, a pobreza e a majestade do edifício amarelo que quebra a silhueta da colina. O Hotel do Seu Marinheiro, o Hotel Globo de quase dois séculos, memória em perigo de extinção.

            Viajamos pelo passado em busca de Franz Post, imaginamos o grande mestre em silêncio contemplativo, pincel na mão, olhos seguindo avidamente os meandros do rio Sanhauá, o sol desaparecendo no horizonte. Levando a memória do rio para a Holanda, registrando para a posteridade paisagens naturais. Olhamos em direção ao  rio, algumas delas ainda privilegiam nossos olhos, outras foram ofuscadas pela fumaça das queimadas, a poluição ribeirinha e a destruição dos manguezais. Os caranguejos que já não existem.

            Trilhas de jet-skis e o Bolero de Ravel, umas tantas canoas a procura de bagres e piabas.  Quando pensarem sobre o passado, não conseguirão lembrar, nossa história estará morta...  filosofou um homem sobre a tragédia se desdobrando no Hotel Globo e no rio Sanhauá: devolver nossa história ao mundo contemporâneo, uma tarefa hercúlea para resgatar o pouco que ainda resta.


Palmari H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (U.B.E)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sonho americano

           Aroma de comida da rua contrastando com a elegância dos edifícios, o glamour do Radio City Musical Hall ofuscado pela fumaça de assadores de galetos e milho verde. Sete quarteirões de brasileiros, o mundo verde e amarelo celebrando sua independência. Nacionalismo a flor da pele, hóspedes ingratos por um dia. Amanhã voltariam a ser emigrantes, filhos falando Inglês, bonés de basebol enterrados na cabeça, camisas verde e amarelo fabricados na China ou fábricas coreanas em São Paulo. Mulher chorando no meio da massa brasileira. Prisioneiros da sexta avenida, muitos não podiam regressar ao Brasil, viviam na ilegalidade. Pesadelo dentro do sonho dourado.
           
            Fila de bolsas de compra navegando pelo cânion da Quinta Avenida. Tamanhos, formas e cores variadas, os logotipos anunciando a classe social dos compradores.  Liquidações e remarcações estampadas em vitrines, umas com letras e números quase invisíveis, refletindo a envergadura e o ranking da loja. Compradores brasileiros imersos na orgia consumista e na pechincharia  insistente, irrelevante nas grandes lojas da avenida. Vendedores ensaiando pequenas frases em Português, seduzindo turistas brasileiros com marcas famosas a baixo custo. Chineses e brasileiros compram tudo, o mantra da atualidade.
           
            Pequeno salão de beleza no Soho. Paraibana do Bairro dos Bancários, manicure especializada em cortar unhas ao estilo brasileiro. Falando entusiasticamente sobre seu “american dream”. Planejando fazer universidade como todos os emigrantes de classe trabalhadora. Crescente economia de serviços ofuscando qualquer desvio da fonte de renda imediata, poucos alcançam melhorias acadêmicas. Salões de beleza são a vanguarda da invasão cultural brasileira: escovas, depilações, unhas Brazilian style.  Vinte usos da palavra “Brazilian”, todos relacionado a produtos ou tratamentos de beleza. Ana Maria Braga gravou um bloco do seu show no salão, Cinderelas por alguns minutos, confirmação independente de sucesso do nosso povo e cultura contra a cultura pop do leviatã americano.
           If I can make it there, I’m gonna make it anywhere. New York, New York...


Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (UBE)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O maestro e o monge

            Olhos fixos nas partituras e nos gestos do regente, hino religioso escapando das bocas de jovens africanos. Ensaio do coral da missão católica, nas terras da tribo Éwé de Gana. Serenidade e imensurável satisfação permeando a brancura avermelhada da face do maestro. Movimentos suaves, quase elegantes, os guiavam. Kyrie eleisum viajando pelo céu africano. Falando uma língua estranha, o “yevu”, homem branco, havia aparecido na companhia do bispo. Diziam ser um músico famoso no pais de Pelé. Tenente Lucena, o maestro, vivia em tempo emprestado, o câncer avançando impiedosamente. Vozes africanas na imensidão da savana, distante dos  cânticos do verde das florestas de cana de açúcar do seu Brasil. Estava na África, seu grande e talvez o último dos seus sonhos.  

            Imagem da pequena estante projetando-se no assoalho polido da nossa casa, rangidos da madeira velha acompanhando as notas musicais tocadas precariamente por um jovem clarinetista. Professor acompanhando o progresso do aluno, um jovem clarinetista, seguindo seu desempenho com batidas discretas do dedo indicador no antebraço. Pausa, o estudante parecia cansado. Harmonia, melodia e ritmo. Longa conversa sobre o significados das três palavras. Música é repetição, busca incansável pela perfeição era o mantra do professor.  Repetiria o exercício muitas vezes.

            Conversávamos um dia sobre Esperanto, língua universal criada pelo polonês Lazarus Zamenhof, motivado pelos conflitos étnicos na sua pátria. Como muitas das nossas conversas, a discursão convertera-se rapidamente em uma aula de música ou algo musical. Comentava que o pentagrama e as notas musicais criadas pelo monge Guido d’Arezzo no século IX, era a única forma de comunicação universal que sobrevivera a mudanças e conflitos por mais de um milênio. Músicos se comunicavam mesmo falando idiomas diferentes. O maestro e o monge se entediam, poliglotas da mesma língua.


             O coração é o metrônomo da vida, declarou Villa-Lobos em João Pessoa nos anos cinquenta. Foi no coração, que o Tenente Lucena encontrou uma maneira de ensinar música a surdos-mudos, podiam sentir as vibrações musicais no corpo e o ritmo no coração. Formaram uma banda musical, antecipando-se décadas à criação de um método de aprendizado formal para os deficientes. Guido d’Arezzo e Villa-Lobos haviam mostrado o caminho, o mestre seguiu com seu coração. Morreu ouvindo música religiosa, a música continuou movendo seu mundo.

Palmarí H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (U.B.E.)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Era uma vez no jornal.

             Trocamos nosso sonho de viagens transoceânicas como aprendiz de marinheiro, pela atmosfera de panela de pressão da redação do jornal. Entregando textos, fazendo mandados e servindo cafezinho, havíamos conseguido um emprego de mensageiro no Correio da Paraíba. Começaríamos no mesmo dia com outro jovem, chamava-se Biu Ramos, havia sido contratado como datilógrafo. Éramos de Jaguaribe, fato confortante no meio do turbilhão das vozes de estranhos e o ra-ta-ta-ta-ta das máquinas datilográficas.

            Mensageiro!!!  Alguém chamava, sempre alguém. Levava ou trazia algo da redação para os linotipistas. Máquinas vomitando blocos de texto, calor infernal, mesmerizavam-nos. Pura magia. Tabletes de uma nova Babilônia, gravados em metal quente. Desfrutávamos nossos momentos na sala das linotipos, seduzidos irremediavelmente pela “doce música mecânica” que tanto encantou a Fernando Pessoa.

            Biu Ramos curvado sobre a máquina datilográfica, textos ditados pelo Dr. Falcone, ditados como se ele estivesse falando diante de uma audiência. Pausava momentaneamente, como se degustasse o som de sua voz ou alguma metáfora escondida em uma das suas crônicas. A agilidade do novo colega e a facilidade com a qual ele absorvia as palavras do ilustre cronista eram motivo de admiração, até inveja, entre as tribos que habitavam a redação.

            Seu Expedito, o chefe da redação, gostava de café bem passado, acompanhado por um cigarro, fumando como se fosse seu último trago. Comandava um grupo diverso, às vezes conflitivo, cuja paixão pelos fatos e palavras superava quaisquer desentendimentos. Prisioneiros da noite, tosse rouca e olhos vermelhos, partes da paisagem solitária da redação, libertados pelos pensamento que fluíam noite afora.

            Como se fosse o comandante de um navio,  Dr. Teotônio inspecionava sua criação de popa a proa. Respeitado como empresário, havia criado junto com o intelectual Afonso Pereira, um periódico que diversificara e inovara a imprensa paraibana.

            Voltamos a partilhar dos sonhos e projetos do Dr. Teotônio, quase seis décadas depois, escrevendo crônicas para a página de opinião do jornal que despertou nossa paixão pela palavra escrita. Feliz aniversário Correio da Paraíba!


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (U.B.E.)