NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Mudanças e miragens


Cajus fermentando na areia quente, odor inebriante contrapondo-se à maresia enfadonha. Pássaros, saguis e meninos disputando freneticamente os últimos frutos da safra. Estrídulos, guinchos e gritos. Pedras atiradas a esmo. Coqueiro contorcido, sombra que parecia tocar nas ondas, ilusão de ótica. Acampados na praia do Cabo Branco, anoitecer do primeiro dia de Carnaval. “[...}Ra-ta-plan!/Do arrebol,/Escoteiros, vede a luz![...]”. Silêncio súbito, contemplávamos as estrelas penduradas no céu.

Transitando ruidosamente na estrada de barro, picape sobrecarregada de cocos verdes, quebrando a paz da noite enluarada. Emergindo na penumbra, dois vultos movendo-se cautelosamente em nossa direção. Depositaram cocos na areia, desculpando-se pela intromissão. O veículo desapareceu na curva da estrada. Carnaval, calor e suor esperavam os frutos da sua carga.        

 Animados, acordamos cedo. Café de vaqueiro passado no coador, sanduiche de viandada e bolachas, nossa única concessão à  culinária. Começamos a pescar bem cedo, com equipamento e iscas rudimentares como ditava o manual do escoteiro. Luta infrutífera, soma zero. Menos mal, ninguém sabia cozinhar ou mesmo limpar pescado. Exaustos e esfomeados, optamos pelos frutos da terra. Cajus, nata de coco e guajirus, regados com água de coco.  Sobrevivemos precariamente.

Resumimos a caminhada. Praia da Penha nosso próximo destino. Cansaço, calos e fome nos acompanharam. Subimos a barreira penosamente, o peso das mochilas se fazia presente. Na mata atlântica,  o vento do oceano soprando timidamente. Nosso oásis, água fresca e cristalina do Rio do Cabelo. Sardinhas, farinha e café. Última lembrança.

Ondas castigando as pedras, desafiando a Rainha do Mar. Sacos e garrafas de plástico, pedaços de madeira, espalhados na areia. Adolescentes em skates, patinetes, ambulantes, às vezes ciclistas, competiam com nossos pés cansados. Finalmente a nossa esquina. Quatro adolescentes, catadores de lixo, desfrutando um momento de lazer jogando pedras nos frutos de um cajueiro frondoso. Esfomeados, carrocinhas vazias. Saguis e passarinhos observando de fios elétricos e antenas de televisão. Tudo havia mudado, miragens de plástico e concreto cobriam o horizonte.  

Palmarí de Lucena é membro da União Brasileira dos Escritores
palmari@gmail.com


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Agonia e morte de uma praça


   Marco zero da Praça João Pessoa. Caminhávamos sem pressa, um peregrino dando voltas em torno da Caaba da sua juventude. Lembranças dos tempos de quando  este era o chão comum da cidade. Cerimônias cívicas celebrando a vida, os feitos e a morte do filho ilustre. Desfiles patrióticos, ciclistas quebrando recordes de resistência, festas improvisadas sendo anunciadas, romances começando ou terminando. Tudo acontecia sob a mira dos três poderes que a cercavam. Misto de tabaco e a fragrância doce da grama recém cortada permeavam o ar.

   Tudo havia mudado. A lumpenização dos lugares públicos do centro da cidade mostrava suas garras implacáveis.  Mundo informal crescendo e prosperando à revelia da formalidade dos três pilares da nossa democracia. Lavadores e guardadores de carro; ambulantes vendendo tabaco, comida e toda quinquilharia que pudesse estimular os transeuntes e habituées a contribuir para a economia de sua sobrevivência. Pequenos grupos, afins ou em facções adversárias, discutiam ou antecipavam os últimos acontecimentos políticos, sempre emoldurados em interesses pessoais. Todos se diziam certos, todos estavam errados. Os vencedores reais estavam em seus gabinetes.
  
   Decadência, desordem e vandalismo. Grama queimada pela falta d’água, pisoteada indiscriminadamente ou maculada por sacos de plástico e migalhas de parcas refeições;  bancos de madeira quebrados ou em condições precárias; carros de ambulantes seguindo grupos de turistas; árvores mal cuidadas oferecendo refúgio a sapateiros e outros trabalhadores informais.  

   Mulher sentada confortavelmente em banco próximo ao tribunal, observando nossos movimentos com discreta atenção. Vestida modestamente, talvez uma funcionária em hora do descanso. Atraiu nossa atenção com um movimento súbito de mão, queria saber se éramos turistas ou trabalhávamos em uma repartição. Fotografando os problemas da praça, afirmamos. Pareceu decepcionada. Estava no seu lugar de trabalho, era uma trabalhadora do sexo. Homens casados na hora do almoço, seus melhores clientes. Sexo a preços módicos. Rápido, eficaz, discreto. Melhor valor pelo dinheiro. Poder público distante e impotente propiciava condições ideais para a sobrevivência do seu oficio na nossa praça. 

Palmari de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores
palmari@gmail.com

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

California dreaming


   Perigoso, selvagem, misterioso. Pacífico, o oceano nos mesmerizava. Árvore perdida na imensidão da paisagem, um cipreste solitário desafiando a fúria dos elementos. Símbolo da eternidade e da imortalidade dos deuses do Olimpo. Quatro décadas, nosso último encontro. Partimos em busca de novos sonhos, bem longe das quimeras que contemplávamos. Vento, sol e o mar acariciando os torsos brilhantes dos leões marinhos acasalados nas fissuras discretas das rochas. Reprodução e mudança da pelagem, acompanhados do langor de uma serenata de grunhidos confortantes. Turbulências e transformações reafirmando a vida.

   Gaivotas guinchando freneticamente, às vezes em animação suspensa, festejando os raios de um sol cheirando a maresia. Tarde distante, lembranças quase perdidas na topografia de uma memória erodida pela passagem dos anos. Caleidoscópio de imagens diferentes e iguais, côncavas e convexas. Pequeno pássaro maçarico procurando comida na areia; homem idoso, rosto mostrando as marcas impiedosas da idade e do sol; linhas retas no céu azul, traçadas por aviões treinando para uma guerra distante. Nós e o mar.

   Escondido entre o horizonte e a rocha dos leões marinhos, o cipreste centenário. Partimos apressados ao seu encontro. Solitária e intrépida, a árvore que nos guiou na direção do futuro. Queríamos abraçar seu tronco, farejar  a fragrância do seu perfume e sentir a brisa fresca do oceano. Cerca de pedras ao seu redor, proteção contra os homens que não entendem a beleza pura da sua solidão. Obrigado cipreste, voltamos como havíamos prometido.

  Meandro de asfalto atravessando o verde monótono da floresta, o nevoeiro gris, única distração. Procurávamos o lugar da nossa última refeição antes de partirmos. Mirante com a visão espetacular do oceano. Hambúrguer com molho de ambrosia e uma taça de Cabernet Sauvignon do Vale Central da Califórnia. Sentíamos o mesmo gosto, quatro décadas depois. Napenthe, placa na beira da estrada anunciando nosso destino. Explicamos a razão da nossa visita ao garçom.  Sempre esperamos o retorno dos nossos amigos, nos informou quase misticamente. Lugar para esquecer as mágoas, como na mitologia grega,  deixamos as nossas no oceano sem memória, sob a mira do cipreste solitário.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores
palmari@gmail.com

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A bolsa da Primeira Dama

   Primeira dama desembarcando do helicóptero presidencial, fotografada  portando uma bolsa do estilista Kirk Kerkof.  Marqueteiros da extrema direita e estrategistas republicanos sentiram que tinham algo para festejar: a bolsa custara mil dólares. Acusações de falta de sensatez e arrogância deram nova vida aos discursos pálidos e pouco imaginativos da campanha eleitoral. Os Obamas continuavam gastando incontrolavelmente enquanto o país atravessa uma crise econômica profunda, pessoas perdiam empregos e o dólar continuava desvalorizado. Ele gastando o dinheiro do contribuinte, ela imersa em consumismo, clamavam os tabloides e comentaristas das rádios conservadoras.

   Cavaleiros da intolerância tentando descreditar a mais persuasiva defensora do compromisso do Partido Democrata com o progresso da mulher americana. O estoque da bolsa esgotou-se em 24 horas, o índice de aprovação da primeira dama cresceu para 65%. Frivolidades da campanha eleitoral ou peça importante da mensagem partidária, o modo de vestir da primeira dama é um indício importante do estilo e substância dos candidatos à Casa Branca e suas famílias.

   Michelle Obama usa itens clássicos da moda americana e sabe usá-los de uma maneira elegante, original e econômica. Reinventando o estilo¨preppy¨, popular na década dos 70 entre os estudantes de escolas de ensino preparatório, hoje adotado por diversos níveis sociais e econômicos. Refletindo a realidade do momento, evitando ostentar logotipos, etiquetas ou seguir tendências, projetando uma atitude confiante sem aderir às superficialidades da moda globalizada ou estilo de vida extravagante. O estilo da Primeira Dama aproxima a Casa Branca da mulher da classe média americana, constituintes influentes da base democrática, sem expor-se a surtos demagógicos ou oportunismo político. O Conselho Nacional da Moda, os sindicatos e as empresas da indústria de confecções são seus maiores defensores e contribuintes no esforço de manter a Casa Banca em mãos democratas.

    O ¨Efeito Obama¨ é uma peça importante da recuperação econômica, crescimento da indústria americana e fidelização do eleitorado feminino, fatores decisivos para a vitória de Barack Obama em Novembro de 2012.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A vaidade cara dos brasileiros


   O New York Time, o International Herald Tribune e a prestigiosa revista Forbes publicaram recentemente artigos sobre o consumidor brasileiro. Preços exorbitantes; na berlinda nossa tendência de comprar carros e artigos importados. Turistas brasileiros tiveram gasto recorde no exterior, 10,7 bilhões de dólares no primeiro semestre de 2012. Somos os que mais compram por pessoa nos EUA, à frente dos japoneses.

   Piores exemplos são os carros. O Corolla um carro de preço acessível no exterior, aqui é vendido por pelo menos de R$ 60 mil, portanto considerada um artigo de luxo. Produto globalizado, o carro em ambos os casos é nacional, a Toyota os fabrica nos dois países. Cobramos 40% do valor de um carro na forma de tributos. Nos EUA e na China a taxa é 20%. Enquanto o padrão global é ter um imposto específico para o consumo, aqui são seis: IPI, ICMS, ISS, CIDE, IOF, COFINS. O ICMS, por exemplo, incide sobre o COFINS e o PIS. Terminamos pagando imposto sobre imposto.

   Status é a segunda razão para a variação em preços.  Impostos altos e vaidade estão nos transformando em um país de sacoleiros. Pagamos em media 60% a mais por um IPAD Wi-Fi 16 GB, que norte-americanos e europeus pagam pelo mesmo item. A disparidade se aplica a qualquer outro artigo de consumo. Vendidos como artigos diferenciados nos shopping brasileiros, artigos de marcas populares no exterior. Estamos nos transformando em um país de sacoleiros, como em décadas passadas.

   O Smart, um carrinho comum entre jovens e aposentados na Europa, devido ao seu preço acessível, é considerado um artigo de luxo no Brasil. Talvez uma maneira de demonstrar que o proprietário tem R$ 60 mil sobrando. O preço alto vira uma razão para comprar o objeto, às vezes, a única razão.

   O governo vem tentando medidas para aliviar as pressões do câmbio e reduzir impostos em alguns itens, como autopeças. Bom começo. Quem sabe, um dia não seja mais necessário passar horas em um avião para comprar computadores e outros bens de consumo a preços razoáveis. Enquanto não se resolve o problema de tributação excessiva, poderíamos ao menos começar a considerar o custo/benefício das nossas compras em vez de simplesmente pagar mais por esta vaidade tão própria da nossa sociedade?

Palmarí de Lucena é membro da UBE