NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Tudo mudou em Bogotá...

    Flanávamos distraidamente na direção de uma farmácia. Repentinamente uma sensação de que tínhamos companhia. Respirava-se perigo no ar. Paramos na esquina e acendemos um cigarro. Observamos dois homens armados no outro lado da rua. Carabinas apertadas contra o peito, corpos semiagachados. Olhos alertas. Uniformes de paramilitares ou seguranças. Continuamos. Passadas cautelosas desafiando o desejo crescente de correr. Chegamos ao nosso destino: a farmácia. Pequeno guichê de vidro opaco. A palavra micrófono em vermelho. A mesma mão esquálida que recolheu a receita entregou o medicamento e a nota fiscal. Pagamos apressadamente. Voltamos ao hotel, sem nunca olhar para trás.

   O senhor correu um grande risco caminhando até a farmácia [...] não queremos mais um sequestro aqui, advertiu energicamente o segurança do lobby. Aqueles homens são bandidos? Perguntamos apontando o queixo timidamente na direção deles. [...] Guarda-costas, respondeu. Homens armados. Terra de Pablo Escobar e cocaína. Guerra sem-fim. Terrorismo urbano; sequestros e perigos sempre presentes. Estávamos na Colômbia, o homme malade da América Latina, final dos anos noventa.

   Voltamos em 2011. Lembranças da nossa última visita permeavam a memória, enquanto nos aproximávamos do Aeroporto Internacional El Dorado de Bogotá. Desembarcamos. Cumprimos com os procedimentos migratórios. Ouvindo repetidamente as expressões: a la orden [...] con mucho gusto. Soldados respondendo às perguntas dos passageiros, tom de voz mantido a um nível de conversação. Alertas sem a postura física ameaçante de homens armados. Sentimos imediatamente que algo havia mudado. Calma e civilidade imperavam.

   Tráfego ordenado na estrada do aeroporto. Motociclistas e passageiros, número da placa na parte traseira do capacete e da jaqueta mantinham a velocidade legal, sob o olhar vigilante de patrulheiros móveis. Nos tempos de Pablo Escobar [...] motoqueiros vestidos de preto assassinavam pessoas a mando do cartel [...] os sicários aterrorizavam a cidade [...] Tudo mudou, nos informou o taxista. Voz cheia de orgulho cidadão. Ouvimos a mesma frase, em todas as variações possíveis.

   Bogotá é hoje uma cidade mais tranquila do que Caracas, Washington, Rio de Janeiro, São Paulo e praticamente todas as capitais do Nordeste do Brasil. Longe daquela cidade violenta que conhecemos nos anos 90. Homicídios reduzidos em mais de 70%, desde a nossa última visita. Passeamos por ruas limpas, espaços verdes decorados com esculturas e peças de arte. Frequentamos polos de entretenimento ao redor das praças. Diversidade de níveis sociais e faixas etárias comungavam da segurança da cidade.

   E o que foi que mudou? - perguntamos. Bom governo! - resposta quase unânime. Conseguiram reduzir o número de homicídios, sem aumentar a força policial. Introduziram soluções locais coordenadas e implantadas pelo governo municipal, com apoio das comunidades e parcerias. Asseguraram a continuidade dos planos de desenvolvimento local, mesmo com mudanças de governo. Direcionaram investimentos na infraestrutura urbana e num sistema de transporte coletivo seguro, eficiente e econômico, atraindo a classe média de volta. Embutiram estratégias de segurança pública nos programas de desenvolvimento urbano e no turismo. Policiamento comunitário trabalhado em parceria com agentes de saúde, limpeza pública, educação, serviços sociais e a sociedade civil. Governança participativa substituindo as soluções verticais promovidas por burocracias viciadas, corruptas e incompetentes. Tudo mudou em Bogotá. Mudou porque seus governantes optaram pelo respeito à democracia e à cidadania, promovendo paz e reconciliação, em vez de um projeto de poder. 

   Desta vez não conseguimos escapar ao maior risco de Bogotá: partimos, querendo ficar...


Palmari@gmail.com

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O deserto e as geleiras azuis


    Escondidos na curvatura meridional da terra, os desafios e as contradições da Patagônia. Superfície coberta de vegetação de estepe, moitas rasteiras espinhentas e pequenos arbustos. A vastidão da paisagem decorada por variações esquisitas da folhagem verde e acinzentada, combinação perfeita com a cor azul turquesa quase iluminada das lagoas e a brancura dos picos distantes. Estrada de asfalto com curvas fechadas, cercas demarcando grandes estâncias e grupos de casas minúsculas, justapondo-se com a beleza inóspita do deserto diante de nós. Condor desvendando os mistérios da terra, planando sem pressa no céu azul. Éramos intrusos em uma pradaria magistralmente despojada de seres humanos e aconchegos da vida moderna

   Prólogo da sangrenta ocupação e colonização do deserto, extinguindo, submetendo ou dispersando o Povo Originário. Crenças milenares não foram suficientemente potentes ou persuasivas para protegê-los dos preconceitos e da ganância dos novos donos da terra. Darwinismo econômico europeu, escrevendo o epílogo de uma história milenar. Revolução tecnológica fomentada pela demanda de carne e lã no mercado internacional. Refúgio para todos: colonizadores, marginais, santos ou bêbados, sempre escapando dos seus passados, transformando seus ancestrais em hóspedes incômodos da geografia gigantesca, conhecida como a terra do fim do mundo. 


   Pilotado cautelosamente, barco catamarã navega o Canal dos Témpanos do Lago Argentino em direção ao glaciar “Perito Moreno”, a maior geleira do Parque Nacional dos Glaciares. Vista espetacular formada por camadas sucessivas de neve compactada, descendo da Cordilheira dos Andes. 


   Contemplávamos em silêncio a imensa parede de gelo, uma cortina branca azulada, guardiã de nuances e mistérios, espalhando-se relevo acima entre as montanhas da cordilheira. Estalos. Resmungos, rugidos e uivos anunciam repentinamente o começo da performance. Fissuras na superfície da geleira,  seguidas do desprendimento de grandes blocos. Icebergs flutuando em águas leitosas, azul-turquesa e brilhantes, iniciando suas viagens pelo Lago Argentino, um ritual milenar.  


Palmarí H de Lucena é membro de União Brasileira de Escritores