NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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domingo, 31 de março de 2013

Nossas janelas quebradas


          As pessoas são mais inclinadas a cometer crimes em ambiente de desordem, argumenta os proponentes da teoria das janelas quebradas. Consumir drogas ou bebidas alcoólicas em público; ocupação ilegal de calçadas e logradouros e prédios abandonados; mendicância agressiva em cruzamentos, são atos antissociais que quando tolerados, estimulam as pessoas a cometerem outras violações da lei. A teoria baseia-se num experimento realizado pelo psicólogo norte-americano Philip Zimbardo com um automóvel deixado em um bairro de classe alta na Califórnia. Durante a primeira semana, o carro não foi danificado. Após o pesquisador quebrar uma das janelas, o carro foi completamente destroçado e roubado em poucas horas, por grupos de vândalos. Algo semelhante ocorre com a delinquência e o crime urbano, incluindo agressões contra a qualidade de vida e o bem estar comum.

       Pessoas trafegando nas nossas ruas são confrontadas por pedintes, meliantes e oferecedores de serviços de estacionamento, cujo propósito principal,  muitas vezes, aparenta ser a compensação por não danificar ou não deixar danificar  a sua propriedade. O público geralmente encara passivamente essas atividades como pura chantagem social, uma espécie de tributação informal coerciva.  Elas ocorrem na luz do dia, muitas vezes na presença ou omissão de policiais.

          Envaidecidos pelo nosso crescente consumismo, protagonizamos o mesmo clima de exuberância irracional,  que precedeu a crise econômica dos países industrializados. Construímos novos prédios, cada dia mais altos e luxuosos, enquanto abandonamos o centro da cidade, deixando nossa história sendo soterrada em escombros. Promulgamos leis de acesso às calçadas e lugares públicos,  mas não aplicamos as leis relevantes à construção, manutenção e desobstrução de calçadas, hoje privatizadas por ambulantes, negócios ilegais e restaurantes informais. Tudo à revelia  dos usuários de transporte público, que necessitam pontos de ônibus adequados e seguros.

          Antes que sejamos divididos por uma espécie de apartheid social, pelo medo e  pelo o rebaixamento drástico da nossa qualidade de vida, devemos conserta-las.  Saltam aos nossos olhos, sem necessariamente procurá-las, as nossas janelas quebradas.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

terça-feira, 26 de março de 2013

A vida poderia ser um sonho...

   Aeroporto de Bole, na Etiópia. Saguão de embarque, militares em formação de combate apareceram subitamente nas portas laterais do edifício. Competentes, nervosos, alertas. Marcharam em forma leque na direção de um dos portões de embarque. Abanando as cinzas que cobriam as brasas latentes da violência inesperada. Sentamos no chão, costas contra a parede, protegendo-nos da eventualidade de um enfrentamento armado.

   Homens em agbadás nigerianos emergiram de uma das aeronaves. Congregaram-se em frente ao guichê do portão, apontando para o mostruário eletrônico: LAGOS - CANCELADO. Discussão tensa com os soldados e o pessoal de terra. Dedos em riste, trocando impropérios e ameaças. Correram intempestivamente em direção a outros portões.  Movimentos coordenados, precisão militar. “Terroristas” anunciou um grito desesperado.

   Grupo de islâmicos nigerianos regressado da peregrinação do Hadj, em Meca, havia tomado controle de cinco aeronaves. Recusavam-se a desocupá-las, demandando que uma delas fosse designada para o vôo de Lagos. Haviam chegado a um perigoso impasse. As autoridades cancelaram todos os vôos, alegando condições meteorológicas precárias. Chovia torrencialmente. Aguardávamos um taxi, quando ouvimos o ruído distante de uma aeronave decolando. Vôo especial para Lagos, aprovado pelas autoridades por questão de segurança.  Decisão pouco salomônica na terra do Rei Salomão. Alá é grande! 

   Cânticos da igreja ortodoxa próxima ao hotel. Chuvas copiosas continuavam, erodindo o solo, assoreando os rios e nascentes. O povo da Rainha de Sabá, guardiões das Tábuas com os Dez Mandamentos, morrendo de fome e miséria. A sabedoria do passado ofuscando a ignomínia de um presente vivido na crueldade da escuridão. ¨[...]  luz veio ao mundo [...] os homens amaram mais as trevas do que a luz. ¨

   Esperávamos pacientemente em filas duplas, quando nos deparamos com um ex-colega de trabalho. Conversamos descontraidamente. Comiseramos sobre demoras nos aeroportos africanos. Cético por natureza, ele transformava eventos trágicos em estórias, contadas com uma boa dose de senso de humor. Gargalhadas, gargalhadas. Comediante stand-up, sua profissão, quando respondeu a um apelo  a voluntários para trabalhar no combate a fome na África. Nunca mais voltou ao palco.   

   Organizava grupos vocais. Ensinava doo-wop, um estilo vocal harmonioso e suave em que muitas vezes os cantores faziam sons com a boca imitando os próprios instrumentos musicais,  repetindo frequentemente onomatopeias. Meninos de rua, refugiados, órfãos de guerra cantando músicas das paradas de sucessos. Contou-nos sua historia favorita. Tempestade de areia forçara seu vôo para um pequeno aeroporto no Sul do Sudão. Carga de alimentos e remédios para vítimas da guerra e da seca. O som de uma canção quebrou a tensão do momento. Vozes infantis cantando a cappella no estilo doo-wop do  Brooklyn. ¨ [...] Sh-boom sh-boom Ya-da-da Da-da-da Da [...]¨. Grupo de crianças correndo em direção à aeronave reconheceu o homem branco que gostava de cantar.  ¨”Life could be a dream” (A vida poderia ser um sonho),  assim chamava-se a canção. Pelo menos naquele dia voltara ao palco, comentou nosso amigo.  Gargalhadas, gargalhadas. Aplausos.

Palmarí H de Lucena                                                        palmari@gmail.com

sexta-feira, 22 de março de 2013

Kim Kim por Kim Kim

   Mundial de 2010, na África do Sul, dia 14 de junho, véspera da partida entre o Brasil e a misteriosa seleção da Coréia do Norte. Instalados em todos os lares do país, os aparelhos de rádio controlados externamente por autoridades governamentais, que servem como despertadores para toda a população difundiam propaganda e instruções produzidas pelo aparato de comunicações oficiais do Estado. Qualquer tentativa de desligá-los era punida com o corte de eletricidade do local ou algo mais severo.  O conteúdo informativo se desenvolve ao redor de atos heróicos ou atividades extraordinárias, às vezes super-humanas, do membro da família Kim no poder. O futebol não era uma exceção.  O Estimado Líder Kim Jong-il transmitiria instruções precisas sobre as táticas futebolísticas a serem usadas contra o Brasil ao técnico da equipe, através de um telefone invisível. Tudo em ¨real time¨, como  era confirmado pela equipe técnica após a conclusão da partida.  

   A extraordinária classificação da Coréia do Norte, após quarenta e quatro anos de ausência do Mundial, gerou uma grande expectativa de abertura do país ao mundo através   da transmissão de jogos e de reportagens sobre os países participantes. Infelizmente, Kim Jong-il baniu qualquer transmissão das partidas ao vivo ou em vídeo, no caso de que sua equipe fosse consagrada campeã.  Vídeos de transmissões sul-coreanas foram editados para enfatizar lances em que um jogador norte-coreano obtivesse vantagem sobre um adversário, inclusive em faltas violentas, e foram exibidos esporadicamente na televisão.

   Transições políticas em estados totalitários são extremamente complexas e perigosas. À Coréia do Norte, compulsivamente isolacionista, mobilizada excessivamente com armas convencionais e nucleares, sobrevivendo precariamente com uma economia falida, os perigos se multiplicam exponencialmente. A solução encontrada pelo regime e dinastia Kim, fundada há sessenta e seis anos por Kim Il-sung, foi estabelecer um longo e opaco processo de sucessão hereditária - uma variante stalinista garantindo o divino direito dos reis, pois o Líder escolhido também é o próprio deus.

    O novo rei, Kim Jong-un, filho do recém-falecido Estimado Líder, é um jovem de vinte e nove anos, cujo único talento exposto ao mundo aparenta ser o de comer fartamente e ter uma aparência física semelhante ao seu avô, o Eterno Líder. Já recebeu títulos importantes como: o Eminente Líder, Camarada Brilhante, Supremo Líder, Comandante das Forças Armadas e Sol do Século XXI.  Um corpo de regentes composto de militares sêniores e alguns parentes servirão de equipe de apoio ao novo Líder, adicionando mais instabilidade à transição.

   Incerteza é um fator constante nas relações entre a comunidade internacional e os líderes do regime eremita da Coréia do Norte. Enfrentamento permanente e militarização são as peças chaves da ideologia de autossuficiência adotada pelo Eterno Presidente Kim Il-sung. Cultivando incerteza e demonstrando a destreza do arsenal nuclear que possuem, o regime vem sobrevivendo por mais de meio século. Muitas vezes, com ajuda dos seus inimigos em alimentos e petróleo, como incentivos ou troca de garantias de moderação e respeito pleno às leis internacionais.

palmari@gmail.com

sábado, 16 de março de 2013

A saga do guerreiro Bonzão

   O engraxate Bonzão conversava em tom confidencial com o carroceiro Chapa 11, seu amigo de longos anos. Ferrenhamente leais ao bloco de índios a que pertenciam, consideravam uma situação que ameaçava o futuro carnavalesco da agremiação. Maria Loura, a namorada do engraxate, intrometendo-se em assuntos tribais, causando um pernicioso mal-entendido entre os dois amigos. Funcionária de uma ¨pensão de mulheres¨ na Rua Silva Jardim, dizia-se possuir um olho clínico para possíveis traições masculinas. Exigiu que o amado não desfilasse no carnaval, após um bate-boca enciumado e dias de emburramento passional. O guerreiro sucumbiu. O esforço do amigo parecia inútil.

   O desfile estava prestes a começar. Bombos e flautas, som tribal invadiu o corso. Cocares de pluma de pavão e bolas de arvore de Natal. Tangas de penas multicoloridas, faces e corpos pintados. Os temidos bodoques com flechas afiadas, lanças e outros instrumentos de guerra prontos para o embate carnavalesco.  Turbinada pelo esplendor etílico e pelo orgulho tribal, o bloco de Bonzão era considerado o vencedor peremptório da categoria.

    Maria Raposa procurava o amado entre os guerreiros. Suspeitava que houvesse retornado ao seio tribal ou talvez sucumbido aos avanços de Dorinha, sua maior rival. Grupo de guerreiros formou um circulo protetor ao redor de Bonzão. Plumagem e corpos suados não foram suficientes para camuflá-lo do olhar aguçado da mulher. Gritos roucos, cheios de ira, abafados pela balburdia ao redor. Bonzãooooooooooo!  Seguido de uma cascata de impropérios e ameaças.

   Frustrada pela falta de resposta invadiu o perímetro do bloco, distribuindo empurrões e pontapés pelo caminho. Chegou ao seu alvo com incrível rapidez, atacou imediatamente. O guerreiro mal havia notado sua presença, quando foi atingido por um golpe baixo. Enquanto agonizava no chão, pisoteou as bolas de vidro do cocar. Depenou em seguida a plumagem da tanga e removeu os colares. Deixou o desafeto vestido unicamente por uma cueca de tamanho inadequado para salvá-lo de um flagrante por exposição obscena.  Maria Loura limpou uma mão na outra e seguiu na direção oposta do corso.   

   O guerreiro escapou da ignomínia vestido em uma tanga improvisada, exemplares de um jornal carnavalesco atados ao redor da cintura com um barbante. Partiu apressadamente sob o som de apupos e uma sonora vaia.  O Chapa 11 o encontrou na esquina para transportá-lo até a sua modesta moradia na Ilha do Bispo.   

   Destruiu todos os vestígios da presença de Maria Loura. Defumador Caboclo, vidro de água oxigenada, bibelôs e uma ampola de água de patchuli. Contemplou longamente o último item, uma foto cortada de uma página policial. Maria José Nascimento, vulgo Maria Loura, meretriz, presa por desordem e desacato à autoridade na Rua Tenente Retumba. Com a brasa do cigarro, queimou os olhos e depois a boca que tanto beijara.


  Acordou tarde no dia seguinte, Chapa 11 estava a sua espera. Desclassificaram o bloco devido ao imbróglio. Haviam decidido expulsar Bonzão por ¨falta de moral¨ e dano a reputação do bloco. Morte declarada nos anais do carnaval da Paraíba. 

palmari@gmail.com

quinta-feira, 14 de março de 2013

A santa chorou sangue



Pequena estatueta de Nossa Senhora, vértice do crânio quebrado com toques de maestria e cuidado profissional. Tarefa aprovada pela Arquidiocese para ajudar aos religiosos periciando o fenômeno que se convertera em objeto de romarias, promessas ou oferendas sincronistas. Gotas de sangue brotavam dos seus olhos piedosos em intervalos infrequentes, porém extraordinários. Questões sobre a ação do prelado e acusações de charlatanice ou algo mais diabólico, até um prenúncio do fim do mundo, dividiam a opinião pública. Escrutínio da cavidade exposta não identificou nenhuma evidência, mesmo circunstancial, sugerindo intervenção humana ou malefício. Dúvidas e rumores persistiram, o bairro desfrutava de um raro momento de fama.

Devolvida pela igreja, voltou triunfalmente ao nicho no jardim da casa de um ex-combatente. Feira de milagres competindo com a feira livre e o mercado central. Caminhões, ônibus, cadeiras de rodas e até carrinhos de mão, transportavam diariamente a romeiros, enfermos e deficientes em busca de uma visão divina ou de uma cura milagrosa. 

Farejando as inúmeras oportunidades de negócios, ambulantes, barraqueiros e punguistas se estabeleceram em pontos estratégicos na periferia da multidão. Pipoca, cachorro-quente e refrescos servidos acompanhados de compras de relíquias ditas untadas com lágrimas milagrosas. Testemunhas oculares, pessoas amigas e adolescentes, estavam sempre disponíveis dando credibilidade ao fenômeno.  Éramos uma delas...

Notamos algo brilhando nos olhos da estátua, um dia ao anoitecer. Soltamos o nosso primeiro grito de alerta – a santinha está chorando! 

Preces, gritos de aleluia, vários deficientes tentaram caminhar, outros anunciaram que suas queixas e dores haviam desaparecido instantaneamente. Pessoas aglomeradas entregando cordões de ouro, missais, santinhos e outra parafernália religiosa para expor diante da estatueta.

Choraram pelo mundo afora, desde então, outras santas. Nenhuma delas, ou os fenômenos, foi confirmada como milagrosa. Para nós, o final da história da santa que chorava lágrimas de sangue, aconteceu naquele dia maravilhoso que está bem distante no nosso passado. Descobrimos então o poder imbatível da fé, milagres ocorrem assim.

“A nossa santa padroeira chorou sangue... era Deus e beleza”.