NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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terça-feira, 30 de abril de 2013

Blues da Zona Azul

   Brisa tímida acariciando as palmeiras, pessoas indolentes sentadas em bancos precariamente conservados, retalhos de noites mal dormidas espalhadas pelo chão. Aparente oásis no meio do trânsito tumultuado do centro da cidade.  Grupo de ambulantes, acólitos e suplicantes de políticos dificultavam a circunavegação do logradouro. Bingo! Encontramos uma vaga para estacionar marcada com uma palavra: Idoso. Tomamos o território livre com uma jovialidade incomum aos seus possíveis ocupantes.  

   Oferecendo serviços de lavagem e guarda-carro, um homem acenando com uma flanela aproximou-se. Empreendedor urbano com gestos de mendicância agressiva. Zona Azul, declinamos seus serviços. Partiu mal humorado, murmurando impropérios, algo vulgar que nos atribuía outra preferência sexual. Voz feminina nos admoestou que não estávamos credenciados para estacionar na vaga. Apresentamos nossa carteira de identidade em vão. Prontamente nos informou que necessitávamos de um passe do STTRANS. Caminhamos em direção ao nosso destino e voltamos em meia hora.

   Ao partirmos, dois policiais em motocicletas nos seguiram. Fomos informados, mais uma vez, que não estávamos credenciados à vaga de idoso. Encaminharam-nos ao STTRANS na Casa da Cidadania, para obter a documentação correta. Duas atendentes notaram nossa presença após vários pigarros, sugeriram que fossemos ao bureau do Instituto de Policia Técnica (IPT), visto que o STTRANS não existia no local.  

   O funcionário do IPT mal moveu os olhos da tela do computador, enquanto relacionava uma série de documentos necessários para uma identidade de idoso. Quando pensávamos que havíamos encontrado uma solução para o problema, descobrimos que a referida carteira nos credenciava para lugares de entretenimento e passagem gratuita em transporte urbano. Tudo, menos estacionamento na Zona Azul. Novamente, fomos orientados para nos dirigir-nos ao STTRANS, desta vez na BR230, próximo ao Estádio do Almeidão. Decidimos abandonar nossa busca pelos privilégios da maior idade.

   Frustrado, resolvemos ir ao cinema. Após uma breve inspeção visual pela atendente, meia entrada para o filme Xingu. Conseguimos sem esforço algum, desfrutar os privilégios da maior idade em uma empresa privada enquanto continuamos sem o privilégio de estacionar na vaga de idoso da Zona Azul.

palmari@gmail.com

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O beco sem memória


Completamente restaurada, a antiga fábrica de vinhos. Recém pintada, parede amarela lateral maculada por traços raivosos da discórdia urbana. A Rua da Areia era  uma parada obrigatória nos passeios com nosso pai. Passagens breves recompensadas com goles prolongados do guaraná Dore e presentes de garrafas de Vinho Celeste da Tito Silva. Partiram  conosco em busca da América, as duas últimas garrafas recebidas. Cacos de vidro e o aroma pungente de fruta fermentada na nossa bagagem, última lembrança.

            Reconhecemos o prédio da antiga alfaiataria, destruído por um incêndio. Reformado anos depois, reaberto como um prostíbulo.  Levado à falência devido à queda na demanda por locais oferecendo transações sexuais  e a ascendência de motéis com a parafernália erótica do sexo diferenciado. Mural grafitado na fachada, possivelmente a única concessão à modernidade.

            Chegamos ao Beco dos Milagres, sinistro, misterioso, pervertido, tântrico, o beco da nossa juventude. Passávamos sem ao menos lançar um olhar furtivo em direção às pequenas casas, calçadas altas e chão duro. Muitos pecados e poucas virtudes por aqui viviam, proibido a menores. Entramos com confiança adulta.   Placa com o nome da rua, nosso professor de música. Citações bíblicas nas paredes de umas tantas casas à direita, prenúncio de duas pequenas igrejas evangélicas em ambos lados. Completando a paisagem, um grupo de casinhas modestas pintadas em cores vibrantes. Poucos vestígios de pecados ou pecadores.

Vinhas de maracujá encobriam uma passagem estreita entre um grupo de casas. Cercada de galos e cães, uma mulher desgrenhada nos chamou a atenção.  Filha de uma notória vendedora de bilhetes de loteria, dublê de  proprietária de barzinho. Procurávamos a fonte, explicamos, a Fonte dos Milagres.

 Muro branco anônimo no final da rua, a fonte desaparecera. Lembrada somente por historiadores e estudiosos, a cena do brutal empalamento de Teresa, uma negra, por seu amante franciscano e dois cúmplices, um escravo e um serviçal indígena.  Pecados enclausurados,  perdidos na memória.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A fé e as montanhas da Capadócia

             Entramos em um anfiteatro natural, um vale cercado de formações rochosas bizarras, chamado o Museu ao Ar Livre de Goreme, na Capadócia. Paisagem surpreendentemente estranha, criada pelos caprichos da natureza, há milhões de anos. Erupções vulcânicas haviam depositado na superfície uma espessa camada de lava macia, conhecida como ¨tufa¨. O vento, a chuva e os rios erodiram a tufa ao correr dos tempos, criando vales flanqueados por penhascos escarpados de uma sinuosidade agradável aos olhos e às pernas cansadas.

 Formações apelidadas de ¨chaminés das fadas¨, cones de tufa e cinza vulcânica com seus topos precariamente cobertos por lajes de basalto, possivelmente as criações mais atraentes e espetaculares da região. Rochas de diversos tipos e qualidade completam o cenário, adicionando verdes, azuis e ocres à paisagem árida e desolada, criando ondas bruxuleantes que mudam de cor dependendo do ângulo do sol e da estação do ano.

            Misteriosas cavernas nas escarpas abrigam marcas milenares da presença humana. Cidades subterrâneas com mais de dez andares de profundidade abrigavam comunidades primitivas. Quebraram e modelaram rochas para satisfazer suas inclinações artísticas, necessidades do dia a dia ou para criar instrumentos para a caça e a guerra.

Escondido nos ventres das escarpas, igrejas e mosteiros construídos por cristãos e monges entre o sétimo e o décimo terceiro séculos, oferecem uma crônica visual da arte e da arquitetura religiosa bizantina. Os períodos ou estilos podem variar, mas os lugares de oração e retiro que construíram são testemunhas milenares do poder incontestável da fé, que transformou as entranhas das montanhas da Capadócia em santuários e lugares de oração que nos levaram a uma reflexão profunda sobre a humanidade. Sobrevivemos a séculos de opressão e hoje, com todos os direitos de liberdade de culto e crença nos nossos países, ignoramos a situação oprimente que ameaça a sobrevivência das comunidades cristãs do Oriente Médio e nos países islâmicos intolerantes à diversidade religiosa. Eles não têm mais cavernas para escondê-los.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores