NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Vulgarização do poder


Motivados quase sempre pela busca ou permanência no poder, pragmáticos, tecnocratas, burocratas, oportunistas ou vendedores de ilusões nos governam hoje. Filósofos, altruístas e virtuosos entre eles são notáveis exceções. Interesses pessoais ou partidários subestimam o bem comum, invariavelmente atrofiando o fortalecimento das instituições democráticas que eles juraram defender e preservar.

Os embates da política do poder e sua retórica antagonista, muitas vezes usada sem um traço de civilidade, são vistas como moeda corrente nas relações pessoais, profissionais ou institucionais, quer seja no governo ou no mundo dos negócios.  Eficazes em sua capilaridade, essas práticas contaminam a sociedade e o eleitorado,  entorpecem o debate democrático e permitem a  perpetuidade do poder de agentes políticos, muitas vezes violando conceitos democráticos fundamentais como a separação do poder legislador, o poder executor e o poder julgador.

Dois senadores norte-americanos, Clinton e Kerry, renunciaram seus mandatos antes de assumirem cargos na Administração Obama. Ambos haviam sido eleitos com margens eleitorais confortáveis e tudo indicava que seriam reeleitos. A separação dos poderes, no caso dos Estados Unidos, não permite que um legislador se afaste temporariamente do seu mandato para assumir um cargo no executivo.

Enquanto no Brasil, continuamos o troca-troca de influência e poder entre o legislativo e o executivo, cuja finalidade principal aparenta ser cooptar partidos ou políticos a apoiar a Presidência e o partido no poder. Subvertendo assim a intenção daqueles que elegeram um candidato a legislador para fiscalizar o poder executivo, votar leis relativas ao orçamento e cumprir outros deveres constitucionais.

PEC 199/12 propõe a renúncia de legisladores municipais, estaduais e federais, que quiserem disputar cargos ou aceitarem convites para assumir cargos do Poder Executivo. O projeto permanece dormente em comités do Congresso, refém do ócio parlamentar, da incessante busca do poder por agentes políticos e dos conflitos de interesses e corrupção, que florescem nas ambiguidades da separação dos poderes que prevalecem no Brasil.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira dos Escritores (UBE)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Novidades embora tardias


Festas de lançamento nos remetendo àqueles tempos nos quais eventos, novos edifícios, restaurantes e boutiques eram infrequentes e parcamente anunciados; um privilégio do distante primeiro mundo.

Voltamos todos os anos, sem esperar que a saudade se afastasse.  Novidades eram poucas, mas sempre expressadas como as únicas novidades. Chegamos uma vez e as canções de Roberto Carlos traziam o bálsamo confortante do romance para a gente simples em cadeiras nas calçadas, servidas sem a sonolência e os arabescos poéticos da bossa nova. Música popular, pão de cada dia, sem ser populista. Livre do exuberante verde-amarelíssimo dos sambas de exaltação. Perdido na crença e nos tempos condescendente da lusofonia, o Brasil berço dourado do índio civilizado e abençoado por Deus, já não existia. Detalhes tão pequenos para muitos, mas sempre de nós dois. O amor do novo rei mais próximo, mais palpável. 

Disco voador pousado nas areias da praia, outra novidade. Magistral, elegante, efêmero. Violando o mar,  hotel de ferro e concreto. Poder público liderando a batalha dos humanos contra a natureza. Brasília no Atlântico. Girando em torno do círculo, uma cidade esvanecida pelo novo cartão postal. Enquanto o mar, ora verde cristalino, ora azul turquesa, banhava placidamente as barbatanas do leviatã.

Condicionamento aeróbico entrara na mitologia da cidade. Cooper, o nome do novo deus. Calçadas e ruas marcadas com números e metas a alcançar. Exercício físico e genuíno interesse pelo bem estar coexistiam inconfortavelmente com o narcisismo e hedonismo emergindo na nossa nova sociedade.

Restaurante novo, culinária francesa. Dizendo-se conhecedor profundo da capilaridade urbana, o taxista partiu. Paramos subitamente diante de um casebre. Toc, toc, toc. Conversa sussurrada com uma mulher. O terreiro de candomblé havia mudado. Explicamos que queríamos o restaurante Cordon Bleu. Questionou então porque havíamos usado uma expressão estrangeira, em vez de pedirmos o restaurante novo na Rua Duque de Caxias, a grande novidade do momento. Cordon Bleu ou candomblé significavam a mesma coisa para ele.  Os detalhes eram tão pequenos...     
 
Palmarí de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores
palmari@gmail.com