NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨
Clique no livro para comprar pela Internet

terça-feira, 11 de junho de 2013

A revolução do perdão

            A memória é o maior presente que alguém pode dar a outra pessoa, comentou Padre Leonel, ao concluir a leitura da nossa crônica sobre seu trabalho com as tribos nomádicas do Norte do Quênia. Área devastada por conflitos tribais, desastres naturais e fome. Três décadas haviam passado desde o dia em que sobrevivemos juntos a um acidente automobilístico no deserto de Chalbi; nos reencontrávamos em Bogotá. A lembrança nos remeteu às situações de guerra e miséria que havíamos testemunhado em outros lugares distantes na África e  suas experiências mais recentes no seu pais natal, Colômbia. Formavam uma longa lista...

            É preciso apagar os focos de rancor, ódio e vingança que cada um guarda, para termos um futuro melhor – a premissa do livro do Padre Leonel: La revolución del perdón, como também do seu trabalho na Fundación para la Reconciliación da Colômbia. O perdão no centro do universo humano. Fonte de todas as bondades, túmulo profundo das maldades. Lembrou-nos das palavras sábias do seu amigo Desmond Tutu: ¨Sem perdão, não há futuro.¨

            Perdão e reconciliação, duas palavras permanentes no cotidiano do padre, desde o tempo em que nos conhecemos no Quênia. O perdão, para ele, é uma virtude que serve para quebrar a irreversibilidade do passado. Um processo da catarse, de transformação da memória e de construção de novas narrativas. Perdão não significa esquecer nem isentar os transgressores da lei. O perdão é, portanto, uma condição indispensável para a construção de uma atmosfera propícia à reconciliação sustentável e ao desenvolvimento de um povo.

            A grande lição que aprendemos na Colômbia e com o Padre Leonel é que é impossível ter um povo unido quando decisões são tomadas e soluções impostas  baseadas em rancor, ódio ou vingança pessoal, sem aceitar o perdão como o caminho mais curto para a reconciliação e o desenvolvimento. Esperamos que um dia nossos lideres políticos deixem de usar os ódios comuns como a base das alianças e do oportunismo pessoal que atrofiam o progresso e o desenvolvimento do nosso estado. Por que não tentamos o perdão?


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Alameda da memória


             Fios elétricos entrelaçados, imóveis em péssimo estado de conservação, veículos estacionados ilegalmente, alguns simplesmente descartados. Ambiente pouco propício para uma fotografia de qualidade ou nossa viagem pela alameda da memória. Decadência social, cultural e patrimonial nos cercava. Crônica visual sobre a vida e a morte da comunidade onde passamos parte da nossa adolescência. Sonhos que começaram aqui, transformando-se na realidade profética da nossa vida em lugares distantes
           
            Sobrado verde na esquina da Beaurepaire Rohan e Rua da República, antiga Farmácia Minerva. Vivíamos no primeiro andar durante os anos da Guerra da Coreia. Acordávamos no nosso mundo pacífico, o centro da cidade. Calçadas sempre ocupadas por conhecidos, o dia durava mais de oito horas. Famílias, comerciantes e trabalhadores vivendo ou trabalhando em imóveis de usos múltiplos, sem distinções ou exclusões. Éramos todos vizinhos.

            Voltamos à uma pequena rua, playground doublé de campo de futebol, lugar onde todos brincavam. Casarão da esquina abandonado, parcialmente destruído, hoje ocupado por moradores de rua. Reconhecemos outras casas sobrevivendo precariamente como pequenas oficinas e depósitos. Estranhos nos observavam cautelosamente. Homem com um crachá, “deficiente mental”, se aproximou. Braço em riste, nos mostrou uma velha máquina tipográfica plantada firmemente na calçada de uma pequena gráfica. Abandonada porque o filho do dono amputara um braço enquanto operava a máquina. Algo diabólico, sugeriu.

            Ajudante de tipógrafo, nosso primeiro emprego, castigo por conta de um desempenho escolar medíocre. Aprenderíamos um ofício, caso tais desafios não fossem superados na juventude. Tarefa confiada a um tipógrafo conhecido como “Júlio Morcego”, por conta de sua aparência estranha. Limpávamos e organizávamos tipos em pequenas gavetas, imprimíamos folhetos, recibos de lojas e pules de bicho, tudo sob a mira crítica do nosso mentor. Música mecânica quebrava a monotonia, cheiro de  tinta permeava o pequeno espaço. Longe do rigor das aulas de reforço para o exame de segunda época, dias felizes. Única lembrança que sobrevivera, a máquina na calçada era a nossa máquina. 

Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores