NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O maestro e o monge

            Olhos fixos nas partituras e nos gestos do regente, hino religioso escapando das bocas de jovens africanos. Ensaio do coral da missão católica, nas terras da tribo Éwé de Gana. Serenidade e imensurável satisfação permeando a brancura avermelhada da face do maestro. Movimentos suaves, quase elegantes, os guiavam. Kyrie eleisum viajando pelo céu africano. Falando uma língua estranha, o “yevu”, homem branco, havia aparecido na companhia do bispo. Diziam ser um músico famoso no pais de Pelé. Tenente Lucena, o maestro, vivia em tempo emprestado, o câncer avançando impiedosamente. Vozes africanas na imensidão da savana, distante dos  cânticos do verde das florestas de cana de açúcar do seu Brasil. Estava na África, seu grande e talvez o último dos seus sonhos.  

            Imagem da pequena estante projetando-se no assoalho polido da nossa casa, rangidos da madeira velha acompanhando as notas musicais tocadas precariamente por um jovem clarinetista. Professor acompanhando o progresso do aluno, um jovem clarinetista, seguindo seu desempenho com batidas discretas do dedo indicador no antebraço. Pausa, o estudante parecia cansado. Harmonia, melodia e ritmo. Longa conversa sobre o significados das três palavras. Música é repetição, busca incansável pela perfeição era o mantra do professor.  Repetiria o exercício muitas vezes.

            Conversávamos um dia sobre Esperanto, língua universal criada pelo polonês Lazarus Zamenhof, motivado pelos conflitos étnicos na sua pátria. Como muitas das nossas conversas, a discursão convertera-se rapidamente em uma aula de música ou algo musical. Comentava que o pentagrama e as notas musicais criadas pelo monge Guido d’Arezzo no século IX, era a única forma de comunicação universal que sobrevivera a mudanças e conflitos por mais de um milênio. Músicos se comunicavam mesmo falando idiomas diferentes. O maestro e o monge se entediam, poliglotas da mesma língua.


             O coração é o metrônomo da vida, declarou Villa-Lobos em João Pessoa nos anos cinquenta. Foi no coração, que o Tenente Lucena encontrou uma maneira de ensinar música a surdos-mudos, podiam sentir as vibrações musicais no corpo e o ritmo no coração. Formaram uma banda musical, antecipando-se décadas à criação de um método de aprendizado formal para os deficientes. Guido d’Arezzo e Villa-Lobos haviam mostrado o caminho, o mestre seguiu com seu coração. Morreu ouvindo música religiosa, a música continuou movendo seu mundo.

Palmarí H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (U.B.E.)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Era uma vez no jornal.

             Trocamos nosso sonho de viagens transoceânicas como aprendiz de marinheiro, pela atmosfera de panela de pressão da redação do jornal. Entregando textos, fazendo mandados e servindo cafezinho, havíamos conseguido um emprego de mensageiro no Correio da Paraíba. Começaríamos no mesmo dia com outro jovem, chamava-se Biu Ramos, havia sido contratado como datilógrafo. Éramos de Jaguaribe, fato confortante no meio do turbilhão das vozes de estranhos e o ra-ta-ta-ta-ta das máquinas datilográficas.

            Mensageiro!!!  Alguém chamava, sempre alguém. Levava ou trazia algo da redação para os linotipistas. Máquinas vomitando blocos de texto, calor infernal, mesmerizavam-nos. Pura magia. Tabletes de uma nova Babilônia, gravados em metal quente. Desfrutávamos nossos momentos na sala das linotipos, seduzidos irremediavelmente pela “doce música mecânica” que tanto encantou a Fernando Pessoa.

            Biu Ramos curvado sobre a máquina datilográfica, textos ditados pelo Dr. Falcone, ditados como se ele estivesse falando diante de uma audiência. Pausava momentaneamente, como se degustasse o som de sua voz ou alguma metáfora escondida em uma das suas crônicas. A agilidade do novo colega e a facilidade com a qual ele absorvia as palavras do ilustre cronista eram motivo de admiração, até inveja, entre as tribos que habitavam a redação.

            Seu Expedito, o chefe da redação, gostava de café bem passado, acompanhado por um cigarro, fumando como se fosse seu último trago. Comandava um grupo diverso, às vezes conflitivo, cuja paixão pelos fatos e palavras superava quaisquer desentendimentos. Prisioneiros da noite, tosse rouca e olhos vermelhos, partes da paisagem solitária da redação, libertados pelos pensamento que fluíam noite afora.

            Como se fosse o comandante de um navio,  Dr. Teotônio inspecionava sua criação de popa a proa. Respeitado como empresário, havia criado junto com o intelectual Afonso Pereira, um periódico que diversificara e inovara a imprensa paraibana.

            Voltamos a partilhar dos sonhos e projetos do Dr. Teotônio, quase seis décadas depois, escrevendo crônicas para a página de opinião do jornal que despertou nossa paixão pela palavra escrita. Feliz aniversário Correio da Paraíba!


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (U.B.E.)