NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A agonizante morte da história

            Comemorando a vida e a morte de um herói da república de 1817, placa histórica quase ilegível na esquina de um antigo armazém. Imóveis históricos, documentos de pedra e argamassa, sucumbindo ao descaso contemporâneo. Fedor penetrante do abandono atraindo os abutres do vandalismo. Aqui jaz a memória de Amaro Coutinho, patriota brasileiro morto e esquartejado pelo colonizador português.  Pessoas caminhando distraidamente, ignorando a placa e o aviso: PARE OLHE E ESCUTE. Trilhos de trem, dormentes cobertos pela vegetação escondem os perigos e o desgaste da ferrovia. Apitos distantes de trens infrequentes. 

            Fileiras de prédios antigos. Armazéns em estágios graduais de abandono, uns  tantos  transformados em madeireiras ou depósitos de materiais de construção. Símbolos do império que Amaro Coutinho tentara derrubar, a alfândega e o tesouro provincial, peças importantes do museu ao ar livre da inoperância do poder público republicano.  Entranhas abertas da terra cobertas por lonas enormes escondem a fragilidade, a pobreza e a majestade do edifício amarelo que quebra a silhueta da colina. O Hotel do Seu Marinheiro, o Hotel Globo de quase dois séculos, memória em perigo de extinção.

            Viajamos pelo passado em busca de Franz Post, imaginamos o grande mestre em silêncio contemplativo, pincel na mão, olhos seguindo avidamente os meandros do rio Sanhauá, o sol desaparecendo no horizonte. Levando a memória do rio para a Holanda, registrando para a posteridade paisagens naturais. Olhamos em direção ao  rio, algumas delas ainda privilegiam nossos olhos, outras foram ofuscadas pela fumaça das queimadas, a poluição ribeirinha e a destruição dos manguezais. Os caranguejos que já não existem.

            Trilhas de jet-skis e o Bolero de Ravel, umas tantas canoas a procura de bagres e piabas.  Quando pensarem sobre o passado, não conseguirão lembrar, nossa história estará morta...  filosofou um homem sobre a tragédia se desdobrando no Hotel Globo e no rio Sanhauá: devolver nossa história ao mundo contemporâneo, uma tarefa hercúlea para resgatar o pouco que ainda resta.


Palmari H de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (U.B.E)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sonho americano

           Aroma de comida da rua contrastando com a elegância dos edifícios, o glamour do Radio City Musical Hall ofuscado pela fumaça de assadores de galetos e milho verde. Sete quarteirões de brasileiros, o mundo verde e amarelo celebrando sua independência. Nacionalismo a flor da pele, hóspedes ingratos por um dia. Amanhã voltariam a ser emigrantes, filhos falando Inglês, bonés de basebol enterrados na cabeça, camisas verde e amarelo fabricados na China ou fábricas coreanas em São Paulo. Mulher chorando no meio da massa brasileira. Prisioneiros da sexta avenida, muitos não podiam regressar ao Brasil, viviam na ilegalidade. Pesadelo dentro do sonho dourado.
           
            Fila de bolsas de compra navegando pelo cânion da Quinta Avenida. Tamanhos, formas e cores variadas, os logotipos anunciando a classe social dos compradores.  Liquidações e remarcações estampadas em vitrines, umas com letras e números quase invisíveis, refletindo a envergadura e o ranking da loja. Compradores brasileiros imersos na orgia consumista e na pechincharia  insistente, irrelevante nas grandes lojas da avenida. Vendedores ensaiando pequenas frases em Português, seduzindo turistas brasileiros com marcas famosas a baixo custo. Chineses e brasileiros compram tudo, o mantra da atualidade.
           
            Pequeno salão de beleza no Soho. Paraibana do Bairro dos Bancários, manicure especializada em cortar unhas ao estilo brasileiro. Falando entusiasticamente sobre seu “american dream”. Planejando fazer universidade como todos os emigrantes de classe trabalhadora. Crescente economia de serviços ofuscando qualquer desvio da fonte de renda imediata, poucos alcançam melhorias acadêmicas. Salões de beleza são a vanguarda da invasão cultural brasileira: escovas, depilações, unhas Brazilian style.  Vinte usos da palavra “Brazilian”, todos relacionado a produtos ou tratamentos de beleza. Ana Maria Braga gravou um bloco do seu show no salão, Cinderelas por alguns minutos, confirmação independente de sucesso do nosso povo e cultura contra a cultura pop do leviatã americano.
           If I can make it there, I’m gonna make it anywhere. New York, New York...


Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores (UBE)