NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

João de São João


            Pequeno prédio da sede da filarmônica.  Fachada pintada em amarelo ocre, decorada por  uma enorme lira negra com o nome do seu fundador, Honório Maciel. Sons difusos de vários instrumentos musicais escapando pelas janelas, anunciavam o começo de uma aula ou de um ensaio. Estrutura pouco pretenciosa, o imóvel passaria despercebido não fosse pela monotonia arquitetônica das casas ao longo da avenida principal. Igreja matriz imponente e exposta a todos os olhos da cidade. Pessoas nas portas e janelas  observando o vai-e-vem de um pequeno grupo de visitantes. Diferentes classes sociais morando lado-a-lado na proximidade do epicentro da cultura municipal, solo fértil para um demógrafo do IBGE.

            A carência de meios de sustentação econômica e o cotidiano mormacento do Seridó do Rio Grande do Norte ofereciam poucas oportunidades de progresso individual ou coletivo. Integridade da trilha da memória histórica preservada pelo respeito e zelo às tradições culturais. Lembravam ou sabiam algo sobre os músicos até mesmo os mais antigos, a orquestra havia marcado presença em todos os momentos importantes da história da cidade, por quase um século. 

            Mural com os nomes dos beneméritos da agrupação musical, fundadores, maestros e músicos. Um deles, João Emídio, identificado como o responsável pela construção da sede em 1934. Estávamos diante da gênese do legado do homem que conhecíamos como Pai, Tenente Lucena para o resto do mundo. Descobrira sua vocação e compromisso com a universalidade da música primeiro como corneteiro, depois trombonista. Diziam na cidade que ele subira a torre da igreja para observar e alertar a população com seu instrumento, sobre o avanço de um bando de cangaceiros. Visitamos a sua casa, imaginamos a pequena sala mobiliada minimamente: estante de madeira, partituras musicais e seu instrumento, na cidade de São João do Sabugí.

            Regressou para a Paraíba, a sua terra natal, em 1933, tornando-se um soldado voluntário na banda militar do Exército. Descobriu ao longo das marchas e dobrados, que seu verdadeiro talento era converter a música em um instrumento para humanizar a vida de crianças abandonadas e pessoas excluídas. O Esperanto musical criado pelo monge Guido d’Arezzo promovendo a convivência pacifica entre pessoas e culturas diversas. Encontrava a paz na beleza das vozes de um coral infantil, na pujança poeirenta de um coco de roda, ou na timidez singela de uma flauta de pífano. Ouvia música quando o seu metrônomo biológico parou...
           

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

sábado, 22 de novembro de 2014

Imprensa e liberdade

                  No começo do milênio, lideres mundiais comprometeram-se a melhorar o estado de saúde e o bem estar da humanidade através de oito objetivos específicos. Propagados pela ONU em um documento conhecido como Objetivos do Milênio (ODM),  as metas seriam cumpridas até o final de 2015.  Evidentemente na  ânsia de obter consenso entre sistemas de governo e culturas diferentes, metas sobre direitos humanos e liberdade de opinião e expressão, não foram incluídos no documento final. Esses direitos são considerados fundamentais para a democracia, transparência e o Estado de Direito.

            Países ricos e instituições multilaterais contribuíram para o sucesso de programas e iniciativas nacionais dos ODMs, resultando na saída de mais de 500 milhões de pessoas da pobreza extrema. Independente dos resultados positivos, os objetivos estão sendo ultrapassados pela explosão da tecnologia da comunicação e por não refletirem totalmente as novas aspirações dos povos. Pesquisa envolvendo meio milhão de pessoas em todo o mundo no ano de 2013, por exemplo, identificou a necessidade da ONU promover governança democrática e responsável como uma prioridade, superada apenas pela segurança alimentar e melhorias na situação da saúde.

            Relatório de um painel de alto-nível nomeado pelo Secretário Geral da ONU recomendou em Maio de 2013, uma agenda pós-ODM: erradicação da pobreza e transformação de economias através do desenvolvimento sustentável e a promoção da boa governança. Enfatizando também a liberdade de expressão, associação voluntária, protesto pacífico, garantia de acesso livre à informação e dados sobre as políticas, investimentos, operações e contas dos governos.

            A falsa opção entre desenvolvimento econômico e a liberdade de imprensa propagada por governos ou elementos antidemocráticos, principalmente aqueles que temem ou querem limitar o escrutínio do jornalismo investigativo, foi desmistificada por um dos pontos chaves do relatório. Reconhecendo assim a importância da imprensa livre como um instrumento crucial no sucesso dos objetivos propostos pós-2015.

            Quando olhamos o panorama atual, nos confrontam as graves ameaças à liberdade de imprensa em todo o mundo. Jornalistas, blogueiros e outros profissionais da mídia enfrentam obstáculos sistemáticos para relatar a verdade e abusos, seja de direitos humanos ou corrupção, incluindo censura, ações de intimidação pessoal e judicial, até mesmo assassinato. A liberdade de expressão e a liberdade de imprensa devem ser consideradas e defendidas como direitos fundamentais e requisitos primordiais para o desenvolvimento dos povos e a sustentabilidade da democracia.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Adeus irmão

              Covardes morrem várias vezes antes da sua morte, o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez. Frase Shakespeariana esboçando a grandeza de uma pessoa na vida e na morte. Descansando na paz eterna diante de nós, nosso irmão Popó, um homem corajoso. Reunidos na tristeza pontiaguda do semicírculo da despedida. Olhos fixados no corpo inerte descansando no aconchego de um colchão de flores de fragrância tímida. Acalentado pelo som do choro suprimido por lenços molhados de sofrimento e ternura. Seguimos seu perfil pálido, olhos fechados, curva do nariz nos remeteu a José Eduardo, nosso avô materno. Sorriso espremido no canto da boca, visão dos momentos felizes das nossas vidas.            

            Éramos crianças quando conhecemos nossos novos heróis, juntaram-se conosco nos anos cinquenta. Castilho, Píndaro e Pinheiro, Jair, Edson, Bigode, Telê, Orlando, Carlyle, Didi e Quincas, os homens dos dias de glória da bandeira tricolor drapeada sobre a parte inferior do ataúde. Sonhávamos com uma carreira futebolística nos gramados distantes. Filme argentino sobre dois jogadores e irmãos uruguaios, os Carrascos, criou o homônimo brasileiro da dupla: os Irmãos Lucena. Popó preferia os chutes folha seca de Didi;  eu, a dureza  dos carrinhos de Bigode. Partimos do futebol, o voleibol e o mundo estavam a nossa espera.

            Posse na Câmara Municipal, Popó o parlamentar. Figura altiva, enfeitando a mesa com sua elegância, convicções expressadas em discursos precisos na sua espontaneidade. Logo no primeiro mandato,  mostrou-se adepto às regras da casa transformando-se em um profundo conhecedor das idiossincrasias e procedimentos legislativos. Convivendo com companheiros de bancada e da oposição, limando arestas partidárias, servindo aos seus constituintes. Ira pessoal ou revanchismo não eram parte do seu repertório politico. Um verdadeiro democrata.

            Vieram as tribulações, injustiças e constantes problemas de saúde. Vivendo, lutando, ganhando ou perdendo, nunca morrendo. Enfrentava o melhor ou o pior da vida com o sorriso de um atleta no momento de um ponto, um saque  bem dirigido.  Sabia competir, um atleta que sempre acreditou no fair-play. Adversidades apareciam, muitas vezes de uma intensidade quase insuportável, ele buscava forças no casulo que abrigava sua família. Um fortaleza frágil, só na aparência. Foi assim até o fim, e assim será.


Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Globalização do medo

            Globalizado pela exaltação midiática, Ebola converteu-se no pôster de uma campanha de prevenção: informações arrepiantes e lendas urbanas transformando o preconceito em medo e o medo em preconceito. Ambulatórios e hospitais recusando atender pessoas com aparência ou vestimenta africana, demanda de quarentena para todas as pessoas que transitaram em áreas endêmicas, passageiros recusando-se a embarcar em aeronaves com africanos ou procedentes da África. Paradoxalmente, os sempre-disponíveis demagogos da miséria e celebridades exaltando organizações humanitárias e competindo na captação de donativos, muitos sem observar critérios mínimos do uso de recursos financeiros e materiais de uma maneira eficiente e sustentável. Desventurados da terra, os Africanos são sempre um bom veículo para expiar sentimentos de culpa nutridos pela tendência ao assistencialismo da tradição judaico-cristã, a vergonhosa trajetória do trafico escravagista e séculos de colonialismo europeu.  

            Críticos acusando pessoas de comportamento histérico, externando reações desproporcionais aos riscos comprovados cientificamente, embora considerados verdadeiros. Medo não é provocado singularmente pelo fator risco, a alienação das pessoas dimensiona e nutre sentimentos de perigo iminente. Apesar do progresso tecnológico, vivemos hoje em uma sociedade segmentada. Pessoas separadas pelo aumento da distancia entre classes sociais, desconfiadas das lideranças, sejam elas políticas, empresariais ou científicas. Elas não dão crédito aos ocupantes de posições de autoridade ou confiam em suas intenções. Nas últimas décadas, testemunhamos um aumento pernicioso na distância entre as classes sociais, tendência manifestada pelas poucas possibilidades de uniões, interações ou associações de níveis ou padrões de vida dissimilares.

            Ebola é a encarnação biológica do medo e suspeição atribuídas ao fenômeno da globalização, força misteriosa, crescendo incontrolavelmente em lugares distantes, capaz de invadir as ilhas de isolamento em que vivemos. Medo existencial diferente daquele que sentimos na flor da pele. Fronteiras porosas e autoridades nacionais parecendo incompetentes quando nossa segurança é comprometida por uma ameaça que mal entendemos. Ebola é um adversário traiçoeiro que invade as fraquezas do nosso organismo, pior ainda, ele floresce espalhando terror pelas falhas e fissuras do nosso tecido cultural.


Palmarí H. de Lucena e membro da União Brasileira de Escritores

domingo, 26 de outubro de 2014

Em louvor à solidariedade

             Concluído o exame físico e a conversa sobre os testes de laboratório, o assunto mudava para nosso interesse comum: o problema da fome e da miséria. Ritual de médico e paciente, transformando-se em um momento de solidariedade humana. Trabalhávamos na África coordenando um programa de ajuda humanitária da Igreja Católica. Roger, nosso médico, fechava seu consultório na 5a Avenida de New York City, passando seu mês de férias voluntariando como infectologista na Tanzânia e países limítrofes: tratava pacientes aidéticos, parentes e amigos arrecadavam doações. Próxima consulta, mesma época no ano seguinte.

            Sentimos febre e dor de cabeça durante uma parada em Johanesburgo.  Quando chegamos em Moçambique, a seriedade da doença tornou-se evidente, fomos trasladados para um hospital em Zimbabué devido à carência médica. Diagnóstico preliminar: malária cerebral com possíveis complicações neurológicas. Acordamos precariamente depois de sono que parecia haver durado muitos dias. Mão cheirando a detergente hospitalar enxugando o suor do meu rosto, sensação reconfortante. Próximo à cama, um religioso sussurrava uma prece, extrema unção. Pessoas de bata branca em voz baixa, a única palavra que ouvimos: febre tifoide. Sobrevivemos.

            Magro, debilitado, passadas inseguras. Encontramos nosso salvador pela primeira vez. Jovem médico australiano voluntário no hospital questionara o diagnóstico inicial com veemência, mesmo sem condições de realizar o teste de Reação de Widal. Elegeram a nova opção de tratamento baseada na sua experiência. Após a alta, descobrimos que estávamos entre os quase 33 milhões de casos de febre tifoide e fora dos 216.000 óbitos anuais em áreas endêmicas.

            A mídia norte-americana confirmou que Craig Spencer, médico voluntário da ONG Médicos Sem Fronteiras, atestou positivo para Ebola. Internado em um hospital de emergência da cidade de New York, acionara o serviço médico após sentir sintomas da doença. Chegara da África Ocidental recentemente, onde trabalhava numa região endêmica de Guiné.

            O espectro de uma calamidade de grandes proporções paira sobre todos nós, todos os povos e nações. Precisamos de mais Rogers e Craigs, médicos sem fronteiras que acreditam na humanidade, em situações onde a mitigação ou mesmo a cura de uma enfermidade aparenta ser impossível. Surgem voluntariamente sem bandeiras, ideologias ou promessas de compensação. Verdadeiros heróis movidos pelo altruísmo e o comprometimento da vocação.

Palmari H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores