NEM AQUI, NEM ALI, NEM ACOLÁ¨

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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Adiós Carlos Villaró

             Inquestionavelmente Casapueblo é uma das grandes atrações turísticas de Punta del Este e um dos mais belos cartões postais do mundo. Museu, ateliê e também a moradia do artista uruguaio CarlosVillaró, seu criador. Conhecido por sua pintura abstrata, Villaró se envolveu com escultura, arquitetura, cinema, literatura e música. Intelectuais como Jorge Amado  e  Vinicious de Moraes, o motivavam a publicar os livros: La casa del Negro, Bahia, Candango e Mediomundo. Colaborou com Albert Schweitzer no leprosário de Lambaréné,  na África.
           
            Com suas abóbadas brancas de cumeeiras em ponta que emergem de uma escarpada ladeira, a Casapueblo  evoca a arquitetura de Antônio Gaudí e a influência de Pablo Picasso e Salvador Dali, que o artista conhecera na sua juventude. A casa é decorada com desenhos ousados em cores vibrantes trazidas da África e a influencia marcante dos rituais do candomblé uruguaio. Ninguém consegue passar indiferente pelo local, todos acabam emitindo uma opinião própria sobre qual escola de arquitetura lembra a edificação. Branca, sem nenhuma linha reta, essa enorme construção se expande sobre as rochas até a beira-mar. Frequentador assíduo, Vinicius de Moraes, amigo do artista, inspirou-se para escrever a letra da canção A Casa: “[...] Era uma casa muito engraçada. Não tinha teto, não tinha nada [...]“. 

            Na Casapueblo tudo é diferente. Os andares são listados em números negativos, o visitante desce da recepção para seu quarto. Caminhando por um labirinto encravando na rocha, ora as paredes são de alvenaria ora de pedra. Os corredores, inspiram curiosidade em explorar todos os cantinhos e os mais minuciosos detalhes. Varandas voltadas para o mar, uma vista privilegiada de Punta Ballena. Permanecemos no terraço desfrutando o mar e uma sangria de vinho branco até o anoitecer.
           
            O entardecer é a melhor hora para estar na Casapueblo. Visitantes são convidados a participar da Cerimônia do Sol, uma espécie de evento ecumênico, para ouvir a narração de um poema gravada por Villaró. Companheiro de anos, o sol é o astro com o qual o artista se encontrava, não importava onde estivesse em suas viagens. O silêncio predomina, mais alto do que o assovio do vento e o ruído monótono das ondas. Gaivotas e andorinhas sobrevoam o terraço no mesmo instante que o sol desaparece detrás do horizonte.
           
            Carlos Villaró faleceu na Casapueblo, partiu em direção ao sol que tanto amava.


Palmari H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores

What's your name?

    Lyndonjohnson, o nome do feirante nos surpreendeu. Silva, seu sobrenome, o único sinal de brasilidade. Soubemos semanas depois que ele havia abandonado o trabalho. Sorriso matreiro e olhos sonolentos, nosso interlocutor se identificou como Eltonjohn,  uma homenagem ao grande músico. Thyaggos, Stephanys, Thyffanys,  Maicosuel, Jhennifer,  Lorrainne e outros nomes cheios de consoantes, são hoje considerados tão brasileiros como João e Maria. E se identidade fosse a salvação, como argumentava o influente pensador Franz Fanon, estaríamos perdidos para sempre... Bem vindo ao novo Brasil de muitos Juniores e poucos Sêniores.
        
    Qualquer usuário do Facebook ou outra mídia social pode identificar nomes estranhos, diferentes ou mesmo incompreensíveis entre seus AMIGOS. Consultórios, filas de banco, cartórios ou repartições públicas oferecem uma enorme variedade de nomes, muitas vezes pronunciados de uma maneira tão bizarra como sua construção. Abundância de futebolistas brasileiros com prenomes terminando em “son” ou “sen”, que significam “filho de“ em línguas escandinavas, nos permitiriam escalar virtualmente uma seleção sueca ou dinamarquesa.
       
     Novos nomes brasileiros têm sido descobertos pela imprensa internacional. Recentemente,  o New York Times publicou uma matéria citando o nome de um jogador do Corinthians, Petroswickonicovick Wanderchkerof da Silva Santos, um garoto prodígio de 12 anos de idade que promete ser uma das estrelas da equipe.  Imagina o “baita” Neto, Galvão Bueno ou membros da Gavião da Fiel pronunciando o nome do craque durante uma partida acirrada.
            
      Emissora de televisão encontrou próximo a São Paulo uma família de sete crianças, todas registradas com variantes do nome Elvis: Elvis, Elvisnei, Elvismara, Elvislei, Elvicentina, Elvislaine e Elvislene. Faltou somente um chamado de Elvispelvis. Pessoas simples homenageando o Rei do Rock com ternura e doçura, para sempre. E ainda dizem por aí que Elvis morreu...
          
  Vários estudiosos argumentam que a prática de usar nomes inventados ou que soam como sendo estrangeiros, reflete a tendência brasileira de colocar países ricos e coisas importadas na mais alta estima. Importado é sinônimo de qualidade. Globalização surge como outra possível explicação para a difusão do fenômeno. Estamos nos aproximando de um Brasil onde nomes como Gabriel, Júlia, Carolina, Carmem ou Roberto continuam se fazendo presentes nas novelas ou por famílias preocupadas em manter a genealogia privilegiada dos seus ancestrais.


   Palmari H de Lucena é membro de União Brasileira de Escritores

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Rojões antidemocráticos


            Primeiro aniversário do assassinato do adolescente boliviano Kevin Espada,  morto por um sinalizador disparado por um membro da torcida do Corinthians. Encobertos pela impunidade e a conivência de afins, protagonistas continuam perpetrando atos de violência contra torcedores rivais, centros de treinamento ou intimidando árbitros e jogadores até do seu próprio clube. Camuflados nestas atitudes,  preconceitos caracterizados pela intolerância racial e homofobia.

            Rojão lançado por manifestante no Rio de Janeiro fez uma nova vítima: um repórter-cinematográfico cobrindo o protesto. Tambores rufando, o poder público anunciou propostas emergenciais para coibir manifestações esporádicas, incidentes de violência e atos ignóbeis de vandalismo. Ausente do debate: o artefato usado ilegalmente para perpetrar o crime à revelia do Regulamento de Lei R.105 do Exército Brasileiro, diante dos narizes dos organismos de segurança pública.

            Apresentados em reação à  tragédia da Boate Kiss e à morte do torcedor boliviano, circulam no Congresso dois projetos de lei com proibições draconianas sobre a fabricação e uso de fogos de artifício. Assembleias legislativas e câmaras municipais aprovaram ou estão considerando legislação proibindo a utilização de sinalizadores, fogos de artifícios, artefatos pirotécnicos ou produtos similares, nos estádios de futebol, casas noturnas, sem referências à manifestações. Os rojões continuam sendo disparados impunemente, muitas vezes com graves consequências.

            Planejamento estratégico, táticas cidadãs, prevenção e resolução pacífica de conflitos são fundamentais na manutenção da ordem pública. Devemos fortalecer a segurança pública removendo das mãos das turbas violentas os fogos de artificio que possam ser usados como armas letais nas ruas, lugares de entretenimento e nos estádios de futebol. A democracia não pode ser transformada em uma tragédia, nem a sociedade civil em um coro grego entre atos de violência e intolerância antidemocráticos.

Palmarí H. de Lucena é membro da União Brasileira de Escritores
                   
            

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Rent-a-manifestante


            Aluguel de manifestantes ou militantes é uma prática tão brasileira como o futebol, samba ou cachaça. É praticamente impossível realizar eleições, carreatas, passeatas, manifestações ou inaugurações de obras pública sem a presenças de grupos de

pessoas recrutadas para promover os interesses dos seus patrocinadores, sejam eles agentes públicos ou autônomos. A prática é um elemento importante, embora ilegal, do arsenal propagandístico de políticos brasileiros.

            Rojão lançado por um manifestante no Rio de Janeiro causando a morte do cinegrafista Santiago Andrade expôs dramaticamente a complexidade e o risco de cobrir protestos populares.  Denúncias de pagamentos a manifestantes por partidos políticos  provocaram uma verdadeira caça às bruxas, confundindo e politizando a elucidação dos fatos e a elaboração de uma estratégia de proteção dos profissionais da comunicação. Ataques contra jornalistas e o pagamento de manifestantes não são fatos novos no ciclo de manifestações públicas ocorrendo no Brasil.

            Durante as manifestações da Copa das Confederações balas de borrachas foram usadas indiscriminadamente por forças de segurança contra jornalistas, sem observar as regras de uso proporcional da força do Código de Conduta da ONU. Sofreram ferimentos sérios, dois profissionais, um deles com perda unilateral da visão. No Dia Nacional da Luta em julho de 2013, jornalistas flagraram pessoas comuns recebendo pagamento para participar do evento. Extensiva cobertura na mídia e protestos foram recebidos com apatia pela classe politica sem nenhuma providência tomada até a tragédia do Rio de Janeiro. Falta de planejamento para a segurança pública convertendo-se mais uma vez em uma situação emergencial.

            Estamos em um clima de frisson político e hipérbole midiática. Projetos de lei propostos em regime de emergência, sem a participação da sociedade civil, refletindo quase que exclusivamente a visão idiossincrática da elite política. Apática, insegura e intimidada, a sociedade civil testemunha silenciosa a diminuição da sua influência na segurança pública e na participação cidadã, enquanto o estado verticaliza mais e mais as relações entre o poder público e o povo.


Palmari H. de Lucena é membro de União Brasileira de Escritores